Caio Túlio Costa/ Blog

15:12 - 22/04/2014 | NOVOS TEMPOS

Um modelo de negócio para o jornalismo digital

Como os jornais devem abraçar a tecnologia, as redes sociais e os serviços de valor adicionado

Por Caio Túlio Costa

Pesquisa realizada na Columbia University Graduate School of Journalism, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e originalmente publicada na edição brasileira da Columbia Journalism Review, a Revista de Jornalismo ESPM nº 9 (abril, maio e junho de 2014), páginas 51 a 115.

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Resumo:

Esta pesquisa apresenta uma estratégia possível para as empresas jornalísticas formatarem um modelo de negócio rentável na era digital. A partir da constatação de uma disrupção nesta indústria, sugere uma modelagem capaz de garantir produção jornalística de qualidade, independência e vigilância crítica dos poderes. Para tanto, descreve a cadeia de valor do negócio tradicional da imprensa e reelabora-a conforme a realidade da comunicação no negócio digital.
Diagnostica o problema geracional que atrapalha o desenvolvimento de produtos na plataforma digital (nativos analógicos versus nativos digitais). Situa as empresas no ambiente disruptivo do jornalismo pós-industrial – conforme conceito desenvolvido pelo Tow Center (Columbia University). Alinha os problemas que as empresas jornalísticas enfrentam com gigantes como Facebook e Google, além de sugerir como lidar com eles. Detalha os desafios na questão dos investimentos em tecnologia. Desenha como as empresas devem abraçar as redes sociais e explica como estão acontecendo as mudanças na produção de conteúdos para adequá-los à nova realidade digital. Com exemplos e dados de mercado, o estudo sugere a formulação estratégica do modelo de negócio, detalha como é possível funcionar a publicidade neste novo cenário (dominado por gigantes e o restante pulverizado entre várias empresas carentes de uma larga rede de publicidade composta de publicações de qualidade), explica de que forma os paywalls (cobrança de assinatura dos conteúdos) fazem parte da solução e injeta um terceiro elemento fundamental na estratégia: a produção de serviços de valor adicionado – esta última, uma expressão emprestada da indústria de telecomunicações – num movimento que transforma a tradicional empresa de informação em um empresa de serviços.

Leia na íntegra conforme publicação em conjunto com a Revista de Jornalismo ESPM pelo Observatório da Imprensa:

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11:28 - 19/03/2014 | NO JORNAL DA ANJ

Empresas jornalísticas devem recomeçar do zero

ENTREVISTA PUBLICADA NO JORNAL DA ANJ, FEV/2014, PÁGINA 4.

Pesquisa “A Business Model for Digital Journalism”, financiada pela FAPESP, será publicada na íntegra na edição de abril da Revista de Jornalismo da ESPM e depois estará disponível em seu site

Carlos Müller
De Brasília

De incendiário a bombeiro. Caio Túlio Costa, como outros talentos intelectuais brasileiros, entre os quais Mario Sergio Conti e Demétrio Magnoli, ao tempo de estudante militou na corrente trotskista Libelú – forma a que havia sido reduzida a combativa “Liberdade de Luta”. O circo fumegou, mas não pegou fogo. E Caio Túlio foi cuidar da vida. Passou pelo cultural Lia Livros e fez carreira na Folha de S.Paulo. Deu aula de Ética, participou de projetos inovadores na internet e chegou a dirigir o Comitê de Estratégias Digitais da ANJ, de onde partiu para uma temporada na famosa Columbia Journalism School, na qual desenvolveu o que chama de “um modelo viável para as empresas jornalísticas no meio digital”. É sobre essa experiência que ele fala na entrevista a segui.

Você tem uma rica trajetória profissional como jornalista e teve uma participação importante em projetos inovadores como o UOL e os portais e serviços do iG, iBest e BrTurbo. Como você resume as transformações da indústria jornalística nesse período?

As transformações são notáveis, disruptivas, revolucionárias. O meio digital veio virar de ponta-cabeça o negócio do jornalismo, trouxe uma nova cadeia de valor. Nela, o jornalismo se tornou algo pós-industrial, com outras medidas e outros feitios. O compartilhamento, seja de conteúdo seja de receitas, passou a dar as cartas. A velha indústria ainda não entendeu isso completamente.

Você acaba de voltar dos Estados Unidos, onde realizou uma pesquisa junto à Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia. Poderia resumir seu estudo, que será publicado em breve (a seguir detalharemos alguns aspectos)?

É um trabalho que tenta apresentar uma estratégia possível para as empresas jornalísticas formatarem um modelo de negócio rentável na era digital. A partir da constatação de uma disrupção nesta indústria, sugere uma modelagem capaz de garantir produção jornalística de qualidade, independência e vigilância crítica dos poderes. Para tanto, descreve a cadeia de valor do negócio tradicional da imprensa e reelabora-a conforme a realidade da comunicação no negócio digital.

Além disso, diagnostica o problema geracional que atrapalha o desenvolvimento de produtos na plataforma digital (nativos analógicos versus nativos digitais). Situa as empresas no ambiente disruptivo do jornalismo pós-industrial e alinha os problemas que as empresas jornalísticas enfrentam com gigantes como Facebook e Google. Detalha também os desafios na questão dos investimentos em tecnologia. Desenha como as empresas devem abraçar as redes sociais e explica como estão acontecendo as mudanças na produção de conteúdos para adequá-los à nova realidade digital. Com exemplos e dados de mercado, o estudo sugere a formulação estratégica do modelo de negócio, detalha como é possível funcionar a publicidade neste novo cenário, explica de que forma os paywalls (cobrança de assinatura dos conteúdos) fazem parte da solução e injeta um terceiro elemento fundamental na estratégia: a produção de serviços de valor adicionado, num movimento que transforma a tradicional empresa de informação em um empresa de serviços.

Como fazer a transição da cadeia de valor clássica para uma que corresponda à era digital?

A empresa precisa recomeçar do zero – mesmo na produção de conteúdo. O digital é outra coisa, com outras leis e com outra forma de consumo. E a empresa não dever temer ter de matar a sua própria empresa-mãe para se dar bem no meio digital. Caso contrário, outros a matarão. Neste caso é melhor que você mesmo faça este serviço de morte e renascimento.

Em seu trabalho, você defende que os jornais adotem o que considera algumas soluções. A primeira delas é o Paywall. Por que e como?

Eu não indico apenas a solução paywall, ou seja, uma simples barreira de pagamento. Indico, sim, a solução do paywall poroso, ou flexível, pela qual o jornal não perde em audiência (importante para todas as modalidades de publicidade online) e ao mesmo tempo conquista assinantes. Não é uma solução simples e exige manejo atento e mudanças constantes. É algo mais sofisticado. Está dando certo no New York Times, por exemplo.

E quanto à solução de publicidade?

É um problema para qualquer publicação, porque exige escala. Jornais, revistas, sites e publicações jornalísticas online só terão futuro com a publicidade (e mesmo assim como parte da receita) se se unirem numa imensa rede de publicidade própria. É a única maneira de ganhar escala e de concorrer (ou ter poder de negociação) com gigantes como Google e Facebook.

E a de serviços de valor adicionado?

Esta é a salvação da indústria caso saiba migrar do atual modelo de empresa de informação para empresa de serviços. São infinitas as possibilidades de composição de receita com produtos relacionados direta ou indiretamente com o meio jornalístico. O meu paper contém vários exemplos.

Você já havia escrito sobre o mesmo tema para a revista da ESPM, em 2012. Qual a (s) principal (ais) diferenças entre os dois trabalhos?

Naquele texto eu tratei mais da questão geracional, coisa que está presente também neste produzido em Columbia. Mas o trabalho de Columbia é muitíssimo mais completo na tarefa de identificar os problemas e sugerir soluções.

Você foi diretor do Comitê de Estratégias Digitais da ANJ antes de viajar para os EUA. Pode resumir o trabalho que vinha sendo feito e como as questões que eram tratadas ali são abordadas nos EUA?

Durante o tempo em que estive à frente do Comitê, tivemos ao menos três grandes frentes de ação. A primeira é exatamente a da criação de uma rede de publicidade dos jornais, uma das iniciativas fundamentais apontadas no estudo para a viabilidade das publicações no meio digital. O Comitê tem impulsionado esta ideia junto aos associados e tem trazido soluções possíveis, tanto do ponto de vista tecnológico quanto do ponto de vista comercial. Outra frente foi a das conversas com o Google na esteira da não participação dos jornais brasileiros no Google News. A terceira frente foi a de conversações com a Apple no sentido no sentido de diminuir a comissão paga pelos jornais nas vendas da Apple Store e ter acesso aos dados dos clientes via Apple. Nos Estados Unidos estas mesmas questões são enfrentadas pelos jornais, mas eles estão muito aquém da ANJ no quesito união para negociar melhor com os gigantes da Internet. No quesito rede de publicidade de jornais, os americanos tiveram uma má experiência com a Quadrant One, fundada em 2008 e desativada no ano passado. Não deu certo. O insucesso não significa que a ideia deva ser abandonada. Ao contrário, a união dos jornais, revistas e publicações digitais no sentido de criar uma rede de publicidade própria, fortemente alavancada por investimentos em tecnologia, é talvez a melhor opção para concorrer com as facilidades do Google e do Facebook – ou ser um parceiro esperto deles. A Quadrant One unia a The New York Times Company, a Tribune Company (que reúne vários jornais, entre os quais o Los Angeles Times e o Chicago Tribune, e 23 emissoras de TV), a Hearst Newspapers (que detém 15 diários, entre eles o Houston Chronicle e o San Francisco Chronicle) e ainda a Gannett (dona de 82 diários, o USA Today entre eles). Cada uma destas quatro empresas entrou na aventura investindo 1,9 bilhão de dólares. Ou seja, não faltou investimento. Mas a coisa desandou. Talvez a razão do insucesso tenha sido a soma do investimento (que se mostrou pequeno), baixa paciência e mínima reflexão estratégica. Conforme foi noticiado no dia do fechamento da rede, os parceiros do consórcio estavam brigando inclusive por causa do investimento que seria necessário daquele momento em diante.

Qual a situação da indústria jornalística norte-americana atualmente?

Aquilo que a gente chama de indústria jornalística tradicional não vai muito bem. Os últimos números aos quais tive acesso, do primeiro semestre do ano passado, mostravam que o Google sozinho faturava mais publicidade do que todos os jornais americanos juntos e todas as revistas americanas. Os jornais estão sofrendo com a queda de assinaturas e a queda da venda avulsa. Falo, obviamente da imprensa de qualidade, não estou falando nem de jornais gratuitos que também sofreram muito, em especial na Europa. Mas a maioria começa a adotar os paywalls no estilo do New York Times. Ken Doctor, um dos maiores especialistas sobre a mídia digital, criador da expressão “newsonomics”, acha que o paywall é uma das razões para se ficar otimista. Ele diz que os paywalls provaram que os leitores vão pagar para ter acesso digital. Ele também dá o número: acesso digital gratuito agora está restrito de alguma forma em mais de 500 diários em todo o mundo.

Voltando ao Brasil, Pensando agora nos jornais de menor porte. Suas respostas valem para eles também? Em que medida?

Valem e valem muito. Em especial na questão da rede e na questão dos serviços de valor adicionado para as comunidades locais. Mas será preciso investir em tecnologia.

Centros acadêmicos como a Graduate School of Journalism, de Columbia estão refletindo e pesquisando sobre o assunto? De que maneira?

Há vários centros importantes, como o de Columbia – que produziu o mais importante relatório até agora sobre o jornalismo na era digital, aquele intitulado “Post-Industrial Journalism – Adapting to the present” e cuja tradução foi publicado pela Revista de Jornalismo da ESPM. Mas centros como o Pew Research Center, o Knight Center for Journalism in the Americas e o Nieman Journalism Lab tem tido produções fantásticas sobre o assunto.

Você é professor de “Mídia, Informação e Comunicação na Era Digital” no MBA em Jornalismo e Mídia na Era Digital  da ESPM-SP. Como essas questões são tratadas no meio acadêmico e profissional brasileiro?

Acho que há um vácuo no Brasil nesta área. Na academia, a preocupação tem se dado em relação às questões de conteúdo, de redes evidentemente, mas muito pouco em relação à modelagem do negócio da comunicação. Há exceções, é claro, como os trabalhos da professora Elizabeth Saad Corrêa. Na Imprensa, a coluna de Nelson de Sá, na Folha, e os artigos de Luciano Martins Costa, na internet, costumam abordar estes assuntos.

Você é autor de vários livros, entre os quais “Ética, jornalismo e nova mídia – uma moral provisória”. As transformações pelas quais está passando a indústria jornalística têm uma dimensão ética? Se há, sob que aspectos?

Sim, sem dúvida que a dimensão ética está presente em toda a sua plenitude. Principalmente num momento em que o jornalista passa a concorrer com pessoas que não são jornalistas, mas, mesmo assim estão produzindo informação e esta informação concorre com aquela que é tratada tecnicamente. A questão ética, fundamental no jornalismo, se espalha hoje para toda a humanidade que tem às mãos este poderoso meio de comunicação que é a internet.

Quando será publicada a íntegra da pesquisa?

A pesquisa sai na edição de abril (na íntegra) da Revista de Jornalismo da ESPM (edição brasileira da Columbia Journalism Review) e logo mais estará disponível na internet, no próprio site da revista.

Como os jornais brasileiros estão recebendo os resultados desta pesquisa?

Dei algumas entrevistas (para o Meio&Mensagem, para o Valor Econômico) e fiz uma apresentação para a diretoria da ANJ. Alguns jornais se interessaram em aprofundar a discussão e estou sendo convidado para apresentar a pesquisa para suas equipes. Em princípio, estão gostando do que ouvem. Quero muito ver se farão as mudanças necessárias para enfrentar estes tempos bicudos. Estou disposto a ajudar no que for possível.

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18:26 - 11/02/2014 | RELATÓRIO DE PESQUISA

Recomeçar do zero é desafio para os jornais

PUBLICADO NO VALOR ECONÔMICO EM 11/2/14 PÁG B8

Estudo mostra como criar um modelo rentável na era digital

Por João Luiz Rosa | De São Paulo

Durante quase seis meses, o jornalista Caio Túlio Costa dedicou seu tempo a uma questão que se tornou central para o setor de mídia, especialmente os jornais: existe, afinal, um modelo rentável para as companhias jornalísticas na era digital, que tem colocado em xeque princípios que remetem à própria invenção da imprensa, 575 anos atrás?

A resposta, apresentada em um trabalho de 107 páginas, é que esse modelo existe, sim, mas requer compreender qual é a nova cadeia de valor proposta pelo mundo digital. Esse é o primeiro passo para um trabalho árduo, que exige um conjunto de mudanças em várias frentes, e ao fim do qual os grupos jornalísticos deixariam de ser companhias de informação para se tornar empresas de serviços, fortemente apoiadas na tecnologia.

O título do trabalho, que será lançado na forma de e-book*, resume esses conceitos: “Um Modelo de Negócio para o Jornalismo Digital: como os jornais devem abraçar a tecnologia, as redes sociais e os serviços de valor adicionado”. A obra é resultado da temporada passada entre agosto e dezembro de 2013 na Columbia University Graduate School of Journalism, em Nova York. Costa viajou com uma bolsa de pós-doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Para começar, diz Costa, não basta adaptar o negócio existente à internet. “É preciso partir do zero porque a cadeia de valor é outra”, afirma o jornalista ao Valor. A distribuição é um ponto nevrálgico. Os jornais aprenderam a gerir um modelo de distribuição que controlavam totalmente, com acesso a detalhes como que banca vende mais exemplares, que reportagem atrai mais público em cada região e como redistribuir as remessas ao sabor do conteúdo apresentado.

Na internet, o jogo é outro, diz Costa. A maior parte da economia digital (60%) fica nas mãos das operadoras de telecomunicações, seguidas pelas companhias de tecnologia (como Google e Facebook), com 22%, e pelos fabricantes de eletrônicos (PCs, tablets, celulares etc), com 14%. A mídia aparece em último lugar, com 7%.

A questão da publicidade não é menos relevante. Muitos jornais começaram a oferecer seu conteúdo gratuitamente, na expectativa de que a audiência de seus sites atraísse publicidade e suprisse as perdas no meio tradicional. Não foi o que aconteceu. O caso do “The New York Times” é exemplar. Entre 2000 e 2012, a receita da empresa caiu de US$ 3,5 bilhões para US$ 1,9 bilhão, e a margem de lucro diminuiu de 11% para 7%.

Costa – um veterano que já viveu o dia a dia das redações, dirigiu empresas como UOL e iG e tem carreira como professor de jornalismo – sugere recriar os pontos centrais do negócio. Um fundamento é aprender a usar a superdistribuição, o fluxo de público que os jornais recebem quando alguém envia a um amigo, via rede social, o link para um artigo.

Fechar totalmente o conteúdo impediria esse usuário de ver o que foi sugerido (e, eventualmente, tornar-se um leitor frequente). É por isso que ele sugere o chamado “paywall” poroso. O sistema restringe o acesso gratuito a um certo número de reportagens e permite abrir ou fechar mais o conteúdo, de acordo com a demanda.

Os jornais também precisam unir-se em redes de publicidade para ganhar poder de negociação frente a empresas como Google e Facebook, e passar a monitorar as redes sociais, para saber não só do que está se falando, mas o que o público fala dos próprios jornais.

Nada disso estará completo, porém, se as empresas não souberem criar negócios potencialmente lucrativos, que apresentem uma proposta de valor clara aos clientes. Nessa equação, tecnologia tem de ser vista como investimento, não gasto. Um exemplo bem-sucedido é o UOL, diz Costa. A companhia começou com enfoque em conteúdo e receita baseada em acesso à internet. Não abandonou essa matriz, mas incluiu serviços de rápido crescimento, como infraestrutura de tecnologia para empresas.

A lição vem de setores como música e telefonia, nos quais empresas tradicionais criaram negócios capazes de eliminar seu modelo original, para não ser ultrapassadas por rivais mais jovens. Por mais duro que pareça, diz Costa, é melhor que o filho “mate” a mãe do que um estranho o faça.

* O relatório em português, na íntegra, será publicado na edição de abril da Revista de Jornalismo da ESPM (versão brasileira da Columbia Journalism Review) e então estará disponível online.

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19:39 - 08/07/2013 | ENTREVISTA AO DIÁRIO DO PARÁ

Um novo futuro a ser ditado pelo poder das ruas

PUBLICADO NO DIÁRIO DO PARÁ EM 07/07/2013, 08h29

Entrevista de Caio Túlio Costa concedida a Rita Soares

Da mesma forma que a política, o jornalismo também foi sacudido pelos protestos que surpreenderam o País nos últimos dias. Onde estavam os formadores de opinião, analistas e repórteres que não conseguiram prever a erupção social que tomaria as ruas de Norte a Sul do Brasil? Para o jornalista Caio Túlio Costa, eles estavam fora das redes sociais ou conectados apenas com o próprio grupo – sem buscar analisar a realidade a partir das plataformas sociais, a grande novidade desse movimento atual. Caio Túlio é um expert em mídia e redes sociais. Primeiro ombudsman do jornal Folha de São Paulo, um dos criadores do portal Uol, professor de ética e da área de comunicação frente às novas tecnologias, e um dos comandantes da campanha de Marina Silva à Presidência em 2010, ele esteve em Belém na semana passada para uma conversa sobre “Redes Sociais e as Mobilizações Sociais”. O evento fez parte do Movimento HotSpot, que premia inovações nas artes e comunicação. Curador do projeto, o jornalista falou com exclusividade ao DIÁRIO sobre mídia, política e uso das redes.

P: Assim como os partidos políticos e as autoridades de modo geral, a imprensa esteve na berlinda durante as manifestações das últimas semanas. Na sua opinião, por que isso aconteceu?

R: A imprensa foi alvo topicamente. Ela acabou sendo uma grande aliada dos manifestantes e até maximizou, no bom sentido, a abrangência das mobilizações. Mas acho que a imprensa chegou tarde. O movimento conseguiu mobilizar as pessoas, no início poucas, e conseguiu levá-las para a praça pública, para as ruas. Depois, usando as redes, esse mesmo movimento conseguiu fazer com que essas pessoas voltassem às ruas e fossem aumentando. Aconteceu em uma semana fatídica em que, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, a polícia foi muito violenta. Isso fez com que a imprensa respondesse. Isso ajudou mais uma vez a fazer com que o movimento se espraiasse da maneira como se espraiou.

P: Os movimentos não têm líderes definidos e isso às vezes é meio difícil de explicar. O senhor acha que nós, jornalistas, estamos preparados para cobrir esses fatos?

R: Assim como os políticos tradicionais, os empresários, os jornalistas ficaram surpresos com o que estava acontecendo. Não teriam ficado surpresos se tivessem um olho constante na Internet, nas redes sociais e na própria rua. Eu acho que tão surpresos quanto os jornalistas, estão também os participantes do movimento. Nem eles tinham a dimensão da importância do que isso poderia acabar tendo e teve. Agora, vamos saber a real dimensão disso mais para frente. Algumas consequências já estão acontecendo. Por exemplo, nos últimos dias, vários políticos foram pegos gastando dinheiro público para fazer viagens particulares.

P: Deputados e senadores trabalhando em pleno julho, por exemplo…

R: Realmente isso já é outra coisa inédita [risos]. E vimos também as prefeituras, ou recuando ou não aumentando as tarifas, além de outros movimentos, como o dos caminhoneiros. A população estava completamente abúlica e agora está se manifestando pontualmente de diversas formas e, às vezes, com extremo vigor.

P: O senhor falou que os jornalistas foram surpreendidos. Em sua opinião, por que não se percebeu que esse movimento estava chegando à superfície?

R: Eu acho difícil fazer essa análise neste momento porque estamos no meio do furacão. Mas uma das razões possíveis é o fato de os jornalistas estarem completamente fora das redes sociais. Ou estarem dentro da rede só com seus pares e não tentando entender o movimento nas redes. Mas geralmente é assim que acontece. Muitos movimentos que fazem sucesso na rede têm sua origem na imprensa tradicional. Mas a maioria, principalmente, os de reivindicações, só depois que acontecem na rede conseguem algum espaço na mídia tradicional.

P: Ainda separam muito o mundo virtual do mundo real, não é?

R: Sim. E a coisa parece que só tem importância quando aparece na mídia tradicional. Mas isso é para várias gerações, que a gente pode considerar como gerações antigas, que ainda não estão acostumadas com essa nova forma de apreender o conhecimento. É uma forma multimídia, completamente diferente da forma livresca na qual a gente aprendia as coisas antigamente.

P: O senhor trabalhou na campanha da Marina Silva em 2010. E nessa campanha já houve uso bastante intensivo das redes sociais…

R: A Marina foi muito inteligente. Ela tinha pouco tempo de televisão e não estava disposta a fazer alianças que aumentassem aquele tempo. Então tomou a seguinte decisão: vamos investir tudo que a gente puder nas redes. E ela contratou profissionais, entre os quais me incluo, que abraçaram aquilo com toda a vontade de fazer.

P: As mídias tradicionais acabaram servindo para chamar o público para as redes?

R: As mídias tradicionais foram bastante usadas na campanha também. A gente fez uma comunicação em 360º. Utilizava todos os recursos possíveis e passamos a conversar diretamente com as pessoas. Foi um uso bastante intensivo e, ao mesmo tempo, gostoso de ser feito porque ali tinha uma causa. E quando você tem uma causa, não precisa de mais nada. Se a tua causa fala alto, principalmente para a juventude que está nas redes, isso é maravilhoso. E é isso que ela [Marina] tinha e tem.

P: O senhor acha que em 2014 o uso das redes sociais vai se intensificar a partir do que a gente está assistindo hoje?

R: Acho difícil prever qualquer coisa para 2014. Agora, sem dúvida, vamos ter um uso muito maior da internet, das redes, inclusive para captação de recursos em 2014. Tem muita gente já pensando nisso e um pouco dos movimentos que a gente viu agora são uma espécie de ensaio possível para uma campanha em rede ano que vem.

P: Muita gente diz que a Marina é a candidata que mais vai capitalizar, em termos de votos, estes movimentos. O senhor acha que isso pode acontecer?

R: Eu acho que pelo fato dela ter uma causa, do ambiente, da sustentabilidade como um todo, e o fato de ser uma causa que fala muito próximo dos jovens, irá beneficiá-la muito.

P: Por outro lado ela é evangélica. O senhor acha que isso pode afastar o eleitor mais de esquerda? Questões como o aborto, a descriminalização da maconha…

R: São questões que ela tem enfrentado de cabeça erguida, com muita altivez. Até agora não tem afastado [eleitores]. Ela conseguiu 20 milhões de votos e, se você olhar a distribuição dos votos, teve muito voto evangélico, de católico, de ateu, de petista arrependido, de conservadores também. No meu entender, ela consegue manter um certo pluralismo, um certo ecumenismo.

P: Voltando à questão das redes, a gente observa que, ao mesmo tempo que tem um movimento incentivando as pessoas a irem para as ruas, tem uma espécie de antimovimento. Esses grupos são mais de direita ou de esquerda, como é que a gente poderia situar?

R: Uma das facetas desse atual movimento é que está todo mundo atônito em relação inclusive a essas expressões como direita e esquerda. Você tem ali dentro verdadeiros arruaceiros, baderneiros a rigor, aproveitando o movimento. Acho que você tem ali pessoas conservadoras, pessoas de extrema esquerda… Há quanto tempo a gente não ouvia falar de anarquistas e agora isso voltou…

P: E ainda tem os apartidários…

R: Sim, você tem aqueles que não querem saber de partidos. Eu acho que tudo isso faz parte do caldo de cultura contemporâneo que tem a ver com um grande escritor polonês que se chama Zygmunt Bauman [sociólogo, autor de várias obras, entre elas “O mal-estar da pós-modernidade” e “Modernidade Líquida”]. Ele fala exatamente da condição de liquefação, não somente das instituições, mas das relações entre as pessoas. Acho que é isso que a gente está vivendo. Isso está deixando as pessoas ainda meio atônitas e sem a capacidade de analisar.

P: O governo reagiu bem às manifestações em sua opinião?

R: Demorou muito para reagir. Reagiu na medida da sua capacidade de desentendimento do que estava acontecendo, não de entendimento. A primeira fala da Dilma foi um fiasco. A segunda fala acabou sendo um fiasco, não junto à população, porque pode até ter tido alguns efeitos especiais, mas teve uma reação muito forte junto à oposição, aos partidos. Dentro do desentendimento em que está, o governo está reagindo razoavelmente bem.

P: Reforma política é um caminho para atender às demandas expostas nas ruas?

R: Eu acho que o País precisa não só de reforma política. Precisa de reforma tributária. O país precisa de reforma nas suas instituições. A Justiça não pode continuar lenta da forma como é. Acho que tem muita coisa que ainda vai aflorar e que vai fazer parte dos movimentos nas ruas.

P: Há uma crise de representação?

R: A esfera pública está se desconstruindo. É uma crise de instituições. E não é só no Brasil, é no mundo inteiro. No mundo inteiro vemos esses movimentos diferenciados que estão acontecendo, como a revolução na comunicação. Estamos vivendo um momento muito especial na história da humanidade. Acho que agora é que está acabando a era agrária. Estamos indo para uma era que não tem nome ainda.

P: Apesar das limitações de análise, o senhor acha que tem algo destes movimentos que ficará para o futuro?

R: As pessoas não precisam mais das mídias tradicionais para fazer qualquer movimentação, para fazer qualquer pedido de mudança ou reivindicação. Elas têm esse poder de mídia. Hoje, seja uma única pessoa, sejam mil pessoas ou cem mil pessoas, elas têm o poder da mobilização tanto presencial quanto virtual. Isso é poder de mídia. Qualquer pessoa vai a um local de acesso público à internet, grava um vídeo para o Youtube e aquele vídeo pode ter repercussão mundial instantânea e provocar alguma coisa. É isso que mudou e é isso que fica. Aonde isso vai nos levar? Eu não sei.

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17:03 - 08/03/2013 | MARKETING DIGITAL

Manual do Candidato

PUBLICADO NA REVISTA DA ESPM, ANO 19, EDIÇÃO 86, NÚMERO 1 – JANEIRO/FEVEREIRO DE 2013 – págs 90-99.

Compare as campanhas digitais feitas pela equipe de Barack Obama durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos com a estratégia adotada por Marina Silva no Brasil. Saiba também como Gabriel Chalita e Alberto Zacharias Toron usaram as redes em 2012

Caio Túlio Costa

Um dos aspectos mais comentados e, ao mesmo tempo, mais desconhecidos da vida digital, é o uso da internet em campanhas eleitorais.

Desde que Barack Obama obteve inquestionável sucesso em sua primeira campanha presidencial, em 2008, dezenas de livros e milhares de linhas foram escritas para tentar explicar o fenômeno inédito do uso das plataformas digitais para conquistar eleitores.

A cobertura jornalística, no entanto, sempre apertada pelo tempo e pela superficialidade estrutural da abordagem, pouco consegue detalhar e explicar como uma campanha eleitoral é feita no mundo digital.

Um grande equívoco é considerar que a campanha de Obama tenha se restringido às “redes” sociais. Sim, a campanha de Obama, tanto em 2008 quanto em 2012, usou e abusou das mídias sociais. Mas não foi esse o seu grande diferencial.

O diferencial se deu principalmente no uso extensivo e compartilhado de um inédito sistema de gerenciamento de contatos e manejo de vários mailing lists de forma jamais vista em qualquer campanha eleitoral.

Ao misturar um call center particular, disperso nos domicílios de eleitores simpatizantes (sistema conhecido como outreach call, quando o eleitor usa seu telefone fixo para falar com seus vizinhos e conclamá-los para uma causa ou vender algum produto), e uma plataforma de envio, conferência de recepção e respostas de e-mails, estava criado o mais sofisticado método de atrair voluntários e de arrecadar fundos on-line. Este foi o coração das duas campanhas de Obama na internet, como apontam os autores de The Battle for America 2008: The Story of an Extraordinary Election (Dan Balz e Haynes Johnson, Viking Adult, 2009) e Renegade: The Making of a President (Richard Wolfe, Three Rivers Press, 2009).

Em 2010 participei, na condição de coordenador digital, da campanha de Marina Silva à presidência da República, cuja comunicação foi de responsabilidade da empresa da qual sou sócio, a MVL Comunicação.  Na época, Marina Silva conseguiu 19,6 milhões de votos, quase 20% dos votos válidos. Tanto percentualmente quanto em números absolutos, foi a maior quantidade de votos que um terceiro colocado conquistou nas urnas desde a redemocratização do país.

Como Marina Silva tinha pouco tempo para a campanha no horário eleitoral da televisão, apenas 1 minuto e 23 segundos, ela decidiu privilegiar a comunicação com o eleitorado via internet e mídias sociais. O que deu muito certo.

Em artigo publicado logo depois da campanha, na edição abril-junho de 2011 da revista Interesse Nacional, analisei a impossibilidade de se aferir com exatidão quanto desses quase 20 milhões de votos decorreu do trabalho na internet. E expliquei como os números e a análise comparativa do mapa da votação, a planilha dos acessos à internet e as audiências apuradas, sugeriam que a mensagem de Marina Silva chegou a cerca de 12,5 milhões de internautas.

Na ocasião, abordei também outro equívoco cometido, principalmente pelos jornais brasileiros, que ao comparar a campanha na internet de Marina com a de Obama concluíram que a dela não deu certo porque arrecadou menos recursos via web. Marina chegou ao final da corrida eleitoral com pouco mais de R$ 170 mil arrecadados via internet, evidentemente bem menos do que os US$ 500 milhões que Obama recolheu on-line, somadas as pequenas doações de pessoas físicas às doações maiores que vieram pela internet.

A campanha eleitoral de Obama e a estratégia de Marina têm um único ponto em comum: no início, ambos eram praticamente desconhecidos do eleitorado. Já as diferenças entre os dois projetos são inúmeras:

- A enorme vantagem do Partido Democrata, muito conhecido dos eleitores americanos, enquanto o Partido Verde, de Marina Silva, era praticamente desconhecido da população;

- A riqueza da campanha de Obama (arrecadou no total quase US$ 800 milhões) contra a pobreza da ação de Marina Silva (que recebeu o equivalente no cambio de então a US$ 15,4 milhões, 98% menos do que Obama);

- O fato de os americanos estarem familiarizados com doações políticas, enquanto no Brasil inexiste esse costume;

- Obama poderia comprar o tempo que quisesse para anunciar na TV e também na internet. No Brasil, o candidato é proibido de comprar espaço na TV e publicidade na internet;

- A plataforma de relacionamento com o consumidor usada por Obama (sofisticado sistema de CRM – Costumer Relationship Management) foi testada anteriormente, com sucesso, para arrecadar doações para organizações filantrópicas e organizações não governamentais. Aqui, o sistema SRM (Social Relationship Management) usado por Marina Silva foi concebido, planejado e desenvolvido em apenas três meses;

- Obama teve 632 dias para realizar a arrecadação on-line, enquanto Marina Silva teve apenas 58 dias;

- O candidato à presidência dos Estados Unidos fez uso intensivo do envio de SMS (torpedos) para os eleitores, via sistema de telefonia móvel. Marina Silva e os outros candidatos foram praticamente impedidos de usar o SMS por conta do custo abusivo cobrado pelas empresas de telecomunicações no Brasil;

- Obama usou o e-mail marketing de forma prioritária. Todo o ferramental de mobilização e arrecadação estava baseado no uso de endereços de e-mail adquiridos pela campanha. Já no Brasil, Marina Silva e os demais candidatos foram impedidos por lei de adquirir listas com nomes e endereços de eleitores.

As doações on-line também desempenharam bem em 2012. Segundo reportagem de Michael Scherer publicada no site da Time, no dia 11 de novembro de 2012, a equipe de Obama levantou cerca de US$ 690 milhões pelo método digital, 38% acima dos US$ 500 milhões arrecadados digitalmente em 2008, dos quais quase US$ 200 milhões em pequenas doações de US$ 25 até US$ 200. No total, Obama arrecadou mais de US$ 1 bilhão em 2012. Enfim, Barack Obama se reelegeu.

Versão brasileira

No Brasil, em 2012, campanhas para eleições municipais e estratégias de marketing criadas para instituições, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), deram o prosseguimento ao desenvolvimento da propaganda eleitoral digital.

No ano passado, a MVL Comunicação pôde reciclar a experiência adquirida com Marina Silva ao tomar conta da comunicação da campanha de Gabriel Chalita, do PMDB, à Prefeitura de São Paulo e também do plano de marketing do advogado criminalista Alberto Zacharias Toron à presidência da OAB, seção São Paulo.

A primeira foi uma campanha municipal majoritária, com possibilidade de segundo turno. Já a segunda, uma campanha estadual segmentada e proporcional: ganhava quem levasse o maior número de votos, sem possibilidade de segundo turno.

Para os dois clientes, a MVL colocou em ação os mecanismos da assessoria de imprensa tradicional, tanto para a velha mídia (jornais e revistas impressas, TV e rádio) quanto para a nova mídia (sites, portais, blogs e mídias sociais), fez a preparação dos candidatos para participar de debates e dar entrevistas, dotou as campanhas das ferramentas básicas para monitorar toda a comunicação sobre o candidato e seus adversários, além de criar e administrar a comunicação na internet e nas mídias sociais.

A comunicação nas plataformas digitais se dá ao menos por meia dúzia de meios. O site da candidatura é o meio mais importante. Ele funciona como o ponto central agregador das ferramentas de manejo das redes sociais e do SRM (Social Relationship Management), a plataforma que cuida do disparo de e-mails para os mailings da campanha, para organizar os apoiadores e, se for o caso, arrecadar doações – função praticamente não usada na campanha de Chalita porque só foi ativada a menos de duas semanas do pleito, em função da burocracia junto ao sistema bancário. O site traz ainda as fotos, os vídeos e o noticiário da própria campanha, que é atualizado várias vezes por dia, janelas com os perfis da campanha nas redes sociais, o programa de governo e um formulário para o eleitor dialogar com a campanha. Em resumo, é o comitê da campanha na internet.

Juntos, o Twitter, o Facebook e o YouTube são os maiores instrumentos de redes para a comunicação e o compartilhamento de informações, além de servirem de manancial para o monitoramento da “saudabilidade” do nome do candidato nas redes. O Orkut, bastante usado na campanha de Marina Silva em 2010, especialmente para o diálogo com os evangélicos, em dois anos praticamente caiu em desuso, daí ter sido dispensado na campanha de Chalita.

Plataformas e aplicativos de mídias sociais também integram a comunicação nas plataformas digitais. Eles devem ser construídos de forma a serem intuitivamente manejáveis tanto em computadores quanto em plataformas móveis, como tablets e celulares, e em especial nos smartphones montados sobre diferentes sistemas operacionais – seja Android, iOS da Apple ou Windows.

Nesse tipo de campanha, os vídeos precisam estar disponíveis num canal da campanha – em geral se usa o YouTube, com links e galerias no site do candidato. As fotos da campanha precisam estar em local de fácil acesso para serem baixadas em alta definição por todos os simpatizantes, voluntários, gráficas, produtores de material promocional e servirem como banco de dados para a imprensa – isso se faz inserindo o material iconográfico no Flickr.

Por último, a geolocalização contribui para uma comunicação efetiva nas plataformas digitais. Uma rede pouco conhecida ainda no Brasil, o Foursquare, faz o mapeamento dos passos do candidato durante a campanha em um mapa on-line – é ela que serve de base para indicar no mapa os deslocamentos do candidato.

Todas essas ferramentas representam o pacote básico que deveria constar em toda campanha eleitoral. No entanto, o segredo da comunicação na internet é a experiência e a capacidade estratégica necessária para administrar, sempre de forma propositiva, os diferentes elementos de monitoramento do que se fala do candidato e de seus adversários, analisar a maneira como estes dados se distribuem e decidir a qualquer tempo como essas variáveis devem ser “agitadas” durante as 24 horas do dia. E cada dia é uma sucessão de batalhas.

Chalita para prefeito

Gabriel Chalita não se elegeu prefeito de São Paulo. Mas obteve 14% dos votos – quando as pesquisas, até bem perto da votação, nunca lhe deram mais do que 6% das intenções de voto. No entanto, com 833 mil votos no primeiro turno, conquistou uma representatividade maior do que a que tinha tanto na política paulista quanto na nacional.

Se Chalita perdeu a grande batalha eleitoral na maior cidade do país, fez bonito no mundo virtual. Há várias maneiras de medir isso. Uma delas tem a ver com a velha expressão “falem mal, mas falem de mim”. Neste capítulo, o candidato “mais comentado” nas redes sociais durante a eleição municipal de 2012, em São Paulo, foi José Serra (do PSDB), com 32,61% das citações, conforme levantamento publicado pelo portal Terra, em setembro daquele ano.

No mesmo levantamento, Celso Russomano (do PRB) aparecia como o candidato que mais ganhara menções até aquela data, passando de apenas 4% de citações em agosto para 26% em setembro. O portal só não explicou, entretanto, que crescer mais em citações nada significa se as citações forem na sua maioria negativas, o que era o caso de Russomanno.

Análises de sentimento, realizadas pela equipe de Gabriel Chalita, tendo como base da busca a ferramenta Scup, durante os quatro debates televisivos ocorridos antes do primeiro turno, exibem dados negativos para Russomanno e para Serra nas redes, mas bastante positivos para Chalita. Se dependesse só dos votos dos internautas, o resultado das eleições seria outro. Durante o primeiro debate (na Band), Chalita foi o campeão com 38% de citações positivas nas redes. Serra foi o campeão de citações negativas (59%), seguido por Russomanno (53%). No segundo debate (RedeTV/Folha), Chalita ficou em segundo nas citações positivas (47%) e Fernando Haddad, do PT, em primeiro (53%). Serra e Russomanno voltaram a ocupar as piores colocações no ranking de citações negativas, com 75% e 56% respectivamente. No debate realizado pela TV Cultura e pelo Estadão, Chalita recuperou o primeiro posto (30% de citações positivas), enquanto Serra e Russomanno seguraram com firmeza o rol das citações negativas: 83% e 56% respectivamente. No quarto e último debate antes do primeiro turno (TV Gazeta), Chalita manteve o primeiro lugar (22% de citações positivas) contra desempenhos igualmente ruins de  Serra (61% de citações negativas) e Russomanno, desta vez com 25%, atrás de Soninha Francine (do PPS), que obteve 41% de citações negativas nesse dia.

Do ponto de vista da comunicação, há várias diferenças entre a campanha de Chalita e a de Marina Silva. A MVL começou a ajudar na campanha de Marina enquanto ela era pré-candidata, alguns meses antes de ela se tornar candidata oficial. Foram nove meses de trabalho. No caso de Chalita, os trabalhos começaram em julho, junto com o lançamento oficial da candidatura. Foram apenas 3 meses de trabalho. Mais: apesar de ter um Twitter robusto, com cerca de 140 mil seguidores em julho de 2012, o candidato não tinha presença no Facebook. Marina não tinha Twitter e nem Facebook antes da campanha.

Outra diferença: Marina Silva vivenciava sua causa ambientalista quando chegou à campanha, bandeira de fácil adesão, principalmente junto ao jovens. Já a causa de Chalita era a educação, que por agradar a todos, funciona de forma menos aderente na conquista de simpatizantes.

Durante a campanha de Marina, a equipe de comunicação se reunia diariamente com todo o comando da campanha – coordenação, marketing, financeiro, mobilização, agenda, pesquisa e programa de governo. A campanha de Chalita foi estruturada de outra forma: cada área cuidava praticamente de si mesma. No frigir dos ovos, Chalita não passou para o segundo turno, ficou em quarto lugar. Como se diz, a derrota todo mundo explica e o sucesso dispensa explicação.

A eleição da OAB

Apesar de ser uma campanha eleitoral de uma associação privada, a eleição para a seção da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo se assemelha a uma mini-eleição para o governo do Estado. O candidato precisa percorrer as cidades que têm subseções (são 751 seções eleitorais, 535 no interior e 216 na capital), levar sua mensagem para cerca de 250 mil eleitores (215 mil aptos a votar), enfrentar os adversários igualmente na oposição e ainda lidar contra a campanha do candidato situacionista com domínio absoluto da máquina da associação.

Do ponto de vista da comunicação digital, a candidatura de Alberto Zacharias Toron, que visitou 198 cidades do Estado durante a campanha de 2012, foi planejada para ser propositiva, informativa e completa o suficiente para mostrar o quanto a situação aparelhara a instituição. A meta era tentar uma mudança depois de nove anos do mesmo grupo no poder. Uma pequena equipe cuidou de tudo: site, mídias sociais, imagens, assessoria de imprensa, preparação para entrevistas e debates além da consultoria estratégica.

Os números revelam uma corporação ainda pouco afeita ao uso da internet e das mídias sociais. Dos 250 mil advogados eleitores, cerca de 20 mil visitaram o site de Toron de julho a novembro do ano passado – e nem todos os visitantes únicos eram necessariamente advogados e votantes.

Contudo, quem visitava se mostrava extremamente atuante e proporcionava uma visualização média de 3,2 páginas por visita com mais de três minutos de duração em média, um tempo bem superior ao que os visitantes gastam na página virtual da OAB: 41 segundos por dia, conforme o NetView de outubro de 2012. Outro dado importante é que 88% do tráfego do site esteve dentro do Estado de São Paulo e 58% deste total na cidade de São Paulo.

Em relação à presença dos advogados nas redes sociais, os números no Twitter são tímidos, mas denotam um engajamento eficaz quando o Facebook é trabalhado de forma eficiente.

No Twitter, Toron foi quem mais cresceu. Ganhou 256 novos seguidores de agosto a novembro. Começou agosto com 245 seguidores para chegar a 29 de novembro, o dia da eleição, com 501 seguidores. Marcos da Costa, o concorrente da situação que venceu a eleição, ganhou 112 seguidores (veio de 759 para 871 seguidores) e Ricardo Sayeg, o segundo oposicionista, agregou somente 66 novos seguidores (passou de 243 para 309).

No Facebook, Toron finalizou a empreitada com quase cinco mil fãs. Marcos da Costa teve mais de 2 mil. Sayeg, que chegou ao fim com mais de 24 mil fãs, obteve muito mais “sucesso” no Facebook do que no Twitter.

Sim, “sucesso”entre aspas. Explico. Qual foi o fator de engajamento dos fãs no Facebook dos candidatos? Quantos usuários de fato repercutiram, comentaram e espalharam as mensagens de cada candidato?

Anabolizantes

Para responder, é preciso examinar melhor um fenômeno notável, pela sua artificialidade, ocorrido na campanha à OAB-SP. Trata-se da anabolização do Facebook no sentido de fazer crescer a quantidade de fãs de maneira espetacular, mas de forma totalmente inorgânica e artificial, para dizer o mínimo. Isso ajuda o candidato dizer que tem muitos fãs, mas não serve para nada na rede, porque os fãs, de fato, inexistem.

É possível conquistar fãs por meio de publicidade, o método clássico para se alavancar audiência, seja na internet ou na velha mídia. Na campanha da OAB essa prática não é regulamentada, portanto permitida, ao contrário das eleições para o executivo e legislativo no Brasil. Mas não é disso que falamos aqui e sim de um outro meio de fazer crescer a audiência, o da compra de fãs, ação absolutamente inócua, porque a base cresce sem nenhum envolvimento do usuário com a página.

Há várias empresas que vendem fãs e ações de curtir (o popular “like”) no Facebook. Qualquer busca na internet por “comprar fã no Facebook” exibirá vários negociantes, como, por exemplo, a www.icene.com.br. No dia 29 de novembro de 2012, ela comercializava mil “curtidas” por R$ 79,99. Se você comprasse dez mil “curtidas”, saía proporcionalmente mais em conta: R$ 599,99.

Várias empresas continuam no negócio de venda de fãs, mesmo depois que a direção do Facebook deu início ao combate dessa manipulação cortando sumariamente “likes” falsos – como o fez em setembro de 2012 ao anular 34 mil “likes” da cantoras Lady Gaga, 28 mil de Rihanna e 26 mil de Shakira.

A página no Facebook do candidato Ricardo Sayeg é um caso típico de saltos inorgânicos, fora dos padrões de crescimento quando se “agita” de forma profissional e estimulada as redes por meio de equipes especializadas em mídia social ou por meio de publicidade.

Em agosto de 2012, mês do lançamento da página de Sayeg no Facebook, ele conseguiu apenas 363 fãs, uma quantidade absolutamente dentro dos padrões de uma página de advogado candidato à presidência de uma instituição segmentada. No mesmo mês, o candidato Alberto Zacharias Toron, por exemplo, ganhou 613 fãs no Facebook.

Foi em setembro, exatamente a partir do dia 19, que a página de Sayeg começou a exibir um crescimento anormal quando comparado à curva tradicional, mesmo às custas de publicidade. Sayeg vinha crescendo na base de dois fãs por dia. Porém, em um único dia (19/9), ele “conquistou” 1.059 fãs. Um pulo de quase 53 mil por cento! Proporcionalmente, teria muito mais força no Facebook do que a Lady Gaga.

E assim foi. Nos três dias seguintes, Sayeg conquistou mais 1.913 fãs. Em seguida, inexplicavelmente, despencou para meros seis novos fãs e a contagem começou a exibir comportamento um tanto esquizofrênico. Num dia subia muito, milhares; noutro dia era inexpressivo. Em 27 de setembro do ano passado voltou a crescer e, no mês de outubro, apontou dias com crescimento absolutamente desprovidos de racionalidade orgânica ou investimento publicitário: no dia 4 cresceu 2.496 novos fãs. No dia 5 teve 1.678 novos fãs. No dia 8, a página recebeu mais 2.196 fãs. No dia 14 registrou um novo crescimento: 2.084 novos fãs. No dia 15 mais 2.335 novos fãs foram adicionados. Até que no dia 25 apenas 35 novos fãs entraram no endereço. O fôlego, aparentemente, acabou em 31 de outubro quando o Facebook de Sayeg voltou ao patamar de um ou dois dígitos de crescimento por dia, que prosseguiu durante o mês de novembro. E em vários dias apontou crescimento negativo.

Toron chegou ao fim da campanha com quase cinco mil fãs, cinco vezes menos do que Sayeg, que não conseguiu ir muito além dos 24 mil fãs.

Respondendo à questão levantada, que realmente importa: o fator de engajamento entre os fãs de Toron durante a campanha foi seis vezes maior do que o fator de engajamento dos “fãs” de Sayeg, muito maiores numericamente.

O fator de engajamento se mede pela quantidade de fãs dividida pela quantidade de “likes” somada à quantidade de comentários e de compartilhamento de cada “post”.

Entre agosto e novembro de 2012, esta equação mostra que o engajamento na página de Sayeg foi de 1,38 engajamento por fã – cada fã de Sayeg comentou, gostou e compartilhou 1,38 vezes os “posts” da página. Este fator, na página de Toron, no mesmo período, foi de 8,12 por fã, quase seis vezes mais do que Sayeg. Ou seja, cada fã de Toron comentou, gostou e compartilhou conteúdos da página em média 8,12 vezes, enquanto Sayeg, que foi quem mais “conquistou” fãs, não conseguiu engajar mais do que 1,38 ação por fã.

Apurados os votos, Alberto Zacharias Toron perdeu a eleição por 4.951 votos para o situacionista Marcos da Costa (que obteve 59.770 votos, 38% do total válido), cujo grupo agora pode ampliar sua permanência no poder por mais três anos. Toron ficou em segundo lugar com 54.819 votos. Se a oposição tivesse se unido, ganharia folgada com mais de 55% dos votos. A soma dos resultados de ambos deu 86.683 votos.

Foi o poder de Marcos da Costa sobre a máquina estadual da OAB, exatamente no interior, que lhe garantiu a vitória.

Na capital, no entanto, Marcos da Costa perdeu para Toron. Costa teve 15.534 votos contra 17.888 de Toron.

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10:38 - 08/03/2013 | LIVRO DE JULIEN ASSANGE

Os quatro cavaleiros do Infoapocalipse

PUBLICADO NO SUPLEMENTO “SABÁTICO” DE O ESTADO DE S.PAULO DE 2/3/13, PÁG. S3.

Caio Túlio Costa

Livro de Julien Assange discute privacidade, presente e futuro da web.

Se você pensa que o negócio de Julian Assange é jornalismo independente, está enganado. É só a aparência. O negócio do líder do    WikiLeaks é a criptografia. Está tudo muito claro no livro Cypherpunks – Liberdade e o Futuro da Internet (Boitempo, 200 págs, R$ 29), no qual Assange dialoga com três “companheiros de armas” com os quais forma a legião dos verdadeiros Quatro Cavaleiros do Infoapocalipse.

Se a palavra-chave do título atropela o leitor tanto na fonética quanto no significado, a primeira página do livro resolve a dúvida. Ela remete a cipher (escrita cifrada) que vem do grego criptografia (escrita secreta). Punk é punk mesmo. Os Cypherpunks dizem defender o uso da criptografia como meio para provocar mudanças políticas e sociais.

Assange e seus três interlocutores Cypherpunks estão absolutamente convencidos de que centenas de milhões de mensagens online são devoradas por órgãos de espionagem norte-americanos e armazenadas em “depósitos do tamanho de cidades”. Assange afirma que o governo norte-americano não só espiona os seus cidadãos como também os estrangeiros.

Mas nem tudo está perdido. A não ser, claro, que você use nas suas comunicações online um sistema de criptografia abençoado por Assange e seus Cypherpunks, construído completamente à parte das empresas tradicionais que comercializam segurança criptográfica, todas muito bem postas no establishment comercial globalizado.

Nesse quesito, Assange sustenta que presidentes e executivos dessas empresas são matemáticos e engenheiros da NSA, a agência de segurança norte-americana. Eles estariam “capitalizando as invenções que criaram para o Estado de vigilância”.

Esses sistemas estão sendo vendidos para os países latino-americanos e de outras regiões do globo desejosos de proteger seus dados e suas comunicações. Na verdade, diz Assange, estes dispositivos constituem uma maneira de “roubar” os segredos dos países que os compram. É aí que entra o negócio de Assange: “Os governos estariam mais seguros se usassem softwares criptografados feitos por cypherpunks, cujo design é aberto para todos verem que não se trata de uma ferramenta de espionagem, disponibilizados pelo preço de uma conexão com a internet”.

Ou seja, o software abençoado por Assange, além de baratinho, é transparente. Se o uso do design aberto pode facilitar a quebra de seu segredo, Assange não responde. No entanto, o próprio livro registra que, por ocasião da divulgação pelo WikiLeaks de 250 mil documentos diplomáticos norte-americanos, a chave para criptografia dos arquivos que estavam na rede vazou.

Tudo, tudo

Os dialogadores (Jacob Appelbaum, Jérémie Zimmermann e Andy Müller-Maguhn) são especialistas em criptografia, são hackers. E aqui se entenda esta expressão no seu melhor sentido, aquele que define o hacker como um expert em segurança de sistemas.

As conversas ocupam a maior parte da obra. No geral, são técnicas e recheadas de siglas, termos e marcas desconhecidas do grande público, nada que as notas de rodapé não resolvam bem.

O livro revela o quanto Assange tem razão em tentar se esquivar da possibilidade de ser processado nos Estados Unidos ou em qualquer país dele dependente. As perseguições, ameaças e ações contra ele, seus amigos e o WikiLeaks estão muito bem relatadas.

Os diálogos tratam das entranhas das questões da segurança, da militarização do ciberespaço (na imagem de Assange, cada cidadão tem hoje um tanque de guerra dentro do seu próprio quarto), do combate à vigilância total, da espionagem pelo setor privado (o Google sabe mais de você que você mesmo, diz Müller-Maguhn), do combate a esta vigilância, de internet e política, economia e censura, além do bordão de Assange: “Privacidade para os fracos, transparência para os poderosos”.

No fundo, os diálogos, por mais que pareçam persecutórios, utópicos ou apocalípticos, exibem um profundo mergulho numa das mais complexas questões da contemporaneidade: como preservar a liberdade e a privacidade num mundo em rede no qual os poderosos – sejam do Estado sejam das corporações empresariais – podem saber tudo de você. Tudo.

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11:28 - 07/11/2012 | PALESTRA PARA JOVENS PROFISSIONAIS

A comunicação está de ponta-cabeça

Falei nesta terça-feira (6/11) no espaço dedicado aos jovens profissionais da HSM ExpoManagement 2012. O titulo da palestra, seguida de conversa, foi “Comunicação de ponta-cabeça”, na qual exploro as mudanças radicais que a interatividade em rede provocou não só nas comunicações como nos relacionamentos e na estrutura da sociedade – em especial na forma de apreensão do conhecimento.

O espaço dedicado aos jovens profissionais – nomeado Estação de Conhecimento CBN Young Professionals – é uma promoção da Rádio CBN. Conforme o site do evento, o espaço contempla duas palestras por dia, sobre gestão, carreira e negócios, com profissionais renomados do mercado, a maioria comentaristas da emissora.

Programação da Estação em 2012, conforme o site do evento:

A abertura, em 5 de novembro, às 15h, está a cargo do filósofo Mário Sérgio Cortella, que apresenta os programas “Academia CBN” e “Escola da Vida”. Na Estação, ele vai falar sobre um assunto que tira o sono de todos os profissionais, independentemente da idade: “Vida e carreira: um equilíbrio possível?”.

Na sequência, Carlos Alberto Sardenberg, jornalista e comentarista econômico, abordará os “Desafios e oportunidades para uma nova geração de brasileiros”.

O segundo dia começa com Max Gehringer, comentarista da CBN e do Fantástico, da TV Globo, e articulista em várias publicações. Com o humor que lhe é peculiar, sua palestra versará sobre “Carreira & Emprego”.

“A comunicação está de ponta cabeça” será o tema apresentado pelo jornalista Caio Tulio Costa. Em tempos de redes sociais, com consumidores cada vez mais exigentes e cientes dos seus direitos, é um assunto que merece atenção especial dos futuros líderes.

No terceiro e último dia da Estação, o consultor e comentarista da CBN, Carlos Alberto Júlio, coloca em debate outro calcanhar de Aquiles do mundo corporativo: “Qual é o seu talento?”. Se profissionais com anos de estrada têm dificuldade para responder a esse questionamento, os jovens mais ainda, com o agravante de que o cenário atual exige decisões rápidas.

O encerramento, como mencionado, ficará a cargo do “Fim de Expediente”, a reprodução do programa da CBN, que vai ao ar às sextas-feiras, das 18h às 19h. “Será a cereja do bolo, para fecharmos com um clima descontraído, mas igualmente provocativo, que vai agregar informações, enriquecendo a reflexão”, diz Mariza Tavares, diretora executiva da CBN.

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12:55 - 01/11/2012 | PALESTRA EM FRANKFURT

Na 5ª cúpula sobre Apps & Tablets

Falei nesta terça-feira, 30 de outubro, na World Publshing Expo 2012, em Frankfurt, sobre as relações dos jornais brasileiros com a Apple, em especial a Newsstand, e o Google, em especial o Google News.

Na palestra, intitulada “Brazilian Publishers vs. Apple Store Rules”, discorri sobre como os jornais brasileiros estão encaminhando suas negociações para participar da Apple Store e poder oferecer assinaturas digitais também via Newsstand, em moeda brasileira.

Expliquei que não há acordo fechado até este momento porque a Apple ainda não atendeu as necessidades dos jornais brasileiros. Além de questões de princípio, elas incluem a obrigatoriedade de emitir nota fiscal para o assinante dos produtos editoriais, sejam digitais ou impressos.

Na apresentação, contei que os jornais e a Apple ainda não chegaram a um acordo. Na mesma palestra discorri sobre o histórico da relação dos jornais brasileiros com o Google. Há mais de um ano que a grande maioria das edições digitais dos jornais está fora dos resultados do Google News.

No mesmo momento em que eu falava na feira em Frankfurt,  revistas e jornais europeus discutiam a possibilidade de o Google pagar pelos links dos jornais nos seus resultados, não apenas no Google News, mas também na busca orgânicos. A propósito, leia reportagem publicada pelo International Herald Tribune: “Google digs in its heels as publishers seek their cut”.

Falei no evento na condição de diretor do Comitê de Estratégias Digitais da ANJ, a Associação Nacional de Jornais. A palestra foi em 30 de outubro de 2012 do “5º Tablet and App Summit” durante a a exposição anual da indústria de jornais e notícias, a World Publishing Expo 2012, ocorrida em Frankfurt de 29 a 31 de outubro de 2012.

Mais de 100 pessoas, publishers e executivos da indústria de jornais de várias partes do planeta, estavam presentes. Entre os palestrantes, também falaram Stephen Pinches, do Financial Times; Alexandra Hardiman, do New York Times, David Heimburger, da revista Stern; Jamie Bill, da Condé Nast (Vogue) e Philippe Jannet, da ePresse – um concorrente da Newsstand na França.

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16:01 - 30/08/2012 | REVISTA ESPM | COLUMBIA

Analógicos versus digitais

PUBLICADO NA REVISTA DE JORNALISMO ESPM/COLUMBIA JOURNALISM REVIEW – 2a. Edição 2012

Caio Túlio Costa

Assim se divide o mundo pós-moderno: entre nativos digitais e nativos analógicos.
Os nativos digitais dominam de maneira intuitiva a internet e os gadgets que a manipulam. Os nativos analógicos não dominam este universo. No entanto, muitos deles se esforçam para se virar no mundo digital.
Os nativos analógicos são pessoas experientes, grande parte demasiado crítica. Quando buscam informação na internet, os nativos analógicos preferem as fontes conhecidas, as quais conquistaram credibilidade no mundo analógico. Na primeira hora, nunca prestam atenção nas novidades digitais, como aplicativos, redes sociais ou blogs de pessoas de quem nunca ouviram falar. Reclamam do excesso de informação, das opiniões e da bagunça informacional que o “excesso” provoca. Quando visitam um blog, eles se assustam com a maneira como as pessoas se pronunciam e abastardam a linguagem. O palavreado tosco e abreviado, os julgamentos definitivos e as opiniões gratuitas incomodam os nativos analógicos.
Os nativos digitais não têm esta preocupação. No geral, são protagonistas na internet. Têm bastante público, algum público ou nenhum público, mas sempre estão à vontade na rede – conversando com os amigos, coletando informações que os satisfaz, descobrindo um aplicativo novo ou investindo numa rede social recém-lançada.
No Twitter, eles se sentem em um palco. No Facebook, eles agem entre pares. No Foursquare, eles se informam sobre qualidade de serviços. No Skype, eles conversam com amigos e familiares sem pagar conta de telefone. No Drawsomething, eles trocam desenhos simplórios. No Instagram, eles se sentem artistas, fotógrafos, decoradores ou gourmets. No iPhone, eles teclam com rapidez usando apenas os dois polegares…
Os nativos analógicos têm formação livresca, aprenderam com livros, tiveram aulas tradicionais, usaram papel carbono para fazer cópias de um mesmo texto, tem guardada em algum lugar da casa, carinhosamente, uma máquina de escrever. Usam o computador tanto como máquina de escrever como para ler textos na forma de arquivos PDF ou Word. Conheceram celular e e-mail já na idade adulta.
Os nativos digitais apreendem o conhecimento de outro jeito. Sua formação se dá com conteúdos digitais na forma de música, cinema, videogame, histórias em quadrinhos e minisséries, além dos livros, é claro. Os nativos digitais aprendem geografia em videogames, história em documentários, inglês com as músicas, conjuntura com redes sociais e só fazem contas com calculadoras. Nasceram com endereço de e-mail, usam celular desde crianças.
Estes dois tipos, caricaturados acima, estão na base de toda a confusão que a indústria de comunicação enfrenta ante as mudanças tecnológicas que viraram seu negócio de ponta-cabeça. No fundo, estes dois tipos protagonizam uma disputa geracional espraiada por toda a contemporaneidade.
Os nativos analógicos tentam salvar negócios analógicos adaptando-os ao digital. Os nativos digitais correm por fora e criam negócios completamente digitais – como o do Google e o do Facebook. No caso do Facebook, seus criadores não se preocuparam em ter um modelo estável e garantido de negócio enquanto não alcançassem uma bela audiência mundial. Com quase 1 bilhão de usuários e valor de mercado inflado sem receita para sustentá-lo, o Facebook agora corre atrás de um modelo.
Uma terceira figura também pode ser detectada, no meio destes dois polos: a do analógico digital – numa leitura aberta de definição cunhada pelo cientista Silvio Meira (definição explicitada em palestra no Museu da Imagem e do Som em São Paulo, em evento da Serasa-Experian em 4/6/2012). É o caso se Steve Jobs, que soube dar sentido digital inclusive ao negócio da música (iTunes), sem falar do computador pessoal, dos tablets e dos celulares.
A essência do primeiro, nativo analógico, é a da solidez dos conceitos, da informação distribuída unidirecionalmente: o professor estuda e ensina, o jornalista apura e informa.
A essência do segundo, nativo digital, é a da liquidez dos conceitos: ele sabe tanto quanto o professor, ele não precisa ser jornalista para informar e opinar, seus conceitos se amoldam às situações assim como os líquidos se ajustam e tomam a forma de seus receptáculos (conforme defende muito bem Zygmunt Bauman in Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.)
No caso específico da imprensa, a tensão entre analógicos e digitais se resume na incerteza de como o jornalismo irá sobreviver para continuar a relatar os fatos de forma independente, fiscalizar os poderes e regar o diálogo crítico.
Ao mesmo tempo em que há nativos analógicos que se digitalizaram pela necessidade de sobrevivência, ou por inteligência e capacidade de seguir o novo, o modelo de negócio da imprensa também precisa se digitalizar. No fundo, não há como “analogisar” a comunicação em rede, exatamente o que a imprensa tenta fazer – sem o perceber – quando transplanta para o ambiente digital o seu modelo de negócio analógico tradicional.
Desde Gutenberg até a emergência da internet comercial – lá se vão exatos 555 anos – a indústria da informação era totalmente responsável pela cadeia de valor do seu empreendimento. Dominava 100% do seu modelo de negócio. A partir de 1995, quando a internet se tornou negócio com as facilidades da world wide web, a indústria da comunicação foi colocada à prova. Grande parte da confusão vem do fato de que os meios de informação tradicionais não dominam mais a totalidade da cadeia de valor no mundo digital.
Tome como exemplo o jornal, o vetusto exemplar da mídia clássica. A empresa que o edita produz o conteúdo (“conteúdo é o rei!”), negocia e compra papel e tinta para impressão do mesmo, detém a imponente máquina impressora (ou paga pelo uso dela), arrecada dinheiro com a publicidade e domina a distribuição do seu produto seja por meio da venda avulsa dos exemplares nas bancas ou da comercialização de assinaturas. Desenvolveu três fontes distintas de receita no trato com anunciantes e consumidores: vende assinatura, vende exemplares avulsos e vende publicidade. Vale o mesmo para o negócio das revistas tradicionais.
Vale o mesmo para o rádio e para a televisão – ambos produzem o conteúdo, levantam o sinal e pagam pela sua distribuição via satélite ou via torres de transmissão terrestre, seja na forma direta ou por intermédio de parceiros retransmissores. A publicidade (e suas variações como o merchandising) paga tudo na TV aberta e no rádio. Os assinantes e a publicidade pagam a conta na TV a cabo ou por satélite. Tudo dominado!
O jogo muda no mundo digital. A começar pelo fim: quem domina a distribuição dos conteúdos digitais é a indústria de telecomunicações, que arrecada cerca de 60% de todo o dinheiro que circula na indústria digital – cujo total em breve ultrapassará os US$ 2,5 trilhões de dólares de faturamento por ano (os dados referentes ao mercado digital mundial vêm de estudo, não publicado, que ajudei a BCG – Boston Consulting Group – a realizar em 2010). A mídia clássica não domina a distribuição digital da mesma forma que domina a distribuição do seu conteúdo impresso ou nas ondas eletromagnéticas.
Ainda na ponta da distribuição, quem domina o aparelho que recebe os conteúdos (para fazer a função do papel e do aparelho de rádio ou TV) é a indústria produtora de computadores, laptops, tablets, smartphones e celulares. 14% do faturamento digital vão para esta indústria.
Contudo, além das telefônicas e dos produtores de diversificados aparelhos receptores, surgiu mais um atravessador no caminho. É o produtor de tecnologia, em geral um criador de software, que agrega e manipula conteúdos de terceiros, como o Google, o Bing, os sites de comércio eletrônico (Amazon, E-Bay), os sites de serviços em geral (Webmotors, Monster, Buscapé), as redes sociais (Facebook, Twitter, YouTube) e até mesmo novidades do mundo financeiro, como o PayPal – entre inúmeros outros. Os agregadores carregam 22% do faturamento anual digital e esse percentual só cresce.
Restou à indústria tradicional de comunicação a produção do conteúdo. E ela está conformada com isso. No máximo, quer digitalizá-lo para vendê-lo aos internautas. A indústria do conteúdo, com receitas de inserção publicitária e aquelas advindas da cobrança pelo acesso ao produto informativo, fatura somente 7% do total das receitas digitais.
Surge então o primeiro grande desafio da indústria da informação na era digital: como enfrentar esta mudança brutal na cadeia de valor? No fundo, ela tinha um bom negócio de distribuição, mas agora apareceram telefônicas, agregadores, fabricantes de aparelhos e de softwares para atrapalhar o velho e bom negócio da venda da informação – sem falar no público que (mal) acostumou-se a consumir informação de graça.
Como vencer sem fazer apenas a transposição do modelo tradicional para o mundo digital? Como se libertar da situação de tentar cobrar por um conteúdo que os internautas conseguem de graça, mesmo de pior qualidade? Como financiar a produção online de jornalismo de qualidade? Como enfrentar tanta informação, tanto boato, tanta opinião? Como garantir o jornalismo independente na sua forma vencedora?
Ponto central para acordar dormentes: o jornalista perdeu o monopólio da informação e perdeu o monopólio da opinião. Mais: os meios de comunicação perderam o monopólio da informação e da opinião. Durante os 555 anos de domínio do sistema Gutenberg, esta indústria distribuiu conteúdo de forma unilateral, despejou informação e opinião nos leitores, nos ouvintes e nos telespectadores. Isso mudou. Leitor, ouvinte e telespectador agora têm totais condições, sem nenhuma expertise ou poderio financeiro, de produzir informação e opinião. O internauta pode não ter audiência nem alcance e tampouco frequência, mas tem poder de mídia.
Esta nova realidade não invalida, absolutamente, o papel do jornalista no mudo digital. Ele tem, seja por experiência ou por formação acadêmica, a capacidade técnica de produzir a informação e a opinião. As pessoas continuam a buscar essa intermediação e nada indica que ela tenha se tornado obsoleta. Os resultados de um agregador de notícias qualquer, como o Google News, mostram isso. As primeiras respostas, e mesmo a maioria delas, quando se pesquisa um tema qualquer de notícia, vêm de fontes tradicionais de informação. Os jornais, as revistas, as agências clássicas de notícia, surgem sempre com mais relevância nos resultados orgânicos da pesquisa do Google. Se eles têm mais relevância é porque têm credibilidade.
No entanto, a questão persiste porque muitas vezes uma fonte não confiável pode divulgar notícias inverídicas, distorcidas e opiniões desabonadoras – sejam sobre indivíduos ou marcas. E esse resultado pode estar embaralhado nos resultados de uma pesquisa no Google. Não há como resolver ou controlar totalmente esta questão mesmo e apesar dos esforços dos buscadores com algoritmos inteligentes.
No fundo, o jornalista precisa se convencer que deixou de ser o ator principal e se tornou um coadjuvante no complexo mundo digital. Essa é a nova realidade da comunicação e somente a educação, também em uma nova forma que escola nenhuma conseguiu delinear ainda, vai permitir que os usuários saibam separar o joio do trigo – e ficar com o trigo.
Os desafios para o jornalismo se multiplicam. Estão na questão econômica (a mudança na cadeira de valor), na questão moral (em quem confiar no mundo online?) e na questão da produção jornalística propriamente dita (como a da transformação do velho jornalista produtor de texto em sujeito multiplataforma, pois o jornalismo na rede exige o domínio das ferramentas de captação de imagens e sons além da destreza na escrita).
Faz pouco tempo, listei num livro 28 tópicos que a complexidade da nova realidade introduz (Ver “Ética e Mídia” in Cultura das Transgressões no Brasil – Visão do Presente. São Paulo: Saraiva, 2009 e disponível online conforme acessado em 23/05/2012: http://caiotulio.com/etica-e-midia/).
Reforço aqui alguns deles, os mais prementes, como o da concentração econômica das empresas de mídia que só faz aumentar. Apenas oito empresas globais de comunicação faturam a metade do dinheiro que arrecada a indústria (ver lista completa in http://caiotulio.com/google-e-a-terceira-maior-empresa-de-midia-do-planeta/ conforme acessado em 8/6/2012).
Ou, no caso específico da telefonia móvel, o problema das empresas de comunicação que tateiam sobre a melhor forma de inserir conteúdo informativo neste sistema e temem o poderio das telefônicas móveis.
Sem falar na nova publicidade seja em rede seja no celular. Manipulados por técnicas inéditas, os conteúdos podem misturar informação, entretenimento e serviço com material publicitário de forma pouco ou nada perceptível pelo público.
Nesta esteira, surgiu o “prosumer”, palavra que define o consumidor que avalia produtos e serviços e assim ajuda consumidores e empresas. Qualquer internauta pode deixar um comentário num site comercial e os consumidores poderão se orientar (ou se desorientar) em relação àqueles bens ou serviços oferecidos. Isso dá um poder inédito ao consumidor.
Assim como pode haver confusão entre informação e propaganda, pode haver também entre o que é jornalismo e entretenimento. Na nova mídia, é mais difícil separar visualmente uma categoria da outra. Jogos online, shows, música, cinema, produtos e serviços diversos se confundem numa mesma plataforma de informação, exibição e comercialização.
A web também não dá tempo ao jornalismo para uma pesquisa minimamente acurada quando se publica informação em tempo real. Por isso, as informações surgem inexatas. O que difere a nova mídia da comunicação tradicional é que a informação inexata pode ser corrigida e ampliada online, imediatamente depois de publicada – algo impossível na mídia impressa.
Não existe saída milagrosa para os desafios expostos aqui.
Do ponto de vista econômico, entre os jornais, há três correntes distintas enfrentando essa situação. Correntes dominadas, evidentemente, por nativos analógicos.
Uma é liderada pelo jornal inglês The Guardian, que aposta no “open journalism” e cujas receitas principais vêm da publicidade e as secundárias da venda de produtos de valor agregado (textos de arquivo, anúncios de emprego, site de namoro).
A segunda corrente é personificada por The Times, que bloqueia completamente o conteúdo para não assinantes (sejam digitais ou analógicos).
Há uma terceira, capitaneada pela aposta do New York Times no chamado “paywall poroso”, uma plataforma que libera o acesso caso o internauta venha de um link de busca ou de redes sociais e permite que ele leia gratuitamente 10 textos por mês se chegar diretamente à homepage do jornal.
Nenhuma dessas três correntes provou até agora que pode ser a vencedora, mormente porque todas estão requentando na forma digital seu modelo clássico de negócio. As exceções, em relação ao “requentar”, seriam os jornais que partem para a venda de produtos de valor agregado, como o Guardian tenta fazer, mas ainda sem sucesso financeiro.
No entanto, a corrente que causa mais excitação entre os analógicos digitais é a do “paywall poroso”. Nada indica que esta tentativa de transpor o modelo tradicional (publicidade + conteúdo pago) para o mundo digital possa se revelar capaz de trazer receitas e lucros como o modelo clássico tem sido capaz de fazê-lo.
O recado que este texto procura dar, porém, é que os nativos analógicos só irão conseguir vencer estes desafios caso respeitem o que o digital tem de revolucionário: a interação. Os nativos analógicos responsáveis pelas atuais atividades da imprensa ainda a enxergam como uma indústria de informação pura. Mas a interação em rede (seja móvel ou fixa) colocou um ponto final na comunicação exclusivamente unilateral do jornalismo clássico. E mudou, com a ajuda da tecnologia, do software, a maneira de as pessoas lidarem com a informação.
A informação na era digital não é algo “complementar” ao jeito de ser da velha mídia, como ela corriqueiramente entende ser. A internet também não deve ser reduzida à condição de ferramenta de marketing ou de divulgação da imprensa tradicional. E a informação não corre solta no mundo digital. O negócio da imprensa no mundo digital é de outra natureza, muito mais complexo do que produzir conteúdo, imprimir e distribuir. Inclui capacidade de desenvolvimento tecnológico e o uso da interação para amplificar receitas.
O protagonista da imprensa que quiser vencer no mundo digital, seja nativo analógico ferrenho ou analógico digital convertido, vai precisar ampliar a visão do negócio caso queira se antecipar aos nativos digitais que tomarão conta desta indústria daqui há pouco, é questão de uma ou duas gerações. Essa ampliação pressupõe seguir a vocação da rede e compreender que se está numa indústria maior do que a da informação. Ele está na indústria da comunicação. E ela está na era digital, na era interativa. Isto pressupõe não apenas produzir conteúdo de qualidade, mas também software de qualidade, ou seja, além do conteúdo, produzir tecnologia para fazer face às demandas dos novos tempos – digitais.
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Caio Túlio Costa é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, professor do curso de pós-graduação da ESPM-SP, diretor do Comitê de Estratégia Digital da Associação Nacional de Jornais e sócio da MVL Comunicação.

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14:22 - 10/05/2012 | NO SEMINÁRIO DA PROXXIMA 2012

The Guardian: lição de jornalismo aberto

PUBLICADO NO SITE DA PROXXIMA 2012 EM 09/05/2012 ÀS 12:32

Executivo da área Digital do jornal britânico, Piers Jones mostrou à plateia do ProXXIma que abrir as portas para os leitores pode ser o segredo do sucesso para os veículos

BÁRBARA SACCHITIELLO

Digital first. Essas palavras, ditas logo no início do seminário de Piers Jones, gerente de produtos para plataformas digitais e redes sociais do The Guardian, deram uma síntese do que o público da edição de 2012 do ProXXima pode acompanhar: um exemplo concreto de um jornal que, apesar de sua tradição de mais um centenário de existência, não teve medo de inovar de acordo com o ritmo das novas tecnologias e forma de consumo de mídia.

Com a presença do jornalista, sócio da MVL Comunicação, Caio Tulio Costa, o seminário de Piers Jones foi uma apresentação das estratégias do The Guardian para manter o interesse e a atenção do público, em diferentes plataformas. O representante do veiculo inglês deixou claro que todo esse exemplo de inovação reside, primeiramente, na premissa de se tratar o digital como prioridade. “Quando recebemos uma noticia ou informação importante, não existe mais a duvida de coloca-la na internet ou de guarda-la para o papel. O Digital sempre vem à frente”, resume Jones.

Ele aproveitou o seminário para expor exemplos dos produtos digitais do jornal, como o site, os aplicativos para smartphones e tablets e os perfis do título nas redes sociais. O destaque dessa parte da apresentação foi o aplicativo do The Guardian para o Facebook, que foi desenvolvido após dois meses de trabalho, com o objetivo de criar uma maneira diferente de dar as noticias e entrar em contato com a audiência. Desde setembro de 2011, quando foi lançado, o aplicativo já foi baixado por mais de 11 milhões de pessoas.

Os leitores, alias, são tratados praticamente como colaboradores diretos dos jornalistas do The Guardian. Com enquetes, sugestão de noticias, discussão de assuntos, compartilhamento de informações, participação em eventos promovidos pelo jornal e outros canais de contato, os leitores são, constantemente, estimulados a participar e a colaborar com o conteúdo do grupo de mídia. “Nosso objetivo é fazer com que as pessoas passem mais tempo conosco. Esse crescimento da audiência, consequentemente, nos dá uma maior base para trabalhar comercialmente nossos produtos e conseguir gerar receita”, esclarece Jones.

Cabeça no futuro

Exemplo de publicação que segue na trilha do fornecimento gratuito de conteúdo – financiado pela publicidade – o The Guardian acaba indo na contra-mão de boa parte dos grandes jornais do mundo, que vêm estruturando seu modelo de negócios com base na cobrança pelo acesso ao conteúdo digital. Esse posicionamento do jornal britânico, segundo o jornalista Caio Tulio Costa, é um exemplo claro de que o The Guardian conseguiu enxergar algo que muitos veículos ainda relutam a ver: “O jornalista não é mais o ator principal da notícia. Ele precisa dividir esse palco com os leitores, que colaboram diretamente com o conteúdo”, frisou Costa.

Questionado sobre a aparente contradição entre priorizar o Digital enquanto a maior parte de sua receita publicitária ainda provem do jornal impresso, Piers Jones respondeu representando a filosofia de um título que, mesmo nascido em 1821, tem os dois pés e a cabeça no futuro: “Priorizar o Digital nada mais é do que reconhecer a mudança estrutural. O impresso ainda pode ser a maior fonte de receita, mas isso não será para sempre. Não sabemos se estamos construindo um modelo correto. Considerando, porém, a rápida evolução da tecnologia e dos leitores, acredito que vale a pena arriscar”, finalizou.

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