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	<title>Caio Túlio Costa &#187; Ensaios Acadêmicos</title>
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		<title>O papel da internet na conquista dos votos de Marina Silva</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Apr 2011 13:03:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[PUBLICADO NA REVISTA INTERESSE NACIONAL (Ano 4, Número 13, abril-junho de 2011), págs. 59 a 75.
Caio Túlio Costa*
A internet tem potencial para mudar radicalmente o fazer político. No Brasil, isso começou a ficar mais claro em 2010 e a atuação de Marina Silva na internet representou o maior diferencial na campanha presidencial. Ferramenta imprescindível na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><span style="font-size: small;"><span><em>PUBLICADO NA REVISTA INTERESSE NACIONAL (Ano 4, Número 13, abril-junho de 2011), págs. 59 a 75.</em></span></span></div>
<p><span style="font-size: small;"><span>Caio Túlio Costa*</span></span></p>
<p>A internet tem potencial para mudar radicalmente o fazer político. No Brasil, isso começou a ficar mais claro em 2010 e a atuação de Marina Silva na internet representou o maior diferencial na campanha presidencial. Ferramenta imprescindível na disseminação da causa do desenvolvimento sustentável, a internet teve papel estratégico na composição dos 19.636.359 votos do número 43, de Marina Silva, digitado nas urnas eletrônicas no primeiro turno. [<a href="http://ecorelease.files.wordpress.com/2011/04/paper-marina-silva-14042011.pdf">Clique aqui para baixar o PDF</a>]</p>
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		<title>Ética e mídia</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Dec 2009 13:50:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Capítulo do livro Cultura das Transgressões &#8211; Visões do presente, com prefácio de Celso Lafer e artigos de Marcílio Marques Moreira, Fábio Wanderley Reis, Caio Túlio Costa, Yves de La Taille e Içami Tiba. São Paulo: Etco/IFHC/Editora Saraiva, 2009.                                    
Caio Túlio Costa*
Dizer que a indústria da comunicação passa por uma revolução virou lugar-comum. Mas os momentos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Capítulo do livro </em>Cultura das Transgressões &#8211; Visões do presente<em>, com prefácio de Celso Lafer e artigos de Marcílio Marques Moreira, Fábio Wanderley Reis, Caio Túlio Costa, Yves de La Taille e Içami Tiba. São Paulo: Etco/IFHC/Editora Saraiva, 2009.</em>                                    </p>
<div><strong></strong>Caio Túlio Costa*</p>
<p>Dizer que a indústria da comunicação passa por uma revolução virou lugar-comum. Mas os momentos de esclarecimentos se acumulam. Aos poucos, permitem que se enxergue com clareza a transformação em curso. A explosão do jornalismo-cidadão no Irã, após a eleição presidencial de junho de 2009, quando os mecanismos da nova mídia (vídeos captados por celulares, blogs, mensagens curtas) permitiram que oposicionistas iranianos furassem o bloqueio do regime autoritário e exibissem ao mundo as manifestações contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, exemplificou como o poder de mídia passa a independer dos meios tradicionais de comunicação e consegue escapar dos mecanismos da censura. Exemplo dramático ocorrera nas Filipinas em 2001, quando a população, mobilizada por meio de celulares e e-mails, derrubou a ditadura de Joseph Estrada. Ou quando os espanhóis, em 2004, também apoiados por celulares e e-mails, apearam José Maria Aznar do governo.(1) E ainda em 2008, no Tibete, quando imagens de celulares driblaram a censura das autoridades e levaram ao mundo detalhes de protestos e repressão aos monges em Lhasa, a capital do país, contra a ocupação chinesa.<br />
Essa reviravolta traz desafios, problemas regulatórios, renovações estruturais e, em especial, dilemas éticos. São questões de grande amplitude, que têm a ver com culturas, com o entendimento da rapidez com que a tecnologia promove mudanças e de como ela ajuda a virar de ponta-cabeça negócios estabelecidos e a desestabilizar regras em construção há mais de meio milênio pela indústria da comunicação.<br />
Veja o caso de outro momento-chave, agora no Brasil, que desnuda mal-entendidos, principalmente em relação à questão ética. Em meados de 2009, os leitores de jornais puderam acompanhar aquilo que, antes de significar mais um episódio da reação negativa dos grandes jornais à revolução nas comunicações, iluminou a decadência do “quarto poder”. De quebra, exibiu o quanto a questão ética necessita de aprofundamento no tocante ao fim dos limites alimentados pela mídia tradicional.<br />
Em oito de junho de 2009, a principal associação brasileira da indústria produtora de jornais, a Associação Nacional de Jornais (ANJ, presidida por uma executiva da Folha de S. Paulo, Judith Brito, e tendo como vice-presidente e responsável pelo Comitê de Liberdade de Expressão o jornalista Júlio César Mesquita, da família fundadora de O Estado de S. Paulo, além de outros vice-presidentes, entre os quais João Roberto Marinho, da família que controla O Globo), divulgou uma nota num tom revelador da incompreensão da nova realidade.<br />
A manifestação começava assim: “A Associação Nacional de Jornais manifesta seu repúdio pela atitude antiética e esquiva com que a Petrobrás vem tratando os questionamentos que lhe são dirigidos pelos jornais brasileiros, em particular por O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, que nas últimas semanas publicaram reportagens sobre evidências de irregularidades e de favorecimento político em contratos assinados pela estatal e suas controladas”.<br />
Neste parágrafo há um verbo de forte simbologia política – repudiar – e dois adjetivos – antiético e esquivo. O primeiro, antiético, é o principal para esta discussão. O parágrafo seguinte começa com adjetivo e verbo, ambos igualmente de cunho negativo: “Numa canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas, a empresa criou um blog no qual divulga as perguntas enviadas à sua assessoria de imprensa pelos jornalistas antes mesmo de publicadas as matérias às quais se referem, numa inaceitável quebra da confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas fontes”. Prosseguia: “Como se não bastasse essa prática contrária aos princípios universais de liberdade de imprensa, os e-mails de resposta da assessoria incluem ameaças de processo no caso de suas informações não receberem um ‘tratamento adequado’. Tal advertência intimidatória, mais que um desrespeito aos profissionais de imprensa, configura uma violação do direito da sociedade a ser livremente informada, pois evidencia uma política de comunicação que visa a tutelar a opinião pública, negando-se ao democrático escrutínio de seus atos”.(2)<br />
 A nota funcionou, em parte, aos propósitos dos jornais. A Petrobras decidiu postar no seu blog as perguntas dos jornais somente na meia-noite do dia em que o assunto viesse a público, e não antes, quando elas chegassem à empresa, como havia começado a fazer. O pequeno recuo não invalida o fenômeno. E, se existem problemas éticos neste caso, eles se encontram no posicionamento da ANJ, e não na ação da Petrobras.<br />
Onde a ANJ foi buscar que os “princípios” da liberdade de imprensa impedem uma empresa de divulgar as perguntas que recebe desta mesma imprensa, não se sabe. Não existe nenhuma questão ética em jogo na atitude da empresa de abrir ao público as perguntas recebidas dos jornais, mesmo que sejam confidenciais. Se ela é a detentora da informação, ainda que solicitada a guardar sigilo, a ela cabe revelar ou não a demanda. Esta decisão lhe pertence, como pertence a qualquer fonte de informação da imprensa. Como também pertence igualmente à imprensa.<br />
Onde a ANJ foi pescar a ideia de que uma empresa não tem o direito de dizer que pode processar o jornalista se não se considerar adequadamente tratada, também não se sabe. Qualquer empresa, qualquer instituição, qualquer indivíduo, qualquer cidadão tem o direito inalienável, legítimo, de se adiantar para se defender quando considera que um órgão de comunicação pode vir a prejudicá-la ou prejudicá-lo – e tem o dever moral de informar isso ao veículo. No caso, foi o que fez a Petrobras.<br />
Onde a ANJ foi enxergar que defender direitos significa “tutelar” a opinião pública, muito menos se sabe. Qualquer um, qualquer empresa tem tanto o direito de desejar a não publicação de uma informação se aos seus olhos ela estiver errada, quanto o jornal tem o dever de publicar a informação se considerá-la dentro dos seus padrões de acuidade e confiabilidade. Negar esse direito é atuar, como sói acontecer, no terreno da moral provisória – pois a regra ética valeria para o jornal, mas não valeria para outrem. Mesmo guarnecida pela Constituição, a imprensa muitas vezes quebra o sigilo da fonte. Então o jornal pode e a fonte não? Ele pode publicar tudo o que sabe, mas a empresa está sendo antiética ao divulgar no seu site um pedido de entrevista, ainda que confidencial? Antiético é prometer e não cumprir. No caso, a empresa nada prometeu. Pode inclusive divulgar apenas o seu lado, afinal ela não é a imprensa.<br />
As assertivas da ANJ desnudam uma situação irreversível. O jornalismo tradicional perdeu poder com a nova configuração da indústria da mídia. Ele não é mais o principal ator da indústria de comunicação. Qualquer instituição, empresa ou indivíduo hoje pode ter poder de mídia.<br />
Pode não ter alcance.<br />
Pode não ter audiência.<br />
Pode não ter credibilidade.<br />
Pode não ter formação nem estar preparado para tanto.<br />
Pode não ter critérios éticos nem noções de filosofia moral.<br />
Porém pode sim ter poder de mídia.<br />
A tecnologia propiciou uma comunicação multi-interativa, multidirecional.  Destruiu a forma antiga de comunicação unidirecional. Deu aos homens o poder de levantar em rede mundial, a qualquer momento, qualquer dado, informação, imagem ou vídeo. Se a mensagem será consumida, será vista, comentada ou ignorada, é, claro, algo a ser considerado. O mais impactante, o mais estimulante, desafiante, novo e também o mais preocupante é que o mundo das comunicações mudou.<br />
Não adianta soltar nota, bater o pé, ameaçar – a liberdade de expressão ganhou foro infinito com o surgimento das novas mídias.<br />
Liberdade de expressão pressupõe responsabilidade. Portanto, a nova realidade da comunicação traz junto novos e monumentais problemas éticos, além de novas questões de fundo moral. Como lidar com privacidade, pedofilia, direitos autorais? Como saber se uma informação publicada num determinado site está correta? Como distinguir um site confiável? Como trabalhar com a enxurrada de informações ofertadas? Como lidar com fontes que agora têm poder de mídia? Como se defender da assimetria no mecanismo da comunicação? <br />
Informação e opinião não se encontram apenas nos veículos tradicionais da mídia emulados na internet. Elas estão nos sites empresariais e também nos institucionais, nos sites das agências de comunicação, nos sites individuais, nos blogs, nas redes sociais, nas pequenas mensagens do twitter&#8230; Por isso, é necessário examinar em maior profundidade os dilemas éticos que se apresentam nessa configuração.<br />
John Thompson, professor de sociologia na Universidade de Cambridge, Inglaterra, considera ter-se tornado corriqueiro para teóricos da sociedade e da cultura considerar a questão ética, e a própria reflexão sobre ela, uma preocupação do passado. Ela seria uma “expressão residual da razão legisladora que procurou – inutilmente e, em alguns casos, com desastrosas conseqüências – princípios universais e obrigatórios para a conduta humana”. Para ele, o “colapso do projeto universalista” (que se pode entender como o colapso do projeto da modernidade) teria deixado a investigação sobre a natureza e a finalidade da ética envolta numa “bruma de incerteza”.(3) O individualismo, nessa época de desintegração, teria aspirado a preocupação ética para a “estética do self”, a estética individual do eu mesmo.<br />
No que toca à mídia tradicional, num movimento relativista, não é que ela tenha “abandonado” o compromisso retórico com a razão legisladora de princípios universais. Ela vem relativizando as preocupações éticas desde sempre. A diferença é que, com o tempo, isso foi se tornando claro, transparente, aceitável, normal. O abandono foi progressivo. No entanto, continuou-se a criar códigos deontológicos para dar sentido normativo (idealístico) a uma ética no jornalismo que tem sido consistentemente detonada no dia-a-dia desse ofício. Como? A publicação de notícias unicamente de interesse imediato de pessoas, instituições ou empresas, advindas das mais diversas fontes e apresentadas sob uma única ótica e/ou enviesadas de deturpação, sem ouvir o outro lado, sem direito de resposta, sem a controvérsia, sem o contraditório – mesmo que a norma, enraizada em todos os manuais e em todos os procedimentos do jornalismo, mande reportar o contraditório.<br />
A preocupação ética, se existe formalmente e normativamente nas instruções da mídia tradicional, inexiste em inúmeras das suas práticas e, quando se fala em nova mídia, ela está no vácuo. As próprias empresas de mídia manejam com hipocrisia o uso das palavras “normas”, “ética” e “moral”. A preocupação moral se relativiza mais facilmente nesse novo sistema – seja pela falta de experiência dos seus novos atores (indivíduos sem formação humanística e/ou técnica em comunicação), seja pelo derretimento de valores sólidos ou ainda pela própria mimetização da relativização operada na pela mídia tradicional.<br />
Quando muito, agentes das novas mídias somam idealmente preocupações éticas (normativas) às já existentes, mas trazem novos problemas por conta da sua extensão, simultaneidade e possibilidade de unir numa mesma plataforma as várias formas de linguagem da comunicação (texto + imagem + movimento + áudio) para além da interatividade, o seu maior diferencial.<br />
Na nova realidade da esfera pública, o jornalista, subjugado pelos aspectos relativos da sua prática, deixou de ser o principal instrumento mediador da representação das representações. Menos pelos aspectos relativos e mais pelo desenvolvimento da técnica, que transformou a comunicação em algo participativo, interativo. As representações, individuais ou institucionais, emergem por si mesmas na mídia, sem dependência do jornalista, apesar de ele continuar existindo, continuar representando as diferentes representações que lhe permitem produzir um texto ou um vídeo e continuar a defender o uso de meios moralmente condenáveis (como gravações clandestinas, disfarces, câmeras ocultas) na busca da informação que ele considere de interesse público – e note que a definição de interesse público também pode ser contraditada, relativizada.<br />
As mudanças no comportamento do consumidor decorrentes das facilidades tecnológicas compõem a visão de que se chegou finalmente a um mundo convergente e interativo. Há a proliferação assimétrica do conteúdo. A audiência se fragmentou. A programação da televisão, inclusive, também se fragmentou. O público tem acesso a múltiplas plataformas. A publicidade se move para alvos cada vez mais definidos. As fronteiras clássicas da cadeia de comunicação são continuamente desafiadas e até os “valores” de mercado na indústria da comunicação se deslocaram. A captura e a própria manutenção do controle da informação tornaram-se críticas para essa indústria. Para o indivíduo-repórter autor de um vídeo de sucesso instantâneo e mundial, baseado no registro de imagens de uma celebridade, costuma ser irrelevante se o material foi capturado e publicado de forma legal ou ilegal – a rede vem desmantelando o conceito de legalidade.<br />
Veja a seguir em 28 tópicos(4), a maioria composta de dilemas éticos, e fartamente desdobráveis, a complexidade que a nova realidade introduz:<br />
1. Controle das redes. Apesar da percepção democratizante, há um controle da rede mundial. Ele está localizado nos Estados Unidos. Uma simples decisão desse grupo de controle pode bloquear o acesso à rede em qualquer parte do mundo. Os domínios dos sites da internet são administrados primariamente pela Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann), organização sem fins lucrativos baseada em Marina del Rey, na Califórnia. Na realidade, em várias medidas, o acesso à rede está tanto nas mãos dos Estados Unidos quanto de instituições, empresas e governos que podem mudar regras e criar barreiras tecnológicas e/ou financeiras a ela. Há mecanismos para driblar os controles locais, como aconteceu no Irã em 2009, mas, se a Icann bloquear a rede, não há o que fazer. Iniciativas como a do Digital Millennium Copyright Act, de 1998, vêm reforçar essa preocupação.(5) Um único país, por mais democrático que seja, deve deter a chave de controle da rede mundial? <br />
2. Diversidade cultural. A diversidade das culturas em rede, mesmo e paradoxalmente em tempos de homogeneização global, suportaria regras de validade universal? Quando se vê que mecanismos de busca, como o Google, são censurados localmente na China e não podem apresentar resultados idênticos aos apresentados em países democráticos (como procurar por praça da Paz Celestial e não encontrar informações sobre os conflitos entre polícia e estudantes, que aparecem normalmente numa busca global), a pergunta fica ainda mais relevante, mesmo que o exemplo seja político. Como compatibilizar, do ponto de vista ético, as diferenças culturais entre os povos conectados em rede? Ou esta seria uma falsa questão, portanto impossível produzir um código deontológico eficaz para todos os países em rede? <br />
3. Concentração. Nos anos 1980, existiam cerca de 50 empresas globais de comunicação. Este número caiu para 27 no começo dos anos 1990 e se reduziu a sete no começo do século XXI. Com o sucesso do Google, a conta fechou em oito empresas globais de comunicação, com faturamento anual superior a US$ 12 bilhões em 2009: Time Warner, Disney, Vivendi, News Corporation, Bertelsmann, Google, CBS e Viacom.(6) Juntas, representam mais de 40% do faturamento somado das 70 maiores empresas de mídia em todo o mundo. Essa enorme concentração se fundou principalmente na dispersão dos usuários dos diversos veículos da mídia tradicional e da nova mídia. A concentração se erigiu com a dispersão e a dispersão fundamentou a concentração. Esse é um movimento sem retorno?<br />
4. Profissionalização. Um dos resultados da concentração (leia tópico anterior) foi a invasão de indústrias sem tradição no negócio da comunicação (de maneira geral formado por empresas familiares). O grupo francês Vivendi (Canal +, Universal Music Group) vem da exploração e do comércio de água. O Grupo Dassault (fabricante de armas) está no jornal Le Figaro e no semanário L’Express. O grupo Lagardère, ligado à aeronáutica, à defesa e à indústria automobilística, entrou na mídia com a Hachette e com participação no Le Monde. O banqueiro Édouard Rotschild também entrou no Libération. A empresa de telecomunicações espanhola Telefonica é proprietária do portal Terra e se associou ao Grupo Abril na TVA (TV por assinatura), além de ter operação de DTH (TV por satélite). Ainda no Brasil, a Portugal Telecom, também empresa de telecomunicações, é sócia do UOL (Grupo Folha) e, em Portugal, é dona do portal Sapo. A mexicana Telmex controla a NET (TV paga, internet via cabo, telefone via internet) no Brasil. A empresa de telecomunicações Oi (de capital nacional), que lançou emissoras de rádio em 2005 e, em 2009, passou a distribuir TV em DTH, adquiriu o controle da Brasil Telecom, proprietária do Internet Group, aglutinador dos portais iG, iBest e BrTurbo. Os executivos profissionais estão mais bem equipados para comandar empresas de mídia do que as famílias tradicionais deste ramo? A decisão com base nos resultados das empresas não pode levar à censura de temas? Executivos profissionais teriam bancado, por exemplo, a publicação dos papéis do Pentágono se estivessem à frente do New York Times?<br />
5. Convergência. Tema complexo. Faz com que regras éticas de diferentes matizes se mesclem, criando situações de conflitos morais dos mais espinhosos e que se relativizam conforme as regras jurídicas de cada país. A começar pelo próprio conceito de convergência, cujo entendimento comum, simplório e equivocado é o da televisão virar computador ou do computador servir como televisão. Hoje se sabe que a convergência chega via chip, com seu poder de unir diversos aparelhos num só ponto de distribuição, seja no lar, no escritório ou na rua. Mas quem converge mesmo é o indivíduo, em um novo processo de comunicação, conforme anota Henry Jenkins.(7) É o indivíduo quem vai aceitar ou não, sentir-se confortável ou não com esse processo, que pressupõe uma comunicação móvel e pervasiva. Contribui enormemente para o alargamento do fosso presente na relação assimétrica com a informação. Os problemas morais decorrentes dessa situação de onipresença, com total conhecimento dos hábitos do consumidor por parte desta indústria e de seus satélites, se multiplicam devido à facilidade da adesão dos indivíduos aos aparelhos móveis de comunicação. O indivíduo terá consciência dessa realidade e saberá se defender dos riscos que ela implica?<br />
6. Convergência no celular. Um dos componentes menos estudados da nova mídia é o da convergência na telefonia móvel. O sentido do aparelho móvel enquanto parte da nova mídia se dá quando ele é usado para disseminar informação ou como interface de entretenimento. O celular pode funcionar como elo de comunicação e organização de criminosos em penitenciárias no Brasil e também ajudar a levar milhares de cidadãos para casa no “toque de recolher” de maio de 2006 na cidade de São Paulo. Se foi um fator chave na eleição de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos, ajudou a depor um chefe de Estado nas Filipinas, em 2001. Usado não apenas como aparelho de comunicação interpessoal, o celular recebe e emite informações, fotografa, grava vídeo, alimentando a rede com dados de toda espécie. Pode convergir com os demais artefatos da mídia, em todos os lugares onde haja recepção de seu sinal. Isso exige controle?<br />
7. Redes Sociais. Tornaram-se vedetes da web pela capacidade de criar comunidades afins (seja em torno de uma pessoa, um assunto ou uma causa) que podem se expandir e procriar subcomunidades, num amplo sistema de comunicação. Barack Obama se beneficiou desse mecanismo tanto para captar dinheiro para sua campanha presidencial de 2008 quanto para levar sua mensagem aos eleitores. Empresas usam as comunidades para pesquisar sua imagem e a de seus produtos ou serviços, para bisbilhotar perfis de candidatos a emprego e fazer marketing. Apesar de existirem códigos de conduta em cada rede social, as regras são burláveis e os problemas de segurança e privacidade se mantêm de forma igual aos da internet. As mais conhecidas são Orkut, Facebook, Ning e Linkedin.<br />
8. Conteúdo participativo, colaborativo. Os sites de conteúdo produzido pelo público, com atualizações realizadas a qualquer momento de qualquer lugar do mundo – cujo maior exemplo é a Wikipédia, enciclopédia inteiramente formatada na rede e escrita por meio de colaboração gratuita de milhares de pessoas anônimas –, é um problema a mais nos quesitos clássicos de confiabilidade. Mesmo tendo colaboradores voluntários a postos para corrigirem erros e omissões, o fato de ser atualizada on-line permite inserções repetidas de verbetes falsos, caluniosos ou criminosos. No que é possível verificar, um estudo realizado em 2005 pela revista científica Nature, em 42 tópicos comuns, reportou quatro erros por verbete na Wikipédia contra três erros por verbete na vetusta Enciclopédia Britânica.(8) A boa notícia é que, na Wikipédia, assim como na web, as correções podem ser imediatas.<br />
9. Mecanismos de busca. O Google é a sua face mais popular. Existem mais buscadores de porte, como o Yahoo e o Bing, este último pertencente à Microsoft (que anunciou, em julho de 1009, acordo com o Yahoo para explorar a publicidade online); e outros capazes de fazer buscas específicas, verticais, segmentadas. Esses mecanismos misturam num mesmo resultado conteúdos de credibilidade com conteúdos sem credibilidade ou de fontes duvidosas, sem serem capazes de fazer a distinção. Que tribunal mundial deveria se ocupar da credibilidade de conteúdos na internet? Qual algoritmo avançado poderia apurar o “grau” de “verdade” numa informação ou num conjunto de informações? Mesmo considerando a rapidez dos avanços na tecnologia (caso da web semântica), é provavelmente impossível supor uma ferramenta capaz de identificar “a verdade” nos complexos reinos da linguagem, das versões e da dita objetividade.<br />
10. Trabalho não-remunerado. Quando alguém digita uma palavra ou uma expressão nos sites de busca realiza um trabalho não-remunerado. Essa digitação produzida pelo usuário permite cruzamentos instantâneos das informações requeridas por ele, de resultados capazes de lhe mostrar imediatamente informações relacionadas ao que ele solicitou, bem como apresentar, com destaque, produtos ou serviços à venda na rede ou fora dela. O mecanismo de busca transforma a navegação do indivíduo em fonte de renda. Vende o resultado da busca para empresas ou indivíduos apresentarem produtos ou serviços relacionados àquelas e levar o internauta ao seu site. O internauta não deveria ser remunerado por este serviço gratuito que presta quando clica nos links que lhe apareceram?<br />
11. Nova publicidade. Manipulados por novas técnicas, os conteúdos podem misturar informação, entretenimento e serviço com material publicitário de forma pouco ou nada perceptível pelo público. Esse procedimento, opaco em muitos sites e portais, bombardeia a clássica separação entre “Igreja” e “Estado” criada pela mídia tradicional e em vigor em parte dela. O conteúdo editorial (cuja metáfora seria a Igreja) não deve se misturar com o conteúdo publicitário (cuja metáfora seria o Estado). Há uma “muralha” destinada a separar o departamento editorial do comercial. Essa separação – enunciada normativamente em muitas empresas ditas “de qualidade” – tende a se relativizar nas novas empresas multimídia. Nelas, as áreas de conteúdo e comercial planejam, projetam e trabalham em conjunto produtos desenhados especialmente para as necessidades de mercado. Problema moral: o que na velha mídia podia ser considerado teoricamente informação “pura”, na nova mídia, se confunde com mensagens publicitárias “disfarçadas” de informação.<br />
12. Marketing contextual. É a expressão dada às técnicas de publicidade que utilizam o contexto de uma página de internet para incluir mensagens publicitárias por meio da inserção de link para um site comercial em palavra ou expressão de um texto qualquer. Por exemplo: toda vez que aparecer a palavra “automóvel” em um texto jornalístico, essa palavra será linkada – por meio de um único clique – a um site de comercialização de automóveis. Trata-se de usar o próprio conteúdo editorial como suporte para mensagens publicitárias.<br />
13. Behavior advertising (ou publicidade comportamental). Publicidade baseada nas informações extraídas durante a navegação do internauta. Parecida com a técnica usada em larga escala pelo Google que, por meio da palavra de busca, devolve informação buscada pelo internauta, este tipo de publicidade devolve informação publicitária ligada aos assuntos das páginas pelas quais o internauta navega. A indústria tem se preocupado em lidar com isso de forma a não identificar o indivíduo, mas sim os padrões de navegação de quem está no comando da navegação. Sem querer e sem autorizar, cada indivíduo deixa suas preferências pessoais disponíveis nos sites pelos quais passeia, no histórico do seu caminho na rede. Elas podem ser capturadas por um mecanismo que anota e relaciona este passeio pela web, o interesse por determinados assuntos. Como mecanismo de defesa, o público deve dominar ferramentas que impeçam o rastreamento de informações durante a navegação em rede – seja via computador ou celular. A saída, tanto pelo lado regulatório quanto individual, é exigir transparência das empresas que usam este tipo de marketing no sentido de deixar claro o mecanismo aos olhos do internauta.<br />
14. Prosumer (produtor + consumidor). A palavra define o consumidor avalia produtos e assim ajuda consumidores e empresas. Qualquer internauta pode deixar um comentário num site comercial e os consumidores poderão se orientar (ou se desorientar) em relação àqueles bens ou serviços oferecidos. Isso dá um poder inédito ao consumidor. Porém nem todos os administradores de site de comércio eletrônico permitem a publicação de críticas negativas ou reclamações. Nos sites independentes, de comparação de preços, os comentários são mais livres. Nos que representam fabricantes, os comentários podem ser filtrados e/ou mediados. Dilema: como lidar com as críticas infundadas sem tirar do consumidor esta novíssima ferramenta de análise e de feedback?<br />
15. Jornalismo e entretenimento. Assim como pode haver confusão entre informação e propaganda, pode haver também entre o que é jornalismo e entretenimento. Na nova mídia, é mais difícil separar visualmente uma categoria da outra. Informação se confunde com entretenimento e vice-versa. Jogos on-line, shows, música, cinema, produtos e serviços diversos se confundem numa mesma plataforma de informação, exibição e comercialização. Você pode receber no seu celular um torpedo para votar no herói mais corajoso de todos os tempos e acabar direcionado a um site, seja no seu próprio celular ou no seu computador, de jogos on-line gratuitos – mas patrocinados por um anunciante qualquer.<br />
16. Jornalismo inexato. Para estarem na rede justapostos aos acontecimentos que são notícias, os textos (ou vídeos) são produzidos e cosidos em alta velocidade. A web não dá tempo ao jornalismo para uma pesquisa minimamente acurada. Por isso, as informações surgem inexatas. Dilema: o jornalismo deve segurar a notícia quando inexata? Neste caso, a web demonstra na prática que não. A exatidão é a vítima da pressa, que é inerente ao processo de notícia em tempo real. O que difere a nova mídia da comunicação tradicional é que a informação inexata pode ser corrigida e ampliada on-line, imediatamente depois de publicada – coisa que não acontece com a mídia impressa. O erro só poderá ser corrigido no outro dia pelo jornal (quando o é), na outra semana pelo semanário ou no outro mês pela publicação mensal.<br />
17. Indivíduo-repórter. Trata-se de qualquer um que se aventure na rede com site próprio, blog ou participação em portais e empresas que agregam conteúdos colaborativos, mas que atua sem “preocupação social”, ao contrário do cidadão-repórter. O indivíduo-repórter produz conteúdos e interfere em conteúdos de terceiros. Em geral, opina, dá curso a boatos ou a informações factuais. Chama a atenção para assuntos que não estão na mídia ou interfere naqueles que estão em pauta. Pode aparecer sempre ou de vez em quando. Usa a rede porque ela está à sua disposição. O dilema está em como a sociedade deve lidar com quem não tem formação técnica nem ética para exercer comunicação de massa, mas a exerce.<br />
18. Cidadão-repórter (citizen journalist, na expressão em inglês – modalidade também chamada de jornalismo participativo, participatory journalism, ou de jornalismo popular, people journalism). Conforme a definição dada por Shayne Bowman e Chris Willis, o cidadão-repórter é aquele que “joga um papel ativo no processo de coletar, reportar, analisar e disseminar notícias e informações”. A intenção do cidadão-repórter seria “prover informação independente, confiável, acurada, abrangente e relevante conforme requer a democracia”.(9) Não deve ser confundido com o jornalista profissional. Em tese, teria as mesmas preocupações morais do jornalista. O cidadão-repórter seria o seu êmulo. A dificuldade, ou melhor, a impossibilidade, é a de dotar todos os indivíduos que atuam na rede de uma concepção consensual do significado de cidadania e democracia.<br />
19. Indivíduo-repórter x cidadão-repórter x jornalista. O jornalista perde a proeminência que sempre teve. Perde tanto para os indivíduos-repórteres (quando estes usam a rede para publicar informações positivas ou negativas, corretas ou erradas, sérias ou frívolas) quanto para os cidadãos-repórteres (quando estes usam a rede na defesa de ideais, para fazer política ou denunciar falcatruas). Essa competição pode incluir o uso invertido das intenções. Não apenas o jornalista, mas também o indivíduo-repórter e o cidadão-repórter podem utilizar a rede para caluniar, difamar e injuriar pessoas e instituições.<br />
20. Inexperiência do indivíduo-repórter ou do cidadão-repórter. A inexperiência não leva a erros, omissões e distorções ainda mais graves do que as protagonizadas pelo profissional experiente? Dominique Wolton toca nesse assunto quando fala que o “contexto da competência” é essencial. Para ele, “se não se tem a competência para assimilar o aprendizado, os sistemas de informação e de conhecimentos erguerão outros tantos muros intransponíveis”. Antes, havia a figura do professor ou de um pesquisador para facilitar o acesso ao conhecimento. Agora, a rede propicia a qualquer pessoa o “contato direto” com a “imensidão do saber da humanidade”.(10) O consolo é que a falta de experiência seja talvez o único dos defeitos que melhora com o tempo.<br />
21. Privacidade. Não há privacidade para pessoa de exposição pública, seja celebridade, político, artista, executivo&#8230; As invasões de privacidade multiplicaram-se geometricamente com as novas mídias, com a facilidade na coleta de informação por câmeras em celulares e aparelhos digitais diminutos, além de formas sofisticadas de gravação clandestina de conversas, não importando onde esteja o “alvo” – lugar público ou privado. A principal resolução moral para esse problema, no entanto, concerne mais à pessoa exposta do que ao agente de comunicação.<br />
22. Fontes. As fontes de informação agora podem publicar diretamente informação e opinião em seus sites pessoais ou institucionais – muitas vezes travestidos de sites independentes e informativos. Qual a transparência na publicação de dados e informações nos sites institucionais, empresariais ou políticos? Em todo caso, há transparência na publicação de dados nos relatórios, livros, revistas e house organs tradicionais?<br />
23. Limites individuais em casos de conflito de interesses. O fato de alguém usar seu próprio site ou blog em causa própria sem que o usuário sequer imagine existir interesse pessoal por trás da informação publicada é bastante comum. Veja exemplos corriqueiros na velha mídia, agravados pelas novas mídias: o crítico gastronômico almoça de graça e depois escreve a crítica do restaurante. O jornalista ou indivíduo-repórter viaja gratuitamente, a convite de uma empresa aérea, cadeia de hotel ou agência de viagem, e escreve sobre a viagem. É possível reportar a viagem com isenção? Como lidar com essa questão com transparência? Os sites de gastronomia ou de turismo não deveriam deixar isso claro quando ocorrer? Ou não se deve aceitar o convite? O mesmo problema existe na crítica musical, cinematográfica, teatral, literária, esportiva&#8230;<br />
24. Boatos. Usar a rede para dar curso a boatos, a visões parciais, fúteis, porém “saborosas”, ou usar a rede somente para publicar informações de interesse público? De novo: o que é “interesse público”? Quem o define?<br />
25. Direito autoral. Os problemas de direito autoral são provocados pela facilidade da reprodução de dados digitais (música, vídeos) e de copiar e colar (texto, imagens). São questões de direito autoral, direito de imagem, direito de arena e de preservação de direito adquiridos para divulgação de informações, obras, vídeos, material captado ao vivo ou não, com ou sem autorização, postado em vários sites, a partir de qualquer ponto do planeta, sem proteção jurídica ou norma ética de valor universal. Iniciativa como a do Creative Commons (instituição sem fins lucrativos que redigiu um conjunto de licenças para a administração livre, totalmente aberta e compartilhada de informação – copy left, em vez de copyright) mostra como a criatividade e outras formas de entendimento do direito autoral precisam ser desenvolvidas para enfrentar os desafios da distribuição de conteúdos em rede. O Creative Commons flexibiliza o uso de obras protegidas por direitos autorais. Com a licença Creative Commons um compositor autoriza outros artistas a utilizar suas composições para criar uma mistura de ritmos, por exemplo. Um escritor pode dispor um texto na rede, gratuitamente, e permitir que outros autores o republiquem, parcial ou integralmente e até modifiquem o original.<br />
26. Questões das minorias étnicas e de gênero. O entendimento e a abordagem dessas questões variam conforme as culturas regionais e nacionais e podem evidenciar sérios problemas de racismo ou de preconceito por conta da compreensão local, regional ou nacional de uma mesma informação, cujo entendimento pode variar conforme a educação e a cultura de cada povo.<br />
27. Plataforma de expressões ilegais ou “doentias”. Sites de “grupos de ódio”, conforme explica Jon Ann Oravec, crescem em número e variedade, enquanto cresce também a quantidade de informações relacionadas a preconceito e à violência, muitas das quais ensinam como seqüestrar, planejar atentados, construir bombas, reforçar vícios, simular doenças, manter comportamentos doentios&#8230;  A população em rede tem sido a maior fonte do descobrimento e da denúncia deste tipo de site.<br />
28. Sites de conteúdos sexuais e pornográficos. Quais os seus limites? E deve ter limites? Inerente a essa discussão, aparece o problema da pedofilia (crime) e todos os derivados da questão, assim como os mecanismos de exposição, de acesso e de controle, principalmente em relação ao público infantil. Assunto de polícia e para o qual está voltada a atenção das autoridades. Os provedores de acesso à internet têm cooperado ativamente no levantamento de dados capazes de levar aos criminosos – mesmo e apesar da diferença entre as leis dos diferentes países.<br />
Os exemplos capazes de revelar novos problemas éticos, além daqueles tradicionais realimentados pelas novas mídias, se acumulam. Este trabalho não daria conta de enumerá-los. Como ensina Wolton, acessar diretamente a informação e o conhecimento coloca problemas bem mais radicais do que usar a internet para comprar no supermercado, reservar passagem aérea ou consultar sua agência bancária. Não se trata mais e apenas de ter acesso a informação e conhecimento produzidos por qualquer um, mas da possibilidade de qualquer um produzir informação.<br />
As questões recolocadas em discussão expõem tanto o jornalista tradicional, o indivíduo-repórter, o cidadão-repórter, assessores de imprensa, agências de comunicação, empresas e instituições, como qualquer um que se aventure na rede, a uma responsabilidade moral, do ponto de vista da moralidade clássica, jamais suspeitada. O normativo perdeu substância porque o funcional é a conseqüência lógica de uma prática universal, que, em função das circunstâncias, simplesmente ignora ou torce preceitos definidos pela moralidade teórica tecida na modernidade.<br />
Nessa situação generalizada – na qual qualquer um pode comandar a informação, da simples notícia sobre o trânsito, passando pela informação sobre que empresas podem ter suas ações mais valorizadas na bolsa de valores e chegando à sofisticada criação de algoritmos capazes de juntar informações correlatas dispersas pelas redes –, a raiz moral vem se decompondo quando se sabe melhor, a partir de Stiglitz, das imperfeições da comunicação, mesmo sob o domínio das mais portentosas técnicas da mídia, e que elas são assimétricas na comunicação como um todo.<br />
Um lado sempre tem mais informação do que o outro no processo da comunicação. Isso vem do fato inequívoco de que pessoas diferentes sabem coisas diferentes. Não há texto em jornal, revista ou site noticioso da internet (exceção quanto aos produzidos pelas instituições especializadas), nem há reportagem radiofônica ou televisiva que resista à análise apurada de um especialista. Como não há também na internet, a menos que seja o especialista o autor. Mesmo assim, ele corre o risco de ser contraditado por um par. Assimétricas, as informações dançam conforme as necessidades – além de terem sido vulgarizadas e facilitadas para a compreensão média do público ou, para conforto dos comunicadores, para compreensão do “grande público”. O nivelamento praticado pela indústria da cultura assim o exige e assim realimenta a cadeia da informação, que vai sistematicamente se nivelando sempre a um ponto mais abaixo, numa barafunda de dados na qual se misturam informações colhidas das mais diversas fontes – confiáveis ou não.<br />
A situação é complexa porque “ser é perceber ou ser percebido”, conforme o filósofo irlandês George Berkeley esclareceu lá em 1710.  Como se diz, as coisas só existem porque são percebidas. Não há nada que embase tão bem a ideia da onipresença da mídia: o que não está na mídia não é. Porque não pode ser percebido. Não há como perceber se não for midiático, se não estiver na internet, num jornal, revista, rádio, televisão&#8230;<br />
Capazes de dar ainda mais sentido à frase de Berkeley, as formas tradicionais de comunicação e a nova mídia se amalgamaram na faina do fazer perceber. Se a questão ética sempre foi problema sério para a indústria da comunicação tradicional, as novas mídias só vieram ampliá-lo.</p></div>
<p> </p>
<p><strong>Referências bibliográficas</strong></p>
<p>ANDERSON, Chris. <em>The long tail: why the future of business is selling less of more</em>. New York: Hyperion, 2006.</p>
<p>BAGDKIAN, Ben. <em>The media monopoly. Third Edition, revised and expanded with the latest information the expansion of global communication</em>. Boston: Beacon Press, 1990.</p>
<p>BERKELEY, George. <em>Tratado sobre os princípios do conhecimento humano</em>. São Paulo: Abril Cultural, Coleção Os Pensadores, 1973.</p>
<p>BOWMAN, S. and WILLIS, C. &#8220;We media: how audiences are shaping the future of news and information&#8221;. The Media Center at the American Press Institute, 2003.</p>
<p>COSTA, Caio Túlio. <em>Ética, jornalismo e nova mídia – uma moral provisória</em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.</p>
<p>_______.<em> Ombudsman – o relógio de Pascal</em>. São Paulo: Geração Editorial, 2006.</p>
<p>DREYER, D. <em>Organizational change in the global media markets – Causes and consequences.</em> Alemanha: Westtälische Wilhelms/Universität Münster, janeiro de 2003.</p>
<p>JENKINS, Henry. <em>Convergence culture – where old and new media colide</em>. New York: New York University Press, 2006.</p>
<p>ORAVEC, Jo Ann. “On-line advocacy of violence and hate-group activity: the internet as a platform for the expression of youth aggression and anxiety” in WOLF, Mark J.P. (editor). <em>Virtual morality – morals, ethics, new media</em>. New York: Peter Lang. 2003, pp. 119-134.</p>
<p>THOMPSON, John B. <em>A mídia e a modernidade – uma teoria social da mídia</em>. Rio de Janeiro: Vozes, 2004.</p>
<p>WOLTON, Dominique. <em>Internet, e depois? Uma teoria crítica das novas mídias</em>. Porto Alegre: Sulina, 2003.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Notas</strong><br />
(1) O Estado de S. Paulo, 09/06/09: p. A6.<br />
(2) Thompson, 2004: p. 224.<br />
(3) Parte dos tópicos vem do capítulo “Relativismos” de Costa, 2009.<br />
(4) Ou DMCA, lei do direito autoral dos EUA. Criminaliza a produção e a difusão de tecnologias, dispositivos ou serviços destinados a inibir o acesso aos direitos autorais.<br />
(5) Baseado nas informações de Costa, 2006; em Bagdkian, 1990 e Dreyer, 2003.<br />
(6) Jenkins, 2006.<br />
(7) Anderson, 2006: p. 69.<br />
(8) Bowman &amp; Willis, 2003.<br />
(9) Wolton, 2003: p. 135-6.<br />
(10) Oravec, 2003: p.119.</p>
<p>*Caio Túlio Costa é jornalista, professor de Ética Jornalística, doutor em Ciências da Comunicação pela USP e consultor de novas mídias. Este texto expande e atualiza dados contidos em <em>Ética, jornalismo e nova mídia – uma moral provisória</em> (Zahar, 2009).</p>
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		<title>Jornalismo como representação da representação</title>
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		<pubDate>Wed, 20 May 2009 19:57:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Intitulado &#8220;Jornalismo como representação da representação: implicações éticas no campo da produção de informação&#8221;, foi publicado na revista acadêmica <a href="http://www.facasper.com.br/pos/libero/libero_n23.php" target="_blank"><em>Líbero</em> (São Paulo – v. 12, n. 23, p. 29-41, junho de 2009)</a>, do programa de pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero. Este texto reproduz parte do primeiro capítulo da tese de doutorado “Moral provisória – ética e jornalismo: da gênese à nova mídia”, defendida em junho de 2008 na ECA-USP. A tese foi publicada em livro pela Zahar (<em>Ética, jornalismo e nova mídia &#8211; uma moral provisória</em>) em 2009. Para baixar versão em PDF clique aqui:  <a href="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/05/libero_representacao_final.pdf">libero_representacao_final</a>.</p>
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		<title>Sobre o medo em SP: ainda o espetáculo</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Apr 2009 19:49:31 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/04/medoum.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1675" src="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/04/medoum.jpg" alt="" width="72" height="101" /></a>Publicado na <em>Revista USP</em> de número 80 (de dezembro, janeiro e fevereiro de 2008-09), quando ela comemora seus 20 anos, este texto de Caio Túlio Costa é uma adaptação do sexto capítulo da tese de doutorado defendida em 2008 na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). A mesma adaptação se refere ao capítulo sétimo do livro <em>Ética, jornalismo e nova mídia &#8211; uma moral provisória</em> (Zahar, 2009) que é a tese transformada em livro. O texto começa na págs. 98 da revista e vai até a pág. 110. Para ler o arquivo em PDF, <a href="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/04/medo-em-sp-rev-usp-803.pdf" target="_blank">clique aqui.</a></p>
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		<title>Por que a nova mídia é revolucionária</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Feb 2009 13:32:12 +0000</pubDate>
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		<title>O jornalismo não será o ator principal</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Feb 2009 20:35:10 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Por Caio Túlio Costa em 20/10/2005
Excertos de paper intitulado &#8220;Modernidade líquida, comunicação concentrada&#8221;, publicado integralmente na Revista USP (nº 66); texto citado no programa Observatório da Imprensa na TV (nº 349, 18/10/05) pela professora Marilena Chaui, em sua análise sobre os processos de construção da notícia. Publicado no Observatório da Imprensa.
Nos primeiros anos deste século 21, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Caio Túlio Costa em 20/10/2005<br />
<em>Excertos de paper intitulado &#8220;Modernidade líquida, comunicação concentrada&#8221;, publicado integralmente na Revista USP (nº 66); texto citado no programa Observatório da Imprensa na TV (nº 349, 18/10/05) pela professora Marilena Chaui, em sua análise sobre os processos de construção da notícia. Publicado no Observatório da Imprensa.</em></p>
<p>Nos primeiros anos deste século 21, a indústria da comunicação consolidou mudanças radicais em sua estrutura. Num processo nunca visto de fusões e aquisições, companhias globais ganharam posições de domínio na mídia. Os seis maiores conglomerados – Time Warner, Walt Disney, Vivendi-Universal, Viacom, Bertelsmann e News Corporation – passaram a gerar juntos US$ 160 bilhões de receita, mais de um terço da receita total de US$ 415 bilhões das cinqüenta maiores companhias de mídia, em todo o mundo [ver Dreyer, D. Organizational Change in the Global Media Markets – Causes and Consequences. Westfälische Wilhelms-Universität Münster, Alemanha, Janeiro de 2003].</p>
<p>Nas fusões, a norte-americana Time Warner uniu-se à America Online. O grupo europeu Vivendi fundiu-se com o Canal Plus, mais Seagram e NBC, da General Electric. O grupo Viacom adquiriu a CBS Corporation&#8230; Três entre estes seis encontram-se entre os 250 maiores grupos do planeta controlados por famílias: Viacom, Bertelsmann e News Corporation.</p>
<p>Os três tinham seus patriarcas em idade avançada no começo do século indicando rápida mudança geracional. Em 2005, o comandante da Viacom, Summer Redstone, completou 81 anos e Rupert Murdoch, da News Corporation, 71 anos. Em 2001, a Bertelsmann adiantou-se e resolveu o problema sucessório. Seu comandante, Reinhard Mohn, então com 78 anos, transferiu o controle da companhia para executivos e membros da família [ver Financial Times, "US Media", 24 de fevereiro de 2005].</p>
<p>Fundado em 1954, o grupo norte-americano Viacom fatura cerca de US$ 25 bilhões por ano e tem mais de 120 mil empregados. Além de cinema (Paramount) e operações em internet, possui 39 emissoras de televisão (como CBS e MTV), 185 estações de rádio e uma editora como a Simon &amp; Schuster.</p>
<p>O grupo alemão Bertelsmann, com receitas próximas a US$ 20 bilhões anuais e 80 mil funcionários, tem participação em 600 empresas diferentes e presença em 60 países. Possui negócios nas áreas de livro (Random House), de música (BMG), de revista e de televisão. Transformou-se em império global depois da segunda guerra mundial, pelas mãos de Reinhard Mohn – descendente de Carl Bertelsmann, o fundador da pequena editora religiosa, em 1835, depois transformada em gigante multinacional.</p>
<p>A News Corporation, de Rupert Murdoch, fundada na Austrália em 1923, pelo pai de Rupert, Sir Keith Murdoch, nasceu como empresa de jornal. Exibe receitas de US$ 18 bilhões anuais e 35 mil empregados. Opera com satélite e TV paga (Sky, Direct TV), televisão (a conservadora Fox), cinema (20th Century Fox), jornais (London Times, New York Post), editoras (Harper Collins), revistas (Weekly Standard) e esporte (o time de &#8220;baseball&#8221; Los Angeles Dodgers). (&#8230;)</p>
<p>As preocupações com a concentração no mercado e o reinado de grupos familiares na mídia intensificaram-se no começo dos anos 90. Dois patriarcas cujas iniciais levam as letras R e M – Robert Maxwell e Rupert Murdoch – eram os ícones. Por coincidência, outro magnata das comunicações com as mesmas iniciais – Roberto Martinho – era a preocupação no cenário brasileiro.</p>
<p>Maxwell, filho de pai tcheco, naturalizado francês e britânico, morreu aos 68 anos, em novembro de 1991, em circunstâncias misteriosas. Caiu, jogou-se ou foi atirado ao mar de seu iate, no Mediterrâneo, o que interrompeu toda a agressividade da Maxwell Communications Corporation. O australiano-americano Murdoch demonstrou enorme apetite para engolir os menores, como o fez nos Estados Unidos, na Inglaterra e no Brasil, por exemplo, ao adquirir o controle da Direct TV (ex-Grupo Abril) e da Sky (ex-Grupo Globo). Na parte menor do trio, que acabou sócia de Murdoch, o brasileiro Roberto Marinho morreu em agosto de 2003. Desde então, a família Marinho toureia uma crise financeira que levou o grupo, por conta de investimentos na televisão a cabo e internet, a uma dívida de cerca de US$ 1,7 bilhão.</p>
<p>&#8220;Em dez anos, existirão apenas dez corporações globais de comunicações. Eu&#8230; espero ser uma delas&#8221;, estimava Maxwell em 1984. Como visto, não deu tempo. Morreu antes de passar os dez anos da sua profecia, mas ela completou-se de outra maneira: duas décadas depois de proferida, apenas seis corporações detinham quase 40% das receitas globais do setor e a metade delas era liderada por grupos familiares [para a profecia, ver The Media Monopoly de Ben Bagdkian].</p>
<p>Na realidade, restam sete grandes. &#8220;O número de corporações midiáticas está se reduzindo, a tal ponto que é possível contá-las nos dedos das mãos. Se nos meados dos anos 80 do século passado estas transnacionais eram cerca de meia centena, em 1993 tinham-se reduzido a 27 e no final de 2000 eram apenas sete: Disney, Time Warner, Sony, News Corporation, Viacom, Vivendi-Universal e Bertelsmann. Todas elas provêm de países ricos: EUA, Europa e Japão&#8221; [ver Se cayó el sistema – Enredos de la sociedad de la informacíon, de Sally Burch, Osvaldo Leon e Eduardo Tamayo].</p>
<p>Os autores da afirmação acima, Sally Burch, Osvaldo Leon e Eduardo Tamayo, acrescentam a japonesa Sony (Sony Music e Sony Pictures faturam cerca de US$ 9,2 bilhões por ano) aos grandes conglomerados mundiais da comunicação. Com isso, fecham o cerco e requentam a profecia de Maxwell. O século 21 começou com menos de dez grandes conglomerados de mídia de alcance global. Estreou concentrado.</p>
<p>Como satélites dos sete conglomerados midiáticos globais, em um segundo nível, encontram-se apenas cerca de 70 outras empresas de mídia direta ou indiretamente relacionadas com eles. &#8220;São potências nacionais ou regionais e controlam nichos de mercado. Entre um terço e a metade destas corporações de segundo nível são da América do Norte; a maioria das outras é da Europa ou do Japão. Muitas delas – nacionais ou regionais – foram criadas à margem dos impérios editoriais e televisivos. Algumas destas empresas de segundo nível estão classificadas entre as mil maiores empresas do mundo, com faturamento de um bilhão de dólares por ano (&#8230;)&#8221; [idem, Se cayó el sistema].</p>
<p>&#8220;Europa e América Latina tampouco escapam à tendência oligopólica&#8221; – escreve o trio. &#8220;O conglomerado alemão Bertelsmann, primeira casa editora mundial, comprou o Grupo RTL e controla na França a Radio RTL e a cadeia de televisão M6; Silvio Berlusconi é proprietário das três principais redes privadas da Itália e, enquanto presidente do Conselho de Governo, controla o conjunto das redes públicas; na Espanha, a empresa Prisa controla o diário El País, a rede de radio SER, o canal pago Canal Plus da Espanha e o principal grupo editorial&#8221; [idem, Se cayó el sistema].</p>
<p><strong>Situação brasileira</strong></p>
<p>No Brasil, nas três últimas décadas do século passado, eram dez grupos familiares que controlavam a quase totalidade dos meios de comunicação de massa: Abravanel (SBT), Bloch (Manchete), Civita (Abril), Frias (Folha de S.Paulo), Levy (Gazeta Mercantil), Marinho (Globo), Mesquita (O Estado de S.Paulo), Nascimento Brito (Jornal do Brasil), Saad (Bandeirantes) e Sirotsky (Rede Brasil Sul).</p>
<p>O panorama agravou na virada do século, com a crise econômica que sacudiu todas essas empresas. O jogo de forças sofreria modificações também com a ajuda das mudanças constitucionais de dezembro de 2002, que permitiram a participação estrangeira no capital das empresas jornalísticas (máximo de 30%), além da participação de pessoa jurídica, até então vetada.</p>
<p>Nos primeiros anos do novo século, quatro dos dez grupos familiares foram atingidos, sacudidos por uma crise que, na realidade, havia pegado três deles muito antes da virada de século. O furacão levou em seu torvelinho o grupo Bloch, fez mudar de mãos o Jornal do Brasil (Nascimento Brito) e também a Gazeta Mercantil (Levy) – ambos passaram para o controle do empresário Nelson Tanure – e retirou das mãos da família Mesquita a gestão do grupo Estado.</p>
<p>Ineficiência na competição com o Grupo Globo, queda de circulação nas revistas (Manchete, Fatos&amp;Fotos, Pais&amp;Filhos&#8230;) e graves problemas de gestão empurraram o grupo Bloch para o seu fim. Apesar do título continuar vivo, idem para o Jornal do Brasil nos três quesitos, com a diferença de que a queda de circulação foi no produto jornal, que, além de perder leitores, perdeu também o &#8220;glamour&#8221; e a credibilidade conquistados principalmente durante os anos 60. No caso da Gazeta Mercantil foram os problemas de gestão que a levaram de roldão.</p>
<p>Se o novo século surgiu com seis dos dez velhos grupos tradicionais de mídia ainda sob o comando das respectivas famílias (Abravanel, Civita, Frias, Marinho, Saad e Sirotsky), três entre esses sobreviventes passaram a dividir parte de seu capital com empresas estrangeiras. O grupo Abril vendeu 13,8% de suas ações a fundos norte-americanos de investimento administrados pela Capital International Inc. O Grupo Globo virou sócio minoritário de Rupert Murdoch na Sky Brasil e vendeu 36,5% do capital votante da NET (distribuição de TV paga) para a Telmex, grupo mexicano de telecomunicações. O Grupo Folha cedeu 20% de todo o seu capital para a Portugal Telecom, a PT, que era sua sócia, anteriormente, apenas na operação de internet, o UOL.</p>
<p>Novidade não prevista em lei foi o fato de empresas internacionais, cem por cento de capital estrangeiro, praticarem jornalismo no país via comunicação eletrônica. Empresas como America Online, Terra, Reuters, Bloomberg e muitas outras que nasceram e cresceram (ou já morreram) durante o fenômeno de implantação da internet comercial apuram, editam e publicam notícias em solo nacional, via internet, como qualquer companhia de mídia brasileira, reforçando uma realidade segundo a qual as fronteiras na mídia não são mais geográficas e tornam-se cada vez menos culturais – fruto da paulatina concentração das empresas de comunicação.</p>
<p>Mesmo outras iniciativas de mudança constitucional para garantir a empresas brasileiras o monopólio na produção e comercialização de conteúdos (editoriais, de entretenimento, multimídia ou não), uma vez aprovadas, são inócuas por conta da completa dissolução das fronteiras: é possível construir conteúdo multimídia em qualquer língua a partir de outro país e dispô-lo para consulta universal via internet. [Em meados de 2005 tramitava no Senado brasileiro uma Proposta de Emenda Constitucional neste sentido, a PEC-55.]</p>
<p><strong>Convergência introduz novos atores</strong></p>
<p>Os três autores do paper patrocinado pelo Centro Internacional de Investigações para o Desenvolvimento, do Canadá, Burch, Leon e Tamayo, dizem que se atribui a concentração na indústria cultural à &#8220;convergência digital&#8221;, que &#8220;dissipa as barreiras antes existentes entre os diferentes meios (rádio, televisão e imprensa) e inclusive entre setores diferentes (telecomunicações, informática e comunicação de massas), reduzindo textos, imagens e som a somente um único suporte digital: o bit&#8221;.</p>
<p>O trio considera essa explicação &#8220;parcial e insuficiente&#8221;, porque a &#8220;força motriz da atual concentração midiática e cultural é a busca incessante do lucro&#8221;. Reitera: &#8220;O que impulsiona as grandes empresas a sair de seus marcos nacionais rumo à conquista dos mercados globais é o afã de obter os maiores ganhos no menor tempo possível, sem meditar sobre os meios que irão empregar para conseguir seus fins&#8221; [idem, Se cayó el sistema, pág. 40].</p>
<p>Este argumento é pueril em toda a sua construção, dado que a questão dos maiores ganhos é imanente ao próprio sistema da indústria cultural. Os meios para obter determinados fins (os lucros) estão inseridos na indústria da cultura, independentemente do formato da mídia, desde que ela se estabeleceu enquanto indústria de escala, no século 19. Os três poderiam ter optado pela explicação via &#8220;irracionalidade e cegueira moral da competição de mercado&#8221; [conforme Zygmunt Bauman no seu O mal-estar da pós-modernidade, pág. 34], mas preferiram a explicação simplista.</p>
<p>O fato novo – também lembrado pelo trio – é que empresas cuja tradição não se encontra na indústria da comunicação (nem na indústria da distribuição e, muito menos, na indústria do conteúdo) começam a dominar um sistema tradicionalmente tocado por famílias ou empresas cujas marcas impuseram-se, principalmente, pela construção de conteúdos, mesmo quando dominavam toda a cadeia, da produção à distribuição.</p>
<p>Tome, por exemplo, a mídia jornal. O publisher tradicional é proprietário da rotativa que imprime o diário, compra papel e tinta no mercado e transforma aquela matéria-prima, com o conteúdo, em um veículo de informação que sua empresa mesma leva direto aos assinantes ou distribui em pontos de venda, as bancas. O publisher controla o sistema inteiro e obtém daí a margem de lucro do processo como um todo – ao qual se acrescenta a verba da publicidade, que, em tese, traz mais receita quanto maior for a circulação.</p>
<p>O mesmo ocorre na indústria de revistas e, de certa forma, na de televisão. Com as devidas relativizações, o principal negócio das famílias ou empresas de mídia está historicamente ligado ao ramo dos conteúdos que estas indústrias produzem, seja de informação na mídia impressa, seja informação e entretenimento na televisão. De uns anos para cá isso mudou.</p>
<p>Empresas egressas de outras indústrias que não a de conteúdos em comunicação entraram firme neste mercado.</p>
<p>O grupo francês Vivendi vem do comércio de água, a General Electric (que fundiu a sua NBC com a Vivendi) vem da indústria eletrônica. Serge Dassault, que adquiriu na França a Socpresse (jornal Le Figaro e semanário L’Express, entre 70 títulos), é do grupo Dassault, fabricante de armamentos, de aviões de combate – como Mirage e Falcon. O grupo Lagardère, que detém participação no Le Monde e revistas como Paris Match, também é do ramo de armamentos. O Libération, bastião da esquerda francesa fundado nos anos 70 por Jean-Paul Sartre, transferiu 37% de seu capital para um banqueiro, Édouard Rotschild. A espanhola Telefonica, proprietária de portal de internet e de emissora de televisão e serviços de televisão paga via telefone, vem da indústria de telecomunicações. No Brasil e em Portugal, a empresa de telecomunicações dona de ativos em mídia é a Portugal Telecom. No Brasil é sócia do Grupo Folha, como visto acima, e em Portugal é proprietária do portal Sapo. Ainda aqui, a mexicana Telmex (telefonia) se tornou sócia do grupo Globo. A operadora de telefonia Brasil Telecom adquiriu o controle do portal IG. A empresa de celular Oi, do Grupo Telemar (de capital 100% brasileiro), lançou em 2005 a Oi FM (em Belo Horizonte e Vitória) e tem uma revista bimestral de &#8220;variedades&#8221;, a Revista Oi, vendida em banca e distribuída para clientes. Um empresário que vem da metalurgia, e pula de ramo em ramo, comprou os títulos do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil.</p>
<p>Em menos de duas décadas o mundo acompanhou o salto da tecnologia analógica para a digital, viu a telefonia celular explodir e multiplicarem-se as maneiras de comunicação, com a possibilidade da interação entre redes de computador, além de um aumento exponencial na velocidade de transmissão de dados, sob qualquer plataforma – celular, rádio, satélite, fibra de vidro ou mesmo o fio de cobre. Em menos de dez anos, passaram-se dos 1,2 kilobytes do &#8220;modem&#8221; dos anos 80 para os 56 Kbytes dos anos 90 e, rapidamente, em menos de dez anos, chegaram-se às transmissões em megabytes – os dados passaram a trafegar nas redes de comunicação numa velocidade que saltou de mil para milhões de bytes.</p>
<p>Não se sabe qual (ou quais) tecnologia irá vencer na queda de braços da transmissão de dados que jogam a fibra ótica, o satélite e os celulares – todos, no limite, complementares, interligáveis e capazes de conviver em harmonia. Mas pode aparecer e vencer alguma outra tecnologia, ainda desconhecida. Enquanto isso, a digitalização já chegou às salas de cinema e a televisão digital é realidade, mesmo sem a conclusão sobre qual (ou quais) sistema digital irá vencer a batalha; o japonês (ISDB), o europeu (DVB), o americano (ATCS) ou o chinês, este último ainda em desenvolvimento, previsto para 2010.</p>
<p>A tecnologia do sistema digital muda de forma radical a comunicação tal qual é conhecida no começo do século 21. Ela é muito mais do que televisão. Como diz José Paulo Cavalcanti em texto inédito, &#8220;é ambiente de computação e comunicação multimídia, interativo, em rede, sobre o qual podem ser (e inevitavelmente serão) desenvolvidas aplicações que constituem um mercado mundial de centenas de bilhões de dólares. (&#8230;) Tão amplas são as possibilidades da televisão digital que, por exemplo, ela poderia resolver a questão das rádios e TVs comunitárias. Haveria freqüência para todos. Com as múltiplas implicações institucionais daí decorrentes&#8221; [texto de José Paulo Cavalcanti especial para a Unidade de Reflexão "Quem manda em nós?" do Instituto DNA Brasil, inédito, pág. 3].</p>
<p>Ela carrega consigo a possibilidade de integrar num mesmo sistema de distribuição e recepção tanto a própria televisão, como a internet, filmes, telefonia de imagem e voz, redes de dados, tudo isso distribuído pela casa ou escritório para cada aparelho receptor: televisão de alta definição, telefone fixo ou celular, tela de cinema, computador, &#8220;palm&#8221;, rádio, rede interna com ou sem fio, microondas ou até geladeira, tudo regulado via internet&#8230; Cada canal de seus infindáveis canais vai permitir uma aplicação diferente.</p>
<p>Não é de estranhar, portanto, que tanto companhias de produtos eletrônicos quanto de telecomunicações desejem dominar este negócio de ponta a ponta – ou mesmo outras empresas que historicamente nada tenham a ver com tudo isso. A televisão digital instaura a famosa convergência na comunicação – todos os meios num único suporte de distribuição.</p>
<p>As questões resultantes são inúmeras e complexas, pois a indústria da mídia utilizará necessariamente a informática (tanto no hardware quanto no software), o conteúdo e a arte (na informação e no entretenimento) e as tecnologias de distribuição (no ar ou nas fibras). (&#8230;)</p>
<p>Pois foi no final da década de 80 que os dois mais famosos RMs das comunicações mundiais (englobando televisões, editoras de revistas, jornais, livros e enciclopédias), Robert Maxwell e Rupert Murdoch, repensaram seus investimentos na área da imprensa escrita. Maxwell morreu e Murdoch adentrou firme no mercado da televisão e do satélite. Em apenas dez anos, de 1990 a 2000, um &#8220;tsunami&#8221; tecnológico, movido pelo celular e pela internet, revolucionou a forma de as pessoas se comunicarem, banalizou a informação e o mundo passou rapidamente da escassez para a saturação da informação.</p>
<p><strong>Jornais sofrem mais</strong></p>
<p>Quem mais sofre com isso é o mercado de jornais, apesar de essa indústria, como negócio, continuar rentável – independentemente da constante, firme e irreversível queda de circulação. A luz acendeu nos EUA em 1990, quando a quantidade média de exemplares de jornais lidos em cada grupo de mil habitantes caiu para dois terços da circulação auferida na década de 60 e o reino da mídia impressa nos EUA, então com 1.700 jornais diários, deu fortes sinais de desgaste. Um estudo revelado pelo professor Robert P. Clark, consultor editorial da ANPA, a American Newspaper Publishers Association, apontou que os lucros dos jornais americanos caíram de 20%, em 1989, para 17% um ano depois.</p>
<p>O lucro do mais celebrado e respeitado jornal do país, The New York Times, despencou de 266,6 milhões de dólares em 1989 para 64,8 milhões de dólares no ano seguinte. Só no primeiro trimestre de 1991, o lucro da empresa The Washington Post Co. (que controla o jornal do mesmo nome e a revista semanal Newsweek) caiu 65% em relação ao mesmo período do ano anterior. [Ver apresentação da Newspaper Association of America, "Why the Current Business Model Needs to Change", disponível aqui e citado aqui, onde se pode ver o relatório de 2005.]</p>
<p>Os jornais não conseguiram aumentar a circulação, mas demonstraram uma razoável capacidade de recuperação financeira e voltaram a ser considerados produtos de média lucratividade. O New York Times, por exemplo, retornou no início do século à faixa dos nove dígitos de lucro líquido. Em geral, os jornais retomaram a média dos 20% de lucro [ver entrevista de Arthus Ochs Sulzberger Jr. republicada por O Estado de S. Paulo em 28/4/2005, à pág. A16; ver também o Relatório de 2005].</p>
<p>Como negócio, os jornais usam da reengenharia para se mostrar, de novo, rentáveis. No Brasil alguns conseguiram reaver a lucratividade com cortes de despesas, gasto menor com corte no consumo do papel jornal, porque caiu a circulação, e racionalidade administrativa na base do &#8220;downsizing&#8221;, que significa demitir altos e médios salários, contratar baixos salários e dar-lhes mais trabalho e responsabilidade. &#8220;Rever processos&#8221; é como isto é conhecido. Enquanto produtos capazes de manter audiência ou de atrair novas audiências, no entanto, os jornais se revelam altamente incapazes – mundialmente. Mora aí o problema quando se tenta traçar o mapa de sobrevivência entre as diferentes indústrias que compõem a mídia.</p>
<p>Dados coletados pela Unesco escancaram o tamanho do desafio. Nos 40 países nos quais é possível ter números do ano 2000 e algum histórico, mesmo que não remonte a 1965, quando as referências começaram a ser colhidas, a situação é em geral alarmante. Uma análise atenta permite constatações como as listadas abaixo. Enquanto isso, de 1965 a 2000, a população mundial cresceu 148%: 71% nos países ricos e 178% nos países pobres (percentuais ilustrativos porque a conta da circulação dos jornais detectada pela Unesco é proporcional à população).</p>
<p>Algumas constatações:</p>
<p>** A circulação de jornais estagnou-se em três países, cresceu em somente cinco e caiu em 32 do total de 40 países.</p>
<p>** Entre os cinco países que revelam crescimento no consumo de jornal dois são de primeiro mundo (Noruega e Japão), dois podem ser considerados em desenvolvimento (Portugal e Paquistão) e um é comunista (China):</p>
<p>** A maior queda se deu na Argentina, a circulação média caiu 65%.</p>
<p>** Nos EUA, o estrago foi de 37% em 35 anos, uma queda anual de 1,3%. Mas ali se lêem 196 exemplares de jornais diários para cada grupo de mil habitantes.</p>
<p>** No Brasil o baque foi de 15% em 35 anos, uma queda média de quase 0,5% ao ano. Só que no Brasil se consomem apenas 45 jornais para cada grupo de mil habitantes.</p>
<p>Se estas observações remontam ao ano de 2000, números atuais sobre o Brasil revelam estrago maior. Quando se olha a quantidade, na casa dos milhões de exemplares por dia, e se comparam cifras de 2000 a 2003, vê-se que em apenas três anos o baque foi de 18% na circulação, uma média negativa de mais de 6% ao ano.</p>
<p>Quanto mais avançam as novas mídias, mais a mídia tradicional perde leitores. Ao observar a queda constante na leitura diária dos jornais o especialista Philip Meyer, professor de jornalismo na Universidade da Carolina do Norte, prevê o fim do jornal impresso para abril de 2043, conforme projetou no livro The Vanishing Newspaper – que leva subtítulo desafiador: &#8220;Salvando o jornalismo na era da informação&#8221; –, e foi citado com preocupação por Rupert Murdoch em célebre discurso na Sociedade Americana de Editores de Jornais. [Ver discurso de Murdoch realizado em 13 de abril de 2005 e disponível aqui; a informação de Meyer está na pág. 16 de seu livro.]</p>
<p><strong>Revistas e TVs sofrem também</strong></p>
<p>Não existem dados globais para a indústria de revistas, mas uma publicação da Federação Internacional da Imprensa Periódica (FIPP) colige a circulação de inúmeras revistas em todo o mundo. Uma análise dos números referentes às 50 maiores revistas de notícias gerais, de informações econômicas e de negócios mostra uma situação parecida com a dos jornais, ao menos de 2002 a 2004. (&#8230;)</p>
<p>No Brasil, a Associação Nacional de Revistas apura queda de 9% na circulação total das revistas entre 2000 e 2003, uma perda anual de 3% de circulação. Apesar disso, a indústria vê proliferar a quantidade de títulos (eles eram 1.534 em 2000, chegaram a 2.110 em 2002 e caíram um pouco, para 1.969, em 2003), o que traz um novo problema: o excesso de revistas nas bancas e os desafios daí resultantes para os departamentos de marketing das empresas de revistas.</p>
<p>Esses dados de diminuição de circulação, em conjunto com os dos jornais, revelam incapacidade de reciclagem e total incompreensão das novas formas de mídia.</p>
<p>Para complicar o panorama, de 2000 a 2004, o mercado de mídia brasileiro amargou a estagnação das receitas de publicidade, que ficaram entre R$ 9 bilhões e R$ 10 bilhões por ano e, em dólar, viram o faturamento despencar de US$ 5,3 bilhões para US$ 3,3 bilhões, ou seja, uma queda de quase 40% devido, em grande parte, à desvalorização do real frente ao dólar. Estas receitas são importantes porque, em alguns casos, como na televisão aberta e em muitos sítios de internet, significam a totalidade de recursos possíveis – mesmo que a internet ainda tenha no Brasil uma participação desprezível no bolo de publicidade como um todo, não mais de 2% ou 3% do total.</p>
<p>Nos jornais e revistas, a receita de publicidade forma, em geral, a metade da receita total. A outra metade é composta pelas receitas de circulação (venda avulsa mais assinaturas). A televisão aberta vive da publicidade (onde se inclui o &#8220;merchandising&#8221;). A televisão paga vive das assinaturas mais a publicidade. Os provedores de internet vivem de assinaturas, da publicidade e do comércio eletrônico. Alguns sítios na internet vivem apenas da publicidade e comércio eletrônico e outros retiram seus recursos da publicidade, do comércio eletrônico de terceiros e da comercialização do próprio conteúdo.</p>
<p>Em relação à televisão, ela também vem perdendo, não audiência, mas tempo de exposição junto ao público, principalmente nos EUA, onde institutos de pesquisas contratados pelos novos meios de comunicação apontam transferência de tempo de televisão para a internet. O público, em vez de assistir à televisão, agora &#8220;assiste internet&#8221;, como se diz entre os membros da nova indústria da mídia.</p>
<p>&#8220;Se você pudesse usar apenas dois veículos de comunicação na sua vida, quais os dois veículos de comunicação que você usaria?&#8221;, perguntou um desses institutos aos americanos, sob o patrocínio da Online Publishers Association. O resultado é óbvio: 45,6% apontaram a internet como primeira escolha e 34,5% a televisão. Ou seja: 80% do público prefere internet e televisão e, relevante, a internet é colocada em primeiro lugar. A mesma pesquisa perguntou quanto tempo cada um usava determinada mídia durante um típico dia de semana. Resultado: 19% usavam a internet mais de 5 horas por dia, enquanto 15% gastavam o mesmo tempo com a televisão. De um ano para outro, 47% disseram despender mais tempo com internet.</p>
<p>A população internauta cresce exponencialmente em todo o mundo e existem países, como os EUA, cuja penetração do veículo (a quantidade de pessoas com conexão de internet) era de quase 70% em 2004 [conforme o sítio eMarketer], ou seja, quase 70% da população norte-americana tinha acesso à internet, enquanto no Brasil a penetração estaria na casa dos 11%, conforme a tabela 5, composta a partir de fontes diversas. Uma outra fonte, o Ibope/Net Ratings, apurou mais: no final de 2004 teriam acesso à rede 31,9 milhões de brasileiros, o que perfazia uma penetração de 17%. (&#8230;)</p>
<p><strong>Cinco preocupações</strong></p>
<p>A queda de circulação nos jornais e revistas e a emergência de novas formas de distribuição de mídia – via rede de computadores, &#8220;laptops&#8221;, &#8220;palmtops&#8221;, celulares e o que mais se inventar a partir da disseminação da tecnologia digital – reforçam a preocupação da tradicional indústria de mídia com a canibalização de seus produtos: o medo de que todos passem a ler jornal e revista e a assistir televisão somente via internet.</p>
<p>Especialistas de mídia nos EUA, responsáveis pelo relatório anual do &#8220;Project for Excellence in Journalism&#8221;, cujo alto-falante é o sítio www.journalism.org, apontaram em 2005 cinco tendências e as preocupações a elas inerentes em relação à mídia noticiosa. Denotam uma situação tão grave quanto a inexorável queda de circulação da imprensa escrita e que podem, no médio prazo, liquidar com as margens e com a capacidade de recuperação dessa indústria, além de escancarar a radical transformação na maneira de se fazer mídia promovida pelas novas tecnologias. (&#8230;)</p>
<p>Em resumo, para tentar salvar o jornalismo tradicional, os especialistas norte-americanos analisam: o jornalismo está ficando cada vez mais rápido, inexato e barato; quanto mais partidarizado, mais desconfiado fica o público em relação às notícias; os jornalistas mais experientes estão se aposentando e tudo de bom trazido por essa geração está se pulverizando; as empresas precisam investir em novas audiências, mas não o fazem; para se adaptar aos novos tempos, o jornalismo tem que ser mais transparente, trazer mais expertise e alargar o campo de seu farol.</p>
<p>São aflições importantes do ponto de vista estratégico, mas suficientes para trazer vida nova às tradicionais formas de distribuição de notícia? Para revolucionar as velhas mídias basta curá-las do medo da canibalização? Será esta a razão pela qual vingou a concentração e os vencedores são os grandes conglomerados de mídia (ou novos aventureiros) porque tiveram visão estratégica, conseguiram trabalhar sob esta nova moldura e não se preocuparam tão somente em retransmitir, em reproduzir o mesmíssimo conteúdo, seja impresso seja audiovisual, mas em reinventá-lo na internet?</p>
<p>No limite, o terceiro item (para se adaptar, o jornalismo tem que ser mais transparente, trazer mais expertise e alargar o campo de seu farol), se bem aplicado, serve para qualquer forma de comunicação e sob qualquer suporte – papel, vídeo, tela de computador, de celular, de &#8220;palm&#8221; ou de qualquer outro futuro &#8220;device&#8221;.</p>
<p>Essas assertivas só reforçam a imperiosa obrigação de toda empresa de comunicação se reciclar para entender que seu negócio não é mais simplesmente processar o melhor conteúdo e imprimi-lo por meio de tecnologias do século passado (as rotativas) e distribuí-lo de forma medieval (carregado fisicamente por veículos de roda até os domicílios, bancas e empresas). Mais cedo ou mais tarde, essa indústria – mesmo trabalhando com tecnologias &#8220;modernas&#8221; como a da televisão – estará incorporada direta ou indiretamente a algum grupo global de comunicação em relação ao qual já age como satélite.</p>
<p><strong>Três conceitos para iluminar a situação</strong></p>
<p>Com certeza a maneira de consumir mídia mudou. Mudou igualmente a maneira de produzir mídia. Mudou porque a desagregação da esfera pública se traduz num jogo de comunicação entre múltiplos agentes que mimetizam facetas e técnicas da imprensa e as usam segundo as respectivas necessidades e interesses. Hoje, para que algo vire notícia, independentemente desse algo próprio, existe o trabalho planejado e profissional de lobistas, assessores de imprensa (transmutados em &#8220;agentes de comunicação&#8221;), analistas corporativos, assessores governamentais, &#8220;blogs&#8221; de analistas independentes, informações dispersas nas redes corporativas e acadêmicas, além das outras fontes tradicionais de informação. Nos lances de tensão nos quais se dá formato às notícias e ao espetáculo que a envolve na mídia, cada jogador atua com o seu peso e sempre de forma assimétrica.</p>
<p>Três conceitos podem ajudar a iluminar o problema da comunicação, a lançar um foco de luz para que, ao menos, se enxergue algo do que ocorre. São os conceitos de &#8220;modernidade líquida&#8221;, de Zygmunt Bauman, do &#8220;príncipe eletrônico&#8221;, de Otavio Ianni e o de &#8220;assimetria da informação&#8221;, de Joseph Stiglitz.</p>
<p>Liquidificada pelas novas mídias, a comunicação entra em uma nova era, não mais pós-moderna, melhor, líquida, como prefere o sociólogo polonês radicado na Inglaterra Zygmunt Bauman. Nessa modernidade líquida, os conceitos e interesses se amoldam ao sabor das ondas, aos altos e baixos e às discrepâncias das profundezas para exibir uma superfície plana, que cobre extensivamente todo o planeta com seu abraço que afaga e afoga.</p>
<p>Líquida porque a &#8220;sociedade moderna, como os líquidos, se caracteriza por uma incapacidade de manter a forma&#8221;, diz Bauman. E acrescenta: &#8220;Nossas instituições, nossos quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades ‘auto-evidentes’&#8221; [entrevista de Zygmunt Bauman a Maria Lúcia Garcia Palhare-Burke, Folha de S. Paulo, caderno Mais!, págs. 4 a 9].</p>
<p>Passada a modernidade &#8220;sólida&#8221; – ela pode ter nascido com Descartes e morrido por volta dos anos 80 do século 20, quando os conceitos tinham consistência e substância –, surgiu um novo mundo no qual os conceitos e os valores são relativos, principalmente na comunicação.</p>
<p>Dentro desta pós-modernidade definida como líquida forjou-se um outro fenômeno, o do &#8220;príncipe eletrônico&#8221;, o único senhor das engrenagens da globalização, conforme o bordão criado por outro sociólogo, Otavio Ianni, para aquilo em que se transformou, na pós-modernidade, o conceito do príncipe de Maquiavel. Conceito que também havia sido substituído – e agora ultrapassa o do &#8220;príncipe moderno&#8221;, o partido político, conforme cunhou Antonio Gramsci.</p>
<p>O príncipe eletrônico não é nem a figura do líder político, na acepção clássica a partir da definição dada por Maquiavel, o condottiere, e muito menos o todo poderoso partido político que fez revoluções socialistas e deu novo sentido ao capitalismo, ao trabalhismo e ao liberalismo. O príncipe eletrônico engloba líder e partido e não apenas realiza, como deixa para trás não só a perspicácia, mas todas as atividades das duas instituições.</p>
<p>É uma &#8220;entidade nebulosa e ativa, presente e invisível, predominante e ubíqua&#8221;, que permeia todos os níveis da sociedade. Essa entidade &#8220;expressa principalmente a visão do mundo prevalecente nos blocos de poder predominantes em escala nacional, regional e mundial&#8221;. Ela está presente também localmente, ela é a mídia, e a grande corporação da mídia é aquela que &#8220;realiza limpidamente a metamorfose da mercadoria em ideologia, do mercado em democracia, do consumismo em cidadania&#8221;. [Para o "príncipe eletrônico" ver capítulo com este mesmo nome em Otavio Ianni, Enigmas da modernidade mundo; págs. 148 a 152].</p>
<p>O príncipe eletrônico é a face globalizada da indústria cultural, é a onipresença da mídia que regula e desregula, instaura e tira, manda e desmanda – num mundo onde a informação não corre solta nem totalmente livre, porque corre desigual. É tanto a mídia das corporações quanto dos &#8220;blogs&#8221;, dos jogos de tensões, das versões, dos fatos, da propaganda, do merchandising, da moda, dos costumes – da ausência de valores.</p>
<p>Se a informação corre de forma abundante, facilmente capturável, nada garante que ela corra inteira, em formato inteligível e confiável. Ela se movimenta de forma assimétrica, sempre. Ao lado da modernidade líquida e do príncipe eletrônico, esse é mais um conceito inteligente para entender a arquitetura da comunicação globalizada. Foi desenhado por Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia em 2001, ao analisar algo que pouco tinha a ver, aparentemente, com a indústria da cultura.</p>
<p>Ao explicar a questão da assimetria da informação nos mercados econômicos, Stiglitz iluminou outra face do mesmo problema, cuja raiz se desnuda quando se sabe melhor, a partir dele próprio, que as imperfeições da comunicação, mesmo sob o domínio das mais portentosas técnicas da mídia, são &#8220;pervasivas&#8221;, onipresentes, não só na economia, mas na comunicação como um todo.</p>
<p>Assimetria quer dizer ausência de igualdade, falta de simetria, ou seja, uma disparidade, uma discrepância, uma desigualdade. Um lado sempre tem mais informação do que o outro no processo da comunicação. Isso vem do fato de pessoas diferentes saberem coisas diferentes e em quantidades e profundidades distintas. &#8220;Os trabalhadores sabem mais sobre suas habilidades do que a empresa, quem compra seguro de saúde sabe mais sobre sua saúde, se fuma ou bebe de forma imoderada, do que a empresa de seguros; o proprietário de um carro sabe mais sobre o carro do que compradores potenciais; o proprietário de uma empresa sabe mais sobre a empresa do que um investidor potencial; o credor sabe mais sobre seu risco e o risco tomado do que o emprestador&#8221; [ver texto de Stiglitz, "Information and the change in the paradigm in economics"].</p>
<p>Por decorrência, a fonte do jornalista, um ambientalista, por exemplo, sabe mais do que o jornalista que o procura para reportar as queimadas na Amazônia. O jornalista que colheu as informações sabe mais do que o editor que vai estampá-las. O editor sabe mais do que o diretor do seu veículo, que, por sua vez, sabe mais que o leitor leigo&#8230;</p>
<p>A conseqüência natural é que aquela informação publicada poderá conter menos informação do que o ambientalista consideraria vital e o veículo poderá descartar dados importantes, distorcê-los, retirar declarações do contexto, mudar significados e, muitas vezes, sem que o jornalista e o editor se dêem conta da grotesca vulgarização e distorção que a limitação de tempo e de espaço, inerentes à atividade da indústria da comunicação, fizeram-nos perpetrar.</p>
<p>Assimétricas, as informações dançam conforme os entendimentos, as necessidades e a manipulação das forças tensionadas no espaço do príncipe eletrônico – além de terem sido vulgarizadas e facilitadas para a compreensão média do público, para conforto dos comunicadores em relação à idéia que eles mesmos formam do gosto médio do &#8220;grande público&#8221;. O nivelamento praticado pela indústria da cultura assim o exige e assim realimenta a cadeia da informação sistematicamente nivelada sempre a um nível mais baixo, sempre em busca da compreensão mais generalizada. (&#8230;)</p>
<p>A tensão entre a fonte, o jornalista/empresa e o público – produz resultados que emergem de um espaço ao mesmo tempo concentrado e disperso, tanto assimétrico quanto permeável. Nessa nova arquitetura, em que o jogo de forças é desigual, o desenvolvimento tecnológico leva a situações inéditas.</p>
<p>O paradoxo concentrado/disperso se insere na idéia de fluidez pela qual se constitui o mundo dito pós-moderno. Nas dores de cabeça dos especialistas do sítio journalism.org, aparece uma das facetas dessa fluidez, dessa dispersão que modifica a face da mídia: &#8220;O modelo tradicional da imprensa – do jornalismo da apuração – é aquele em que os jornalistas estão preocupados primeiramente em tentar substanciar fatos. Ele vem cedendo terreno há anos aos &#8220;talk shows&#8221; e, na TV a cabo, para um novo jornalismo assertivo, no qual a informação é oferecida sem muita investigação e com poucas tentativas de verificar de forma independente sua veracidade. Também a ‘blogosfera’ (o fenômeno dos ‘blogs’, da internet), enquanto adiciona a riqueza de vozes dos cidadãos, expande essa cultura assertiva, ou opinativa, de forma exponencial e a traz para uma filosofia afirmativa: publique qualquer coisa, especialmente pontos de vista, e os relatos e a verificação ocorrerão mais tarde, na resposta dos companheiros ‘bloggers’. O resultado é às vezes verdadeiro, às vezes falso. ‘Blogs’ ajudaram a desmascarar erros da imprensa, mas espalharam também infundadas teorias, como, por exemplo, a ocorrência de corrupção em parte das eleições presidenciais [americanas]. Tudo isso torna mais fácil a manipulação da opinião pública – via governo, grupos de interesse e corporações – quando se distribuem mensagens não apuradas por meio de distribuidores independentes ou de seus falsos sítios noticiosos, de vídeo e &#8220;press-releases&#8221; impressos e comentadores pagos. Na seqüência, a edição computadorizada tem o potencial de pegar tudo e misturar numa coisa só&#8221; [ver o Relatório de 2005 de (www.jourrnalism.org)].</p>
<p>Misturam-se blocos de textos por meio de uma associação de dados computadorizada que mescla informações produzidas por fontes idôneas com as produzidas por fontes inidôneas e que criam, comumente, novos significados, mais ou menos ou totalmente falsos, sem nenhuma representatividade, mas com razoável capacidade de propagação. Dois exemplos simplórios: a Amazônia teria sumido do espaço brasileiro em mapas escolares norte-americanos; o telefone celular não poderia ser usado em postos de gasolina.</p>
<p>Na esfera das tensões, o público encontrou sua maneira de participar, e as diferentes fontes encontraram maneiras mais eficientes de manipular a mídia. Até explicar que determinada informação não tem credibilidade, muitas vezes já se criou uma versão transmutada em fato definitivo e inabalável. As facilidades de comunicação tornam mais complicado o jogo da credibilidade, pedra de toque do jornalismo até o nascimento dessa nova mídia. Não é à toa que a indústria propagadora dos mitos da imparcialidade, independência e objetividade sofra agora para tentar separar o joio do trigo. (&#8230;)</p>
<p>No jogo das instâncias, os grandes conglomerados de mídia e os seus satélites formam e deformam opiniões, criam e destroem sucessos, lançam e derrubam modas, estimulam e acabam com carreiras, fazem e acontecem.</p>
<p>À essa partida midiática, somam-se, paradoxalmente, todas as possibilidades de manipulação promovida pelas fontes e de instrumentalização da representação da realidade, além da interferência das interações não tradicionais – os &#8220;blogs&#8221; são um exemplo. É a modernidade em estado líquido, a individualidade fluida, nivelada de forma global, globalmente conectada e saturada de informação.</p>
<p><strong>Cinco movimentos reais</strong></p>
<p>Liquidificada a história da mídia e analisada a sua situação na era digital, é possível traçar movimentos que denotam o fim do jornalismo tal como conhecido:</p>
<p style="padding-left: 30px;">1. a concentração que leva à formação dos grandes conglomerados de mídia não é mais tendência, é fato. Esse movimento tende a abater a tradição dos grupos familiares à frente dos negócios de comunicação. Empresas sem nenhuma tradição na indústria do conteúdo começam a dominar a mídia. No Brasil, a crise levou históricos grupos familiares de imprensa à bancarrota ou à perda do controle de suas empresas;</p>
<p style="padding-left: 30px;">2. no suporte papel jornal tende a desaparecer no formato atual, que utiliza enormes rotativas. Há previsões, inclusive, de que os jornais acabam em 2040. Os jovens não lêem mais jornais impressos. Relatório da Carnegie Corporation, citado por Murdoch no seu discurso aos jornalistas, informa que 44% dos jovens usam portais ao menos uma vez por dia em busca de notícias, enquanto apenas 19% lêem jornal diariamente;</p>
<p style="padding-left: 30px;">3. o papel do jornalista será diminuído em função da manipulação da informação pelas fontes e por conta da própria assimetria da informação. Isso porque elas, as fontes, detêm informação com mais abrangência e profundidade. O jornalista terá cada vez menos tempo para apurar, pesquisar e checar dados. Eles poderão até estar publicados em algum lugar quando o jornalista chegar até eles;</p>
<p style="padding-left: 30px;">4. a maneira de fazer jornalismo muda completamente com a nova realidade digital, que carrega a possibilidade de fazer buscas assertivas globais, de forma aleatória e automática, e de mesclar informações confiáveis com informações não confiáveis. Os grupos de mídia que não se reciclarem e não investirem definharão na medida da decadência das velhas mídias – em especial, as mídias impressas. O jornalismo tradicional vai mudar – &#8220;Dê às pessoas o controle da mídia, elas o usarão; não dê às pessoas o controle da mídia, você as perderá&#8221;, afirmou Murdoch, sempre preocupado, no famoso discurso. As pessoas querem participar da feitura das notícias, querem informações sob demanda direta delas próprias. Os &#8220;blogs&#8221; são a ponta desse iceberg. A indústria terá de se ajeitar com isso e &#8220;permitir&#8221; que cada individualidade imagine ter o controle da mídia, pois cada uma terá sua relevância própria e as individualidades se afirmarão enquanto tal. Em relação às novas formas, no seu discurso, Murdoch explica que o tráfego de notícias do portal de busca Google (que mescla informações de diversas fontes) cresceu 90% em um ano (2005 versus 2004), enquanto o &#8220;excelente sítio do jornal The New York Times decresceu 23%&#8221; [Murdoch, idem nota 14];</p>
<p style="padding-left: 30px;">5. as redes de informação vão proliferar. Muitas já nasceram e crescem em escala geométrica. Formam-se a partir de redes de instituições e de organizações não-governamentais, redes governamentais, redes comerciais, redes industriais, redes de serviço, sindicais, partidárias, universitárias, esportivas, de fãs-clubes&#8230; Cada uma delas terá sua própria produção de informação. A segmentação vista no mercado de revistas é infinitamente menor em relação à capacidade de segmentação e de aprofundamento de questões das redes independentes e interdependentes, com níveis e mais níveis de acesso à consulta das informações e dos dados.</p>
<p>Nunca será demais repetir: está em desenvolvimento uma comunicação mais fluida, mais individualista e ainda mais assimétrica. O jornalismo perde a proeminência e se transforma em mais uma forma de informação. Não será mais o principal ator no espetáculo da comunicação. Nesse jogo de múltiplos atores, e muita assimetria, é que se dá e se fará cada vez mais o jogo do poder. Ou seja: absolutamente nada existirá se não estiver entrelaçado pelo abraço líquido do príncipe eletrônico.</p>
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		<title>Modernidade líquida, comunicação concentrada</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Feb 2009 18:10:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[TEXTO PUBLICADO NA REVISTA USP 66 DE DEZ 2005
TABELAS: CLIQUE AQUI
Caio Túlio Costa¹
Nos primeiros anos deste século 21, a indústria da comunicação consolidou mudanças radicais em sua estrutura. Num processo nunca visto de fusões e aquisições, companhias globais ganharam posições de domínio na mídia. Os seis maiores conglomerados – Time Warner, Walt Disney, Vivendi-Universal, Viacom, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>TEXTO PUBLICADO NA REVISTA USP 66 DE DEZ 2005</p>
<p>TABELAS: <a href="http://caiotulio.com/blog/tabelas-do-ensaio-modernidade-liquida-comunicacao-concentrada-de-2005-06/" target="_self">CLIQUE AQUI</a></p>
<p>Caio Túlio Costa¹</p>
<p>Nos primeiros anos deste século 21, a indústria da comunicação consolidou mudanças radicais em sua estrutura. Num processo nunca visto de fusões e aquisições, companhias globais ganharam posições de domínio na mídia. Os seis maiores conglomerados – Time Warner, Walt Disney, Vivendi-Universal, Viacom, Bertelsmann e News Corporation – passaram a gerar juntos US$ 160 bilhões de receita, mais de um terço da receita total de US$ 415 bilhões das cinqüenta maiores companhias de mídia, em todo o mundo.(2)</p>
<p>Nas fusões, a norte-americana Time Warner uniu-se ao provedor America Online, que em 2005 recebeu o Google como sócio (5%). O grupo europeu Vivendi fundiu-se com o Canal Plus, mais Seagram e NBC, da General Electric. O grupo Viacom adquiriu a CBS Corporation&#8230; Três entre estes seis encontram-se entre os 250 maiores grupos do planeta controlados por famílias: Viacom, Bertelsmann e News Corporation.</p>
<p>Os três tinham seus patriarcas em idade avançada no começo do século indicando rápida mudança geracional. Em 2005, o comandante da Viacom, Summer Redstone, completou 81 anos e Rupert Murdoch, da News Corporation, 71 anos. Em 2001, a Bertelsmann adiantou-se e resolveu o problema sucessório. Seu comandante, Reinhard Mohn, então com 78 anos, transferiu o controle da companhia para executivos e membros da família. (3)</p>
<p>Fundado em 1954, o grupo norte-americano Viacom fatura cerca de US$ 25 bilhões por ano e tem mais de 120 mil empregados. Além de cinema (Paramount) e operações em internet, possui 39 emissoras de televisão (como CBS e MTV), 185 estações de rádio e uma editora como a Simon &amp; Schuster.</p>
<p>O grupo alemão Bertelsmann, com receitas próximas a US$ 20 bilhões anuais e 80 mil funcionários, tem participação em 600 empresas diferentes e presença em 60 países. Possui negócios nas áreas de livro (Random House), de música (BMG), de revista e de televisão. Transformou-se em império global depois da segunda guerra mundial, pelas mãos de Reinhard Mohn – descendente de Carl Bertelsmann, o fundador da pequena editora religiosa, em 1835, depois transformada em gigante multinacional.</p>
<p>A News Corporation, de Rupert Murdoch, fundada na Austrália em 1923, pelo pai de Rupert, Sir Keith Murdoch, nasceu como empresa de jornal. Exibe receitas de US$ 18 bilhões anuais e 35 mil empregados. Opera com satélite e TV paga (Sky, Direct TV), televisão (a conservadora Fox), cinema (20th Century Fox), jornais (London Times, New York Post), editoras (Harper Collins), revistas (Weekly Standard) e esporte (o time de “baseball” Los Angeles Dodgers).</p>
<p>Apenas mais dois grandes grupos de mídia se encaixam entre as maiores empresas familiares de todo o mundo. São eles: o canadense Thomson Corporation, pertencente à família de mesmo nome, uma cadeia de jornais que fatura US$ 7,8 bilhões por ano e tem 42 mil funcionários; e o grupo turco Dogus, fundado em 1951 por Ayan Sahenk, com empresas de mídia e tecnologia entre seus ativos, tem no comando Ferit Sahenk, filho do fundador. Fatura anualmente US$ 5 bilhões e emprega 20 mil funcionários.(4)</p>
<p>As preocupações com a concentração no mercado e o reinado de grupos familiares na mídia intensificaram-se no começo dos anos 90. Dois patriarcas cujas iniciais levam as letras R e M – Robert Maxwell e Rupert Murdoch – eram os ícones. Por coincidência, outro magnata das comunicações com as mesmas iniciais – Roberto Martinho – era a preocupação no cenário brasileiro.</p>
<p>Maxwell, filho de pai tcheco, naturalizado francês e britânico, morreu aos 68 anos, em novembro de 1991, em circunstâncias misteriosas. Caiu, jogou-se ou foi atirado ao mar de seu iate, no Mediterrâneo, o que interrompeu toda a agressividade da Maxwell Communications Corporation. O australiano-americano Murdoch demonstrou enorme apetite para engolir os menores, como o fez nos Estados Unidos, na Inglaterra e no Brasil, por exemplo, ao adquirir o controle da Direct TV (ex-Grupo Abril) e da Sky (ex-Grupo Globo). Na parte menor do trio, que acabou sócia de Murdoch, o brasileiro Roberto Marinho morreu em agosto de 2003. Desde então, a família Marinho toureia uma crise financeira que levou o grupo, por conta de investimentos na televisão a cabo e internet, a uma dívida de cerca de US$ 1,7 bilhão.</p>
<p>“Em dez anos, existirão apenas dez corporações globais de comunicações. Eu&#8230; espero ser uma delas&#8221;, estimava Maxwell em 1984. Como visto, não deu tempo. Morreu antes de passar os dez anos da sua profecia, mas ela completou-se de outra maneira: duas décadas depois de proferida, apenas seis corporações detinham quase 40% das receitas globais do setor e a metade delas era liderada por grupos familiares.(5)</p>
<p>Em 2003 restavam sete grandes. “O número de corporações midiáticas está se reduzindo, a tal ponto que é possível contá-las nos dedos das mãos. Se nos meados dos anos 80 do século passado estas transnacionais eram cerca de meia centena, em 1993 tinham-se reduzido a 27 e no final de 2000 eram apenas sete: Disney, Time Warner, Sony, News Corporation, Viacom, Vivendi-Universal e Bertelsmann. Todas elas provêm de países ricos: EUA, Europa e Japão”. (6)</p>
<p>Os autores da afirmação acima, Sally Burch, Osvaldo Leon e Eduardo Tamayo, acrescentavam a japonesa Sony (Sony Music e Sony Pictures faturam cerca de US$ 9,2 bilhões por ano) aos grandes conglomerados mundiais da comunicação. Com isso, fechavam o cerco e requentavam a profecia de Maxwell. Seis ou sete, o século 21 começou com menos de dez grandes conglomerados de mídia de alcance global. Estreou concentrado.</p>
<p>Como satélites dos conglomerados midiáticos globais, em um segundo nível, encontram-se apenas cerca de 70 outras empresas de mídia direta ou indiretamente relacionadas com eles. “São potências nacionais ou regionais e controlam nichos de mercado. Entre um terço e a metade destas corporações de segundo nível são da América do Norte; a maioria das outras é da Europa ou do Japão. Muitas delas – nacionais ou regionais – foram criadas à margem dos impérios editoriais e televisivos.</p>
<p>Algumas destas empresas de segundo nível estão classificadas entre as mil maiores empresas do mundo, com faturamento de um bilhão de dólares por ano”. (7)</p>
<p>Entre as norte-americanas estão: Tribune Company, Dow Jones, Gannett, Knigh-Ridder, Hearst e Advance Publications.</p>
<p>Entre as européias: Hachette, Kirch Group, Mediaset, Prisa, Reuters, Reed Elsevier e Socpresse.</p>
<p>Entre as latino-americanas: Televisa do México, Globo do Brasil, Clarín da Argentina e Cisneros da Venezuela.</p>
<p>“Europa e América Latina tampouco escapam à tendência oligopólica” – escreve o trio. “O conglomerado alemão Bertelsmann, primeira casa editora mundial, comprou o Grupo RTL e controla na França a Radio RTL e a cadeia de televisão M6; Silvio Berlusconi é proprietário das três principais redes privadas da Itália e, enquanto presidente do Conselho de Governo, controla o conjunto das redes públicas; na Espanha, a empresa Prisa controla o diário El País, a rede de radio SER, o canal pago Canal Plus da Espanha e o principal grupo editorial”.(8)</p>
<p><strong>Situação brasileira</strong></p>
<p>No Brasil, nas três últimas décadas do século passado, eram dez grupos familiares que controlavam a quase totalidade dos meios de comunicação de massa: Abravanel (SBT), Bloch (Manchete), Civita (Abril), Frias (Folha de S. Paulo), Levy (Gazeta Mercantil), Marinho (Globo), Mesquita (O Estado de S. Paulo), Nascimento Brito (Jornal do Brasil), Saad (Bandeirantes) e Sirotsky (Rede Brasil Sul).</p>
<p>O panorama agravou na virada do século, com a crise econômica que sacudiu todas essas empresas. O jogo de forças sofreria modificações também com a ajuda das mudanças constitucionais de dezembro de 2002, que permitiram a participação estrangeira no capital das empresas jornalísticas (máximo de 30%), além da participação de pessoa jurídica, até então vetada.</p>
<p>Nos primeiros anos do novo século, quatro dos dez grupos familiares foram atingidos, sacudidos por uma crise que, na realidade, havia arrasado três deles muito antes da virada de século. O furacão levou em seu torvelinho o grupo Bloch, fez mudar de mãos o Jornal do Brasil (Nascimento Brito) e também a Gazeta Mercantil (Levy) – ambos passaram para o controle do empresário Nelson Tanure – e retirou das mãos da família Mesquita a gestão do grupo Estado.</p>
<p>Ineficiência na competição com o Grupo Globo, queda de circulação nas revistas (Manchete, Fatos&amp;Fotos, Pais&amp;Filhos&#8230;) e graves problemas de gestão empurraram o grupo Bloch para o seu fim. Apesar do título continuar vivo, idem para o Jornal do Brasil nos três quesitos, com a diferença de que a queda de circulação foi no produto jornal, que, além de perder leitores, perdeu também o “glamour” e a credibilidade conquistados principalmente durante os anos 60. No caso da Gazeta Mercantil foram os problemas de gestão que a levaram de roldão.</p>
<p>Se o novo século surgiu com seis dos dez velhos grupos tradicionais de mídia ainda sob o comando das respectivas famílias (Abravanel, Civita, Frias, Marinho, Saad e Sirotsky), três entre esses sobreviventes passaram a dividir parte de seu capital com empresas estrangeiras</p>
<p>O grupo Abril vendeu 13,8% de suas ações a fundos norte-americanos de investimento administrados pela Capital International Inc. O Grupo Globo virou sócio minoritário de Rupert Murdoch na Sky Brasil e vendeu 36,5% do capital votante da NET (distribuição de TV paga) para a Telmex, grupo mexicano de telecomunicações. O Grupo Folha, que havia cedido 20% da totalidade de seu capital para a Portugal Telecom(9), a PT, que era sua sócia apenas na operação de internet, o UOL, por conta de um lançamento inicial de ações na bolsa de valores de São Paulo, retornou à sociedade com a Portugal Telecom apenas no UOL, do qual 55% pertence ao Grupo Folha e 45% à PT. Captou então R$ 624 milhões(10) (equivalentes a US$ 266 milhões) na oferta realizada em dezembro de 2005. Era muito mais fácil levantar recursos com uma empresa de internet em comparação a uma empresa que abrigasse mídia tradicional, como a do jornal.</p>
<p>Novidade não prevista em lei foi o fato de empresas internacionais, cem por cento de capital estrangeiro, praticarem jornalismo no país via comunicação eletrônica. Empresas como Google, America Online (enquanto esteve no Brasil), Terra, Reuters, Bloomberg e muitas outras que nasceram e cresceram (ou já morreram) durante o fenômeno de implantação da internet comercial reempacotam ou apuram, editam e publicam notícias em solo nacional, via internet, como qualquer companhia de mídia brasileira, reforçando uma realidade segundo a qual as fronteiras na mídia não são mais geográficas e tornam-se cada vez menos culturais – fruto da paulatina concentração das empresas de comunicação.</p>
<p>Mesmo outras iniciativas de mudança constitucional para garantir a empresas brasileiras o monopólio na produção e comercialização de conteúdos (editoriais, de entretenimento, multimídia ou não), uma vez aprovadas, são inócuas por conta da completa dissolução das fronteiras: é possível construir conteúdo multimídia em qualquer língua a partir de outro país e dispô-lo para consulta universal via internet.(11)</p>
<p><strong>Convergência introduz novos atores</strong></p>
<p>Os três autores do “paper” patrocinado pelo Centro Internacional de Investigações para o Desenvolvimento, do Canadá, Burch, Leon e Tamayo, dizem que se atribui a concentração na indústria cultural à “convergência digital”, que “dissipa as barreiras antes existentes entre os diferentes meios (rádio, televisão e imprensa) e inclusive entre setores diferentes (telecomunicações, informática e comunicação de massas), reduzindo textos, imagens e som a somente um único suporte digital: o bit”.</p>
<p>O trio considera essa explicação “parcial e insuficiente”, porque a “força motriz da atual concentração midiática e cultural é a busca incessante do lucro”. Reitera: “O que impulsiona as grandes empresas a sair de seus marcos nacionais rumo à conquista dos mercados globais é o afã de obter os maiores ganhos no menor tempo possível, sem meditar sobre os meios que irão empregar para conseguir seus fins”.(12)</p>
<p>Este argumento é pueril em toda a sua construção, dado que a questão dos maiores ganhos é imanente ao próprio sistema da indústria cultural. Os meios para obter determinados fins (os lucros) estão inseridos na indústria da cultura, independentemente do formato da mídia, desde que ela se estabeleceu enquanto indústria de escala, no século 19. Os três poderiam ter optado pela explicação via “irracionalidade e cegueira moral da competição de mercado”,(13) mas preferiram a explicação simplista.</p>
<p>O fato novo – também lembrado pelo trio – é que empresas cuja tradição não se encontra na indústria da comunicação (nem na indústria da distribuição e, muito menos, na indústria do conteúdo) começam a dominar um sistema tradicionalmente tocado por famílias ou empresas cujas marcas impuseram-se, principalmente, pela construção de conteúdos, mesmo quando dominavam toda a cadeia, da produção à distribuição.</p>
<p>Tome, por exemplo, a mídia jornal. O publisher tradicional é proprietário da rotativa que imprime o diário, compra papel e tinta no mercado e transforma aquela matéria-prima, com o conteúdo, em um veículo de informação que sua empresa mesma leva direto aos assinantes ou distribui em pontos de venda, as bancas. O publisher controla o sistema inteiro e obtém daí a margem de lucro do processo como um todo – ao qual se acrescenta a verba da publicidade, que, em tese, traz mais receita quanto maior for a circulação.</p>
<p>O mesmo ocorre na indústria de revistas e, de certa forma, na de televisão. Com as devidas relativizações, o principal negócio das famílias ou empresas de mídia está historicamente ligado ao ramo dos conteúdos que estas indústrias produzem, seja de informação na mídia impressa, seja informação e entretenimento na televisão. De uns anos para cá isso mudou.</p>
<p>Empresas egressas de outras indústrias que não a de conteúdos em comunicação entraram firme neste mercado.</p>
<p>O grupo francês Vivendi vem do comércio de água, a General Electric (que fundiu a sua NBC com a Vivendi) vem da indústria eletrônica. Serge Dassault, que adquiriu na França a Socpresse (jornal Le Figaro e semanário L´Express, entre 70 títulos), é do grupo Dassault, fabricante de armamentos, de aviões de combate – como Mirage e Falcon. O grupo Lagardère, que detém participação no Le Monde e revistas como Paris Match, também é do ramo de armamentos. O Libération, bastião da esquerda francesa fundado nos anos 70 por Jean-Paul Sartre, transferiu 37% de seu capital para um banqueiro, Édouard Rotschild. A espanhola Telefonica, proprietária de portal de internet e de emissora de televisão e serviços de televisão paga via telefone, vem da indústria de telecomunicações. No Brasil e em Portugal, a empresa de telecomunicações dona de ativos em mídia é a Portugal Telecom. No Brasil é sócia do Grupo Folha, como visto acima, e em Portugal é proprietária do portal Sapo. Ainda aqui, a mexicana Telmex (telefonia) se tornou sócia do grupo Globo. A operadora de telefonia Brasil Telecom adquiriu o controle do portal IG. A empresa de celular Oi, do Grupo Telemar (de capital 100% brasileiro), lançou em 2005 a Oi FM (em Belo Horizonte e Vitória) e tem uma revista bimestral de “variedades”, a Revista Oi, vendida em banca e distribuída para clientes. Um empresário que vem da metalurgia, e pula de ramo em ramo, comprou os títulos do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil.</p>
<p>Em menos de duas décadas o mundo acompanhou o salto da tecnologia analógica para a digital, viu a telefonia celular explodir e multiplicarem-se as maneiras de comunicação, com a possibilidade da interação entre redes de computador, além de um aumento exponencial na velocidade de transmissão de dados, sob qualquer plataforma – celular, rádio, satélite, fibra de vidro ou mesmo o fio de cobre. Em menos de dez anos, passaram-se dos 1,2 kilobytes do “modem” dos anos 80 para os 56 Kbytes dos anos 90 e, rapidamente, em menos de dez anos, chegaram-se às transmissões em megabytes – os dados passaram a trafegar nas redes de comunicação numa velocidade que saltou de mil para milhões de bytes.</p>
<p>Não se sabe qual (ou quais) tecnologia irá vencer na queda de braços da transmissão de dados que jogam a fibra ótica, o satélite e os celulares (wireless, ou sem fio) – todos, no limite, complementares, interligáveis e capazes de conviver em harmonia. Mas pode aparecer e vencer alguma outra tecnologia, ainda desconhecida. Enquanto isso, a digitalização já chegou às salas de cinema e a televisão digital é realidade, mesmo sem a conclusão sobre qual (ou quais) sistema digital irá vencer a batalha; o japonês (ISDB), o europeu (DVB), o americano (ATCS) ou o chinês, este último ainda em desenvolvimento, previsto para 2010 [mais detalhes na tabela 8].</p>
<p>A tecnologia do sistema digital muda de forma radical a comunicação tal qual é conhecida no começo do século 21. Ela é muito mais do que televisão. Como diz José Paulo Cavalcanti em texto inédito, “é ambiente de computação e comunicação multimídia, interativo, em rede, sobre o qual podem ser (e inevitavelmente serão) desenvolvidas aplicações que constituem um mercado mundial de centenas de bilhões de dólares. (&#8230;) Tão amplas são as possibilidades da televisão digital que, por exemplo, ela poderia resolver a questão das rádios e TVs comunitárias. Haveria freqüência para todos. Com as múltiplas implicações institucionais daí decorrentes”. (14)</p>
<p>Ela carrega consigo a possibilidade de integrar num mesmo sistema de distribuição e recepção tanto a própria televisão, como a internet, filmes, telefonia de imagem e voz, redes de dados, tudo isso distribuído pela casa ou escritório para cada aparelho receptor: televisão de alta definição, telefone fixo ou celular, tela de cinema, computador, “palm”, rádio, rede interna com ou sem fio, microondas ou até geladeira, tudo regulado via internet&#8230; Cada canal de seus infindáveis canais vai permitir uma aplicação diferente.</p>
<p>Não é de estranhar, portanto, que tanto companhias de produtos eletrônicos quanto de telecomunicações desejem dominar este negócio de ponta a ponta – ou mesmo outras empresas que historicamente nada tenham a ver com tudo isso. A televisão digital instaura a famosa convergência na comunicação – todos os meios num único suporte de distribuição.</p>
<p>As questões resultantes são inúmeras e complexas, pois a indústria da mídia utilizará necessariamente a informática (tanto no hardware quanto no software), o conteúdo e a arte (na informação e no entretenimento) e as tecnologias de distribuição (no ar ou nas fibras).</p>
<p>Algumas dessas tecnologias, principalmente a do satélite alcançado por equipamentos energizados com baterias portáteis, tiveram seu primeiro triunfo midiático internacional com as transmissões da rede de jornalismo americana CNN na guerra do Golfo Pérsico, de 1990 a 1991. Essa cobertura veio mostrar que as três principais redes de tevê do mundo de então – ABC, CBS e NBC – não estavam suficientemente preparadas para uma cobertura global e a emergente rede de Atlanta estava. A CNN, ou Cable News Network, já foi uma pequena, desconhecida e ridicularizada rede de tevê de Atlanta, interior dos EUA, quando era conhecida como Chicken and Noodle Network, ou, literalmente, rede de galinha com macarrão.</p>
<p>Pois foi no final da década de 80 que os dois mais famosos RMs das comunicações mundiais (englobando televisões, editoras de revistas, jornais, livros e enciclopédias), Robert Maxwell e Rupert Murdoch, repensaram seus investimentos na área da imprensa escrita. Maxwell morreu e Murdoch adentrou firme no mercado da televisão e do satélite. Em apenas dez anos, de 1990 a 2000, um “tsunami” tecnológico, movido pelo celular e pela internet, revolucionou a forma de as pessoas se comunicarem, banalizou a informação e o mundo passou rapidamente da escassez para a saturação da informação.</p>
<p><strong>Jornais sofrem mais</strong></p>
<p>Quem mais sofre com isso é o mercado de jornais, apesar de essa indústria, como negócio, continuar rentável – independentemente da constante queda de circulação. A luz acendeu nos EUA em 1990, quando a quantidade média de exemplares de jornais lidos em cada grupo de mil habitantes caiu para dois terços da circulação auferida na década de 60 e o reino da mídia impressa nos EUA, então com 1.700 jornais diários, deu fortes sinais de desgaste. Um estudo revelado pelo professor Robert P. Clark, consultor editorial da ANPA, a American Newspaper Publishers Association, apontou que os lucros dos jornais americanos caíram de 20%, em 1989, para 17% um ano depois.</p>
<p>O lucro do mais celebrado e respeitado jornal do país, The New York Times, despencou de 266,6 milhões de dólares em 1989 para 64,8 milhões de dólares no ano seguinte. Só no primeiro trimestre de 1991, o lucro da empresa The Washington Post Co. (que controla o jornal do mesmo nome e a revista semanal Newsweek) caiu 65% em relação ao mesmo período do ano anterior.(15)</p>
<p>Os jornais não conseguiram aumentar a circulação, mas demonstraram uma razoável capacidade de recuperação financeira e voltaram a ser considerados produtos de média lucratividade. O New York Times, por exemplo, retornou no início do século à faixa dos nove dígitos de lucro líquido. Em geral, os jornais retomaram a média dos 20% de lucro.(16)</p>
<p>Como negócio, os jornais usam da reengenharia para se mostrar, de novo, rentáveis. No Brasil alguns conseguiram reaver a lucratividade com cortes de despesas, gasto menor com corte no consumo do papel jornal (porque caiu a circulação e, portanto, se consumiu menos papel de imprensa), e racionalidade administrativa na base do downsizing, que significa demitir funcionários com altos e médios salários, contratar baixos salários e dar-lhes mais trabalho e responsabilidade. “Rever processos” é como isto é conhecido. Enquanto produtos capazes de manter audiência ou de atrair novas audiências, no entanto, os jornais se revelam altamente incapazes – mundialmente. Mora aí o problema quando se tenta traçar o mapa de sobrevivência entre as diferentes indústrias que compõem a mídia.</p>
<p>Dados coletados pela Unesco escancaram o tamanho do desafio. Nos 40 países nos quais é possível ter números do ano 2000 e algum histórico, mesmo que não remonte a 1965, quando as referências começaram a ser colhidas, a situação é em geral alarmante [ver tabela 1]. Uma análise atenta permite constatações como as listadas abaixo. Enquanto isso, de 1965 a 2000, a população mundial cresceu 148%: 71% nos países ricos e 178% nos países pobres (percentuais ilustrativos porque a conta da circulação dos jornais detectada pela Unesco é proporcional à população).</p>
<p><strong>Dez constatações:</strong></p>
<p>1. A circulação de jornais estagnou-se em três países, cresceu em somente cinco e caiu em 32 do total de 40 países.</p>
<p>2. A circulação está estagnada na Espanha, Finlândia e Líbano.</p>
<p>3. Entre os cinco países que revelam crescimento no consumo de jornal dois são de primeiro mundo (Noruega e Japão), dois podem ser considerados em desenvolvimento (Portugal e Paquistão) e um é comunista (China):</p>
<p>a. Noruega (ganhou 48% em circulação de jornais de 1965 a 2000);</p>
<p>b. Japão (ganhou 25%);</p>
<p>c. Portugal (ganhou 53% em relação a 1975);</p>
<p>d. China (ganhou 68%, em relação a 1997);</p>
<p>e. Paquistão (ganhou 32%, em relação a 1997).</p>
<p>4. O país que mais consome jornais é a Finlândia, a uma média de 569 exemplares de jornais para cada grupo de mil habitantes.</p>
<p>5. Onde menos se lê é na Mongólia, 17 exemplares para cada mil habitantes.</p>
<p>6. Até a década de 80, os países escandinavos registravam alta na circulação, assim como os antigos países comunistas – o sustento governamental (econômico, político e espiritual) tornava o jornal diário naqueles países um produto barato e obrigatório, um dos poucos meios de contato (confiável ou não) com o Estado.</p>
<p>7. A China, país regido por partido comunista, apresenta a maior alta na circulação: 68%; mas ali se lê pouco, 59 jornais para cada mil habitantes. Já em Cuba, também regida por partido comunista, a queda foi grande: 50%.</p>
<p>8. A maior queda se deu na Argentina, a circulação média caiu 65%.</p>
<p>9. Nos EUA, o estrago foi de 37% em 35 anos, uma queda anual de 1,3%. Mas ali se lêem 196 exemplares de jornais diários para cada grupo de mil habitantes.</p>
<p>10. No Brasil o baque foi de 15% em 35 anos, uma queda média de quase 0,5% ao ano. Só que no Brasil se consomem apenas 45 jornais para cada grupo de mil habitantes.</p>
<p>Se estas observações remontam ao ano de 2000, números atuais sobre o Brasil revelam estrago maior. Quando se olha a quantidade, na casa dos milhões de exemplares por dia, e se comparam cifras de 2000 a 2003, vê-se que em apenas três anos o baque foi de 18% na circulação, uma média negativa de mais de 6% ao ano [ver tabela 2].</p>
<p>Quanto mais avançam as novas mídias, mais a mídia tradicional perde leitores. Ao observar a queda constante na leitura diária dos jornais o especialista Philip Meyer, professor de jornalismo na Universidade da Carolina do Norte, prevê o fim do jornal impresso para abril de 2043, conforme projetou no livro The Vanishing Newspaper – que leva subtítulo desafiador: “Salvando o jornalismo na era da informação” –, e foi citado com preocupação por Rupert Murdoch em célebre discurso na Sociedade Americana de Editores de Jornais.(17)</p>
<p><strong>Revistas e TVs sofrem também</strong></p>
<p>Não existem dados globais para a indústria de revistas, mas uma publicação da Federação Internacional da Imprensa Periódica (FIPP) colige a circulação de inúmeras revistas em todo o mundo. Uma análise dos números referentes às 50 maiores revistas de notícias gerais, de informações econômicas e de negócios mostra uma situação parecida com a dos jornais [ver tabela 7], ao menos de 2002 a 2004.</p>
<p><strong>Sete constatações:</strong></p>
<p>1. Nos EUA, a circulação da revista semanal Newsweek despencou 3,3% em dois anos.</p>
<p>2. A circulação da especializada Money caiu 3,1%.</p>
<p>3. A revista semanal US News &amp; World Report perdeu 2,6% do leitorado.</p>
<p>4. A tradicional revista Time viu sumir 0,6% de sua vendagem.</p>
<p>5. Na França, a revista semanal Paris Match perdeu 1,8%.</p>
<p>6. No Canadá, a semanal de informação Macleans regrediu 8%.</p>
<p>7. A edição canadense da revista Time perdeu nada menos do que 18% de sua circulação!</p>
<p>No Brasil, a Associação Nacional de Revistas apura queda de 9% na circulação total das revistas entre 2000 e 2003, uma perda anual de 3% de circulação [tabela 3]. Apesar disso, a indústria vê proliferar a quantidade de títulos (eles eram 1.534 em 2000, chegaram a 2.110 em 2002 e caíram um pouco, para 1.969, em 2003), o que traz um novo problema: o excesso de revistas nas bancas e os desafios daí resultantes para os departamentos de marketing das empresas de revistas.</p>
<p>Esses dados de diminuição de circulação, em conjunto com os dos jornais, revelam incapacidade de reciclagem e total incompreensão das novas formas de mídia.</p>
<p>Para complicar o panorama, de 2000 a 2004, o mercado de mídia brasileiro amargou a estagnação das receitas de publicidade, que ficaram entre R$ 9 bilhões e R$ 10 bilhões por ano e, em dólar, viram o faturamento despencar de US$ 5,3 bilhões para US$ 3,3 bilhões, ou seja, uma queda de quase 40% devido, em grande parte, à desvalorização do real frente ao dólar [ver tabela 6]. Estas receitas são importantes porque, em alguns casos, como na televisão aberta e em muitos sítios de internet, significam a totalidade de recursos possíveis – mesmo que a internet ainda tenha no Brasil uma participação desprezível no bolo de publicidade como um todo, não mais de 2% ou 3% do total.</p>
<p>Nos jornais e revistas, a receita de publicidade forma, em geral, a metade da receita total. A outra metade é composta pelas receitas de circulação (venda avulsa mais assinaturas). A televisão aberta vive da publicidade (onde se inclui o “merchandising”). A televisão paga vive das assinaturas mais a publicidade. Os provedores de internet vivem de assinaturas, da publicidade e do comércio eletrônico. Alguns sítios na internet vivem apenas da publicidade e comércio eletrônico e outros retiram seus recursos da publicidade, do comércio eletrônico de terceiros e da comercialização do próprio conteúdo.</p>
<p>Em relação à televisão, ela também vem perdendo, não audiência, mas tempo de exposição junto ao público, principalmente nos EUA, onde institutos de pesquisas contratados pelos novos meios de comunicação apontam transferência de tempo de televisão para a internet. O público, em vez de assistir à televisão, agora “assiste internet”, como se diz entre os membros da nova indústria da mídia.</p>
<p>“Se você pudesse usar apenas dois veículos de comunicação na sua vida, quais os dois veículos de comunicação que você usaria?”, perguntou um desses institutos aos americanos, sob o patrocínio da Online Publishers Association. O resultado é óbvio: 45,6% apontaram a internet como primeira escolha e 34,5% a televisão. Ou seja: 80% do público prefere internet e televisão e, relevante, a internet é colocada em primeiro lugar. A mesma pesquisa perguntou quanto tempo cada um usava determinada mídia durante um típico dia de semana. Resultado: 19% usavam a internet mais de 5 horas por dia, enquanto 15% gastavam o mesmo tempo com a televisão. De um ano para outro, 47% disseram despender mais tempo com internet.(18)</p>
<p>A população internauta cresce exponencialmente em todo o mundo e existem países, como os EUA, cuja penetração do veículo (a quantidade de pessoas com conexão de internet) era de quase 70% em 2004 (conforme o sítio eMarketer), ou seja, quase 70% da população norte-americana tinha acesso à internet, enquanto no Brasil a penetração estaria na casa dos 11%, conforme a tabela 5, composta a partir de fontes diversas. Uma outra fonte, o Ibope/Net Ratings, apurou mais: no final de 2004 teriam acesso à rede 31,9 milhões de brasileiros, o que perfazia uma penetração de 17%.</p>
<p><strong>Mais uma pausa para o Brasil</strong></p>
<p>Nada indica, entretanto, que esse mercado vá alcançar no Brasil, no médio prazo, números de penetração semelhantes aos de primeiro mundo, por conta do preço do acesso e de seus componentes e a despeito de todas as tentativas de inclusão digital. Em outubro de 2005 a quentidade de internautas, conforme o mesmo Ibope/Net Ratings, estava na casa dos 32 milhões, o que podia sugerir um começo de estagnação deste mercado, até que o país volte a crescer economicamente de forma sistemática.</p>
<p>A propósito, veja o exemplo do mercado de televisão paga: em meados da década de 90 todos os bancos de investimento previam público assinante de cerca de 10 milhões de domicílios para o final do século 20. Grupos de comunicação, como Globo e Abril, e vários outros grupos empresariais e de investidores atiraram-se à nova indústria, escolheram sistema, instalaram fibra ótica nas ruas das grandes cidades e começaram a vender assinaturas.</p>
<p>A conta era simples: se cada assinante da televisão a cabo pagasse R$ 50 de assinatura por mês, com dez milhões de assinantes isso comporia um faturamento mensal de R$ 500 milhões, ou seja, um total de R$ 6 bilhões por ano! Na época, o real era cotado a um dólar. As projeções levavam então para um faturamento geral da ordem de US$ 6 bilhões em 2000.</p>
<p>Nenhuma empresa de comunicação, em sã consciência, queria ficar fora desse mercado, dessa inovação, de um pedaço desse faturamento. O dinheiro dos bancos de investimentos e de investidores caiu do céu, era desnecessário ir atrás, batalhar por ele. Chegava fácil. E a dívida também. Dívida essa que está na raiz da crise dos grupos Globo e Abril nos primeiros anos do século 21. Ambos devem seu endividamento à entrada no mercado de distribuição de televisão paga. (Há quem pergunte, para livrar a cara dos endividados: distribuição de sinal de televisão seja por cabo ou satélite é negócio para emissoras de televisão? Seria o mesmo responder que distribuir jornais e revistas também não é negócio para jornais e revistas.)</p>
<p>O pior: o mercado de televisão paga parou de crescer em 1996, caiu e depois voltou a crescer, mas está estagnado na faixa dos 3,5 milhões de assinantes. Não existe renda suficiente nas classes menos favorecidas para pagar mensalidades a partir de R$ 50,00 por mês.</p>
<p>Assim, à luz do acontecido na televisão paga, o crescimento do mercado de internet no Brasil nos últimos anos da década de 90 e no começo do século (de 2003 para 2004, a totalidade da população conectada à internet cresceu 40% – ver tabela 5) não garante fôlego nem poder de compra da população para arcar com os custos da internet, mesmo com a popularização no país do acesso dito gratuito – uma vez que ele não é gratuito, porque a conta do telefone aumenta conforme se gastam pulsos nas conexões para entrar e permanecer na rede e também porque acesso à internet requer equipamento de custo acessível apenas para parte da classe média e da classe alta. Esta última usa conexões caras, de alta velocidade, via cabo, satélite ou telefone.</p>
<p><strong>Cinco preocupações</strong></p>
<p>A queda de circulação nos jornais e revistas e a emergência de novas formas de distribuição de mídia – via rede de computadores, “laptops”, “palmtops”, celulares e o que mais se inventar a partir da disseminação da tecnologia digital – reforçam a preocupação da tradicional indústria de mídia com a canibalização de seus produtos: o medo de que todos passem a ler jornal e revista e a assistir televisão somente via internet.</p>
<p>Especialistas de mídia nos EUA, responsáveis pelo relatório anual do “Project for Excellence in Journalism”, cujo alto-falante é o sítio www.journalism.org, apontaram em 2005 cinco problemas e as preocupações a eles inerentes em relação à mídia noticiosa. Denotam uma situação tão grave quanto a inexorável queda de circulação da imprensa escrita e que podem, no médio prazo, liquidar com as margens e com a capacidade de recuperação dessa indústria, além de escancarar a radical transformação na maneira de se fazer mídia promovida pelas novas tecnologias.</p>
<p>Os cinco problemas para o jornalismo, numa tradução livre do relatório publicado no sítio www.journalism.org, são:</p>
<p><strong>1.</strong> Existem agora diversos modelos de jornalismo, e o caminho leva àqueles que são mais rápidos, mais inexatos e mais baratos. Em paralelo, o jornalismo investigativo, de verificação, está sendo substituído pelo jornalismo assertivo, de afirmação, cuja base são as opiniões pessoais;</p>
<p><strong>2</strong>. A ascensão do partidarismo no consumo da notícia e a noção de que as pessoas recuam às suas ideologias quando lêem notícias é fato, mas têm sido largamente exageradas;</p>
<p><strong>3.</strong> Para adaptar-se, o jornalismo deve se mover no sentido de realizar seu trabalho de forma mais transparente e com mais expertise, além de alargar o campo do seu farol [e nada garante que isso esteja acontecendo – nota do autor];</p>
<p><strong>4.</strong> Apesar das novas demandas, há mais evidências do que nunca de que os principais meios tradicionais de comunicação estão investindo de forma muito prudente na criação de novas audiências. Isso deixa espaço para que outras empresas ocupem estrategicamente a web;</p>
<p><strong>5.</strong> As divisões de jornalismo das três grandes emissoras de TV norte-americana enfrentam o momento mais importante da transição das últimas décadas. Uma geração de jornalistas da rede está se aposentando. Acrescente-se a queda de audiência devido à concorrência da Internet e da TV a cabo.(19)</p>
<p>Em resumo, para tentar salvar o jornalismo tradicional, os especialistas norte-americanos analisam: o jornalismo está ficando cada vez mais rápido, inexato e barato; quanto mais partidarizado, mais desconfiado fica o público em relação às notícias; os jornalistas mais experientes estão se aposentando e tudo de bom trazido por essa geração está se pulverizando; as empresas precisam investir em novas audiências, mas não o fazem; para se adaptar aos novos tempos, o jornalismo tem que ser mais transparente, trazer mais expertise e alargar o campo de seu farol.</p>
<p>São aflições importantes do ponto de vista estratégico, mas suficientes para trazer vida nova às tradicionais formas de distribuição de notícia? Para revolucionar as velhas mídias basta curá-las do medo da canibalização? Será esta a razão pela qual vingou a concentração e os vencedores são os grandes conglomerados de mídia (ou novos aventureiros) porque tiveram visão estratégica, conseguiram trabalhar sob esta nova moldura e não se preocuparam tão somente em retransmitir, em reproduzir o mesmíssimo conteúdo, seja impresso seja audiovisual, mas em reinventá-lo na internet?</p>
<p>No limite, o terceiro item (para se adaptar, o jornalismo tem que ser mais transparente, trazer mais expertise e alargar o campo de seu farol), se bem aplicado, serve para qualquer forma de comunicação e sob qualquer suporte – papel, vídeo, tela de computador, de celular, de “palm” ou de qualquer outro futuro “device”.</p>
<p>Essas assertivas só reforçam a imperiosa obrigação de toda empresa de comunicação se reciclar para entender que seu negócio não é mais simplesmente processar o melhor conteúdo e imprimi-lo por meio de tecnologias do século passado (as rotativas) e distribuí-lo de forma medieval (carregado fisicamente por veículos de roda até os domicílios, bancas e empresas). Mais cedo ou mais tarde, essa indústria – mesmo trabalhando com tecnologias “modernas” como a da televisão – estará incorporada direta ou indiretamente a algum grupo global de comunicação em relação ao qual já age como satélite.</p>
<p><strong>Três conceitos para iluminar a situação</strong></p>
<p>Com certeza, a maneira de consumir mídia mudou. Mudou igualmente a maneira de produzir mídia. Mudou porque a desagregação da esfera pública se traduz num jogo de comunicação entre múltiplos agentes que mimetizam facetas e técnicas da imprensa e as usam segundo as respectivas necessidades e interesses. Hoje, para que algo vire notícia, independentemente desse algo próprio, existe o trabalho planejado e profissional de lobistas, assessores de imprensa (transmutados em “agentes de comunicação”), analistas corporativos, assessores governamentais, “blogs” de analistas independentes, informações dispersas nas redes corporativas e acadêmicas, além das outras fontes tradicionais de informação. Nos lances de tensão nos quais se dá formato às notícias e ao espetáculo que a envolve na mídia, cada jogador atua com o seu peso e sempre de forma assimétrica.</p>
<p>Três conceitos podem ajudar a iluminar o problema da comunicação, a lançar um foco de luz para que, ao menos, se enxergue algo do que ocorre. São os conceitos de “modernidade líquida”, de Zygmunt Bauman, do “príncipe eletrônico”, de Otavio Ianni e o de “assimetria da informação”, de Joseph Stiglitz.</p>
<p>Liquidificada pelas novas mídias, a comunicação entra em uma nova era, não mais pós-moderna, melhor, líquida, como prefere o sociólogo polonês radicado na Inglaterra Zygmunt Bauman. Nessa modernidade líquida, os conceitos e interesses se amoldam ao sabor das ondas, aos altos e baixos e às discrepâncias das profundezas para exibir uma superfície plana, que cobre extensivamente todo o planeta com seu abraço que afaga e afoga.</p>
<p>Líquida porque a “sociedade moderna, como os líquidos, se caracteriza por uma incapacidade de manter a forma”, diz Bauman. E acrescenta: “Nossas instituições, nossos quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades ‘auto-evidentes’”.(20)</p>
<p>Passada a modernidade “sólida” – ela pode ter nascido com Descartes e morrido por volta dos anos 80 do século 20, quando os conceitos tinham consistência e substância –, surgiu um novo mundo no qual os conceitos e os valores são relativos, principalmente na comunicação.</p>
<p>Dentro desta pós-modernidade definida como líquida forjou-se um outro fenômeno, o do “príncipe eletrônico”, o único senhor das engrenagens da globalização, conforme o bordão criado por outro sociólogo, Otavio Ianni, para aquilo em que se transformou, na pós-modernidade, o conceito do príncipe de Maquiavel. Conceito que também havia sido substituído – e agora ultrapassa o do “príncipe moderno”, o partido político, conforme cunhou Antonio Gramsci.</p>
<p>O príncipe eletrônico não é nem a figura do líder político, na acepção clássica a partir da definição dada por Maquiavel, o condottiere, e muito menos o todo poderoso partido político que fez revoluções socialistas e deu novo sentido ao capitalismo, ao trabalhismo e ao liberalismo. O príncipe eletrônico engloba líder e partido e não apenas realiza, como deixa para trás não só a perspicácia, mas todas as atividades das duas instituições.</p>
<p>É uma “entidade nebulosa e ativa, presente e invisível, predominante e ubíqua”, que permeia todos os níveis da sociedade. Essa entidade “expressa principalmente a visão do mundo prevalecente nos blocos de poder predominantes em escala nacional, regional e mundial”. Ela está presente também localmente, ela é a mídia, e a grande corporação da mídia é aquela que “realiza limpidamente a metamorfose da mercadoria em ideologia, do mercado em democracia, do consumismo em cidadania”.(21)</p>
<p>O príncipe eletrônico é a face globalizada da indústria cultural, é a onipresença da mídia que regula e desregula, instaura e tira, manda e desmanda – num mundo onde a informação não corre solta nem totalmente livre, porque corre desigual. É tanto a mídia das corporações quanto dos “blogs”, dos jogos de tensões, das versões, dos fatos, da propaganda, do merchandising, da moda, dos costumes – da ausência de valores.</p>
<p>Se a informação corre de forma abundante, facilmente capturável, nada garante que ela corra inteira, em formato inteligível e confiável. Ela se movimenta de forma assimétrica, sempre. Ao lado da modernidade líquida e do príncipe eletrônico, esse é mais um conceito inteligente para entender a arquitetura da comunicação globalizada. Foi desenhado por Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia em 2001, ao analisar algo que pouco tinha a ver, aparentemente, com a indústria da cultura.</p>
<p>Ao explicar a questão da assimetria da informação nos mercados econômicos, Stiglitz iluminou outra face do mesmo problema, cuja raiz se desnuda quando se sabe melhor, a partir dele próprio, que as imperfeições da comunicação, mesmo sob o domínio das mais portentosas técnicas da mídia, são “pervasivas”, onipresentes, não só na economia, mas na comunicação como um todo.</p>
<p>Assimetria quer dizer ausência de igualdade, falta de simetria, ou seja, uma disparidade, uma discrepância, uma desigualdade. Um lado sempre tem mais informação do que o outro no processo da comunicação. Isso vem do fato de pessoas diferentes saberem coisas diferentes e em quantidades e profundidades distintas. “Os trabalhadores sabem mais sobre suas habilidades do que a empresa, quem compra seguro de saúde sabe mais sobre sua saúde, se fuma ou bebe de forma imoderada, do que a empresa de seguros; o proprietário de um carro sabe mais sobre o carro do que compradores potenciais; o proprietário de uma empresa sabe mais sobre a empresa do que um investidor potencial; o credor sabe mais sobre seu risco e o risco tomado do que o emprestador”.(22)</p>
<p>Por decorrência, a fonte do jornalista, um ambientalista, por exemplo, sabe mais do que o jornalista que o procura para reportar as queimadas na Amazônia. O jornalista que colheu as informações sabe mais do que o editor que vai estampá-las. O editor sabe mais do que o diretor do seu veículo, que, por sua vez, sabe mais que o leitor leigo&#8230;</p>
<p>A conseqüência natural é que aquela informação publicada poderá conter menos informação do que o ambientalista consideraria vital e o veículo poderá descartar dados importantes, distorcê-los, retirar declarações do contexto, mudar significados e, muitas vezes, sem que o jornalista e o editor se dêem conta da grotesca vulgarização e distorção que a limitação de tempo e de espaço, inerentes à atividade da indústria da comunicação, fizeram-nos perpetrar.</p>
<p>Assimétricas, as informações dançam conforme os entendimentos, as necessidades e a manipulação das forças tencionadas no espaço do príncipe eletrônico – além de terem sido vulgarizadas e facilitadas para a compreensão média do público, para conforto dos comunicadores em relação à idéia que eles mesmos formam do gosto médio do “grande público”. O nivelamento praticado pela indústria da cultura assim o exige e assim realimenta a cadeia da informação sistematicamente nivelada sempre a um nível mais baixo, sempre em busca da compreensão mais generalizada. São três as instâncias em tensão nesse processo:</p>
<p>Primeira: a fonte, que pode estar nos aparelhos do Estado, nas agências de comunicação ou assessorias de imprensa, nas corporações, nas empresas, nas universidades, nos partidos, nos sindicatos, nas ONGs e instituições em geral;</p>
<p>Segunda: o jornalista ou o comunicador, em conjunto com a empresa de comunicação;</p>
<p>Terceira: o público.</p>
<p>A tensão entre elas – fonte + jornalista/empresa + público – produz resultados que emergem de um espaço ao mesmo tempo concentrado e disperso, tanto assimétrico quanto permeável. Nessa nova arquitetura, em que o jogo de forças é desigual, o desenvolvimento tecnológico leva a situações inéditas.</p>
<p>O paradoxo concentrado/disperso se insere na idéia de fluidez pela qual se constitui o mundo dito pós-moderno. Nas dores de cabeça dos especialistas do sítio www.journalism.org, aparece uma das facetas dessa fluidez, dessa dispersão que modifica a face da mídia: “O modelo tradicional da imprensa – do jornalismo da apuração – é aquele em que os jornalistas estão preocupados primeiramente em tentar substanciar fatos. Ele vem cedendo terreno há anos aos “talk shows” e, na TV a cabo, para um novo jornalismo assertivo, no qual a informação é oferecida sem muita investigação e com poucas tentativas de verificar de forma independente sua veracidade. Também a `blogosfera´ (o fenômeno dos `blogs´, da internet), enquanto adiciona a riqueza de vozes dos cidadãos, expande essa cultura assertiva, ou opinativa, de forma exponencial e a traz para uma filosofia afirmativa: publique qualquer coisa, especialmente pontos de vista, e os relatos e a verificação ocorrerão mais tarde, na resposta dos companheiros `bloggers´. O resultado é às vezes verdadeiro, às vezes falso. `Blogs´ ajudaram a desmascarar erros da imprensa, mas espalharam também infundadas teorias, como, por exemplo, a ocorrência de corrupção em parte das eleições presidenciais [americanas]. Tudo isso torna mais fácil a manipulação da opinião pública – via governo, grupos de interesse e corporações – quando se distribuem mensagens não apuradas por meio de distribuidores independentes ou de seus falsos sítios noticiosos, de vídeo e “press-releases” impressos e comentadores pagos. Na seqüência, a edição computadorizada tem o potencial de pegar tudo e misturar numa coisa só”.(23)</p>
<p>Misturam-se blocos de textos por meio de uma associação de dados computadorizada que mescla informações produzidas por fontes idôneas com as produzidas por fontes inidôneas e que criam, comumente, novos significados, mais ou menos ou totalmente falsos, sem nenhuma representatividade, mas com razoável capacidade de propagação. Dois exemplos simplórios: a Amazônia teria sumido do espaço brasileiro em mapas escolares norte-americanos; o telefone celular não poderia ser usado em postos de gasolina.</p>
<p>Na esfera das tensões, o público encontrou sua maneira de participar, e as diferentes fontes encontraram maneiras mais eficientes de manipular a mídia. Até explicar que determinada informação não tem credibilidade, muitas vezes já se criou uma versão transmutada em fato definitivo e inabalável. As facilidades de comunicação tornam mais complicado o jogo da credibilidade, pedra de toque do jornalismo até o nascimento dessa nova mídia. Não é à toa que a indústria propagadora dos mitos da imparcialidade, independência e objetividade sofra agora para tentar separar o joio do trigo.</p>
<p>Em abril de 1990, no encontro anual de ombudsmen de imprensa, nos EUA(24), um especialista em comunicação, o professor Robert L. Stevenson, da Escola de Jornalismo da Universidade da Carolina do Norte, analisava quatro tendências no mundo da comunicação global do século 21:</p>
<p>1. O domínio constante anglo-americano em todos os aspectos da comunicação moderna;</p>
<p>2. O ressurgimento da identidade cultural como base de conflito, uma recolocação ideológica da confrontação;</p>
<p>3. O início de uma cultura global fomentada por organizações multinacionais de comunicação, muitas delas norte-americanas;</p>
<p>4. O triunfo do jornalismo independente e a morte da Nova Ordem Internacional da Comunicação, fomentada com a ajuda da Unesco.</p>
<p>Das quatro tendências ali apontadas, a realidade deixou claro que:</p>
<p>1. O domínio europeu-americano em todos os aspectos da comunicação moderna é fato inconteste;</p>
<p>2. O ressurgimento da identidade cultural como base de conflito ou uma recolocação ideológica da confrontação se realizou de forma clara na luta contra o fundamentalismo religioso travada depois dos ataques às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. E as identidades culturais nacionais, como analisa Stuart Hall, “estão em declínio, mas novas identidades – híbridas – estão tomando o seu lugar”;(25)</p>
<p>3. O rápido desenvolvimento de uma cultura global fomentada por organizações multinacionais de comunicação, muitas delas norte-americanas, também é fato mesmo e apesar de resistências nacionais, regionais ou locais;</p>
<p>4. O triunfo de uma forma de jornalismo independente pode ser entendido na multiplicidade de sítios e “blogs” disponíveis universalmente na rede – mas a independência não é garantia nem de seriedade nem de credibilidade.</p>
<p>No jogo das instâncias, os grandes conglomerados de mídia e os seus satélites formam e deformam opiniões, criam e destroem sucessos, lançam e derrubam modas, estimulam e acabam com carreiras, fazem e acontecem.</p>
<p>À essa partida midiática, somam-se, paradoxalmente, todas as possibilidades de manipulação promovida pelas fontes e de instrumentalização da representação da realidade, além da interferência das interações não tradicionais – os “blogs” são um exemplo. É a modernidade em estado líquido, a individualidade fluida, nivelada de forma global, globalmente conectada e saturada de informação.</p>
<p><strong>Cinco movimentos reais</strong></p>
<p>Liquidificada a história da mídia e analisada a sua situação na era digital, é possível traçar movimentos que denotam o fim do jornalismo tal como conhecido:</p>
<p>1. A concentração que leva à formação dos grandes conglomerados de mídia não é mais tendência, é fato. Esse movimento tende a abater a tradição dos grupos familiares à frente dos negócios de comunicação. Empresas sem nenhuma tradição na indústria do conteúdo começam a dominar a mídia. No Brasil, a crise levou históricos grupos familiares de imprensa à bancarrota ou à perda do controle de suas empresas;</p>
<p>2. O suporte papel jornal tende a desaparecer no formato atual, que utiliza enormes rotativas. Há previsões, inclusive, de que os jornais acabariam em 2043, mas eles podem estagnar com baixa circulação e relativa lucratividade – o fato é que nada indica que devem aumentar exponencialmente em circulação. Os jovens não lêem mais jornais impressos. Relatório da Carnegie Corporation, citado por Murdoch no seu discurso aos jornalistas, informa que 44% dos jovens usam portais ao menos uma vez por dia em busca de notícias, enquanto apenas 19% lêem jornal diariamente;</p>
<p>3. O papel do jornalista será diminuído em função da manipulação da informação pelas fontes e por conta da própria assimetria da informação. Isso porque elas, as fontes, detêm informação com mais abrangência e profundidade. O jornalista terá cada vez menos tempo para apurar, pesquisar e checar dados. Eles poderão até já estar publicados em algum lugar quando o jornalista chegar até eles;</p>
<p>4. A maneira de fazer jornalismo muda completamente com a nova realidade digital, que carrega a possibilidade de fazer buscas assertivas globais, de forma aleatória e automática, e de mesclar informações confiáveis com informações não confiáveis. Os grupos de mídia que não se reciclarem e não investirem definharão na medida da decadência das velhas mídias – em especial, as mídias impressas. O jornalismo tradicional vai mudar, “Dê às pessoas o controle da mídia, elas o usarão; não dê às pessoas o controle da mídia, você as perderá” – afirmou Murdoch, sempre preocupado, no famoso discurso. As pessoas querem participar da feitura das notícias, querem informações sob demanda direta delas próprias. Os “blogs” são a ponta desse iceberg. A indústria terá de se ajeitar com isso e “permitir” que cada individualidade imagine ter o controle da mídia, pois cada uma terá sua relevância própria e as individualidades se afirmarão enquanto tal. Em relação às novas formas, no seu discurso, Murdoch explica que o tráfego de notícias do portal de busca Google (que mescla informações de diversas fontes) cresceu 90% em um ano (2005 versus 2004), enquanto o “excelente sítio do jornal The New York Times decresceu 23%”;(26)</p>
<p>5. As redes de informação vão proliferar. Muitas já nasceram e crescem em escala geométrica. Formam-se a partir de redes de instituições e de organizações não-governamentais, redes governamentais, redes comerciais, redes industriais, redes de serviço, sindicais, partidárias, universitárias, esportivas, de fãs-clubes&#8230; Cada uma delas terá sua própria produção de informação. A segmentação vista no mercado de revistas é infinitamente menor em relação à capacidade de segmentação e de aprofundamento de questões das redes independentes e interdependentes, com níveis e mais níveis de acesso à consulta das informações e dos dados.</p>
<p>Nunca será demais repetir: está em desenvolvimento uma comunicação mais fluida, mais individualista e ainda mais assimétrica. O jornalismo perde a proeminência e se transforma em mais uma forma de informação. Não será mais o principal ator no espetáculo da comunicação. Nesse jogo de múltiplos atores, e muita assimetria, é que se dá e se fará cada vez mais o jogo do poder. Ou seja: absolutamente nada existirá se não estiver entrelaçado pelo abraço líquido do príncipe eletrônico.</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p>(1) Este texto, que apareceu originalmente na Revista USP de número 66, de 2005, também faz parte do livro Ombudsman &#8211; O relógio de Pascal, publicado em segunda edição (totalmente revista e atualizada) pela Geração Editorial em 2006, no capítulo 17, com o titulo: “Tem futuro? Incursão sobre números nada positivos para os jornais”. Esta versão reproduz a do capítulo do livro, a mais atual.</p>
<p>(2) Ver Dreyer, 2003.</p>
<p>(3) Ver Financial Times, US Media, 24 de fevereiro de 2005.</p>
<p>(4) Family Business Magazine, 2004. Ver www.familybusinessmagazine.com.</p>
<p>(5) Para a profecia, ver The Media Monopoly de Ben Bagdkian, 1990.</p>
<p>(6) Ver Burch, Leon e Tamayo, 2003.</p>
<p>[(7) Idem.</p>
<p>(8) Idem Burch, Leon e Tamyo, 2003.</p>
<p>(9) Tudo leva a crer que a Folha realizou a associação com a PT Telecom na Empresa Folha da Manhã para, numa operação muito bem feita, usar as reservas financeiras do UOL a fim de sanar as dívidas do jornal. Com isso, pôde também solucionar dívida do UOL com a própria PT Telecom.</p>
<p>(10) Conforme anúncio publicado no jornal Valor Econômico de 3/1/06, pág. A5.</p>
<p>(11) Em 2006 tramitava no Senado brasileiro uma Proposta de Emenda Constitucional neste sentido, a PEC-55.</p>
<p>(12) Idem, Burch, Leon e Tamayo, 2003, pág 40.</p>
<p>(13) Bauman, 1998, pág. 34.</p>
<p>(14) Cavalcanti, 2005, pág. 3.</p>
<p>(15) Ver apresentação da Newspaper Association of America, Why the Current Business Model Needs to Change, disponível no sítio www.naa.org e citado em www.journalism.org, onde se pode ver o relatório de 2005.</p>
<p>(16) Ver entrevista de Arthus Ochs Sulzberger Jr. republicada por O Estado de S. Paulo em 28/4/2005, à pág. A16. Ver também o Relatório de 2005 em www.journalism.org</p>
<p>(17) Ver discurso de Murdoch realizado em 13 de abril de 2005 e disponível online no sítio www.newscorp.com/news/news_247.html e Meyer, 2004, pág. 16.</p>
<p>(18) Ver o sítio www.online-publishers.org</p>
<p>(19) Ver www.journalism.org, Relatório de 2005, do Projeto para a Excelência em Jornalismo do Comitê dos Jornalistas Preocupados patrocinado pela Universidade de Columbia e Pew Charitable Trust.</p>
<p>(20) Entrevista de Bauman na Folha, caderno Mais!, 2003, págs. 4 a 9.</p>
<p>(21) Ianni, 2000, págs. 148 a 152.</p>
<p>(22) Stiglitz, 2001.</p>
<p>(23) Ver o Relatório de 2005 de www.jourrnalism.org</p>
<p>(24) Encontro do qual o autor participou, em Williamsburg, EUA.</p>
<p>(25) Hall, 1999, pág. 69.</p>
<p>(26) Murdoch, idem nota 15.</p>
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		<title>Um passeio pela história do movimento estudantil</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 19:15:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[Posfácio à Memória do Movimento Estudantil publicada pelo Museu da República (2005)
Caio Túlio Costa
Ao aprofundar as maneiras de ver o movimento estudantil, o seminário realizado em São Paulo por conta do projeto de recuperação da memória do mesmo, tocou no cerne das questões que mantêm este movimento social como uma grande interrogação desde sempre. Quando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Posfácio à Memória do Movimento Estudantil publicada pelo Museu da República (2005)</p>
<p>Caio Túlio Costa</p>
<p>Ao aprofundar as maneiras de ver o movimento estudantil, o seminário realizado em São Paulo por conta do projeto de recuperação da memória do mesmo, tocou no cerne das questões que mantêm este movimento social como uma grande interrogação desde sempre. Quando saem às ruas, os estudantes querem melhorar o ensino ou mudar o mundo? Eles têm maturidade para o fazer político? Enquanto pós-adolescentes, toda essa flama não se apaga quando adentram no mercado de trabalho?</p>
<p>Quando Arthur José Poerner &#8211; então jornalista e depois o mais completo historiador do movimento estudantil brasileiro &#8211; ouviu os ditadores dizerem que os estudantes não podiam ter participação política, ele foi pesquisar na Biblioteca Nacional e descobriu que a participação política estudantil existe desde o Brasil-Colônia, e não somente no Brasil. Os ditadores não queriam calar apenas os estudantes, mas também uma tradição.</p>
<p>Este seminário [realizado no Tuca, teatro da PUC de São Paulo, em 9 e 10 de dezembro de 2004], talvez o mais significativo mergulho na história, na cultura e na sociologia deste movimento social realizado nos últimos anos, veio trazer à tona o quão relevante esse mito político &#8211; no dizer de José Alberto Saldanha &#8211; incorpora mudanças à sociedade como um todo.</p>
<p>Quando se debruça sobre o sentido social da “internacional estudantil”, nas palavras da filósofa Olgária Matos (1), fica claro como esse movimento de colorações distintas, mas preocupações comuns, se espraiou pelas sociedades mais diferentes do mundo ocidental, em especial a partir da década de 1960 e, no Brasil, se transformou no batedor, na ponta-de-lança da mobilização política que, no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, enterrou uma das mais longas ditaduras militares da América do Sul, precipitando a redemocratização.</p>
<p>A movimentação política estudantil se produz em dimensão mundial em 1968 &#8211; acentuadamente na Europa. Naquele ano, a “vaga subversiva” atinge inúmeros países. França, Alemanha, Inglaterra, Irlanda do Norte, Polônia, EUA, Itália, Espanha, México, Brasil, Argentina, Uruguai, Nicarágua &#8230; Havia uma preocupação quase comum: a guerra do Vietnã, a luta contra a presença dos EUA no Vietnã, a manifestação pela retirada de suas tropas do território vietnamita. Isso catalisava estudantes da América e da Europa. “Os vietnamitas deveriam, sozinhos, trilhar seu próprio destino com as escolhas que fossem as mais convenientes para a sua população”, explica a professora de história Maria Aparecida Aquino. (2)</p>
<p>Na França, de um lado, os militantes organizados (em especial correntes trotskistas e maoístas &#8211; todas leninistas) iam à frente de um esquema bem organizado, rígido &#8211; pode-se dizer leninista. De outro, a grande massa que explodiu inteiramente por fora das correntes políticas e até contra o autoritarismo presente nas organizações de extrema esquerda e desenvolveu instintivamente uma estratégia nova, que contestava radicalmente tanto as estruturas repressivas do Estado democrático quanto as do contra-poder comunista. (3) O mundo vivia o auge da guerra fria e as nações comunistas estavam a dois passos do início da sua derrocada &#8211; que começou coma Primavera de Praga, quando a então União Soviética invadiu com suas tropas e seus tanques a Checoslováquia, cujo governo comunista ensaiava um comunismo humanista e um desligamento da URSS, sob a liderança de Alexandr Dubcek.</p>
<p>No Brasil de 1968, o ano do auge das manifestações estudantis no século passado, havia, de um lado, o poder militar na sua desagregação pré-recrudescimento da ditadura (que culminou com a edição do Ato Institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968) e, de outro, os estudantes organizados como espécie de porta-vozes da estrutura partidária empurrada para a ilegalidade pela ditadura, à frente da grande massa estudantil, que havia se elevado contra o regime opressivo e viu-se sufocada pelos cinco anos seguintes, a fase mais tenebrosa da ditadura pós-AI-5.</p>
<p>A professora Aquino define duas fases distintas do movimento estudantil brasileiro: 1) a que se relaciona às lutas em defesa do ensino público e gratuito em todos os níveis e 2) a que vem com o renascimento do movimento estudantil na segunda metade dos anos 70 e que “representa o estopim para a reorganização dos movimentos sociais após a longa ressaca repressiva durante o regime militar”. (4)</p>
<p>Uma olhada na cronologia do movimento estudantil brasileiro mostra claramente que ele começa com reivindicações pedagógicas, adentra no nacionalismo ferrenho (como no episódio “O petróleo é nosso”, quando a UNE, financiada por Getúlio Vargas, apoiou o movimento de criação da Petrobrás), continua nacionalista, quando, por exemplo, a UNE está no palanque ao lado de João Goulart, e depois, sob o pretexto de melhorar o ensino, entra de cheio na questão política contra a ditadura, usa as ações culturais (como o teatro, via CPCs, Centros Populares de Cultura) como arma de “conscientização” dos estudantes e acaba assistindo grande parte de suas lideranças sonhar com a revolução socialista que não tinha mais sentido porque a derrocada do próprio socialismo já estava em marcha, principalmente com a citada invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, para acabar de vez com a Primavera humanista que “ameaçava” fazer ruir a sociedade socialista.</p>
<p>Em 1960, o Brasil tinha 70 milhões de habitantes e somente 95 mil universitários matriculados. Em 1968, o país contava com cerca de 88 milhões de habitantes (crescera 26% em relação ao começo da década de 60) e a quantidade de estudantes universitários saltara para mais de 278 mil matriculados, um pulo de quase 200%. O regime militar conseguira elevar o número de universitários. Em 1970 (ainda com os militares no poder), a quantidade de matrículas ultrapassou um milhão. No final do século 20, quinze anos após o fim da ditadura, o ensino superior alcançava quase 2,5 milhões de matriculados.</p>
<p>Apesar de dobrar o percentual de universitários matriculados em relação ao total da população (era de 0,14% em 1960 e chegou a 0,31 % em 1968) e de quadruplicá-lo em 1970 (1,15%), o acesso da população aos cursos superiores no Brasil permanece irrisório, especialmente se comparado a países de primeiro mundo. Estudo da Unesco de 2002, que agrupava a população segundo o nível de instrução das pessoas acima de 25 anos, mostrava que, no Brasil, o percentual de pessoas com ensino universitário era de 5% em relação à população mencionada. Nos Estados Unidos, era de quase 32% e, na França, quase 37%. (5) Proporcionalmente, ambos os países de primeiro mundo têm mais de seis vezes universitários do que o Brasil.</p>
<p>Estes números mostram que apenas parte das classes médias realmente conseguiram acesso à universidade, primeiramente engordadas pelo regime militar e depois infladas pelo vertiginoso crescimento das escolas particulares, impulsionadas pelas condições econômicas e pelos regimes democráticos.</p>
<p>Numa mesa-redonda realizada vinte anos depois dos acontecimentos de maio de 68 na França, o escritor Jacques Baynac, autor de May retrouvé (ou “Maio reencontrado”, Lafont, 1978), tenta explicar o que para os franceses ainda permanecia um enigma: que força foi aquela que movimentou estudantes no mundo inteiro, gritando palavras de ordem tão significativas como “a imaginação ao poder”, “é proibido proibir”, “sejamos razoáveis, peçamos o impossível”, “sob as pedras, praia”, “o poder está nas ruas” ou “Marx, Marcuse, Mao”?</p>
<p>Para Baynac, o coração do enigma de maio estaria lá na famosa noite das barricadas no Quartier Latin, de Paris: “Eu acredito que 68 foi a verdadeira revolução na revolução, nada a ver com aquela anunciada por Regis Debray, mas aquela que, pela primeira vez na história, viu manifestar-se urna força subversiva criada pela abundância, e não mais pela miséria, uma força que não queria mais morrer pela revolução, mas viver graças a ela, urna força que queria mudar tanto o modo de vida quanto o mundo, mas que se recusava a tomar o poder para fazê-lo.”</p>
<p>Com a delicadeza que o distanciamento de duas décadas pode produzir, Baynac mostrou que, mesmo e apesar das organizações que dominavam a elite dos estudantes (todas de esquerda e divididas entre comunistas, trotskistas e maoístas), havia um desejo de mudança, um desejo que, no caso da França, acabou como crítica tanto das opressões dos regimes democráticos quanto dos ditos socialistas. Um desejo que vem não mais de miseráveis oprimidos, mas da juventude que mistura classes média e alta, todas bem-nutridas de comida e de idéias.</p>
<p>A “revolução na revolução” se dá de todas as formas, e sequer ícones da intelectualidade da esquerda foram poupados. O jornalista-filósofo mais incensado da França em todos os seus tempos, Jean Paul Sartre, acabou vaiado em 20 de maio, na Sorbonne, pelos estudantes: “Sartre, seja breve”. Na Alemanha, um pouco depois, o maior estudioso da dialética negativa, Theodor Adorno, um dos criadores da venerada Escola de Frankfurt, teve que fechar a escola porque sua aula acabou sendo interrompida pelos estudantes. O próprio Adorno se explicou numa carta dramática a Herbert Marcuse, na qual revela um diálogo cruel com o líder estudantil Daniel Cohn-Bendit: “Afinal, preciso defender os interesses do Instituto &#8211; nosso velho Instituto ( &#8230; ) Recentemente, o sr. Cohn-Bendit disse-me, durante uma discussão numa associação profissional, que eu só teria o direito de procurar a polícia se alguém quisesse espancar-me a pauladas; respondi que então talvez fosse tarde demais. O caso da ocupação do Instituto não permitia nenhum comportamento diferente do nosso. ( &#8230; ) A exigência que os estudantes me lançaram recentemente &#8211; fazer auto crítica pública -, considero-a puro stalinismo”.</p>
<p>No Brasil e no mundo, os estudantes lutaram por melhores condições de ensino, combateram a opressão e muitos deles tentaram a revolução: de 1968 a 1974, a universidade no Brasil foi o principal celeiro no qual as organizações armadas de esquerda iam garimpar os guerrilheiros urbanos e rurais, iam atrás de vocações &#8211; da mesma forma que se buscam vocações para a Igreja. Muitos estudantes responderam afirmativamente e tombaram em combate ou nos porões do regime. Outros sobreviveram, como os que foram trocados pelo embaixador americano seqüestrado, chegando depois ao poder, pelo voto e dentro da democracia.</p>
<p>Os estudantes continuaram sempre à frente, na função de batedores de movimentos sociais, na sua talvez forma intuitiva de adiantar desejos e necessidades. Estavam nas ruas na luta pelas eleições diretas e voltaram às ruas no processo contra o presidente Fernando Collor de Melo. Nos Últimos anos, retomaram uma antiga tradição, que lembra o antigo apoio estudantil a regimes populistas (como no caso de Getúlio Vargas) ou populistas de esquerda (como no caso de João Goulart), e saíram às ruas, liderados pela UNE (sempre sob o controle de um partido de tradição maoísta, o PCdoB), para defender o governo de Luis Inácio Lula da Silva quando o seu partido, o Partido dos Trabalhadores, viu-se imerso na mais densa denúncia de corrupção de que se tem notícia na história da República.</p>
<p>Instrumentalizados ou não por partidos, e a despeito de situações conjunturais que os colocam muitas vezes a reboque de forças em desagregação, o movimento estudantil de certa forma foi o primeiro &#8211; nos idos de 68 &#8211; a subverter valores sólidos, a mostrar que tudo, enfim, podia ser relativo &#8211; inclusive seus mais notórios ícones. Foram os estudantes que, no final dos anos 60, ajudaram a inaugurar a pós-modernidade, esta época em que as instituições realmente se desagregam e que tudo fica relativo. Mesmo quando abraça causas ultrapassadas, essa comunidade carrega uma força social capaz de mostrar à sociedade o quão realmente tudo é muito relativo.</p>
<p>Na França, os estudantes não derrubaram o governo do general Charles de Gaulle, mas conseguiram uma reforma universitária que os colocaram junto à gestão das universidades. Conseguiram mais: ser ouvidos, bater em mitos e deixar sua marca imaginativa. No Brasil, foram calados em 1968, mas retomaram as ruas a partir de 1973 e sempre estiveram à frente das movimentações sociais na fase da redemocratização. Na China comunista de 1989, a imagem do estudante à frente do tanque de guerra na praça da Paz Celestial virou emblema mundial pró-democracia.</p>
<p>Talvez os estudantes se encontrem mundialmente perdidos nos últimos anos. Porque ajudaram a criar uma sociedade que se globalizou e aumentou significativamente a desproporção entre as rendas; abriu o fosso entre ricos e pobres, triturou a noção de classe social, acabou alimentando a “under dass”, a subclasse de gente miserável e explorada. Ao colocar em dúvida os valores tradicionais, os estudantes fazem mais do que imaginam, mesmo que no começo do século 21 se sintam pequenos, desorganizados e sem voz &#8211; porque tanto a tribalização do mundo pós-moderno quanto o poder da informação foram inconscientemente desenhados por eles quando pediram a imaginação no poder. Resta ver se ela, a imaginação, será capaz de dar outro sentido ao mundo, com ou sem a ajuda de estudantes organizados.</p>
<p>Notas</p>
<p>(1)    Apud Maria Aparecida Aquino (“Nós que amávamos tanto a revolução”; págs, 31 a 39) no livro Memória do Movimento Estudantil, organizado por Carla Siqueira, Angélica Müller e Ana Paula Paula Goulart Ribeiro (Rio de Janeiro: Editora Museu da República, 2005).</p>
<p>(2)  Idem.</p>
<p>(3)  Ver Jacques Baynac, Hervé Le Bras, Henri Henri e Paul Yonnet na “Table Ronde” da revista Le Débat número 50 (Paris: Gallimard, 1988. Pags. 61-77)</p>
<p>(4)    Ver Aquino, idem nota 1.</p>
<p>(5)    www.uis.unesco.org/TEMPLATE/htm l!Exceltables! education/View _ Table_discpop_edu_attainment.xls</p>
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		<title>Ferramenta para o entendimento</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 19:13:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios Acadêmicos]]></category>

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Caio Túlio Costa
Usei uma conexão via computador, pela primeira vez, em 1988. Morava na França, trabalhando como correspondente da Folha de S.Paulo e concordei em utilizar um laptop Toshiba T1000, equipado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Prefácio ao livro Conectado: o que a internet fez com você e o que você pode fazer, de Juliano Spyer (Zahar, 2007). Lançado em 06/09/2007.</p>
<p>Caio Túlio Costa</p>
<p>Usei uma conexão via computador, pela primeira vez, em 1988. Morava na França, trabalhando como correspondente da Folha de S.Paulo e concordei em utilizar um laptop Toshiba T1000, equipado com um modem de 1.200 bauds, para transmitir minhas reportagens. Nem queira saber que tartaruga era esse modem, muito anterior aos de 9K ou de 14K. Pois eu o usava para chamar um número especial da Infonet, uma das pouquíssimas empresas do mundo, naquele momento, capaz de conectar meu computador com o servidor do jornal – e fazia a mais moderna conexão que alguém poderia imaginar!</p>
<p>O texto entrava direto nos terminais da redação, digitalizado, segundos depois de composto na tela de cristal líquido do pequeno Toshiba. O laptop sequer tinha disco rígido, era tudo comandado por disquete e gravado em disquete. Permitiu-me aposentar não só a Olivetti como o vetusto telex de casa. A máquina de teletipo acendia e apitava sempre que o jornal transmitia as pautas e fazia o mesmo barulho quando eu remetia meus textos. Eles viajavam sem acentos, todos compostos em letras maiúsculas, a letra A dobrada fazendo as vezes da crase, a palavra “end” no fi nal para sinalizar que o texto acabara – era uma locomotiva a vapor perto do rapidíssimo trem elétrico que parecia aquele laptop.</p>
<p>Em seguida, eu pegava o telefone e chamava a redação para saber se o texto “entrara” bem. Até que um dia o engenheiro de informática do jornal me disse que dali em diante não precisaríamos usar mais a ligação telefônica internacional tradicional, muito cara, para saber se o texto havia chegado corretamente ou tirar dúvidas sobre o manuseio do computador. Poderíamos fazer aquilo via “chat”, uma conversa textual na tela do próprio laptop. Essa maravilha seria possível por meio de um programinha de conversação. Precisava do disquete, claro, enviado pelo correio. Era só inserir o disquete, ligar a máquina e tudo daria certo, pois o laptop ainda não era moderno o suficiente para receber o programa pela conexão discada. O disquete chegou, inseri-o no devido “slot” e “rebutei” o Toshiba. Deu certo. Foi meu primeiro chat.</p>
<p>Logo depois me tornei assinante da Compuserve, a companhia que inventou o próprio chat via computador, engolida depois pela America Online. Na França, nos anos 1980, eu já era um usuário assíduo do Minitel, uma espécie de vovô da internet, onde colhia informações, comprava passagens de trem, consultava horários de cinema… Compuserve, Minitel, Toshiba, placa de modem: estava cada dia mais dependente do computador.</p>
<p>Seja por essa dependência, ou pelo fato de ter sido responsável pela informatização da redação do jornal em 1984, a Folha me convocou, em 1995, para arquitetar o projeto de um serviço online. Essa história não importa aqui, mas sim o meu espanto quando percebi ser possível trocar dados (a conversa por textos) via computador e o quanto essa facilidade melhorou a vida do correspondente internacional.</p>
<p>Talvez essa prática tenha colaborado com a minha teimosia em não lançar o Universo Online enquanto o sistema de bate-papo não estivesse pronto. Tanto fizemos que o bate-papo ficou redondo e o serviço estreou na madrugada de 29 de abril de 1996. Sucesso absoluto! Cada pessoa que entrava em uma das salas do chat recebia uma salva de palmas na pequena salinha, onde acompanhávamos os ambientes de chat conectados então por um “velocíssimo” modem de 33,6K. Exibíamos como troféus as poucas salas com os poucos internautas escondidos por apelidos (nicknames), todos trocando conversa sobre tudo e nada. Como as pessoas gostaram daquilo!</p>
<p>Costumo criticar prefácios nos quais o prefaciador fala mais de si do que do livro. Peguei-me agora cometendo o mesmo crime de lesa-majestade que abomino. Faz sentido aqui porque Juliano Spyer entendeu a importância real de um serviço online ser lançado com um canal de chat e cita isso quando fala das ferramentas sociais. Ele mesmo revelou-me: “Experimentei com a sala de bate-papo do UOL a possibilidade de milhares de pessoas conversarem animadamente entre si. A internet me deu um rumo.”</p>
<p>Essa possibilidade interativa, imanente à interconexão em rede, que existe desde o início da internet, com o advento do e-mail, e tornada simultânea com o chat, está no princípio do que se convencionou chamar Web 2.0, expressão que Juliano evita neste livro – mas que, no fundo, o determina; é sua razão de ser. O autor é o primeiro a explicar, de forma cristalina, o quanto os provedores não deram importância, logo no início da internet comercial, em meados dos anos 1990, a uma plataforma que era muito mais do que a possibilidade de colocar duas pessoas falando, em tempo real, a respeito de qualquer assunto. Não souberam ir além da mera troca de conversa, coisa que só ganhou corpo praticamente dez anos depois do advento da internet e lendo o livro você vai entender por que.</p>
<p>Juliano é daqueles historiadores que escrevem bem, o texto flui, a leitura anda confortavelmente mesmo espargindo siglas, neologismos e termos em inglês – cuja maioria ele se esforça em explicar, em traduzir. Poucas vezes vi em bom português tanta informação e tanta capacidade de argumentação como em Conectado. Há aqui uma enorme capacidade de agrupar informação de qualidade, analisar os fenômenos, explicar as técnicas e universalizar as experiências.</p>
<p>Juliano era criança quando minha geração entrava na faculdade e enfrentava a dura realidade de um país dominado pelos militares. Eles controlavam a informática e criaram uma reserva de mercado que só seria quebrada quase duas décadas depois, mas que reduziu demais nossa capacidade de pesquisa e desenvolvimento na indústria de ponta da informática. O país ainda sofre com isso, mas paradoxalmente conseguiu ter uma realidade de internet que o coloca em destaque em relação ao tempo de navegação em todo o mundo. Juliano faz jus a isso.</p>
<p>Nascido em 1971 em São Paulo, ele foi morar com os pais na Argentina e se alfabetizou em espanhol. Adolescente, fez intercâmbio em Bethalto, Illinois. Concluiu o curso colegial nos Estados Unidos. Humanista, estudou História na USP e especializou-se em história oral. Depois de formado, deu aula no cursinho e no colégio Objetivo. Ao mesmo tempo, produzia o programa radiofônico de música étnica Planeta Som para a Rádio USP. Voltou a morar nos EUA – seu pai foi implantar um canal de comunicação latino-americano para a CBS em Miami – e, em 1997, acabou contratado pela StarMedia como editor do site em português da empresa que pretendia ser a líder da internet da América Latina. Foi transferido para Nova York para cuidar do projeto StarMedia Eventos, o canal de bate-papo com convidados de toda a América Latina. Poderia ter ganhado bastante dinheiro se tivesse vendido as ações que adquiria mensalmente da StarMedia, mas “micou” com elas na mão com o estouro da bolha que levou muita gente à bancarrota no começo do século. Em 2001, recebeu uma proposta para ser o gerente de comunidades da America Online, de onde saiu em 2003, dois anos antes de ela se acabar no Brasil. Foi convidado para desenvolver  o projeto Leia Livro, da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, onde cuida do site e do programa de rádio distribuído nacionalmente para emissoras comerciais, educativas e públicas – o projeto é financiado com recursos do governo do estado. Além disso, cuida do projeto Viva São Paulo, um empreendimento particular que vai ao ar na paulistana Rádio Eldorado. Grava boletins feitos a partir de relatos publicados no site do projeto, o www.vivasp.com.</p>
<p>Iniciou a pesquisa sobre mídia social com o intuito de produzir um livro no final de 2005. Quando começou a escrever, não sabia onde aquilo iria dar. Queria encerrar o ciclo iniciado em dezembro de 1997, quando, contratado pela StarMedia e, de passagem pelo escritório da empresa no Brasil, viu em pleno trabalho a equipe de chat com convidados. Lembra-se de ter acompanhado o bate-papo com um cantor sertanejo, totalmente desconhecido da classe média culta, da qual faz parte. Ficou impressionado com a pertinência das perguntas e dos comentários postados pelas pessoas que realmente acompanhavam a carreira do convidado. Aquilo mostrou-lhe um caminho a seguir, viu sentido num espaço virtual para a comunicação entre grupos de pessoas. Trabalhando exatamente como gerente de comunidades da AOL, em Porto Rico, fazia reflexões metafísicas. “O que é isso que eu faço? Como é o nome dessa profi ssão? Qual é a relação dela com o jornalismo e em que ela se diferencia?” Ele se perguntava, e a sensação era de tatear no escuro.</p>
<p>O livro nasce dessa necessidade de respostas e desse olhar para o passado, de sua experiência pessoal e profi ssional desde um encontro revelador com um totem de Videotexto no shopping Eldorado, em São Paulo, no começo da década de 1980 – seu primeiro encontro com a comunicação em rede. Registrou por escrito a memória desses oito anos de vida e trabalho. Viu que tinha então uma história. Sentiu a necessidade de explicar de maneira mais técnica no que consistia esse trabalho. Descreveu sua rotina, a convivência como produtor de canais, o relacionamento com arquitetos, programadores e o pessoal de negócios. Depois decidiu, porque fazia total sentido, apresentar as ferramentas de chat, de fórum, de criação compartilhada de conteúdos (wiki) e todas as outras que você verá adiante. Após seis meses de trabalho constante, ele tinha pronta a primeira versão do livro. Uma das pessoas que leram o manuscrito sugeriu-lhe dar ao livro um caráter mais prático, seria melhor ser mais um manual do que o relato de uma experiência pessoal. Por que não um capítulo especial para professores? Juliano jogou metade do livro no lixo, reconstruiu o conteúdo, pesquisou para atender professores, agrupou os casos de ativismo, negócios, mídia e até os dos “efeitos colaterais” da rede.</p>
<p>Dividido em três partes, o livro passa por todos os pontos substanciais daquilo de mais importante que a internet trouxe ao mundo, a possibilidade de o usuário não somente se comunicar universalmente em rede, mas também ser capaz de gerar conteúdo próprio. Nele, o leitor vai saber muito mais do que sabe intuitivamente sobre chats, comunicadores</p>
<p>instantâneos, fóruns, listas de discussões, blogs, ferramentas wiki, agregadores de conteúdo, folksonomia, algoritmos sociais, automoderação e cross-mídia além de entender por que os aspectos negativos da rede sempre atraem mais atenção da mídia. No fim, ele mesmo se pergunta se a internet é um destino ou um desafio, arrola ingenuidades e monstruosidades que envolvem o debate a respeito dessa indústria e apela para o bom senso dos indivíduos. É um livro, ao mesmo tempo, técnico e humanista, didático e profundo. Vai muito além do lugar-comum das obras produzidas no Brasil sobre essa nova indústria.</p>
<p>Talvez quando você estiver lendo este prefácio não se fale de outra coisa na imprensa especializada que não da Web 3.0, ou seja, aquele mecanismo para fazer busca relacional capaz de unir textos sobre um mesmo assunto e descartar as repetições e redundâncias, a busca inteligente (e ninguém disse ainda se ela será inteligente ao ponto de descartar as informações não confiáveis…). Talvez, quando este livro estiver pronto, uma outra bolha, que inflou a Web 2.0 e fez Rupert Murdoch pagar mais de meio bilhão de dólares pelo My Space, esteja murcha, desmanchada pelo ar rarefeito das realidades virtuais. Nada disso, porém, será suficiente para tirar deste livro o caráter de testemunho dos mais verazes do quanto o inter-relacionamento mais une as pessoas do que as separa ou individualiza, mais cria comunidades afins do que as distancia pela frieza interposta pela máquina; ou que a enorme dispersão necessária ao bom andamento das redes tenha encontrado na tecnologia interativa a redenção para o individualismo relativista.</p>
<p>Faça bom proveito dessa leitura e descubra as razões de um historiador que aposta firme na comunicação livre entre os homens.</p>
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		<title>O salmão e a sardinha</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 19:05:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios Acadêmicos]]></category>
		<category><![CDATA[Ombudsman]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Francis]]></category>

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		<description><![CDATA[Sobre Paulo Francis, um ficcionista de imprensa
Capítulo 11 do livro Ombudsman &#8211; O Relógio de Pascal
Caio Túlio Costa
Quando aceitei o cargo de ombudsman sabia que teria de enfrentar o problema. Ignorar o fenômeno Paulo Francis – talvez o colunista de jornal mais agressivo e mais polêmico que o Brasil já teve – seria comprovar a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h2>Sobre Paulo Francis, um ficcionista de imprensa</h2>
<p><em>Capítulo 11 do livro <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/catalogo/busca.asp?tipo_pesq=titulo&amp;palavra=ombudsman&amp;topo=livro&amp;sid=226123253101124399561817181&amp;k5=1C65AE0F&amp;uid=&amp;lastreg=&amp;parceiro=121222">Ombudsman &#8211; O Relógio de Pascal</a></em></p>
<p>Caio Túlio Costa</p>
<p>Quando aceitei o cargo de ombudsman sabia que teria de enfrentar o problema. Ignorar o fenômeno Paulo Francis – talvez o colunista de jornal mais agressivo e mais polêmico que o Brasil já teve – seria comprovar a debilidade de quem tinha obrigação de criticar o jornal. Eu vislumbrava também as conseqüências de qualquer crítica a ele, e previa a possibilidade de trovões e tempestades. Nada do acontecido, salvo a retirada de Paulo Francis, esteve muito além do previamente imaginado.</p>
<p>Previsibilidade possível frente a um estilo marcante e marcadamente cansado. Deixar de comentar o estilo Paulo Francis seria, antes de tudo, perder o respeito de leitores, profissionais da imprensa e amigos.</p>
<p>Um intelectual argentino, Horácio González, comparou-o certa vez, generosamente, a Karl Kraus, o terror de Viena, intelectual único na combinação de literalidade e indignação, senhor do dom de condenar os homens por meio de suas próprias palavras, aquele ser cuja capacidade maior era a de fazer as pessoas abrirem os ouvidos – na imagem de Elias Canetti. Alguém com o peito de afirmar: “O censo demográfico constatou que Viena tem 2.030.834 habitantes. Ou seja, 2.030.833 almas e eu”.</p>
<p>Parecido ou não com Karl Kraus, Francis poderia dizer o mesmo sobre o censo demográfico do Brasil. Milhões de almas menos uma, a dele. Porque Paulo Francis era um personagem singular, marca radicalmente distinta do delicado e atencioso cidadão Franz Paulo Trannin Heilborn, nascido em 2 de setembro de 1930. Trotskista na juventude, Francis (pseudônimo que virou grife, dado por Paschoal Carlos Magno quando ele era ator de teatro) amadureceu fascinado pela aristocracia e, também na condição de legítimo objeto de análise de Karl Kraus, entrou em decadência como o mais paradoxal dos filisteus – porque não é de espírito estreito. E a decadência, como se sabe, exerce extraordinário fascínio.</p>
<p>“Petismo, Paulo Francis e o mito de Narciso” foi o título da primeira coluna na qual abordei o fenômeno, em novembro de 1989, dois meses após assumir a defesa dos leitores e durante campanha eleitoral para a presidência da República, segundo turno, Fernando Collor versus Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, o PT. Nela, discorria sobre a fama de petista granjeada pela Folha. A manchete do dia 16 de novembro, em que o jornal apontara Collor versus Lula no segundo turno (com base em pesquisa de boca-de-urna) reforçara convicções a respeito do “petismo” do jornal. Isto porque foi o único a bancar resultado aparentemente inverossímil em virtude da gangorra de números da Rede Globo, apontando ora Leonel Brizola ora Lula como adversário de Collor.</p>
<p>Senti-me obrigado a discutir o assunto em público. Antes, eu havia registrado que a Folha, para se mostrar imparcial, acabara sendo parcial com todos os candidatos. Escrevi: “Manteve Collor sob marcação cerrada, desinflou números das multidões do PT, interrompeu por sua conta a campanha do Brizola, exagerou ao ver mentiras onde Maluf não havia mentido, combateu a serenidade de Mário Covas – enfim, fez o diabo para falar mal de todos”.</p>
<p>Considerei o jornal presa de dilema cruel: como provar não ser petista sem provocar reações de que “collorira”?</p>
<p>Nesse momento, caiu como uma luva a incontinência verbal de Francis (a imagem é do jornalista Sérgio Augusto), chamada em auxílio na tarefa de isolar a imagem petista. Ninguém do jornal solicitou ou pautou a interferência, obviamente. Veio de forma natural e acabou muito bem aproveitada na primeira página, em operação não planejada, mas bem sucedida, conforme se podia depreender de simples observação.</p>
<p>O candidato Collor deu entrevista, no Sul, acusando os eleitores de Lula de “eleger uma proposta radical, que prega a revolução armada e a conquista do poder pelo derramamento de sangue”. Virou manchete: “Collor diz que PT prega banho de sangue”. Paginaram-na em conjunto com excerto de uma crônica de Francis, para auxiliar na composição anti-PT: “Lula coloca o país no nível da Nicarágua”.</p>
<p>Critiquei, em público: “A manchete do banho de sangue é discutível – porque Collor não usou a expressão ‘banho’ –, mas jornalisticamente correta. O uso do texto do Paulo Francis na capa, no entanto, provocou polêmica, deu o que falar. Provou que, naquele dia, deu certo a estratégia de bater no Partido dos Trabalhadores”.</p>
<p>38 leitores (de total de 69 telefonemas atendidos em dois dias – bastante porque eu conseguia atender a uma média de 30 ligações, das 14h às 18h, de segunda à quinta) ligaram para reclamar do jornal e de Francis. Eram simpatizantes do PT, só três fizeram questão de afirmar nada ter a ver com o partido. Todos se queixaram do “exagero” da manchete, da “brutalidade” cometida por Francis contra Lula na sua crônica e do destaque dado a ela na primeira página. Do ponto de vista do jornal, portanto, em função da repercussão e conseqüentes reclamações provenientes dos petistas, uma operação muito bem sucedida.</p>
<p>Expliquei na minha coluna de domingo existir diferença sutil entre o Francis dos primeiros cadernos e o da Ilustrada, o caderno de artes e espetáculos. Ali ele tinha coluna de uma página inteira, duas vezes por semana, coisa única na imprensa brasileira em todos os tempos. Escrevi:</p>
<p>“Ele conquistou este espaço por força de suas idéias e de um texto tonitruante. Francis é talvez o único jornalista brasileiro sobre o qual todos os leitores têm uma opinião. A favor ou contra, mas uma opinião. Mesmo quem o detesta o lê. Recebi telefonemas de leitores sugerindo que a Folha deixe de publicá-lo, atendi delegação de negros pedindo que a Folha censure suas afirmações preconceituosas. Para fazer esses pedidos é necessário lê-lo.”</p>
<p>Ia mais adiante: “Não se deve cobrar jornalismo neste tipo de artigo que o Francis faz. Ali ele é mais o Francis ficcionista, o cronista dos tempos. Diz besteiras e coisas sábias. Escreve o que muitos pensam e não ousam falar em voz alta. É preconceituoso, vulgar, chuta alguns dados, é o Paulo Francis de sempre – irreverente e destemido. (…) Francis não tem compromisso com ninguém, a não ser com sua cabeça, cuja memória e capacidade de reflexão poucos brasileiros possuem igual”.</p>
<p>Ele entendeu como ninguém o artigo do ombudsman. Em sua próxima coluna, sob o título “Patrulhas do Lula”, se deu ao trabalho de responder a um “ataque” e então “lustrar uma obscuridade”, eu, “o que havia jurado não mais fazer há anos”.</p>
<p>Para Francis, eu tinha sido um “bocado condescendente” com ele. Perguntou se a obscuridade tinha “currículo ou gabarito” para isso. O “lugar-comum” tomado “emprestado” de Sérgio Augusto, a incontinência verbal, era “linguagem de macho”. Eu estaria ensinando jornalismo “mal” aos “jovens da Folha”. Pedia também a relação das besteiras que eu o acusara de escrever.</p>
<p>“Até os elogios de Caio Túlio me caíram mal. Ser chamado de ‘irreverente’, really, a essa altura de minha vida profissional. O leitor não só nunca encontrará essa palavra num texto meu, como pergunto: a que se deve ser reverente? A Ribamar [maneira como ele se referia a José Sarney, então presidente da República], a esse nome de polvo e ponta-esquerda, esse semi-analfabeto, com o charme discreto do proletariado, que é Lula? Ele, de resto, que não é ‘patrulha’ de si próprio &#8211; como Caio Túlio parece ser, de Lula”.</p>
<p>Não parava aí. Fui chamado de “piolho”, acusado de ter deixado a função de ombudsman (“nome horrendo”) subir à minha cabeça, de ser “jovem demais” para “receber tanta adulação”, de estar empenhado na tentativa de assumir o papel “pretendido” por Cláudio Abramo, de “mediador das disputas da esquerda”. Como parte dos “petelhos” da redação, eu teria “problema afetivo, sexual, em suma”. Terminava assim: “Mas não me incomodo de confessar que acho uma grande vileza, no meu próprio jornal, eu ser atacado de maneira tão fuleira e insolente por um colega e suposto amigo”.</p>
<p>De fato, éramos amigos.</p>
<p>Trabalhar no mesmo jornal não me atava corporativamente a ele, nem a ninguém, a ponto de impedir a crítica. Ela tinha sido feita e eu não estava disposto a alimentar ataques pessoais. Kraus definiu o jornalista, num de seus aforismos, como aquele que exprime o que o leitor, de resto, já tinha pensado. Estava contente em ter feito algo parecido, registrei na coluna minha disposição de não responder aos ataques e sustentei continuar admirando o Francis “ficcionista e jornalista”. Previdentemente alertava: “Como muitos outros jornalistas brasileiros, Francis não está preparado para receber críticas”.</p>
<p>Francis havia se referido ao ombudsman em coluna anterior, porque apontei, em crítica interna, uma notícia dada por ele com sete dias de atraso, publicada originalmente em O Estado de S. Paulo e no Jornal do Brasil. Ele informara sobre a queda do valor do título da dívida externa brasileira para 27% de seu valor nominal.</p>
<p>O JB falara em 25% e o Estado em 28%. Ele não gostou nada do comentário interno. Escreveu na Ilustrada: “Waal, Caio, sacaram. Não deveria ser sem surpresa. O Estado tirou de manchete o Brasil da moratória cinco vezes antes que saísse verdadeiramente. Um acordo que foi feito por Delfim, Pastore e Galvêas [Antonio Delfim Netto e Afonso Celso Pastore foram ministros de Estado e Ernane Galvêas foi presidente do Banco Central durante a ditadura militar] foi denunciado como infactível pelo JB pelo menos três vezes, de primeira página, uma provocando queda da Bolsa do Rio”.</p>
<p>Francis estava atento ao meu trabalho (interno e público) e não dava o braço a torcer nem quando pego em flagrante “barrigada”, por menor que fosse.</p>
<p>Nessa época, final de 1989, em virtude das eleições presidenciais, Francis passou a escrever mais sobre o Brasil. Isso, naturalmente, expunha-o mais aos olhos da terra. Era mais difícil pegar seus erros e contradições quando falava de livros pouco conhecidos ou não editados no Brasil, ou de assuntos de política internacional de difícil checagem. Outra coisa, mais palpável aos leitores, era comparar suas informações sobre a economia brasileira ou suas opiniões sobre o Brasil, baseadas em fatos distorcidos. Os erros emergiam com mais facilidade. Num artigo publicado na revista da Intercom (Revista Brasileira de Comunicação), revelei que somente contra a crônica na qual ele acusava Lula de não saber usar o verbo enriquecer, e falava enricar, provocou 15 cartas à seção dos leitores da Folha.</p>
<p>Infelizmente para Francis, o verbo enricar existe, é clássico, está nos dicionários. Os preconceitos, o racismo e os chutes, tudo se evidenciava mais quanto mais perto ele estava da palpável (e miserável) realidade brasileira.</p>
<p>Continuei registrando na crítica interna os problemas técnicos aparecidos na sua coluna. Foi quando, numa quinta-feira de fevereiro – dois meses depois da primeira tempestade – recebi estranho telefonema de leitor de Goiânia, o industrial Ronaldo Zica. Ele queria saber por que a Folha tinha “censurado” trechos do artigo de Francis cuja reprodução no jornal local, O Popular, com direitos de republicação, alinhava dois parágrafos além dos da contracapa da Ilustrada do mesmo dia.</p>
<p>O leitor leu ao telefone trecho omitido: “Outro dia por exemplo vi a seguinte manchetinha na Folha: ‘Inauguração do McDonald’s ofusca a visita de Collor a Moscou’. Pura bobagem. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Os russos estão com a fome que estes esquerdistas fuleiros e piroquetes gostariam que houvesse no Brasil se todo o abastecimento fosse estatizado, mas a inauguração do McDonald’s (que em geral ‘europeu’ nem chega perto aqui) nada tem a ver com a visita de Collor, que não é um acontecimento popular, e, sim, de Estado, como se diz, e ele teve do governo soviético uma recepção de primeira, e Gorbatchev comparou seu programa enunciado (até agora, apenas enunciado) à Perestroika. (…) Tivesse este jornal um crítico interno e é claro que teria chamado às falas o autor da manchetinha. Algum dia talvez a direção resolva instituir o cargo de crítico. Esperemos – e não aguardemos – com fé”.</p>
<p>Tudo indesculpável, tanto os comentários quanto o fato de terem censurado o trecho. Levantei o assunto na coluna de 18 de fevereiro de 1990. O diretor do jornal, Otavio Frias Filho, deu-me, por escrito, as razões do corte na coluna de Francis, procedimento nada usual. “A pluralidade de pontos de vista faz parte do projeto editorial da Folha e poucas publicações em todo o mundo podem igualar-se à Folha quanto ao espaço e importância que ela reserva à autocrítica e à publicação de opiniões contrárias às suas”.</p>
<p>Ele completava: “Paulo Francis pretendeu publicar um ataque à política do jornal em relação ao futuro governo e à instituição do cargo de ombudsman sem que suas considerações fossem previamente submetidas aos órgãos centrais da redação: a secretaria e a direção. Daí a razão dos cortes em sua coluna de 15.2.90 na Ilustrada. Caso esses órgãos centrais abrissem mão dessa sua responsabilidade, resultaria impossível planejar, coordenar e dirigir a operação complexa da edição de um jornal como a Folha”.</p>
<p>Critiquei a atitude do jornal. Francis conquistara o direito de escrever bobagens. Essa seria apenas mais uma, não faria diferença. Considerava a opinião de Francis, qualquer uma, publicável. Os leitores davam o desconto.</p>
<p>Algo, porém, precisava ser desnudado: o movimento de distorção da informação para se chegar a determinada opinião, uma das deformações profissionais do articulista. No trecho cortado, ele ironizava com a “inexistência” do crítico interno. O mais surpreendente é que a “manchetinha” sobre o McDonald’s foi observada, sim, pelo ombudsman na crítica interna, datada de 1o de fevereiro e recebida por Francis em Nova York. Ou ele fez a afirmação sem conferir na crítica, atitude reprovável em qualquer jornalista, ou mentira para atacar.</p>
<p>Afirmei que o jornal deveria ter destacado na capa a afirmativa de Gorbatchev segundo a qual não renunciaria ao cargo de secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética. Considerei a negativa de Gorbatchev mais importante do que a fila na inauguração do McDonald’s. Disse mais: a Folha optara pela “coluna social” da viagem de Collor em vez de mostrar o essencial. Acusei o jornal de “imperícia” na manobra.</p>
<p>Bem, decidi ampliar minha crítica a Francis. No fundo, o bom entendedor percebeu, refiz as mesmas observações de dezembro. Só coloquei-as sob lupa, enfatizando detalhes. Repensei minha opinião sobre o jornalista Francis e cheguei, definitivamente, à conclusão de que nenhum texto de sua autoria podia ser considerado jornalístico, porque a maioria era filtrada por visão distorcida da realidade. Não seria praticando pequenas cirurgias, como aquele corte, que o jornal iria resolver o problema. Olhando de longe, bati forte: “Caso os preconceitos dele contra crioulos, homossexuais e nordestinos fossem levados ao pé da letra, e aplicada a lei de imprensa em vigor no Brasil, Francis teria acumulado mais de cem anos de cadeia. A tolerância da Folha, dos leitores e da justiça é tamanha que ele pode esgrimir seu racismo sem maiores danos do que uma resposta ou outra na imprensa. Sorte dele.”</p>
<p>Discorri sobre o escritor Francis, o mesmo não dera muito certo nos livros de ficção (nunca foi um best-seller como Tom Wolfe, comparando-o com quem ele se mede), mas tivera sucesso na imprensa. “Suas crônicas (tudo o que ele escreve é crônica, não pode ser absorvido como análise ou notícia) valem o quanto vale um jornal nas suas poucas horas de vida”. Mais: “Talvez daqui a cinqüenta, cem anos, descubram algum outro valor neste amontoado de chutes misturados a opiniões quase sempre geniais. Mas, por enquanto, ele é diversão de jornal. Pouco importa que o índice de leitura de seus textos tenha despencado dos 96 pontos para 36 pontos na pesquisa sobre o perfil do leitor da Folha, realizada em 1989. Mesmo que o critério de aferição tenha sido modificado, uma coisa é patente: ele perdeu o posto de colunista mais lido na Folha para Joelmir Beting”. Esse índice final de leitura, bem como a queda, a propósito, tudo contestado por Francis na época da “polêmica”, foi confirmado pelo jornal em dezembro de 1990 em notas na seção Painel.</p>
<p>Voltando ao caso: dei exemplo real de uma das inúmeras distorções de informação por ele operada. Quando o então prefeito de Washington foi preso em flagrante consumindo droga, em janeiro de 1990, Francis “analisou” o fato concluindo que a administração de Marion Barry, o prefeito, fora “um desastre” – em desacordo até com o jornal por ele considerado o “mais influente” do ocidente, The New York Times. Ele justificou a má gestão pelo fato de o prefeito ter ficado “em pleno sol” assistindo ao futebol na Califórnia, “bebendo cerveja”, sem dar satisfações sobre uma nevasca que tinha isolado o Pentágono. Se a realidade não batia com a análise de Francis não tinha a “menooorr imporrrtância” – escrevi, tentando imitar seu jeito de falar na televisão –, Francis muda a realidade para adaptá-la às suas conclusões. O Pentágono não está na cidade de Washington, mas na cidade de Arlington, fora da jurisdição do prefeito. Marion Barry nada tinha a ver com a coisa. Seria o mesmo acusar de desastroso o prefeito de São Paulo por nada fazer contra inundação por chuva em Guarulhos. Eu havia apontado essa desinformação em crítica interna, como várias outras.</p>
<p>Os leitores continuavam arrumando tempo para registrar falhas cometidas por ele. O Painel do Leitor, a seção de cartas, dava vazão a muitas dessas observações. Em um mês, dezembro de 1989, recebeu 182 cartas sobre Francis; 153 contra, 18 a favor. Publicou 18 contra e 4 a favor. Eram erros cabeludos. Apontei: “Ele não consegue escrever certo palavras em francês, torce citação até de Shakespeare, se mete a falar de entropia e solstício sem a menor noção do significado de cada palavra, confunde juros mensais com juros diários, cita números absurdos sobre a economia brasileira…”</p>
<p>Entrei em assunto mais delicado. Francis costumava soltar teorias apocalípticas na Folha e desdizê-las nos comentários para a Rede Globo de Televisão. Durante as comemorações do bicentenário da Revolução Francesa, em Paris, eu mesmo tive a oportunidade de ouvi-lo ditar para a Folha artigos desancando com a reunião de cúpula (“dentro de uma semana esta cúpula será varrida da memória como as outras”) para alguns minutos depois gravar comentário exatamente oposto para a Globo. O que era um “nada” virava “expectativa” de que alguma coisa poderia acontecer. E fui à ferida: “Ele gosta de falar mal da Folha na Folha, mas deixou de falar mal da Globo. Já se vão anos (foi em 14 de janeiro de 1971, no Pasquim) que xingou Roberto Marinho [então vivo, dono das Organizações Globo] de ‘um homem chamado porcaria’. Disse que ‘esgoto’ era ‘uma imagem inexata de RM’. A imagem correta ’seria poluição pura, inútil e letal’”.</p>
<p>Expliquei que os elogios feitos então ao presidente eleito, Fernando Collor, precisavam ser entendidos mais pela sua subserviência para com pessoas brancas, bem vestidas e que o tratavam gentilmente, do que por uma admiração catatônica pelo poder ou bajulação indireta de Roberto Marinho. Tratava-se de preconceito às avessas. Se o presidente Sarney lhe tivesse dirigido um aceno qualquer de simpatia, ele teria mudado radicalmente o discurso público contra o “Ribamar”.</p>
<p>Sobrou espaço para elogio: “Não pense que Francis tem compromisso com alguém. Ele se compromete apenas com a sua cabeça, esteja ela em situação boa ou precária – como ultimamente. Para usar termos que trouxe à baila, invocando a memória de Cláudio Abramo, ele tem mesmo coragem de dizer o que pensa”. Soltei o defeito: Ele não pensa o que diz.</p>
<p>Realmente, se ele realizasse ligeira releitura de seus artigos antes de publicá-los, se checasse dados, se verificasse a realidade para não deformá-la, seus textos seriam outra coisa. “Jornalismo, quem sabe. Imbatíveis, talvez”.</p>
<p>Finalmente, recomendava seu consumo enquanto ficcionista de imprensa. Tratava-se de um ranzinza acometido de senilidade precoce na infância e atacado na idade adulta por infantilismo tardio, o mote para o título da coluna, “Sobre Paulo Francis – ou o infantilismo tardio”.</p>
<p>Era pesado o artigo, reconheço. Assumi o tom proposto por Francis. No entanto, salvo no final, as críticas eram fundamentalmente técnicas, detectando as informações deformadas para atender interesses diversos, da preguiça à necessidade de elogiar algo num veículo ligeiro (como a televisão), e atacar a mesma coisa em outro mais denso (como o jornal).</p>
<p>A reação veio na forma de milhares de decibéis acima, em matéria de baixaria e ataque pessoal. Virei nada menos do que “um canalha menor”. Segundo Francis, quando o critiquei em novembro de 1989, eu estava sendo ardiloso para salvar a cara de Lula. “Caio Túlio Costa é um quadro do PT e estava cumprindo o que se chamava no velho PC de ‘tarefa’, não servia a este jornal [a Folha], mas ao PT”. Lamentava: “Caio Túlio se propunha explicar aos leitores petelhos do jornal quem era eu, com as minhas ‘excentricidades’, e que eu não deveria ser levado a sério como jornalista”. Acusava o golpe: “O maior insulto que se pode fazer a um jornalista”. Na seqüência, desfiava uma série de acusações pessoais, artimanha universalmente manjada de responder a críticas tentando desqualificar o crítico. Ou seja, não responder aos aspectos técnicos levantados na crítica e contra-atacar não as idéias, mas a pessoa do crítico. Veja:</p>
<p>• “Afinal, quem é Caio Túlio? Desponta para o anonimato. Só é conhecido de um círculo restrito de redações de São Paulo, no Rio não convém arriscar uma pergunta sobre sua identidade. É ignorada.”</p>
<p>• “Eu sou bom. Caio Túlio é ruim. Eu sou famoso. Ele é obscuro.”</p>
<p>• “Ganho muito mais do que ele e por ter ocupado um cargo de chefia neste jornal, Caio Túlio sabe.”</p>
<p>• “Eu estou no ápice da minha carreira. Ele é apenas um bedel de jornal.”</p>
<p>• “Caio Túlio não é jornalista e é extremamente ignorante, nada sabe de relações internacionais, por exemplo, em que analisa o peso de um país em face do outro. Jamais se encontrará um artigo dele sobre o assunto, aposto no escuro – porque nada sabe a respeito.”</p>
<p>• “Acabei dando-lhe uma lambada em resposta ao primeiro artigo, não continha um único ataque pessoal. Era violento, mas intelectualmente. Ele não respondeu. Botou o galho dentro, como se diz.”</p>
<p>• “Fico imaginando aquela cara ferrujosa de lagartixa pré-histórica se encolhendo às minhas pauladas. Caio Túlio me causa asco indescritível, não posso garantir que se o encontrar não lhe dê uma chicotada na cara, ou, não, palmadas onde guarda seu ‘intelecto’.”</p>
<p>• “Tenta me deixar mal com a direção da Folha e da TV Globo, minhas duas fontes de subsistência. Tenta me intrigar com as duas empresas. É a autodefinição do alcagüete e do canalha menor.”</p>
<p>• “Sua fúria, mal-reprimida, me ameaça com mais de cem anos de prisão, se a Lei de Imprensa fosse cumprida, pelos meus preconceitos contra homossexuais, negros e feministas. Se tivesse um mínimo de cultura saberia que é nos preconceitos que revelamos com mais clareza nossos instintos e simpatias. Mas o que é Pascal para um petelho?”</p>
<p>• “Caio Túlio é menosprezado e ridicularizado por todos os seus colegas, a quem persegue com mesquinharias suburbanas de bedel. Nunca ouvi uma opinião favorável. Não inspira ódio. Só se odeia quem se respeita.”</p>
<p>• “Disse a mim quando cobrimos juntos a cúpula econômica, que não era jornalista, não sabia escrever, que essa não era a sua vocação. Sua mulher, filho e sogra devem ter cansado de ouvi-lo. Concordo.”</p>
<p>• “Caio Túlio voltou de Paris um homem ridículo. Evita seus mais íntimos amigos porque sabem porque ele é ridículo e sua presença aumenta seu ridículo pela lembrança.”</p>
<p>Não preciso dizer o quanto minhas observações calaram fundo na sua alma. Francis ensandeceu com a história e colocou um abacaxi tremendo na mão da direção do jornal.</p>
<p>Em reportagem sobre o caso, “Guerra de extermínio”, a revista Veja concluiu que “raras vezes se chegou na imprensa a tais extremos de agressividade”. A revista interpretou o caso como se ambos julgássemos o oponente incapaz da prática de jornalismo e, por isso, os dois estariam enganando o leitor se ambos estivessem certos; ou um dos dois estaria enganando, na hipótese de um deles estar certo.</p>
<p>Tanto a revista Veja como outras publicações que trataram do assunto se recusaram – talvez por medo, os jornalistas em geral temiam Francis e tremiam com a sua fúria – a ver o óbvio de minhas críticas. Eu simplesmente sintetizara para os leitores aquilo que eles próprios sabiam, muitos inconscientemente: Francis devia ser consumido enquanto cronista e jamais como jornalista.</p>
<p>Não foi à toa que dez meses depois toda a campanha de divulgação da compra do passe de Francis, feita pelo Estado, vendeu a nova contratação como a de um colunista, cronista do Caderno 2, embora ele mais tarde mandasse textos para o primeiro caderno – conforme, aliás, eu sugeri ao Estado, em coluna pública, para levantar o moral do articulista.</p>
<p>Pois muito bem. Com a resposta naquele nível o problema Francis x ombudsman ganhou outra dimensão para o jornal. Eu não estava disposto a jogar lenha na fogueira, interminavelmente, mas os ataques pessoais haviam sido muito fortes e era necessária alguma resposta, algo que mostrasse a diferença. Ben Bagdikian, no ensaio “A saga de um ombudsman de imprensa”, formara jurisprudência para o caso. Se um repórter ou editor discordam do ombudsman e o ombudsman continua achando que está certo, “o repórter ou editor tem o direito de réplica, preferencialmente lado-a-lado, no mesmo dia da coluna do ombudsman”.</p>
<p>A direção do jornal não tinha conhecimento dessa indicação, feita 18 anos antes, e, coincidentemente, adotou saída semelhante com base no Manual Geral da Redação. No domingo, 25 de fevereiro de 1990, uma chamada de capa – “Intervenção termina com polêmica” – dava por encerrado o caso. “Conforme o Manual, os dois jornalistas se despedem do tema com a edição de suas considerações finais”.</p>
<p>Eu aceitei a decisão e até achei-a boa. Ficou claro, entretanto, que a liberdade do ombudsman de criticar qualquer jornalista, Francis incluído, continuava de pé, como continuou. Estava encerrado aquele “tema”. O artigo de Francis, editado ao lado de minha coluna, foi um desfiar de lamúrias, a começar do título, “Um episódio melancólico”. Em resumo, ele achou que a direção do jornal havia instrumentalizado a crítica do ombudsman e concluía, sem muita convicção: “Não é o que me dizem o diretor, os editores e os meus melhores amigos na Folha. Acham que o ataque do ombudsman foi uma opinião pessoal do titular e não expressão institucional da Folha. Notam que o ombudsman tem o direito à liberdade total de opinião para que não precise se sentir coagido pela diretoria do jornal”.</p>
<p>Na minha coluna usei como título “O afeto que se encerra”, o mesmo de um livro de Francis. Aproveitei para relatar velha lenda sobre ele. Ao cobrir a viagem de um presidente americano, Francis foi abordado num saguão de hotel, em Londres, pelo jornalista Hermano Alves, então correspondente do Estado:</p>
<p>“Olá Herrrmano, você por aqui?”</p>
<p>“Sim, meu caro. Estou indo cobrir o briefing do secretário de Estado…”</p>
<p>“Não perrrca tempo, Herrrmano – soltou Francis. – Este sujeito não tem a menooorrr imporrrtância. Já mandei despacho dizendo que nada de imporrtante será discutido.”</p>
<p>Hermano distanciou-se alguns metros em direção à porta, fez meia volta e falou alto para registro dos jornalistas brasileiros ali perto:</p>
<p>“Francis, me faça um favor!”</p>
<p>“Pois não Herrrmano!”</p>
<p>“Enquanto eu vou lá, segura o planeta para ele não cair.”</p>
<p>Silêncio no hall. Hermano Alves foi cumprir sua obrigação. Os leitores de Francis saberiam no dia seguinte que o assunto não tinha a “menor importância”.</p>
<p>Escrevi: “O ocorrido ilustra o que eu disse sobre o articulista Paulo Francis na semana passada e prova que não falei nada de novo. Há tempos Francis é ridicularizado por colegas seus na imprensa”. Falei de sua imaginação enorme, não o suficiente para fazê-lo dar certo como escritor, mas o bastante para impedi-lo de fazer jornalismo, porque precisava inventar fatos para ajustá-los às opiniões imaginosas. Era cronista de gabinete. A leitura diária de jornais, revistas e livros alimentava sua produção. Se lhe tirassem os jornais por uma semana acabava o Paulo Francis. Falei de sua “tática” quando levado à lona por argumentos técnicos, a de revidar com ataques pessoais.</p>
<p>Francis havia feito a mesma coisa quando batido pelo diplomata e crítico literário José Guilherme Merquior (a quem acusou de “ordenhar” qualquer um que estivesse no poder); pelo músico Caetano Veloso (na discussão, de “alto nível”, foi Caetano quem o xingou de “bicha amarga” e “boneca travada” quando acusado de reverenciar e se submeter a Mick Jagger, dos Rolling Stones); pelo físico Rogério Cézar de Cerqueira Leite, pelo cineasta Arnaldo Jabor; pelo político Eduardo Suplicy (a quem Francis se referia como Mogadon Suplicy, ou seja, Sonífero Suplicy, que revidou na Justiça)… Certa vez apanhou de verdade. Levou uns sopapos de Adolfo Celli, marido de Tônia Carrero, agredida de forma infame numa crítica teatral – Francis escreveu que ela tivera fotos provocantes publicadas em revista pornográfica americana, insinuou que era corrupta e que ascendera na carreira usando o sexo. [Para algumas dessas polêmicas, ver Paulo Francis, de Daniel Piza, Relume Dumará, 2004, às págs. 69, 79 e seguintes.]</p>
<p>“A pusilanimidade do ataque na Ilustrada mostra algo mais do que insegurança e desequilíbrio mental” – escrevi. “Francis reagiu com ódio porque foi espetado no lugar certo. Ainda existia impressão de que ele pudesse fazer jornalismo. Não há mais. Não há uma única verdade no que escreveu sobre este ombudsman”.</p>
<p>Aproveitei para dar aos leitores uma pálida idéia do quão poderia ter sido baixo o meu ataque se eu entrasse no seu jogo: “A rigor, Francis devia agradecer-me. Não contei que tudo o que escrevi é exatamente o que seus amigos íntimos pensam a seu respeito, mas têm dó de dizer a ele. Não disse que imaginava sua cara gorda de barata descascada se retraindo a cada revelação minha. Não lembrei que, quando criança, apanhava no bumbum e respondia ‘cogito ergo sum’ – o que ele nega. Não inventei que ele é quadro a soldo do PRN, o partido de Fernando Collor. Não disse que, cutucado, faz beicinho e choraminga: ‘o carro do meu pai é mais bonito…’ Nem sugeri que quando toma purgante sua cabeça murcha”.</p>
<p>Faltou dizer ter sido Francis quem desenvolveu com rara maestria a técnica de fazer previsões diferentes uma pró, outra contra, outra mais ou menos – para depois dizer que acertou. Às vezes dava certo e seus leitores contumazes contavam quantas vezes ele vinha com o “conforme eu previ…” Às vezes não dava certo. Na penúltima semana de agosto de 1990 ele previu para “esta semana ação” de Bush no conflito contra o Iraque. Nada. Uma semana depois, no dia 28 de agosto, ele insinuava: “o desfecho está próximo e talvez até sem guerra”. Nada. A guerra começou bem depois, em 16 janeiro de 1991. Foi quando ele disse, na televisão, que ela seria curta e fulminante. Nada. Na segunda semana, também na televisão, garantiu que demoraria muito. Acabou um mês depois, em 27 de fevereiro. De fato, ele previra…</p>
<p>O caso Francis x ombudsman rendeu reportagem de oito páginas na revista Imprensa, “Lord Francis no caldeirão dos nativos”, de março de 1990. O subtítulo resumia tudo: “O maior polemista do Brasil enfrenta uma forte onda de críticas e, depois de anos no estilingue, descobre a dureza de ser vidraça”. Ele não queria “lustrar uma obscuridade” e acabou fazendo-o.</p>
<p>Não houve palestra da qual participei ou entrevista que dei naqueles tempos e tempos depois nas quais não me perguntassem sobre a “polêmica” com Francis. Sempre usei essa palavra entre aspas para me referir ao caso, porque não houve polêmica ali. Houve, isso sim, uma crítica técnica e uma definição de estilo, do meu lado, e uma montoeira de insultos do outro.</p>
<p>Francis ficou bastante tocado pelas críticas e passou a tomar um pouquinho mais de cuidado com o palavreado e com as informações na Folha. Não o suficiente para redimi-lo, porém o bastante para notar-se a mudança. Em 8 de março, na Ilustrada, ensaiava a auto-análise: “Sou, por exemplo, um comentarista. Não um repórter, embora às vezes tenha que me expor como repórter”. Ele estava chegando perto…</p>
<p>Um mês depois de contratado pelo Estado voltava a dar pequenos chutes, baseado em “cozinha” de texto alheio e interpretação distorcida da realidade. “Saddam prepara outra jogada”, dizia título de artigo seu publicado na página oito do Estado de 12 de janeiro de 1991. “Saddam Hussein vai anunciar que começará a sair do Kuwait em 15 de janeiro se houver uma conferência internacional de paz sobre o conflito palestino-israelense”. Francis, já disse, desenvolveu muito bem aquela “teoria” do jornalismo marrom americano que manda fazer uma previsão, qualquer previsão. Se der certo é a consagração. Se der errado, todos esquecem em pouco tempo. Pois exatamente na página ao lado da de seu artigo, no mesmo dia, os leitores atentos do Estado ficaram sabendo que a “previsão” partira de informação publicada no dia anterior pelo The New York Times, coisa que Francis sequer se dera ao trabalho de revelar e vendera como sua. Sorrateiramente, o editor do Estado fizera questão de publicar o texto do jornal americano ao lado do de Francis, sem nada dizer, sem nada explicar.</p>
<p>Sua ida para o Estado é o maior exemplo do desgaste. Achei ruim para ele, para a Folha e lamentei a perda do cronista. A transferência alimentou uma série de especulações, como a de que o affair com o ombudsman o tirara da Folha. Ele realmente confessara isso para amigos comuns, mesmo depois de ter declarado publicamente o contrário. Nunca entendeu a independência do defensor dos leitores. Ele mesmo, que conheceu de sobra a sua própria independência, em relação ao jornal.</p>
<p>Na coluna “A primeira morte de Paulo Francis” dei conta da transferência e até – contra o bom senso – fiz algumas previsões sobre seu futuro na nova casa. Seus leitores na Folha ficaram, de certa forma, indignados com a maneira pela qual o jornal noticiou sua saída, em nota de duas linhas e meia na quarta página do jornal, num sábado, 8 de dezembro de 1990. Ao receber mais cartas cobrando esclarecimentos, a direção do jornal deu mais informações em Nota da Redação incluída no Painel do Leitor. Francis rompera o contrato de trabalho, válido ainda por dois anos, a pedido dele mesmo, contrato renovado havia pouco tempo depois de proposta de outra publicação. Ou seja, ele recebeu uma oferta e a Folha cobriu-a. Ele recebeu uma contra-proposta e a Folha optou por não renegociar. “Desde o início do ano vinham crescendo as divergências de natureza editorial entre a Folha e o correspondente em Nova York”, finalizou a nota.</p>
<p>Francis trocou a Folha pelo Estado, depois de 14 anos no primeiro, para ganhar mais dinheiro. Conforme informou o Jornal do Brasil, ele mudou “convencido por uma estratégia que envolveu cinco dígitos de pura verdinha”. O contrato seria de US$ 200 mil por ano, ao todo, incluindo salários, benefícios extras, além da garantia de aposentadoria. Na época, realmente, um dos mais altos salários na imprensa escrita.</p>
<p>A Nota da Redação tocou em divergências de natureza editorial e isto causou alguma incompreensão. Não devia ser confundido com natureza política e nem linha editorial. A direção da Folha me deu mais detalhes sobre as divergências. O problema mais importante surgiu em momento dos mais delicados, quando o governo Collor disparou dois processos contra o jornal. Francis deu entrevista à Revista d’, suplemento dominical do próprio jornal, e sapecou nota oito para Collor e cinco para a Folha (nas realizações, apesar de dez nas intenções). Não proferiu uma palavra de solidariedade contra evidente perseguição política.</p>
<p>Outro episódio que contribuiu para azedar o relacionamento foi o dos ataques desfechados por Francis contra a atriz e empresária Ruth Escobar. Os termos foram interpretados pela direção do jornal como muito pesados. Aconteceu no primeiro semestre de 1990 e quase acabou em novo processo contra a Folha.</p>
<p>Somaram-se alguns problemas do ponto de vista funcional. Ele queria passagens aéreas fora de contrato; almoçou com o presidente Collor sem avisar a redação; veio ao Brasil sem comunicar a viagem… O relacionamento se deteriorou, o diretor de redação sequer falava mais com ele ao telefone. O jornal sentiu no correspondente “atitude de quem quer romper”. Ele negou isso à direção e considerou o fator financeiro fundamental.</p>
<p>No dia em que o JB noticiou sua saída, 5 de dezembro de 1990, ele desconversou quando questionado em telefonema (particular) de integrante da direção. Um dia antes, no entanto, Francis assinara e enviara carta de desligamento via entrega expressa. Não tivera coragem de falar do rompimento quando esteve pessoalmente no jornal, alguns dias antes.</p>
<p>Não entrei no mérito das divergências. Registrei ter a Folha perdido o seu segundo índice de leitura e isso tinha sua importância. Detectei a decadência do articulista embora continuasse o mais polêmico do jornal. Analisei sua ida para o Estado. O matutino investiu no cronista na expectativa de atrair leitura. Falei dos problemas que teriam com os palavrões que ele usava, por exemplo. Deixei de falar nos problemas políticos, quando Francis, sem o saber – porque se soubesse não o faria, ele era extremamente disciplinado, bastava ver sua atuação na Globo, muito comportada se comparada ao que escrevia no jornal –, se metesse a criticar alguém próximo ao jornal; um político, empresário, colaborador predileto etc. Disse que se ele obedecesse ao Manual do Estado, onde se recomenda a não publicação de “palavrões nem vulgaridades”, estaria perdido. Arrisquei: “Os problemas não param aí e nem é o caso de alongar-me nas outras diferenças possíveis no Estado, jornal desacostumado com o direito de resposta necessário em casos de agressões pessoais, ataques às minorias étnicas, racismo, distorções, preconceitos…”</p>
<p>Um leitor carioca tinha resumido a coisa dizendo que a Folha o mantinha pelas suas virtudes e o Estado o levava pelos seus defeitos.</p>
<p>Além do mais, os leitores típicos de Francis, acostumados pelos anos de convivência, “descontavam” os excessos e aproveitavam de cada crônica seus momentos de inteligência e riqueza de interpretação. O leitor do Estado – cuja média de idade era superior à do leitor da Folha, e cujo perfil é de classe média conservadora – teria a mesma paciência?</p>
<p>Terminei a coluna com observação que se mostrou realista a respeito do Estado. Bastaram os primeiros meses de atuação de Francis para o comprovar. Tratava-se de uma “perversidade” operada à revelia do jornal, mas com rara eficiência: a morte jornalística de seus articulistas. Conforme escrevi, eles estavam lá, eram lidos, mas não repercutiam. Ninguém comentava, parecia que ninguém via. Francis nunca mais foi discutido como era. Esse fenômeno acachapante aconteceu com antigos campeões de audiência – como Luís Fernando Veríssimo e Telmo Martino. Ambos “aconteciam” mais quando escreviam em outras publicações.</p>
<p>A perversidade com Francis acabou sendo maior. Manietado pela camisa de força do estilão do jornal, ele perdeu seu brilho de ficcionista e transformou-se, ó ironia, em jornalista. E o Francis jornalista, sério, cheio de dedos, poucos suportavam. Acabou-se o Francis que dera certo na Folha e nascera um outro – daí sua “primeira morte” anunciada por mim. Nem adiantavam os apelos que recebia da direção do Estado no sentido de “mandar brasa”, falar mal dos outros, achincalhar. Ele o tentou, com evidente mal estar, contra a intelectual Marilena Chauí, contra o chanceler Francisco Rezek, contra seu velho seu amigo, o filólogo Antônio Houaiss. Mas a maquiagem feita na sua coluna bem como a pouca repercussão do Estado, afogaram qualquer repercussão.</p>
<p>A frase final de minha coluna, soube depois, provocou irritação entre os oficiais do Estado: “Aquele Francis inflado pela Folha começou a murchar ao decidir se abrigar no redecorado mausoléu em que se transformou o Estado”. Pegou pesado o “redecorado mausoléu”. Reagiram então com aquelas notinhas, vistas no capítulo nono [do livro Ombudsman – O relógio de Pascal, Geração Editorial, 2006], dizendo que eu falava bem do Estado nas críticas internas e mal em público.</p>
<p>Nem só de mau humor vivia o Estado. Tanto que um de seus colunistas, Telmo Martino, se referiu à coluna da “primeira morte” sem perder a fleuma:</p>
<p>“Não se sabe qual é a receita da poção que Caio Túlio Costa toma ou a palavra mágica que ele berra antes de se transformar em ombudsman. Só se tem certeza de que o espinafre de Popeye e o shazam do Capitão Marvel eram mais eficientes. Além disso, os dois não dependiam da qualidade dos inimigos para dar prestígio a sua força. O ombudsman é do tipo que depende do professor Moriarty para ser Sherlock Holmes. Não é à toa que gastou todo o fôlego em suas últimas investidas contra o Francis, que se retirava. Sem inimigo luxuoso, o ombudsman ficará tão insignificante como seus alvos. Sua única salvação será uma transferência para o mausoléu. O problema é que mausoléu exige de seus ocupantes um estilo lapidar”. O título da nota de Telmo era sugestivo: “O salmão e a sardinha”.</p>
<p>Nada, por mais duro ou divertido que tenha sido, se compara com um telefonema de leitora de Recife, Pernambuco, que evitou me dar seu nome. Ela falava baixinho, devagar, parecia estar recostada, quando atendi. Ela começou assim:</p>
<p>“É o ombudsman mesmo?”</p>
<p>“Sim, ele mesmo” – respondi.</p>
<p>“Eu estou ligando… eu queria, pessoalmente, lhe dizer que o Paulo Francis é uma pessoa superior, acima de todos nós.”</p>
<p>“Pois não.”</p>
<p>“Que ele não pode ser comparado com ninguém.”</p>
<p>“Sim, senhora.”</p>
<p>“Que ele realmente paira sobre nós.”</p>
<p>“Certo.”</p>
<p>“O senhor só anota, né?”</p>
<p>“Perfeitamente, estou anotando…”</p>
<p>“Igual meu psicanalista.”</p>
<p>“Ah? Sim…”</p>
<p>“É, senhor ombudsman, saiba que enquanto o Francis paira no ar, o senhor pesa no chão” – ela acentuou as palavras que grifei.</p>
<p>“Para a senhora ver, e eu não sou o seu analista.”</p>
<p>“Sim, mas tá me fazendo um beeem…”</p>
<p>Agradecida, desligou e nunca mais chamou. Não havia o que discutir. É inegável o lugar, quase único, e a combativa participação de Paulo Francis no jornalismo brasileiro, mesmo enquanto cronista, para ficar nos termos da minha crítica enquanto ombudsman.</p>
<p>Ele morreu relativamente jovem, aos 66 anos. De fato, estava no auge da carreira – era cronista internacional da Rede Globo, colunista de página inteira no Estado, seus textos eram reproduzidos por vários jornais do país e, além de tudo, se transformara na mais atrevida atração do programa semanal da TV paga, Manhattan Conection, quando debatia sobre tudo e mais um pouco com os jornalistas Lucas Mendes, Nelson Motta e Caio Blinder.</p>
<p>Começou a sentir dores quatro dias antes e, numa terça-feira, 4 de fevereiro de 1997, morreu em seu apartamento em Nova York, perto da ONU, às 6h25 da manhã, vítima de enfarto. Está enterrado no cemitério São João Batista, no Botafogo, bairro da zona sul do Rio de Janeiro, ao lado de seus pais.</p>
<p>Conforme relataram os jornais, sua mulher, Sônia Nolasco, ouviu-o reclamar de dores por volta das 6h. Ele trabalhava no andar inferior do seu dúplex, disse que doía o ombro esquerdo e reclamou da respiração, difícil. Sônia chamou o serviço de emergência. Quando os paramédicos chegaram Francis ainda estava vivo, mas respirava com dificuldade. Tentaram reanimá-lo, sem sucesso.</p>
<p>Ele vinha sentindo dores no ombro esquerdo e acreditava tratar-se de bursite, a inflamação da bursa, uma pequena bolsa de líquido que envolve as articulações e funciona como amortecedor entre ossos, tendões e tecidos musculares. Ocorre principalmente nos ombros, cotovelos e joelhos.</p>
<p>Conforme o jornalista e amigo Lucas Mendes, ele reclamou da dor na sexta-feira pela manhã, antes da gravação do programa Manhattan Conection. No mesmo dia, tomou uma injeção contra a dor receitada por seu médico, Jesus Cheda. Na segunda-feira, trabalhou normalmente, gravou sua coluna diária para o Jornal da Globo, estava de bom-humor e falante, segundo registro da Folha. No fim do dia, voltou a reclamar do ombro, nada que o impedisse de jantar com a mulher em um restaurante chinês perto de onde morava.</p>
<p>Preparava um “romance histórico” sobre o período de Getúlio Vargas na história política do país. O livro receberia o nome de O Homem que Inventou o Brasil, conforme o seu editor declarou na época. Além disso, preparava o romance Cabeça, a terceira parte da trilogia Cabeça de Papel e Cabeça de Negro, inacabada.</p>
<p>O detalhe: vivia um momento de enorme preocupação. Encarava um processo difícil na justiça americana, a partir de uma ação interposta pela Petrobrás, então presidida por Joel Rennó, duramente e continuadamente atacada por ele, tanto no jornal quanto no Manhattan Conection, aonde chegou a afirmar que seus diretores tinham contas secretas na Suíça. Francis se viu, pela primeira vez na vida, seriamente atingido. A indenização solicitada estava na casa dos US$ 100 milhões, dinheiro que ele não tinha. Não apenas isso, só os custos dos advogados, provavelmente, o levariam à ruína. Ao menos, era o que ele achava e com isso se atormentava.</p>
<p>Fez diferença ter sido acionado em solo americano, onde gravara os tais comentários, exibidos apenas no Brasil. Nos EUA, a justiça anda rápida e é eficaz. Estava mal-acostumado a ser processado no Brasil e ver nada, ou quase nada, acontecer. Por conta disso, entrou em depressão profunda e, tudo indica, não resistiu ao enfarto.</p>
<p>• • • </p>
<p>Publicado originalmente em 1991, o livro <em>Ombudsman – O Relógio de Pascal</em> foi reeditado em 2006 pela Geração Editorial. Como os demais capítulos, o relativo a Paulo Francis foi atualizado e reescrito em 2006.</p>
<p><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/catalogo/busca.asp?tipo_pesq=titulo&amp;palavra=ombudsman&amp;topo=livro&amp;sid=226123253101124399561817181&amp;k5=1C65AE0F&amp;uid=&amp;lastreg=&amp;parceiro=121222">CLIQUE AQUI PARA COMPRAR O LIVRO</a></p>
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