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	<title>Caio Túlio Costa &#187; Artigos</title>
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		<title>Poder sem responsabilidade</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Jul 2011 19:33:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Publicado originalmente no blog da MVL Comunicação e no site do Observatório da Imprensa, ambos em 20/07/2011
Caio Túlio Costa
Estive nesta terça-feira (19/7) no programa Entre Aspas, da Globo News. Rupert Murdoch acabara de comparecer ao Parlamento britânico para dar respostas aos deputados, na esteira das revelações lamacentas que envolvem métodos de investigação jornalística de seus jornais, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Publicado originalmente no blog da <a href="http://www.mvl.com.br/blog/poder-sem-responsabilidade/" target="_blank">MVL Comunicação</a> e no site do <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/poder-sem-responsabilidade" target="_blank">Observatório da Imprensa</a>, ambos em 20/07/2011</em></p>
<p><strong>Caio Túlio Costa<br />
</strong>Estive nesta terça-feira (19/7) no programa <a href="http://g1.globo.com/videos/globo-news/entre-aspas/v/jornalistas-brasileiros-analisam-o-escandalo-dos-tabloides-britanicos/1569957/#/Todos os Vídeos/page/1" target="_blank">Entre Aspas</a>, da Globo News. Rupert Murdoch acabara de comparecer ao Parlamento britânico para dar respostas aos deputados, na esteira das revelações lamacentas que envolvem métodos de investigação jornalística de seus jornais, o finado News of the World na berlinda.<br />
Monica Waldvogel queria saber se Murdoch tinha se saído bem. Eu e Ricardo Gandour, do Estadão, nos propusemos a analisar o caso.<br />
Tudo que veio à tona nos últimos dias extrapola, de longe, todo o pior que se pode esperar de um jornal comandado pelo clã dos Murdoch.<br />
Keith Rupert Murdoch é figura conhecida dos críticos da mídia. Em 1981, por exemplo, saiu a primeira edição do livro &#8220;Power without Responsibility&#8221;, ou Poder sem Responsabilidade, de James Curran, cuja capa original mostra Murdoch espetando o globo terrestre. Repare: essa imagem tem 30 anos.<br />
Há três décadas se discute os métodos do australiano que ganhou um jornal do pai na cidade de Adelaide e, desde os anos 50, expandiu os domínios construindo um império de comunicação na Europa e nos EUA.<br />
A expressão cunhada por Curran – poder sem responsabilidade &#8211; define bem o tipo de jornalismo praticado pelos Murdoch , que vai da extrema direita (Fox News), passando por uma tentativa de aquisição de respeitabilidade (Wall Street Journal) e desaba nas cloacas inglesas (The Sun, News of The World) que exploram em especial a fofoca, as traições, as revelações íntimas de celebridades, o <em>bas-fond</em> da política.<br />
Se as pesquisas de mercado mostram um vácuo de publicações no jornalismo conservador, Mudorch lança uma emissora de TV conservadora. Se há<span style="color: #800080;"> </span>mercado para algo mais liberal, ele compra o Wall Street Journal. Se o público adora futrica, então é com ele mesmo, espalha tablóides por<span style="color: #800080;"> </span>todos os cantos. Para conseguir a futrica, não importa que sejam necessários métodos que ele diz desconhecer, praticados por subordinados seus que se viram enganados pelos próprios subordinados – numa bem estruturada sequência de respostas ensaiada com a ajuda de seus advogados.<br />
Ele tem muito poder com as suas publicações – daí ser recebido pela porta dos fundos no gabinete do primeiro-ministro britânico, outro poderoso bastante chamuscado com este caso.<br />
Ou seja, Murdoch tem poder, não tem nenhuma responsabilidade. Nas duas acepções: a da responsabilidade direta nos grampos e a substantiva responsabilidade do publisher frente à acuidade ética na captação e divulgação da notícia, do que é notícia.<br />
O filho Jaime – responsável pelas empresas do pai na Europa, eis aí mais um reforço do substantivo responsabilidade – estava ao seu lado no Parlamento. Não conseguiu explicar por que sua empresa continua pagando os advogados do detetive particular que o tablóide contratara e do jornalista igualmente grampeador. Se deplora o que foi feito, por que ainda sustenta a sua defesa? Não explicou.<br />
Murdoch começou o depoimento de paletó é gravata, fez questão de interromper o filho para exclamar ser aquele o dia &#8220;mais humilhante&#8221; de sua vida, respondeu a todas as questões e, quase no final, levou uma &#8220;tortada&#8221; de creme de barbear lançada por um humorista desconhecido,<br />
Marbles. Tirou o paletó, manchado de creme, e continuou seco e direto nas respostas. No final, Rupert Murdoch se saiu bem no Parlamento – há quem diga que esta batalha ele teria ganho.<br />
O que chama atenção neste caso é a velocidade com a qual as notícias se espalharam mundo a fora, em especial no ambiente da internet. Foi no começo de julho que o jornal inglês The Guardian mostrou evidências de que as escutas telefônicas eram generalizadas no News of the World e que sua empresa-mãe pagara mais de 1 milhão de libras esterlinas para resolver os casos jurídicos ligados a esta prática.<br />
Detalhe: o tal Jonnie Marbles, por exemplo, tinha mil seguidores no Twitter. Ganhou 14 mil na sequência da &#8220;tortada&#8221;, ação antecipada no microblog: &#8220;It is a far better thing that I do now than I have ever done before&#8221;. Algo como: &#8220;De longe, o que eu farei agora é a melhor coisa que jamais fiz&#8221;. Wendi Deng, a jovem esposa de Murdoch que saiu em sua defesa contra o agressor, acabou a noite de terça-feira listada nos trending topics (a lista dos assuntos ou de nomes em maior evidência) do Twitter, chamada de &#8220;ninja&#8221;, em alusão à sua origem asiática e a rapidez com que partiu pra cima de Marbles.<br />
Cloaca aberta, responsabilidade maior negada, o que sobra disso tudo?<br />
A preocupação é a de que a obsessão legisladora recrudesça em todo o mundo. Há uma idéia, generalizada, difusa, da necessidade de &#8220;controle&#8221;. No entanto, o Reino Unido deu uma lição ao mundo. Ali existe tanto a regulação unindo Estado e sociedade civil no Ofcom (o Office of Communications), quanto a autorregulação, via Press Complaints Commission (a comissão de queixas à imprensa), órgão criado e mantido pela própria imprensa. Ambas as instituições estão sendo criticadas por terem sido negligentes neste caso.<br />
No entanto, atente para o fato de que foi um jornal, o Guardian, quem levantou o assunto de novo agora (ele existe desde 2002 quando a menina Milly Bowler foi assassinada e seu celular grampeado pelo jornal de Murdoch) e o colocou no pé que está.<br />
Em duas semanas, as ações da News Corp baixaram, um jornal foi fechado, investigação parlamentar foi aberta, prisões foram feitas, um jornalista morreu, as responsabilidades estão sob investigação policial e o mundo acompanha online o caso, livremente.<br />
Sem liberdade de expressão, sem liberdade de imprensa, sem concorrência, sem imprensa preocupada em incomodar os poderosos, não existiria nada disso. O toque macabro é que nada parece indicar que a imprensa que chafurda no esgoto esteja condenada – os outros tablóides passaram a vender mais depois do fechamento do News of the World.</p>
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		<title>Discurso sobre a lucidez</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Jul 2011 17:19:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Publicado no Observatório da Imprensa em 12/07/2011 na edição 650. Republicado no blog do site mvl.com.br
Caio Túlio Costa
Poucas entrevistas de profissionais de jornais são tão lúcidas quanto a concedida à Folha de S.Paulo na segunda-feira (11/7) por Juan Luis Cebrián, fundador do jornal espanhol El País e presidente do Grupo Prisa (ver &#8220;Google e Facebook [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><span style="font-size: small;"><span><em>Publicado no Observatório da Imprensa em 12/07/2011 na edição 650. Republicado no blog do site mvl.com.br</em></span></span></div>
<p><span style="font-size: small;"><span><strong>Caio Túlio Costa</strong></p>
<p>Poucas entrevistas de profissionais de jornais são tão lúcidas quanto a concedida à Folha de S.Paulo na segunda-feira (11/7) por Juan Luis Cebrián, fundador do jornal espanhol El País e presidente do Grupo Prisa (ver &#8220;<a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/google-e-facebook-sao-os-concorrentes-dos-jornais" target="_blank">Google e Facebook são os concorrentes dos jornais</a>&#8220;).</p>
<p>Ele encadeou duas frases relevantes. A primeira: &#8220;O competidor da <em>Folha</em> não é o <em>Estado de S.Paulo</em>, é o Google, o Facebook, estes são nossos competidores reais&#8221;. E a segunda: &#8220;E não queremos admitir porque não sabemos como competir com eles&#8221;.</p>
<p>Ambas denotam clareza de sentido raras vezes expressa por publishers que se formaram nas mídias clássicas e ainda vivem delas.</p>
<p>Para chegar à compreensão dessas duas frases pequenas, mas enormes na profundidade dos desdobramentos do seu significado, os profissionais desta indústria, não só do Brasil como do exterior, precisam fazer uma operação de catarata. Precisam de uma intervenção que remova o cristalino opacificado dos olhos. Ele impede a visão nítida dos processos em curso.</p>
<p><strong>Domínio inexistente</strong></p>
<p>Para ficar em alguns exemplos de fora: nos EUA, a Time Warner não entendeu o que Cebrián expressa. Ela teve a AOL nas mãos e deixou-a definhar. O magnata Rupert Murdoch, idem. Ele teve o MySpace nas mãos e deixou-o escapulir. O New York Times ainda não viu a intensidade da luz. No Reino Unido, a BBC também entendeu pouco. Na Espanha, por mais paradoxal que possa parecer, nem Cebrián conseguiu convencer o seu grupo de comunicação a investir em linha com os desdobramentos do que ele expressa em palavras, com perfeição.</p>
<p>No Brasil, justiça seja feita, o único grupo de comunicação que entendeu de alguma forma (um tanto esquizofrênica) que a web deve ser abraçada naquilo que teve de mais inusitado em relação à indústria clássica – a interatividade, a impossibilidade de se ter um modelo vertical de negócio como é o da imprensa tradicional – é o Grupo Folha, com a iniciativa pioneira do UOL. Os demais grupos ainda tateiam sem conseguir saber ao certo onde o galo canta, porque, sem dúvida, o ouviram cantar.</p>
<p>Explico-me. Desde o século 19, quando a indústria da comunicação conseguiu ganhar escala, ela se sustenta num modelo que, no fundo, é um modelo de distribuição. Vou colocar o verbo no passado porque parte do que será dito à frente não acontece mais exatamente como sempre aconteceu – como os classificados, que mirraram nos jornais de todo o mundo depois do advento do Google.</p>
<p>Enfim, a empresa de comunicação produzia conteúdo e vendia espaço para publicidade (anúncios de página ou pequenos anúncios, os classificados). Dominava a técnica industrial da produção deste conteúdo informativo e publicitário e imprimia-o em papel (no formato de jornais e revistas) ou espargia-o pelo ar (via televisão e rádio). Em resumo, dominava o negócio da distribuição deste produto – seja via terrestre (entregar em bancas e domicílios) seja no ar (satélites, torres de transmissão).</p>
<p>Dominava toda a cadeia desta indústria, da produção dos conteúdos passando pela industrialização dele em papel ou em ondas de frequências baixas, médias ou altas. Fazia a distribuição deste conteúdo diretamente e unilateralmente para o consumidor. Detinha o domínio total da industrialização e distribuição do produto.</p>
<p>No novíssimo mundo da comunicação, que se pode considerar inaugurado no final do século 20, quando surge a internet comercial, essa verticalização de produção e distribuição, este domínio total do negócio da comunicação, deixou de existir.</p>
<p>As empresas até podem dominar mais de uma etapa no novíssimo e revolucionário processo da comunicação, mas ainda não apareceu aquela empresa que domine todas as etapas.</p>
<p>É aqui que entra a confusão.</p>
<p><strong>Olhos opacos</strong></p>
<p>Para colocar as coisas de forma a serem entendidas e, assim, obter sucesso na operação de catarata, é importante entender que esta nova indústria se assenta sobre quatro atividades distintas.</p>
<p>Primeira, a daquelas empresas que têm capacidade de produção de conteúdo na forma digital e de prover alguma eficácia na distribuição de anúncios online (sites de jornais, revistas, rádios, emissoras de TV). Segunda: daquelas empresas com capacidade de industrializar os aparelhos que suportam produtos digitais (computadores, consoles de games, aparelhos de telefonia móvel). Terceira, daquelas outras tantas com a expertise necessária para criar mediadores, manipuladores técnicos destes conteúdos (softwares). A quarta atividade pertence àquela parte das empresas que possui as redes de distribuição deste conteúdo (empresas de telecomunicações fixas e móveis, empresas de TV a cabo).</p>
<p>Algumas tentam somar atividades, mas pouquíssimas empresas desafiadoras do velho processo da comunicação o conseguiram. A Microsoft soma produção de software com produção de aparelhos – e conseguiu algo na produção de consoles de games, por exemplo. A Telefonica une produção de conteúdos noticiosos e de entretenimento (Terra) com sua atividade de telecomunicações.</p>
<p>Existem mais exemplos, poucos, mas é preciso ir adiante porque aconteceram coisas ainda mais relevantes. Desde a invenção da internet comercial, o conteúdo deixou de ser distribuído unilateralmente, o que viabilizou a verticalização e o domínio total do negócio. Então o consumidor passou de passivo a ativo. Adorou a interação, gostou de poder transferir para o mundo do megafone online as vitórias e as mazelas da sua vida cotidiana.</p>
<p>Ou seja, as pessoas passaram a ter elas próprias facilidades para criar conteúdos sem ter nenhum, absolutamente nenhum poder econômico. Qualquer um hoje pode se dirigir a um local de acesso público e gratuito à internet e criar um blog ou levantar um vídeo no YouTube. Com isso, poderá ganhar instantes de fama mundial se conseguir tocar corações e mentes com sua mensagem.</p>
<p>A indústria clássica da comunicação, avalizada pelo velho, bom e bem testado modelo de negócio da televisão e do rádio, achou que iria ganhar esta batalha apenas com a venda da publicidade online – primeiro erro. Achou que poderia melhorar as coisas se cobrasse pelo conteúdo que ela transpunha para o ambiente online – outro erro. Até hoje, vide iniciativa recente do New York Times, os jornais se torturam entre o ser e o não ser da cobrança de conteúdo.</p>
<p>Enquanto isso, o Google passou correndo por fora e conseguiu inventar uma maneira de manipular este conteúdo produzido tanto pela mídia clássica quanto pelos neófitos da nova mídia – pessoas, instituições e empresas. Criou um modelo nascido da experimentação do usuário, como constata muito bem Juan Luis Cebrián na entrevista.</p>
<p>Este modelo transformou o Google numa das maiores empresa de publicidade em todo o mundo a partir da sua capacidade extraordinária de indexar bem e de agregar conteúdos produzidos por outrem. Botou a humanidade conectada para trabalhar para ele, botou-a para interagir com seus algoritmos, criou facilidades para devolver à humanidade conectada o que ela quer. E, nota irônica, a maior parte dos resultados de uma busca por uma notícia específica no Google vem dos sites da mídia clássica. Mas se notícia fosse o que mais interessa na rede, então seria bem mais fácil resolver essa equação.</p>
<p>Tudo isso acontece sob os olhos opacos dos tradicionais agentes da indústria da comunicação, que caminham a esmo sem enxergar com clareza o seu futuro. Urge uma operação de catarata bem feita. Juan Luis Cebrián está na ante-sala, com anestesia local, mas está lúcido. Continuarei neste assunto, aqui.</p>
<p> </p>
<p></span></span></p>
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		<title>O papel da internet na conquista dos votos de Marina Silva</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Apr 2011 13:03:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[PUBLICADO NA REVISTA INTERESSE NACIONAL (Ano 4, Número 13, abril-junho de 2011), págs. 59 a 75.
Caio Túlio Costa*
A internet tem potencial para mudar radicalmente o fazer político. No Brasil, isso começou a ficar mais claro em 2010 e a atuação de Marina Silva na internet representou o maior diferencial na campanha presidencial. Ferramenta imprescindível na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><span style="font-size: small;"><span><em>PUBLICADO NA REVISTA INTERESSE NACIONAL (Ano 4, Número 13, abril-junho de 2011), págs. 59 a 75.</em></span></span></div>
<p><span style="font-size: small;"><span>Caio Túlio Costa*</span></span></p>
<p>A internet tem potencial para mudar radicalmente o fazer político. No Brasil, isso começou a ficar mais claro em 2010 e a atuação de Marina Silva na internet representou o maior diferencial na campanha presidencial. Ferramenta imprescindível na disseminação da causa do desenvolvimento sustentável, a internet teve papel estratégico na composição dos 19.636.359 votos do número 43, de Marina Silva, digitado nas urnas eletrônicas no primeiro turno. [<a href="http://ecorelease.files.wordpress.com/2011/04/paper-marina-silva-14042011.pdf">Clique aqui para baixar o PDF</a>]</p>
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		<title>Duas ou três coisas sobre o Google</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Aug 2010 19:44:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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O deslumbramento da mídia com a empresa mascara seu real negócio monopolista. A crise com a china só aumentou o fascínio 
Caio Túlio Costa*
O mundo se ajoelha frente ao Google. O conglomerado que lhe dá forma conquistou em 12 anos de vida um deslumbramento geral. O fascínio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>PUBLICADO NA REVISTA ÉPOCA NEGÓCIOS DE JUNHO DE 2010 </p>
<p><em>O deslumbramento da mídia com a empresa mascara seu real negócio monopolista. A crise com a china só aumentou o fascínio </em></p>
<p><strong>Caio Túlio Costa</strong>*</p>
<p>O mundo se ajoelha frente ao Google. O conglomerado que lhe dá forma conquistou em 12 anos de vida um deslumbramento geral. O fascínio se ampliou com o recente embate entre o Google e o governo chinês. Este embevecimento é mais fácil de ser percebido nos meios de comunicação, tanto na mídia clássica (televisões, jornais, revistas, rádios) quanto nos veículos da nova mídia (portais, sites, blogs, posts, comentários). Como o maniqueísmo faz parte do DNA da mídia, ambas, a clássica e a nova, trafegam numa via de mão dupla: santificam ou demonizam. No caso do Google, ele caminha para a canonização em vida.</p>
<p>O público internauta que manipula seu mecanismo de busca ou suas ferramentas de rede social tem com ele uma relação utilitária. Usa-o sem necessitar refletir acerca de seu valor como farejador de dados, documentos, pessoas, imagens, vídeos&#8230; Procurou, achou. As autoridades, democráticas ou autoritárias, têm o Google sob estrita vigilância, por conta dos problemas ligados às invasões de privacidade, pedofilia, pornografia, grupos de ódio, em especial no YouTube e no Orkut – e mais ainda no Brasil, onde este último ganhou sua maior popularidade.</p>
<p>Mas o Google não é apenas o que aparenta ser. Certa feita, questionado sobre os pilares que norteiam o concorrente Yahoo – busca, personalização, comunidade, informação – e indagado sobre os pilares do Google, o seu homem forte comercial, Omid Kodestani, saiu-se com essa: “Nós dizemos que organizamos a informação em rede mundial. Bobagem! Nós somos é uma empresa de publicidade!”</p>
<p>Caiu a ficha? Quando você entra no Google e digita a palavra “carro”, receberá uma página de resultados com várias indicações sobre carros. Atente: o primeiro resultado pode ser um “link patrocinado” em fundo colorido, um anúncio em forma de texto. Do lado direito da página vão aparecer outros anúncios empilhados, todos em forma de texto e que remetem a carros: novos e usados, lançamentos da indústria automobilística e pequenos reclames antes cativos da indústria de classificados. Se você quiser vender seu automóvel e se dispuser a pagar algum dinheirinho para o Google, o seu anúncio pode aparecer ali do lado direito da página.</p>
<p>Esta descrição é banal para quem conhece o mecanismo. O que não é banal é o ganho do Google com esses pequenos anúncios desde que passou a vender palavras-chave na sua busca, em 1999. De uma empresa nascida sem modelo de negócio, acabou catapultada à liderança do mercado de propaganda. Arrebentou com o mercado tradicional de anúncios e praticamente criou um monopólio na busca em rede. Utilizou para tanto uma extraordinária inteligência no uso da força de trabalho (gratuita!) dos internautas. Eles o ajudam a confeccionar o mais poderoso banco de dados do planeta.</p>
<p>A coisa funciona mais ou menos assim: ao pressionar em qualquer resultado de uma busca, o endereço clicado vai para um banco de dados. Assim, de clique em clique, a empresa vai formando uma lista de endereços e contabilizando automaticamente quem aparece mais, ou seja, qual tem mais relevância, quantas vezes e em quantas páginas existe aquele mesmo endereço, quantos links existem nas páginas da internet direcionam para ele. Relevância é a palavra, o coração do mecanismo. Quanto mais cliques, quanto mais links apontam para um endereço, mais este endereço tem importância e mais em cima ele vai aparecer nos resultados da busca – porque ele é mais relevante.</p>
<p>O que os meninos do Google (Sergey Brin e Larry Page) conseguiram conceber, e milhares de engenheiros contratados por eles conseguiram aperfeiçoar, foram os algoritmos capazes de revelar essa relevância e devolver resultados pertinentes. Isso é aprimorado a cada dia. Ao mesmo tempo, uma espécie de robô bate de porta em porta nos sites da rede e indexa no banco de dados do Google, formado por milhares de servidores, todas as palavras de todas as páginas abertas na rede. Simples?</p>
<p>Não. Até aqui, ninguém, nenhuma companhia que tenha investido em busca conseguiu algoritmos tão poderosos. Desde seu nascimento, o Google foi deixando para trás empresas como Excite, Lycos, AltaVista, Inktomi, AskJeeves, Overture (a criadora da busca paga), Yahoo e até o mais recente Bing (da Microsoft). Algumas dessas marcas soam hoje pré-históricas para quem conhece a internet desde o seu nascedouro comercial, nos idos de 1995. Nada dizem (exceto Yahoo e Bing) para a geração de agora e para quem o Google é o mais natural mecanismo de busca que se possa imaginar.</p>
<p>A empresa não ultrapassou apenas os competidores na indústria dos motores de busca. Também deixou para trás monumentos empresariais. Dá um trabalho danado para as agências de publicidade, tritura o mercado de classificados dos jornais (olhe como diminuiu o peso do seu jornal de domingo), destrói concorrentes na nova mídia, como a America Online, e supera de longe, em valor de mercado, tiranossauros da mídia clássica como a Time Warner, a Disney ou a News Corporation – para ficar em três das maiores empresas de mídia do planeta.</p>
<p>O Google faturou US$ 23,6 bilhões de dólares no ano passado. Há expectativas, reforçadas por analistas de mercado, de ir além de US$ 36 bilhões em 2012. Cerca de 50% desse faturamento vêm dos pequenos anúncios, dos internautas que compram palavras-chave. 15% vêm da venda direta do Google, por telefone, junto às pequenas e médias empresas. 35% vêm dos grandes anunciantes (só aqui existe uma parte de anunciantes intermediados por agências de publicidade). A esmagadora maioria dos seus anúncios é vendida diretamente, sem intermediação. Ele é ao mesmo tempo o veículo e a agência. Percebe-se fácil o quanto de descontentamento isso deve gerar no mercado de agências de publicidade.</p>
<p>Comparado à Amazon, ao eBay e ao iTunes, o Google é quem melhor tira proveito da cauda longa, aquele fenômeno no qual se vendem muitos produtos de baixa procura porque estão agrupados num mesmo local e este local consegue arrebanhar compradores para tudo. Esses produtos teriam pouca venda se não existisse a comercialização em rede cuja escala a digitalização facilita.</p>
<p>O Google comercializa anúncios digitais em forma de texto. Vende-os tanto para grandes empresas que podem lhe pagar contratos anuais de milhões de dólares quanto para um blogueiro que pode lhe pagar míseros US$ 250 num único mês. Com isso, desbaratou a indústria tradicional de classificados e dá trabalho para a indústria da propaganda.</p>
<p>Compare o faturamento do Google, sempre crescente, com o faturamento das empresas de publicidade. Um dos maiores grupos desta indústria, o Omnicom, perdeu 12% de seu faturamento no último ano. Caiu de US$ 13,3 bilhões em 2008 para US$ 11,7 bilhões em 2009. Ou seja, um grupo solidamente estabelecido, composto de empresas, como a BBDO, fundada em 1928, fatura menos da metade do que o Google conseguiu em 12 anos. O grupo WPP, outro gigante, conseguiu aumentar seu faturamento em apenas 2,7% em 2009. O Google abriu 2010 crescendo em 24% sua receita trimestral contra o primeiro trimestre de 2009.</p>
<p>No caso das empresas de comunicação, compare a receita do Google com a da Time Warner, maior empresa de mídia do planeta em receita e ativos. Ela faturou US$ 44 bilhões em 2009, quase o dobro do Google. Mas o valor de mercado da Time Warner é de US$ 33 bilhões. Atenção: isto é cinco vezes menor do que o valor de mercado do Google: US$ 167 bilhões! Um ícone da velha mídia tem valor de mercado menor do que o seu faturamento. O ícone da nova mídia multiplica por sete o seu faturamento quando se fala no valor da empresa.</p>
<p>Portanto há razões de sobra para o embevecimento em relação ao Google. O auge da carência de criticidade em relação à companhia se deu com a recente crise com a China. Aos fatos.</p>
<p>Em 2002, o Google não tinha representação na China, estava na web, normalmente. Foi quando a China, no dia 4 de setembro, bloqueou o acesso ao Google pela primeira vez. Não houve anúncio oficial nem nada. Os internautas chineses ficaram duas semanas sem conseguir usar o google.com. As autoridades já estavam trabalhando no Grande Firewall da China, o equivalente da Muralha da China para a internet. Um mecanismo capaz de bloquear qualquer endereço na internet doméstica.</p>
<p>Em novembro de 2003, as autoridades chinesas lançaram o mecanismo e conseguiram eficiência no bloqueio dos conteúdos proibidos. Esta ferramenta estreou com a ajuda de uma força-tarefa de 30 mil policiais que passava dia e noite pesquisando e analisando todo o conteúdo na rede de cunho antigovernamental. Ou seja, os programas de busca não eram censurados, eram usados para encontrar material “subversivo”. Em decorrência, aí sim com a ajuda do Grande Firewall, bloquearam os sites que apareciam nos resultados e exibiam conteúdo “suspeito”.</p>
<p>Isto posto, e muito bem entendido, o Google deflagrou a sua estratégia para conquistar o maior mercado de internet do mundo. A China tem hoje 385 milhões de internautas, nada se compara a isso. Assim, em 16 de junho de 2004, o Google adquiriu participação minoritária na Baidu, o motor de busca líder em língua chinesa, sua cópia escancarada. Em setembro, o Google News não conseguiu fazer com que sites “problemáticos” do interior do país aparecessem nos seus resultados. O Google justificou a falha como “problema técnico”. Analistas de mercado não acreditaram. O Google teria se submetido à pressão de Pequim e se deixado censurar.</p>
<p>Em 25 de janeiro de 2006, a empresa lançou a versão em chinês de sua busca, google.cn. O mecanismo nasceu censurado, conforme determinações do governo chinês. Ou seja, para conquistar mercado, o Google aceitou a censura. Enfrentou, pela primeira vez, protestos em frente à sua sede, viu-se acusado de colaborar com um “regime nazista&#8221;. Um mês depois, foi criticado no Congresso americano por ceder às pressões da China. A empresa vendeu então sua participação no Baidu, mas seguiu firme com o plano de dominar o mercado chinês.</p>
<p>No entanto, em 2007, um ano após o lançamento da versão chinesa censurada, o Google não conseguiu obter boa posição e nem conseguiu reproduzir a mesma velocidade com que foi conquistando grandes fatias de mercado no ocidente. Conseguiu apenas 19% de participação contra 63% do Baidu. Então decidiu investir em outras companhias no país. Começou a trabalhar com China Mobile, a empresa estatal de telecomunicações, para oferecer conteúdo para telefones celulares.</p>
<p>Em janeiro de 2009, o Google e mais 18 empresas foram criticadas pelo governo chinês por não se esforçarem o suficiente para barrar pornografia na rede. Dois meses depois, em 24 de março, as autoridades bloquearam o acesso ao YouTube porque o site exibiu vídeo no qual a polícia chinesa batia em manifestantes no Tibete. O bloqueio durou quatro dias. No dia 19 de junho de 2009, as autoridades mandaram desativar algumas funções de busca no google.cn. A desculpa era que elas levavam a conteúdo pornográfico e ofensivo. Além disso, o serviço de e-mail do Google, o Gmail, permaneceu inacessível por mais de uma hora.</p>
<p>Em julho de 2009, o Google conseguiu exibir uma pequena vitória. Elevou sua participação no mercado de busca doméstico chinês a 30%, mas ainda metade dos 60% do líder Baidu. Na mesma época, teria sofrido ataques vindos da China, mas sem revelá-los.</p>
<p>A situação se deteriorou rapidamente. Em 12 de janeiro de 2010, o Google tomou coragem e anunciou ter sido vítima de um ataque cibernético “altamente sofisticado e direcionado”, originário da China. O ataque visava contas de e-mail de chineses defensores dos direitos humanos. O Google anunciou “revisão” de suas operações no país, e disse “não estar mais disposto” a continuar a censurar os seus resultados. Sugeriu que isso poderia significar o fim de seus negócios no país. O governo chinês respondeu que a alegação era “infundada”.</p>
<p>Em 4 de fevereiro, três semanas após o grave anúncio, o Google anunciou ter feito &#8220;zero mudanças&#8221; na busca chinesa e que estariam sendo positivas suas discussões com Pequim. Em 12 de março, Li Yizhong, ministro da indústria e tecnologia da informação, disse que o Google estaria sendo “hostil e irresponsável”. Após dois meses de negociações, os chineses deixaram escapar a notícia de que o google.cn poderia ser fechado.</p>
<p>Em 22 de março, o Google anunciou ter transferido suas operações de Pequim para Hong-Kong, onde não se aplicariam as regras de censura. Nascia naquele momento o grande defensor da liberdade de expressão. Manifestações do governo americano exibiram-no como “exemplo para empresas e governos”. Hillary Clinton, secretária de Estado, declarou: “Esperamos que as autoridades chinesas revejam sua posição sobre as intrusões que levaram o Google a tomar a atitude que tomou”.</p>
<p>Timothy Garton Ash, cientista político e professor de Oxford, resumiu o sentimento esparramado na velha e na nova mídia: “A batalha do Google contra a China é uma história que define nossa época”. Falou da oposição entre um leão e um crocodilo: “o poder brando do Google contra o duro poder territorial do estado chinês”.</p>
<p>Nada indica que as razões do Google sejam tão moralmente defensáveis quanto parece. Para adentrar o mercado chinês, repare bem, o Google aceitou proativamente as imposições autoritárias de Pequim. Aceitou e se calou. Sua disposição para a briga cresceu na exata proporção em que sua participação de mercado não cresceu como ele queria. Imaginava conseguir capturar o poderio do Baidu, dominar o mercado como consegue fazer onde está – com exceção do Japão, onde o Yahoo é o líder, em parceria com o japonês SoftBank.</p>
<p>Nos derradeiros seis meses nos quais ainda estava baseado em Pequim, o Google vinha mostrando dificuldade em crescer. Conforme as estatísticas visíveis no Alexa, um mecanismo do próprio Google que monitora a audiência mundial na internet, o Google conseguiu crescer 48% contra 53% do Baidu. Parece muito, mas ele não conseguia “comer” a participação do Baidu. Crescia em cima dos outros concorrentes como Yahoo China, Sogou, Zhong Sou, SoSo ou NetEase Yudao. Em pouco tempo estagnaria.</p>
<p>As receitas totais de busca na China (conforme projeção possível a partir de dados trimestrais de do primeiro semestre de 2009 divulgados no site especializado eMarketer), podem ter alcançado algo equivalente a US$ 1,3 bilhão no último ano. O Baidu abocanhou 60% disso (US$ 771 milhões) e o Google US$ 385 milhões – e isso é pouco num mercado daquele porte.</p>
<p>Ou seja, não se pode desconectar a retirada da China da questão econômica. A maior empresa de publicidade do mundo abre mão de seus compromissos éticos e tolera a censura quando interessa abocanhar um mercado gigante. Não é detalhe: durante quatro anos o Google aceitou a censura, caladinho. Baixou a cabeça para tentar fazer o negócio dar certo. Não deu. Então convoquem a liberdade de expressão. Comigo não, violão!</p>
<p>*<strong>Caio Túlio Costa</strong> é jornalista, professor de jornalismo e consultor de novas mídias.</p>
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		<title>Ética e mídia</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Dec 2009 13:50:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Capítulo do livro Cultura das Transgressões &#8211; Visões do presente, com prefácio de Celso Lafer e artigos de Marcílio Marques Moreira, Fábio Wanderley Reis, Caio Túlio Costa, Yves de La Taille e Içami Tiba. São Paulo: Etco/IFHC/Editora Saraiva, 2009.                                    
Caio Túlio Costa*
Dizer que a indústria da comunicação passa por uma revolução virou lugar-comum. Mas os momentos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Capítulo do livro </em>Cultura das Transgressões &#8211; Visões do presente<em>, com prefácio de Celso Lafer e artigos de Marcílio Marques Moreira, Fábio Wanderley Reis, Caio Túlio Costa, Yves de La Taille e Içami Tiba. São Paulo: Etco/IFHC/Editora Saraiva, 2009.</em>                                    </p>
<div><strong></strong>Caio Túlio Costa*</p>
<p>Dizer que a indústria da comunicação passa por uma revolução virou lugar-comum. Mas os momentos de esclarecimentos se acumulam. Aos poucos, permitem que se enxergue com clareza a transformação em curso. A explosão do jornalismo-cidadão no Irã, após a eleição presidencial de junho de 2009, quando os mecanismos da nova mídia (vídeos captados por celulares, blogs, mensagens curtas) permitiram que oposicionistas iranianos furassem o bloqueio do regime autoritário e exibissem ao mundo as manifestações contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, exemplificou como o poder de mídia passa a independer dos meios tradicionais de comunicação e consegue escapar dos mecanismos da censura. Exemplo dramático ocorrera nas Filipinas em 2001, quando a população, mobilizada por meio de celulares e e-mails, derrubou a ditadura de Joseph Estrada. Ou quando os espanhóis, em 2004, também apoiados por celulares e e-mails, apearam José Maria Aznar do governo.(1) E ainda em 2008, no Tibete, quando imagens de celulares driblaram a censura das autoridades e levaram ao mundo detalhes de protestos e repressão aos monges em Lhasa, a capital do país, contra a ocupação chinesa.<br />
Essa reviravolta traz desafios, problemas regulatórios, renovações estruturais e, em especial, dilemas éticos. São questões de grande amplitude, que têm a ver com culturas, com o entendimento da rapidez com que a tecnologia promove mudanças e de como ela ajuda a virar de ponta-cabeça negócios estabelecidos e a desestabilizar regras em construção há mais de meio milênio pela indústria da comunicação.<br />
Veja o caso de outro momento-chave, agora no Brasil, que desnuda mal-entendidos, principalmente em relação à questão ética. Em meados de 2009, os leitores de jornais puderam acompanhar aquilo que, antes de significar mais um episódio da reação negativa dos grandes jornais à revolução nas comunicações, iluminou a decadência do “quarto poder”. De quebra, exibiu o quanto a questão ética necessita de aprofundamento no tocante ao fim dos limites alimentados pela mídia tradicional.<br />
Em oito de junho de 2009, a principal associação brasileira da indústria produtora de jornais, a Associação Nacional de Jornais (ANJ, presidida por uma executiva da Folha de S. Paulo, Judith Brito, e tendo como vice-presidente e responsável pelo Comitê de Liberdade de Expressão o jornalista Júlio César Mesquita, da família fundadora de O Estado de S. Paulo, além de outros vice-presidentes, entre os quais João Roberto Marinho, da família que controla O Globo), divulgou uma nota num tom revelador da incompreensão da nova realidade.<br />
A manifestação começava assim: “A Associação Nacional de Jornais manifesta seu repúdio pela atitude antiética e esquiva com que a Petrobrás vem tratando os questionamentos que lhe são dirigidos pelos jornais brasileiros, em particular por O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, que nas últimas semanas publicaram reportagens sobre evidências de irregularidades e de favorecimento político em contratos assinados pela estatal e suas controladas”.<br />
Neste parágrafo há um verbo de forte simbologia política – repudiar – e dois adjetivos – antiético e esquivo. O primeiro, antiético, é o principal para esta discussão. O parágrafo seguinte começa com adjetivo e verbo, ambos igualmente de cunho negativo: “Numa canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas, a empresa criou um blog no qual divulga as perguntas enviadas à sua assessoria de imprensa pelos jornalistas antes mesmo de publicadas as matérias às quais se referem, numa inaceitável quebra da confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas fontes”. Prosseguia: “Como se não bastasse essa prática contrária aos princípios universais de liberdade de imprensa, os e-mails de resposta da assessoria incluem ameaças de processo no caso de suas informações não receberem um ‘tratamento adequado’. Tal advertência intimidatória, mais que um desrespeito aos profissionais de imprensa, configura uma violação do direito da sociedade a ser livremente informada, pois evidencia uma política de comunicação que visa a tutelar a opinião pública, negando-se ao democrático escrutínio de seus atos”.(2)<br />
 A nota funcionou, em parte, aos propósitos dos jornais. A Petrobras decidiu postar no seu blog as perguntas dos jornais somente na meia-noite do dia em que o assunto viesse a público, e não antes, quando elas chegassem à empresa, como havia começado a fazer. O pequeno recuo não invalida o fenômeno. E, se existem problemas éticos neste caso, eles se encontram no posicionamento da ANJ, e não na ação da Petrobras.<br />
Onde a ANJ foi buscar que os “princípios” da liberdade de imprensa impedem uma empresa de divulgar as perguntas que recebe desta mesma imprensa, não se sabe. Não existe nenhuma questão ética em jogo na atitude da empresa de abrir ao público as perguntas recebidas dos jornais, mesmo que sejam confidenciais. Se ela é a detentora da informação, ainda que solicitada a guardar sigilo, a ela cabe revelar ou não a demanda. Esta decisão lhe pertence, como pertence a qualquer fonte de informação da imprensa. Como também pertence igualmente à imprensa.<br />
Onde a ANJ foi pescar a ideia de que uma empresa não tem o direito de dizer que pode processar o jornalista se não se considerar adequadamente tratada, também não se sabe. Qualquer empresa, qualquer instituição, qualquer indivíduo, qualquer cidadão tem o direito inalienável, legítimo, de se adiantar para se defender quando considera que um órgão de comunicação pode vir a prejudicá-la ou prejudicá-lo – e tem o dever moral de informar isso ao veículo. No caso, foi o que fez a Petrobras.<br />
Onde a ANJ foi enxergar que defender direitos significa “tutelar” a opinião pública, muito menos se sabe. Qualquer um, qualquer empresa tem tanto o direito de desejar a não publicação de uma informação se aos seus olhos ela estiver errada, quanto o jornal tem o dever de publicar a informação se considerá-la dentro dos seus padrões de acuidade e confiabilidade. Negar esse direito é atuar, como sói acontecer, no terreno da moral provisória – pois a regra ética valeria para o jornal, mas não valeria para outrem. Mesmo guarnecida pela Constituição, a imprensa muitas vezes quebra o sigilo da fonte. Então o jornal pode e a fonte não? Ele pode publicar tudo o que sabe, mas a empresa está sendo antiética ao divulgar no seu site um pedido de entrevista, ainda que confidencial? Antiético é prometer e não cumprir. No caso, a empresa nada prometeu. Pode inclusive divulgar apenas o seu lado, afinal ela não é a imprensa.<br />
As assertivas da ANJ desnudam uma situação irreversível. O jornalismo tradicional perdeu poder com a nova configuração da indústria da mídia. Ele não é mais o principal ator da indústria de comunicação. Qualquer instituição, empresa ou indivíduo hoje pode ter poder de mídia.<br />
Pode não ter alcance.<br />
Pode não ter audiência.<br />
Pode não ter credibilidade.<br />
Pode não ter formação nem estar preparado para tanto.<br />
Pode não ter critérios éticos nem noções de filosofia moral.<br />
Porém pode sim ter poder de mídia.<br />
A tecnologia propiciou uma comunicação multi-interativa, multidirecional.  Destruiu a forma antiga de comunicação unidirecional. Deu aos homens o poder de levantar em rede mundial, a qualquer momento, qualquer dado, informação, imagem ou vídeo. Se a mensagem será consumida, será vista, comentada ou ignorada, é, claro, algo a ser considerado. O mais impactante, o mais estimulante, desafiante, novo e também o mais preocupante é que o mundo das comunicações mudou.<br />
Não adianta soltar nota, bater o pé, ameaçar – a liberdade de expressão ganhou foro infinito com o surgimento das novas mídias.<br />
Liberdade de expressão pressupõe responsabilidade. Portanto, a nova realidade da comunicação traz junto novos e monumentais problemas éticos, além de novas questões de fundo moral. Como lidar com privacidade, pedofilia, direitos autorais? Como saber se uma informação publicada num determinado site está correta? Como distinguir um site confiável? Como trabalhar com a enxurrada de informações ofertadas? Como lidar com fontes que agora têm poder de mídia? Como se defender da assimetria no mecanismo da comunicação? <br />
Informação e opinião não se encontram apenas nos veículos tradicionais da mídia emulados na internet. Elas estão nos sites empresariais e também nos institucionais, nos sites das agências de comunicação, nos sites individuais, nos blogs, nas redes sociais, nas pequenas mensagens do twitter&#8230; Por isso, é necessário examinar em maior profundidade os dilemas éticos que se apresentam nessa configuração.<br />
John Thompson, professor de sociologia na Universidade de Cambridge, Inglaterra, considera ter-se tornado corriqueiro para teóricos da sociedade e da cultura considerar a questão ética, e a própria reflexão sobre ela, uma preocupação do passado. Ela seria uma “expressão residual da razão legisladora que procurou – inutilmente e, em alguns casos, com desastrosas conseqüências – princípios universais e obrigatórios para a conduta humana”. Para ele, o “colapso do projeto universalista” (que se pode entender como o colapso do projeto da modernidade) teria deixado a investigação sobre a natureza e a finalidade da ética envolta numa “bruma de incerteza”.(3) O individualismo, nessa época de desintegração, teria aspirado a preocupação ética para a “estética do self”, a estética individual do eu mesmo.<br />
No que toca à mídia tradicional, num movimento relativista, não é que ela tenha “abandonado” o compromisso retórico com a razão legisladora de princípios universais. Ela vem relativizando as preocupações éticas desde sempre. A diferença é que, com o tempo, isso foi se tornando claro, transparente, aceitável, normal. O abandono foi progressivo. No entanto, continuou-se a criar códigos deontológicos para dar sentido normativo (idealístico) a uma ética no jornalismo que tem sido consistentemente detonada no dia-a-dia desse ofício. Como? A publicação de notícias unicamente de interesse imediato de pessoas, instituições ou empresas, advindas das mais diversas fontes e apresentadas sob uma única ótica e/ou enviesadas de deturpação, sem ouvir o outro lado, sem direito de resposta, sem a controvérsia, sem o contraditório – mesmo que a norma, enraizada em todos os manuais e em todos os procedimentos do jornalismo, mande reportar o contraditório.<br />
A preocupação ética, se existe formalmente e normativamente nas instruções da mídia tradicional, inexiste em inúmeras das suas práticas e, quando se fala em nova mídia, ela está no vácuo. As próprias empresas de mídia manejam com hipocrisia o uso das palavras “normas”, “ética” e “moral”. A preocupação moral se relativiza mais facilmente nesse novo sistema – seja pela falta de experiência dos seus novos atores (indivíduos sem formação humanística e/ou técnica em comunicação), seja pelo derretimento de valores sólidos ou ainda pela própria mimetização da relativização operada na pela mídia tradicional.<br />
Quando muito, agentes das novas mídias somam idealmente preocupações éticas (normativas) às já existentes, mas trazem novos problemas por conta da sua extensão, simultaneidade e possibilidade de unir numa mesma plataforma as várias formas de linguagem da comunicação (texto + imagem + movimento + áudio) para além da interatividade, o seu maior diferencial.<br />
Na nova realidade da esfera pública, o jornalista, subjugado pelos aspectos relativos da sua prática, deixou de ser o principal instrumento mediador da representação das representações. Menos pelos aspectos relativos e mais pelo desenvolvimento da técnica, que transformou a comunicação em algo participativo, interativo. As representações, individuais ou institucionais, emergem por si mesmas na mídia, sem dependência do jornalista, apesar de ele continuar existindo, continuar representando as diferentes representações que lhe permitem produzir um texto ou um vídeo e continuar a defender o uso de meios moralmente condenáveis (como gravações clandestinas, disfarces, câmeras ocultas) na busca da informação que ele considere de interesse público – e note que a definição de interesse público também pode ser contraditada, relativizada.<br />
As mudanças no comportamento do consumidor decorrentes das facilidades tecnológicas compõem a visão de que se chegou finalmente a um mundo convergente e interativo. Há a proliferação assimétrica do conteúdo. A audiência se fragmentou. A programação da televisão, inclusive, também se fragmentou. O público tem acesso a múltiplas plataformas. A publicidade se move para alvos cada vez mais definidos. As fronteiras clássicas da cadeia de comunicação são continuamente desafiadas e até os “valores” de mercado na indústria da comunicação se deslocaram. A captura e a própria manutenção do controle da informação tornaram-se críticas para essa indústria. Para o indivíduo-repórter autor de um vídeo de sucesso instantâneo e mundial, baseado no registro de imagens de uma celebridade, costuma ser irrelevante se o material foi capturado e publicado de forma legal ou ilegal – a rede vem desmantelando o conceito de legalidade.<br />
Veja a seguir em 28 tópicos(4), a maioria composta de dilemas éticos, e fartamente desdobráveis, a complexidade que a nova realidade introduz:<br />
1. Controle das redes. Apesar da percepção democratizante, há um controle da rede mundial. Ele está localizado nos Estados Unidos. Uma simples decisão desse grupo de controle pode bloquear o acesso à rede em qualquer parte do mundo. Os domínios dos sites da internet são administrados primariamente pela Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann), organização sem fins lucrativos baseada em Marina del Rey, na Califórnia. Na realidade, em várias medidas, o acesso à rede está tanto nas mãos dos Estados Unidos quanto de instituições, empresas e governos que podem mudar regras e criar barreiras tecnológicas e/ou financeiras a ela. Há mecanismos para driblar os controles locais, como aconteceu no Irã em 2009, mas, se a Icann bloquear a rede, não há o que fazer. Iniciativas como a do Digital Millennium Copyright Act, de 1998, vêm reforçar essa preocupação.(5) Um único país, por mais democrático que seja, deve deter a chave de controle da rede mundial? <br />
2. Diversidade cultural. A diversidade das culturas em rede, mesmo e paradoxalmente em tempos de homogeneização global, suportaria regras de validade universal? Quando se vê que mecanismos de busca, como o Google, são censurados localmente na China e não podem apresentar resultados idênticos aos apresentados em países democráticos (como procurar por praça da Paz Celestial e não encontrar informações sobre os conflitos entre polícia e estudantes, que aparecem normalmente numa busca global), a pergunta fica ainda mais relevante, mesmo que o exemplo seja político. Como compatibilizar, do ponto de vista ético, as diferenças culturais entre os povos conectados em rede? Ou esta seria uma falsa questão, portanto impossível produzir um código deontológico eficaz para todos os países em rede? <br />
3. Concentração. Nos anos 1980, existiam cerca de 50 empresas globais de comunicação. Este número caiu para 27 no começo dos anos 1990 e se reduziu a sete no começo do século XXI. Com o sucesso do Google, a conta fechou em oito empresas globais de comunicação, com faturamento anual superior a US$ 12 bilhões em 2009: Time Warner, Disney, Vivendi, News Corporation, Bertelsmann, Google, CBS e Viacom.(6) Juntas, representam mais de 40% do faturamento somado das 70 maiores empresas de mídia em todo o mundo. Essa enorme concentração se fundou principalmente na dispersão dos usuários dos diversos veículos da mídia tradicional e da nova mídia. A concentração se erigiu com a dispersão e a dispersão fundamentou a concentração. Esse é um movimento sem retorno?<br />
4. Profissionalização. Um dos resultados da concentração (leia tópico anterior) foi a invasão de indústrias sem tradição no negócio da comunicação (de maneira geral formado por empresas familiares). O grupo francês Vivendi (Canal +, Universal Music Group) vem da exploração e do comércio de água. O Grupo Dassault (fabricante de armas) está no jornal Le Figaro e no semanário L’Express. O grupo Lagardère, ligado à aeronáutica, à defesa e à indústria automobilística, entrou na mídia com a Hachette e com participação no Le Monde. O banqueiro Édouard Rotschild também entrou no Libération. A empresa de telecomunicações espanhola Telefonica é proprietária do portal Terra e se associou ao Grupo Abril na TVA (TV por assinatura), além de ter operação de DTH (TV por satélite). Ainda no Brasil, a Portugal Telecom, também empresa de telecomunicações, é sócia do UOL (Grupo Folha) e, em Portugal, é dona do portal Sapo. A mexicana Telmex controla a NET (TV paga, internet via cabo, telefone via internet) no Brasil. A empresa de telecomunicações Oi (de capital nacional), que lançou emissoras de rádio em 2005 e, em 2009, passou a distribuir TV em DTH, adquiriu o controle da Brasil Telecom, proprietária do Internet Group, aglutinador dos portais iG, iBest e BrTurbo. Os executivos profissionais estão mais bem equipados para comandar empresas de mídia do que as famílias tradicionais deste ramo? A decisão com base nos resultados das empresas não pode levar à censura de temas? Executivos profissionais teriam bancado, por exemplo, a publicação dos papéis do Pentágono se estivessem à frente do New York Times?<br />
5. Convergência. Tema complexo. Faz com que regras éticas de diferentes matizes se mesclem, criando situações de conflitos morais dos mais espinhosos e que se relativizam conforme as regras jurídicas de cada país. A começar pelo próprio conceito de convergência, cujo entendimento comum, simplório e equivocado é o da televisão virar computador ou do computador servir como televisão. Hoje se sabe que a convergência chega via chip, com seu poder de unir diversos aparelhos num só ponto de distribuição, seja no lar, no escritório ou na rua. Mas quem converge mesmo é o indivíduo, em um novo processo de comunicação, conforme anota Henry Jenkins.(7) É o indivíduo quem vai aceitar ou não, sentir-se confortável ou não com esse processo, que pressupõe uma comunicação móvel e pervasiva. Contribui enormemente para o alargamento do fosso presente na relação assimétrica com a informação. Os problemas morais decorrentes dessa situação de onipresença, com total conhecimento dos hábitos do consumidor por parte desta indústria e de seus satélites, se multiplicam devido à facilidade da adesão dos indivíduos aos aparelhos móveis de comunicação. O indivíduo terá consciência dessa realidade e saberá se defender dos riscos que ela implica?<br />
6. Convergência no celular. Um dos componentes menos estudados da nova mídia é o da convergência na telefonia móvel. O sentido do aparelho móvel enquanto parte da nova mídia se dá quando ele é usado para disseminar informação ou como interface de entretenimento. O celular pode funcionar como elo de comunicação e organização de criminosos em penitenciárias no Brasil e também ajudar a levar milhares de cidadãos para casa no “toque de recolher” de maio de 2006 na cidade de São Paulo. Se foi um fator chave na eleição de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos, ajudou a depor um chefe de Estado nas Filipinas, em 2001. Usado não apenas como aparelho de comunicação interpessoal, o celular recebe e emite informações, fotografa, grava vídeo, alimentando a rede com dados de toda espécie. Pode convergir com os demais artefatos da mídia, em todos os lugares onde haja recepção de seu sinal. Isso exige controle?<br />
7. Redes Sociais. Tornaram-se vedetes da web pela capacidade de criar comunidades afins (seja em torno de uma pessoa, um assunto ou uma causa) que podem se expandir e procriar subcomunidades, num amplo sistema de comunicação. Barack Obama se beneficiou desse mecanismo tanto para captar dinheiro para sua campanha presidencial de 2008 quanto para levar sua mensagem aos eleitores. Empresas usam as comunidades para pesquisar sua imagem e a de seus produtos ou serviços, para bisbilhotar perfis de candidatos a emprego e fazer marketing. Apesar de existirem códigos de conduta em cada rede social, as regras são burláveis e os problemas de segurança e privacidade se mantêm de forma igual aos da internet. As mais conhecidas são Orkut, Facebook, Ning e Linkedin.<br />
8. Conteúdo participativo, colaborativo. Os sites de conteúdo produzido pelo público, com atualizações realizadas a qualquer momento de qualquer lugar do mundo – cujo maior exemplo é a Wikipédia, enciclopédia inteiramente formatada na rede e escrita por meio de colaboração gratuita de milhares de pessoas anônimas –, é um problema a mais nos quesitos clássicos de confiabilidade. Mesmo tendo colaboradores voluntários a postos para corrigirem erros e omissões, o fato de ser atualizada on-line permite inserções repetidas de verbetes falsos, caluniosos ou criminosos. No que é possível verificar, um estudo realizado em 2005 pela revista científica Nature, em 42 tópicos comuns, reportou quatro erros por verbete na Wikipédia contra três erros por verbete na vetusta Enciclopédia Britânica.(8) A boa notícia é que, na Wikipédia, assim como na web, as correções podem ser imediatas.<br />
9. Mecanismos de busca. O Google é a sua face mais popular. Existem mais buscadores de porte, como o Yahoo e o Bing, este último pertencente à Microsoft (que anunciou, em julho de 1009, acordo com o Yahoo para explorar a publicidade online); e outros capazes de fazer buscas específicas, verticais, segmentadas. Esses mecanismos misturam num mesmo resultado conteúdos de credibilidade com conteúdos sem credibilidade ou de fontes duvidosas, sem serem capazes de fazer a distinção. Que tribunal mundial deveria se ocupar da credibilidade de conteúdos na internet? Qual algoritmo avançado poderia apurar o “grau” de “verdade” numa informação ou num conjunto de informações? Mesmo considerando a rapidez dos avanços na tecnologia (caso da web semântica), é provavelmente impossível supor uma ferramenta capaz de identificar “a verdade” nos complexos reinos da linguagem, das versões e da dita objetividade.<br />
10. Trabalho não-remunerado. Quando alguém digita uma palavra ou uma expressão nos sites de busca realiza um trabalho não-remunerado. Essa digitação produzida pelo usuário permite cruzamentos instantâneos das informações requeridas por ele, de resultados capazes de lhe mostrar imediatamente informações relacionadas ao que ele solicitou, bem como apresentar, com destaque, produtos ou serviços à venda na rede ou fora dela. O mecanismo de busca transforma a navegação do indivíduo em fonte de renda. Vende o resultado da busca para empresas ou indivíduos apresentarem produtos ou serviços relacionados àquelas e levar o internauta ao seu site. O internauta não deveria ser remunerado por este serviço gratuito que presta quando clica nos links que lhe apareceram?<br />
11. Nova publicidade. Manipulados por novas técnicas, os conteúdos podem misturar informação, entretenimento e serviço com material publicitário de forma pouco ou nada perceptível pelo público. Esse procedimento, opaco em muitos sites e portais, bombardeia a clássica separação entre “Igreja” e “Estado” criada pela mídia tradicional e em vigor em parte dela. O conteúdo editorial (cuja metáfora seria a Igreja) não deve se misturar com o conteúdo publicitário (cuja metáfora seria o Estado). Há uma “muralha” destinada a separar o departamento editorial do comercial. Essa separação – enunciada normativamente em muitas empresas ditas “de qualidade” – tende a se relativizar nas novas empresas multimídia. Nelas, as áreas de conteúdo e comercial planejam, projetam e trabalham em conjunto produtos desenhados especialmente para as necessidades de mercado. Problema moral: o que na velha mídia podia ser considerado teoricamente informação “pura”, na nova mídia, se confunde com mensagens publicitárias “disfarçadas” de informação.<br />
12. Marketing contextual. É a expressão dada às técnicas de publicidade que utilizam o contexto de uma página de internet para incluir mensagens publicitárias por meio da inserção de link para um site comercial em palavra ou expressão de um texto qualquer. Por exemplo: toda vez que aparecer a palavra “automóvel” em um texto jornalístico, essa palavra será linkada – por meio de um único clique – a um site de comercialização de automóveis. Trata-se de usar o próprio conteúdo editorial como suporte para mensagens publicitárias.<br />
13. Behavior advertising (ou publicidade comportamental). Publicidade baseada nas informações extraídas durante a navegação do internauta. Parecida com a técnica usada em larga escala pelo Google que, por meio da palavra de busca, devolve informação buscada pelo internauta, este tipo de publicidade devolve informação publicitária ligada aos assuntos das páginas pelas quais o internauta navega. A indústria tem se preocupado em lidar com isso de forma a não identificar o indivíduo, mas sim os padrões de navegação de quem está no comando da navegação. Sem querer e sem autorizar, cada indivíduo deixa suas preferências pessoais disponíveis nos sites pelos quais passeia, no histórico do seu caminho na rede. Elas podem ser capturadas por um mecanismo que anota e relaciona este passeio pela web, o interesse por determinados assuntos. Como mecanismo de defesa, o público deve dominar ferramentas que impeçam o rastreamento de informações durante a navegação em rede – seja via computador ou celular. A saída, tanto pelo lado regulatório quanto individual, é exigir transparência das empresas que usam este tipo de marketing no sentido de deixar claro o mecanismo aos olhos do internauta.<br />
14. Prosumer (produtor + consumidor). A palavra define o consumidor avalia produtos e assim ajuda consumidores e empresas. Qualquer internauta pode deixar um comentário num site comercial e os consumidores poderão se orientar (ou se desorientar) em relação àqueles bens ou serviços oferecidos. Isso dá um poder inédito ao consumidor. Porém nem todos os administradores de site de comércio eletrônico permitem a publicação de críticas negativas ou reclamações. Nos sites independentes, de comparação de preços, os comentários são mais livres. Nos que representam fabricantes, os comentários podem ser filtrados e/ou mediados. Dilema: como lidar com as críticas infundadas sem tirar do consumidor esta novíssima ferramenta de análise e de feedback?<br />
15. Jornalismo e entretenimento. Assim como pode haver confusão entre informação e propaganda, pode haver também entre o que é jornalismo e entretenimento. Na nova mídia, é mais difícil separar visualmente uma categoria da outra. Informação se confunde com entretenimento e vice-versa. Jogos on-line, shows, música, cinema, produtos e serviços diversos se confundem numa mesma plataforma de informação, exibição e comercialização. Você pode receber no seu celular um torpedo para votar no herói mais corajoso de todos os tempos e acabar direcionado a um site, seja no seu próprio celular ou no seu computador, de jogos on-line gratuitos – mas patrocinados por um anunciante qualquer.<br />
16. Jornalismo inexato. Para estarem na rede justapostos aos acontecimentos que são notícias, os textos (ou vídeos) são produzidos e cosidos em alta velocidade. A web não dá tempo ao jornalismo para uma pesquisa minimamente acurada. Por isso, as informações surgem inexatas. Dilema: o jornalismo deve segurar a notícia quando inexata? Neste caso, a web demonstra na prática que não. A exatidão é a vítima da pressa, que é inerente ao processo de notícia em tempo real. O que difere a nova mídia da comunicação tradicional é que a informação inexata pode ser corrigida e ampliada on-line, imediatamente depois de publicada – coisa que não acontece com a mídia impressa. O erro só poderá ser corrigido no outro dia pelo jornal (quando o é), na outra semana pelo semanário ou no outro mês pela publicação mensal.<br />
17. Indivíduo-repórter. Trata-se de qualquer um que se aventure na rede com site próprio, blog ou participação em portais e empresas que agregam conteúdos colaborativos, mas que atua sem “preocupação social”, ao contrário do cidadão-repórter. O indivíduo-repórter produz conteúdos e interfere em conteúdos de terceiros. Em geral, opina, dá curso a boatos ou a informações factuais. Chama a atenção para assuntos que não estão na mídia ou interfere naqueles que estão em pauta. Pode aparecer sempre ou de vez em quando. Usa a rede porque ela está à sua disposição. O dilema está em como a sociedade deve lidar com quem não tem formação técnica nem ética para exercer comunicação de massa, mas a exerce.<br />
18. Cidadão-repórter (citizen journalist, na expressão em inglês – modalidade também chamada de jornalismo participativo, participatory journalism, ou de jornalismo popular, people journalism). Conforme a definição dada por Shayne Bowman e Chris Willis, o cidadão-repórter é aquele que “joga um papel ativo no processo de coletar, reportar, analisar e disseminar notícias e informações”. A intenção do cidadão-repórter seria “prover informação independente, confiável, acurada, abrangente e relevante conforme requer a democracia”.(9) Não deve ser confundido com o jornalista profissional. Em tese, teria as mesmas preocupações morais do jornalista. O cidadão-repórter seria o seu êmulo. A dificuldade, ou melhor, a impossibilidade, é a de dotar todos os indivíduos que atuam na rede de uma concepção consensual do significado de cidadania e democracia.<br />
19. Indivíduo-repórter x cidadão-repórter x jornalista. O jornalista perde a proeminência que sempre teve. Perde tanto para os indivíduos-repórteres (quando estes usam a rede para publicar informações positivas ou negativas, corretas ou erradas, sérias ou frívolas) quanto para os cidadãos-repórteres (quando estes usam a rede na defesa de ideais, para fazer política ou denunciar falcatruas). Essa competição pode incluir o uso invertido das intenções. Não apenas o jornalista, mas também o indivíduo-repórter e o cidadão-repórter podem utilizar a rede para caluniar, difamar e injuriar pessoas e instituições.<br />
20. Inexperiência do indivíduo-repórter ou do cidadão-repórter. A inexperiência não leva a erros, omissões e distorções ainda mais graves do que as protagonizadas pelo profissional experiente? Dominique Wolton toca nesse assunto quando fala que o “contexto da competência” é essencial. Para ele, “se não se tem a competência para assimilar o aprendizado, os sistemas de informação e de conhecimentos erguerão outros tantos muros intransponíveis”. Antes, havia a figura do professor ou de um pesquisador para facilitar o acesso ao conhecimento. Agora, a rede propicia a qualquer pessoa o “contato direto” com a “imensidão do saber da humanidade”.(10) O consolo é que a falta de experiência seja talvez o único dos defeitos que melhora com o tempo.<br />
21. Privacidade. Não há privacidade para pessoa de exposição pública, seja celebridade, político, artista, executivo&#8230; As invasões de privacidade multiplicaram-se geometricamente com as novas mídias, com a facilidade na coleta de informação por câmeras em celulares e aparelhos digitais diminutos, além de formas sofisticadas de gravação clandestina de conversas, não importando onde esteja o “alvo” – lugar público ou privado. A principal resolução moral para esse problema, no entanto, concerne mais à pessoa exposta do que ao agente de comunicação.<br />
22. Fontes. As fontes de informação agora podem publicar diretamente informação e opinião em seus sites pessoais ou institucionais – muitas vezes travestidos de sites independentes e informativos. Qual a transparência na publicação de dados e informações nos sites institucionais, empresariais ou políticos? Em todo caso, há transparência na publicação de dados nos relatórios, livros, revistas e house organs tradicionais?<br />
23. Limites individuais em casos de conflito de interesses. O fato de alguém usar seu próprio site ou blog em causa própria sem que o usuário sequer imagine existir interesse pessoal por trás da informação publicada é bastante comum. Veja exemplos corriqueiros na velha mídia, agravados pelas novas mídias: o crítico gastronômico almoça de graça e depois escreve a crítica do restaurante. O jornalista ou indivíduo-repórter viaja gratuitamente, a convite de uma empresa aérea, cadeia de hotel ou agência de viagem, e escreve sobre a viagem. É possível reportar a viagem com isenção? Como lidar com essa questão com transparência? Os sites de gastronomia ou de turismo não deveriam deixar isso claro quando ocorrer? Ou não se deve aceitar o convite? O mesmo problema existe na crítica musical, cinematográfica, teatral, literária, esportiva&#8230;<br />
24. Boatos. Usar a rede para dar curso a boatos, a visões parciais, fúteis, porém “saborosas”, ou usar a rede somente para publicar informações de interesse público? De novo: o que é “interesse público”? Quem o define?<br />
25. Direito autoral. Os problemas de direito autoral são provocados pela facilidade da reprodução de dados digitais (música, vídeos) e de copiar e colar (texto, imagens). São questões de direito autoral, direito de imagem, direito de arena e de preservação de direito adquiridos para divulgação de informações, obras, vídeos, material captado ao vivo ou não, com ou sem autorização, postado em vários sites, a partir de qualquer ponto do planeta, sem proteção jurídica ou norma ética de valor universal. Iniciativa como a do Creative Commons (instituição sem fins lucrativos que redigiu um conjunto de licenças para a administração livre, totalmente aberta e compartilhada de informação – copy left, em vez de copyright) mostra como a criatividade e outras formas de entendimento do direito autoral precisam ser desenvolvidas para enfrentar os desafios da distribuição de conteúdos em rede. O Creative Commons flexibiliza o uso de obras protegidas por direitos autorais. Com a licença Creative Commons um compositor autoriza outros artistas a utilizar suas composições para criar uma mistura de ritmos, por exemplo. Um escritor pode dispor um texto na rede, gratuitamente, e permitir que outros autores o republiquem, parcial ou integralmente e até modifiquem o original.<br />
26. Questões das minorias étnicas e de gênero. O entendimento e a abordagem dessas questões variam conforme as culturas regionais e nacionais e podem evidenciar sérios problemas de racismo ou de preconceito por conta da compreensão local, regional ou nacional de uma mesma informação, cujo entendimento pode variar conforme a educação e a cultura de cada povo.<br />
27. Plataforma de expressões ilegais ou “doentias”. Sites de “grupos de ódio”, conforme explica Jon Ann Oravec, crescem em número e variedade, enquanto cresce também a quantidade de informações relacionadas a preconceito e à violência, muitas das quais ensinam como seqüestrar, planejar atentados, construir bombas, reforçar vícios, simular doenças, manter comportamentos doentios&#8230;  A população em rede tem sido a maior fonte do descobrimento e da denúncia deste tipo de site.<br />
28. Sites de conteúdos sexuais e pornográficos. Quais os seus limites? E deve ter limites? Inerente a essa discussão, aparece o problema da pedofilia (crime) e todos os derivados da questão, assim como os mecanismos de exposição, de acesso e de controle, principalmente em relação ao público infantil. Assunto de polícia e para o qual está voltada a atenção das autoridades. Os provedores de acesso à internet têm cooperado ativamente no levantamento de dados capazes de levar aos criminosos – mesmo e apesar da diferença entre as leis dos diferentes países.<br />
Os exemplos capazes de revelar novos problemas éticos, além daqueles tradicionais realimentados pelas novas mídias, se acumulam. Este trabalho não daria conta de enumerá-los. Como ensina Wolton, acessar diretamente a informação e o conhecimento coloca problemas bem mais radicais do que usar a internet para comprar no supermercado, reservar passagem aérea ou consultar sua agência bancária. Não se trata mais e apenas de ter acesso a informação e conhecimento produzidos por qualquer um, mas da possibilidade de qualquer um produzir informação.<br />
As questões recolocadas em discussão expõem tanto o jornalista tradicional, o indivíduo-repórter, o cidadão-repórter, assessores de imprensa, agências de comunicação, empresas e instituições, como qualquer um que se aventure na rede, a uma responsabilidade moral, do ponto de vista da moralidade clássica, jamais suspeitada. O normativo perdeu substância porque o funcional é a conseqüência lógica de uma prática universal, que, em função das circunstâncias, simplesmente ignora ou torce preceitos definidos pela moralidade teórica tecida na modernidade.<br />
Nessa situação generalizada – na qual qualquer um pode comandar a informação, da simples notícia sobre o trânsito, passando pela informação sobre que empresas podem ter suas ações mais valorizadas na bolsa de valores e chegando à sofisticada criação de algoritmos capazes de juntar informações correlatas dispersas pelas redes –, a raiz moral vem se decompondo quando se sabe melhor, a partir de Stiglitz, das imperfeições da comunicação, mesmo sob o domínio das mais portentosas técnicas da mídia, e que elas são assimétricas na comunicação como um todo.<br />
Um lado sempre tem mais informação do que o outro no processo da comunicação. Isso vem do fato inequívoco de que pessoas diferentes sabem coisas diferentes. Não há texto em jornal, revista ou site noticioso da internet (exceção quanto aos produzidos pelas instituições especializadas), nem há reportagem radiofônica ou televisiva que resista à análise apurada de um especialista. Como não há também na internet, a menos que seja o especialista o autor. Mesmo assim, ele corre o risco de ser contraditado por um par. Assimétricas, as informações dançam conforme as necessidades – além de terem sido vulgarizadas e facilitadas para a compreensão média do público ou, para conforto dos comunicadores, para compreensão do “grande público”. O nivelamento praticado pela indústria da cultura assim o exige e assim realimenta a cadeia da informação, que vai sistematicamente se nivelando sempre a um ponto mais abaixo, numa barafunda de dados na qual se misturam informações colhidas das mais diversas fontes – confiáveis ou não.<br />
A situação é complexa porque “ser é perceber ou ser percebido”, conforme o filósofo irlandês George Berkeley esclareceu lá em 1710.  Como se diz, as coisas só existem porque são percebidas. Não há nada que embase tão bem a ideia da onipresença da mídia: o que não está na mídia não é. Porque não pode ser percebido. Não há como perceber se não for midiático, se não estiver na internet, num jornal, revista, rádio, televisão&#8230;<br />
Capazes de dar ainda mais sentido à frase de Berkeley, as formas tradicionais de comunicação e a nova mídia se amalgamaram na faina do fazer perceber. Se a questão ética sempre foi problema sério para a indústria da comunicação tradicional, as novas mídias só vieram ampliá-lo.</p></div>
<p> </p>
<p><strong>Referências bibliográficas</strong></p>
<p>ANDERSON, Chris. <em>The long tail: why the future of business is selling less of more</em>. New York: Hyperion, 2006.</p>
<p>BAGDKIAN, Ben. <em>The media monopoly. Third Edition, revised and expanded with the latest information the expansion of global communication</em>. Boston: Beacon Press, 1990.</p>
<p>BERKELEY, George. <em>Tratado sobre os princípios do conhecimento humano</em>. São Paulo: Abril Cultural, Coleção Os Pensadores, 1973.</p>
<p>BOWMAN, S. and WILLIS, C. &#8220;We media: how audiences are shaping the future of news and information&#8221;. The Media Center at the American Press Institute, 2003.</p>
<p>COSTA, Caio Túlio. <em>Ética, jornalismo e nova mídia – uma moral provisória</em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.</p>
<p>_______.<em> Ombudsman – o relógio de Pascal</em>. São Paulo: Geração Editorial, 2006.</p>
<p>DREYER, D. <em>Organizational change in the global media markets – Causes and consequences.</em> Alemanha: Westtälische Wilhelms/Universität Münster, janeiro de 2003.</p>
<p>JENKINS, Henry. <em>Convergence culture – where old and new media colide</em>. New York: New York University Press, 2006.</p>
<p>ORAVEC, Jo Ann. “On-line advocacy of violence and hate-group activity: the internet as a platform for the expression of youth aggression and anxiety” in WOLF, Mark J.P. (editor). <em>Virtual morality – morals, ethics, new media</em>. New York: Peter Lang. 2003, pp. 119-134.</p>
<p>THOMPSON, John B. <em>A mídia e a modernidade – uma teoria social da mídia</em>. Rio de Janeiro: Vozes, 2004.</p>
<p>WOLTON, Dominique. <em>Internet, e depois? Uma teoria crítica das novas mídias</em>. Porto Alegre: Sulina, 2003.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Notas</strong><br />
(1) O Estado de S. Paulo, 09/06/09: p. A6.<br />
(2) Thompson, 2004: p. 224.<br />
(3) Parte dos tópicos vem do capítulo “Relativismos” de Costa, 2009.<br />
(4) Ou DMCA, lei do direito autoral dos EUA. Criminaliza a produção e a difusão de tecnologias, dispositivos ou serviços destinados a inibir o acesso aos direitos autorais.<br />
(5) Baseado nas informações de Costa, 2006; em Bagdkian, 1990 e Dreyer, 2003.<br />
(6) Jenkins, 2006.<br />
(7) Anderson, 2006: p. 69.<br />
(8) Bowman &amp; Willis, 2003.<br />
(9) Wolton, 2003: p. 135-6.<br />
(10) Oravec, 2003: p.119.</p>
<p>*Caio Túlio Costa é jornalista, professor de Ética Jornalística, doutor em Ciências da Comunicação pela USP e consultor de novas mídias. Este texto expande e atualiza dados contidos em <em>Ética, jornalismo e nova mídia – uma moral provisória</em> (Zahar, 2009).</p>
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		<title>Moral Provisória 2.0</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Oct 2009 14:42:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Artigo (que, em parte, é um excerto do capítulo  &#8221;Relativismos&#8221;, de Ética, Jornalismo e Nova Mídia &#8211; Uma Moral Provisória, Zahar, 2009) publicado no livro Do Broadcast ao Socialcast, recém publicado pela revista Bites e disponível para donwload (clique aqui para baixar).
Caio Túlio Costa
A realidade da esfera pública suporta que qualquer indivíduo (solitário ou investido do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Artigo (que, em parte, é um excerto do capítulo  &#8221;Relativismos&#8221;, de </em>Ética, Jornalismo e Nova Mídia &#8211; Uma Moral Provisória<em>, Zahar, 2009) publicado no livro </em>Do Broadcast ao Socialcast<em>, recém publicado pela revista Bites e disponível para donwload (<a href="http://www.4shared.com/file/140483420/cbbfd6ce/Do_Broadcast_ao_Socialcast.html" target="_blank">clique aqui para baixar</a>).</em></p>
<p><strong>Caio Túlio Costa</strong></p>
<p>A realidade da esfera pública suporta que qualquer indivíduo (solitário ou investido do poder de instituições) exerça um papel relevante na nova mídia. O jornalista deixou de ser o principal instrumento mediador da representação das representações. Menos pelos aspectos relativos e mais pelo desenvolvimento da técnica que transformou a comunicação em algo bi-direcional, interativo, multidirecional, participativo. As representações, individuais ou institucionais, emergem por si mesmas na mídia, sem dependência do jornalista, apesar de ele continuar existindo,<br />
continuar representando as diferentes representações e continuar a defender o uso de meios moralmente condenáveis na busca da informação que ele considere de interesse público – porque a definição do que é de interesse público também pode ser contraditada, relativizada. A diferença em relação aos tempos tradicionais: um site universitário pode ser tão ou mais determinante na difusão de informação quanto um blog (seja de um jornalista, seja de um especialista, seja de um amador) ou um site noticioso que emule a mídia tradicional em comparação com o poder de difusão da informação da própria mídia na sua forma clássica.</p>
<p>Yochai Benkler, no livro no qual dialoga com Adam Smith e cujo título <em>The wealth of networks</em> (A riqueza das redes) parafraseia o clássico <em>The wealth of nations</em> (A riqueza das nações, de Adam Smith, o papa do livre mercado), considera que a comunicação em rede desafia o clássico modelo industrial da modernidade por estar centrada num modelo de cooperação e compartilhamento de informação e conhecimento. Portanto, desafia o entendimento clássico de indústria cultural conforme estabelecido pelos teóricos da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno e Max Horkheimer. Se há cooperação e compartilhamento então se mitigaria a questão da assimetria e esse modelo, se Benkler estiver certo, colocaria além das corporações e das empresas de mídia a decisão até então unilateral sobre tudo que envolver problemas morais na publicação de fatos, informações, notícias. Para ele, as companhias de comunicação não estão mais sozinhas à frente da publicação de notícia, opinião ou da administração do entretenimento; qualquer um pode estar.</p>
<p>Otimista, Benkler abre o livro, publicado em 2006, discorrendo sobre a oportunidade histórica que a humanidade tem nos próximos anos no sentido de transformar para melhor a vida no planeta. No livro Conectado, em bom português, Juliano Spyer resume muito bem os pressupostos de Benkler:</p>
<p>“1. A maneira como cultura e conhecimento são produzidos e trocados afeta a maneira pela qual a sociedade enxerga o mundo como ele é e como ele pode ser; afeta quem decide sobre estas questões em determinado momento; e afeta como a sociedade e o governo percebem o que pode ser feito a esse respeito;</p>
<p>“2. por 150 anos, as democracias complexas modernas dependeram da indústria para produzir e fazer circular informação e conhecimento. Mas nos últimos 15 anos, mudanças tecnológicas aumentaram a participação da produção não-proprietária e não-comercial, permitindo que indivíduos assumam papéis mais ativos do que era possível no modelo industrial.  A nova condição do indivíduo pode ser uma plataforma para cultivar uma cultura mais crítica e auto-reflexiva, aprofundar a participação democrática e trazer melhoras no desenvolvimento humano em nível mundial. Mas isso dependerá da superação de um desafio;</p>
<p>“3. o crescimento da força de produção e de circulação da informação e da cultura, pelo indivíduo e de maneira colaborativa, fora da economia de mercado, ameaça aqueles que se beneficiam com a economia informacional de caráter industrial. Nos próximos dez anos [até 2016] será decidido qual dos dois modelos prevalecerá, tendo uma implicação em como ficaremos sabendo do que acontece no mundo e de qual maneira poderemos influenciar como vemos o mundo hoje e como ele pode ser no futuro.”</p>
<p>Para Benkler, ainda com a ajuda de Spyer, informação, cultura e conhecimento continuam percebidos pela sociedade como produtos nãorivais. A competitividade teria fortalecido a sociedade ao promover o desenvolvimento de uma economia centrada na produção de informação e cultura e na manipulação de símbolos. Teria erigido um ambiente de comunicação constituído a partir de chips baratos com grande capacidade de processamento. Esse barateamento tornou a comunicação uma tecnologia cada vez mais acessível. As mudanças teriam criado então a “economia informacional em rede”, cuja ponta está na Internet e em qualquer tecnologia que coloque pessoas em interação.</p>
<p>As mudanças no comportamento dos consumidores por conta das facilidades tecnológicas compõem a visão de que se chegou finalmente a um mundo convergente e interativo. Há a proliferação do conteúdo e ela é assimétrica. A audiência se fragmentou. A programação da televisão, da internet, também se fragmentou. O público tem acesso a múltiplas plataformas. A publicidade se move para alvos cada vez mais definidos. As fronteiras clássicas da cadeia de comunicação são continuamente desafiadas e até os “valores” de mercado na indústria da comunicação se eslocaram. A captura e a própria manutenção do controle da informação tornou-se  crítica para essa indústria. Para o indivíduo que virou protagonista de um vídeo de sucesso instantâneo e mundial baseado na captura de imagens de uma celebridade, é relativo se aquilo foi capturado e publicado de forma legal ou ilegal – a rede desmantelou a forma clássica de se entender o que é legalidade.</p>
<p>As individualidades próprias, institucionais, empresariais, fazem parte da rede mundial de informações. A preocupação ética, deontológica, se existe formalmente e normativamente nas instruções da mídia tradicional, inexiste em inúmeras de suas práticas. Dependendo da situação, pode existir ou não. As empresas de mídia manejam com hipocrisia o uso das palavras normas, ética e moral. A própria preocupação moral se relativiza mais facilmente neste novo sistema – seja pela falta de experiência dos seus novos atores (indivíduos sem formação técnica em<br />
comunicação), seja pelo derretimento de valores sólidos ou ainda pela própria mimetização da relativização operada pela mídia tradicional. Os códigos morais são provisórios, são temporários, valem de formas distintas e a depender de cada situação.</p>
<p>Além disso, as novas mídias somam idealmente preocupações éticas (normativas) às que já existiam em relação à própria mídia e trazem novos problemas por conta da sua extensão, simultaneidade e possibilidade de unir numa mesma plataforma de comunicação as linguagens da comunicação (texto + imagem + voz, além do movimento) e acrescentar a interatividade, seu maior diferencial. A nova realidade introduziu uma complexidade ética à qual o mercado e as instituições ainda não deram conta.</p>
<p><strong>Caio Túlio Costa</strong> <em>é jornalista, professor de Ética Jornalística na Faculdade Cásper Líbero de São Paulo, doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e foi o primeiro Ombudsman da imprensa brasileira.</em></p>
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		<title>Sobre o diploma de jornalismo</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Jun 2009 14:10:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Caio Túlio Costa
Quero registrar considerações a respeito da decisão do Supremo Tribunal Federal (em 17/06/2009) de derrubar a exigência de diploma de jornalista para o exercício da profissão.
1. O estudo universitário, a formação acadêmica, é fundamental para qualquer um exercer a profissão de jornalista.
2. Para ser bom jornalista ninguém precisa de diploma específico fornecido pela escola de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Caio Túlio Costa<br />
</strong>Quero registrar considerações a respeito da decisão do Supremo Tribunal Federal (em 17/06/2009) de derrubar a exigência de diploma de jornalista para o exercício da profissão.<br />
1. O estudo universitário, a formação acadêmica, é fundamental para qualquer um exercer a profissão de jornalista.<br />
2. Para ser bom jornalista ninguém precisa de diploma específico fornecido pela escola de jornalismo. Por conta da maneira precária como se estruturou a maioria crescente e galopante dos cursos de jornalismo no Brasil, eles não conseguem dar conta das quatro habilidades imprescindíveis para o ofício, além da vocação:<br />
  a. sólida formação humanística,<br />
  b. sólida formação em filosofia moral,<br />
  c. distanciamento crítico e<br />
  d. domínio da técnica.<br />
3. A formação nas escolas de jornalismo, em geral, é tão insuficiente que muitas empresas de comunicação criaram cursos de treinamento para trazer os recém-formados às necessidades da profissão. Em São Paulo, por exemplo, Abril, <em>Estadão</em> e <em>Folha</em> mantêm programas de treinamento.<br />
4. É importante dizer que existem boas escolas. Eu me formei numa delas, ECA-USP (mas fui cursar filosofia porque senti falta de uma formação mais específica). Dei aula em outra muito boa, a PUC-SP. Dou aula em outra escola também excelente, a Cásper Líbero. Há exceções. Condeno aquelas escolas que formam jornalistas a rodo, todos os que chegam ao mercado incapacitados não só de escrever, mas de ler.<br />
5. A não obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão pode ser benéfica. As escolas terão que rever seus cursos para formar melhor os profissionais, fazê-los disputados pelo mercado de comunicação. (Este, a propósito, enfrenta uma profunda mudança, uma revolução no que toca às conquistas da tecnologia e da multidirecionalidade da comunicação, da inclusão de novos atores com poder de mídia, da revisão de modelos de negócio em decadência e do aparecimento de novos modelos – como o da própria internet, o da comunicação sem fio e o que mais vier no rastro das transformações que exigem cada vez mais profissionais bem formados, críticos, eticamente capacitados e com perfeito domínio das ferramentas de trabalho.)<br />
6. Se alguém tem vocação para o jornalismo, poderá exercer a profissão com competência se vier bem formado em qualquer área do saber – seja mais genérica seja mais específica. Um egresso de letras terá melhor domínio da linguagem que um formado em jornalismo; quem vem da economia terá melhor domínio da questão econômica que um formado em jornalismo; um engenheiro de produção terá mais condições de tratar da logística de uma edição, dos fatos que requerem conhecimento de matemática e de processos do que um formado em jornalismo; um advogado seguramente não confundirá mandado com mandato e não escreverá que juiz dá “parecer”&#8230;<br />
7. Para os que defendem a necessidade de formação específica em jornalismo (edição, ética, tratamento dos fatos, técnica jornalística&#8230;), há a possibilidade cada vez mais próxima de que se possa adotar no Brasil uma espécie de curso de educação seqüencial no qual o egresso de qualquer curso universitário possa se especializar em jornalismo. Sem falar nos já existentes cursos de pós-graduação, tanto lato senso quanto stricto senso. As escolas podem desde já planejar cursos de jornalismo no nível da pós-graduação. Estes cursos deverão estar baseados no estudo da filosofia moral e das técnicas da profissão.<br />
8. As técnicas da profissão também podem ser aprendidas nos cursos específicos providos por empresas de comunicação. Ou então aprendidas na prática – como sempre foi e era antes de o governo militar tornar obrigatório o diploma para o exercício da profissão e, com isso, ter incentivado a proliferação de inúmeras escolas de jornalismo que acabaram se enrolando num insuficiente bê-á-bá de introduções, na má formação de profissionais e na criação da uma vergonhosa indústria de diploma de jornalismo.<br />
9. Quanto às boas escolas de jornalismo, não há o que temer. Elas se fortalecerão.<br />
10. Em tempo: a obrigatoriedade do diploma é contestada desde o início dos anos 80. A <em>Folha de S. Paulo</em>, de certa forma, liderou este movimento. Vários de seus profissionais defenderam em público a não exigência do diploma. Há um artigo importante de Boris Casoy, então editor responsável da <em>Folha</em>, publicado em <em>Veja</em>. Eu era secretário de redação da <em>Folha</em>, escrevi artigo contra a obrigatoriedade publicado no próprio jornal e defendi a idéia em encontros com jornalistas em várias cidades do país.</p>
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		<title>Maquiavel e a mulher mais feia do mundo</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Jun 2009 21:23:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Publicado na revista Piauí, número 33, de junho de 2009, págs. 42 a 44.
Anais da história florentina
A carta na qual o autor de O Príncipe conta como, &#8220;cego pela carência conjugal&#8221; foi &#8220;aos finalmente&#8221; com uma dama cuja &#8220;boca parecia a de Lorenzo de Médici, mas era torta para um lado, e desse lado escorria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1822" class="wp-caption alignleft" style="width: 302px"><a href="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/06/grotesquewoman.jpg"><img class="size-full wp-image-1822" src="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/06/grotesquewoman.jpg" alt="Grotesque Old Woman - Quintin Massis" width="292" height="381" /></a><p class="wp-caption-text">Grotesque Old Woman - Quintin Massis</p></div>
<p><em>Publicado na revista Piauí, número 33, de junho de 2009, págs. 42 a 44.</em></p>
<p>Anais da história florentina</p>
<p>A carta na qual o autor de <em>O Príncipe</em> conta como, &#8220;cego pela carência conjugal&#8221; foi &#8220;aos finalmente&#8221; com uma dama cuja &#8220;boca parecia a de Lorenzo de Médici, mas era torta para um lado, e desse lado escorria uma baba porque, não tendo nenhum dente, ela não podia conter a saliva&#8221;</p>
<p><strong>Caio Túlio Costa</strong></p>
<p>Nicolau Maquiavel era um devasso. Como o adjetivo que leva seu nome, <em>maquiavélico</em>, é sinônimo de duplicidade e má-fé, devasso não é uma novidade para defini-lo, mas soa como tal. Ao referendar o desequilíbrio entre moral e política na esfera pública, a amoralidade de Maquiavel não só inaugura a modernidade &#8212; ela é o coração da sua esfera íntima, de sua vida amorosa.</p>
<p>Viajante constante, por obra do trabalho diplomático, de dia Maquiavel negociava com príncipes e nobres e cortesãos. À noite, freqüentava botequins e rufiões, bordéis e cortesãs. Bebia, jogava, apostava e se entregava ao que ele definiu como &#8220;Amor&#8221;, com letra maiúscula. Quando não dava para se divertir, se queixava. Em carta na qual descreve o isolamento longe da sua Florença, reclama de que &#8220;não havia dormido nem brincado&#8221;.</p>
<p>Numa dessas viagens, dormiu e brincou com uma dama a quem chamou de &#8220;borrão de visão&#8221;, de &#8220;tão feia&#8221;. A um amigo, numa carta, deu detalhes da peça que lhe foi pregada pela Fortuna. A aventura é tão rocambolesca e minuciosamente relatada que persistem dúvidas sobre se os fatos se passaram do jeito que ele conta. Suspeita-se que Maquiavel &#8212; ou Machia, como o chamavam os amigos &#8212; tenha exagerado. Mas se sabe que a carta é real, autêntica e pouquíssimo divulgada. Continua lá, nos arquivos, como um grotesco entrevero carnal na vida de um cronista dado às firulas sutis da alta política.</p>
<p>Quando datou assombrosa missiva pornô ao amigo Luigi Guicciardini, em 8 de dezembro de 1509, Maquiavel estava casado com Marietta de Luigi Corsini havia oito anos. Sabe-se mais de sua vida extraconjugal do que de seu casamento, apesar de Marietta tê-lo suportado até o fim da vida e lhe ter dado quatro filhos e duas filhas. Na única carta conhecida que Marietta lhe enviou, termina pedindo-lhe que &#8220;se lembre de voltar para casa&#8221;.</p>
<p>O próprio Maquiavel admitiu que era mais fácil encontrá-lo fora de casa. &#8220;Quando estou em Florença fico entre a bodega de Donato del Corno e La Riccia, um me chama de o chato da bodega e a outra de o chato da casa&#8221;, escreveu a um amigo. Del Corno era um homossexual, dono de dois bares. La Riccia – ah! La Riccia! – era uma dama de alto coturno cuja casa Maquiavel freqüentava com assiduidade. Cortesã, ela atendia os bem de vida – seria o que hoje se chama de &#8220;garota de programa&#8221;. La Riccia aparece ao menos em seis das cartas do filósofo. Maquiavel chegou a ser processado pelas autoridades florentinas por sodomizar La Riccia. Por conta de sua influência, livrou-se da acusação.</p>
<p>&#8220;Além de ter um gosto por prostitutas de todos os tipos, Maquiavel parece ter mantido uma amante em cada cidade para a qual viajou&#8221;, escreveu o seu mais recente biógrafo, Michael White. Ele foi um amante apaixonado, caprichoso e volúvel, a despeito de ter sido, enquanto teórico e prático da política, extremamente racional.</p>
<p>Sua primeira amante chamava-se Jeanne e vivia na corte do Rei Luis XII, da França. Ele a apelidou carinhosamente de Janna. O caso teria começado antes de ele conhecer Marietta, mas existem referências a ela nove anos depois de casado. Numa carta a Francesco Vettori, em 1514, ao falar de outra amante, Maquiavel demonstra que não economizava afetos: &#8220;Conheci uma criatura tão graciosa, tão refinada, tão nobre, tanto na sua natureza quanto na sua circunstância, que meu amor e prazer por ela nunca serão tão grandes quanto ela merece&#8221;.</p>
<p>Sua mais querida e mais durável amante foi uma cantora (e também cortesã) famosa, Barbera Raffacani Salutati. Em sua atenção, escreveu diligentemente a um amigo romano: &#8220;Barbera está em Roma; se você puder lhe prestar algum serviço, eu recomendo, porque ela me preocupa mais do que o imperador&#8221;. Gostava tanto de Barbera que escreveu duas peças de teatro especialmente para ela, <em>A Mandrágora</em> e <em>Clizia</em>. Barbera era uma celebridade. E como cantava nos intervalos entre os atos, acabou dando certa notoriedade a Maquiavel – cuja fama póstuma é oceanicamente superior à que teve em vida.</p>
<p>Nas peças, Maquiavel retrata casamentos disfuncionais, esvaziados de amor. São comédias sobre traições. Na <em>Mandrágora</em>, Callimaco, um jovem de Florença, planeja dormir com Lucrécia, a mulher mais bonita daqueles tempos. Manipula o marido de Lucrécia para deixá-los a sós por ao menos uma noite. Na outra peça, Nicômaco cai de amores por sua filha adotiva, a Clizia que dá nome à peça, filha do primeiro marido de sua mulher, Sofronia – louca e irracional, no dizer do marido.</p>
<p>Maquiavel não tinha ilusões quanto à fauna humana. No prólogo de Clizia, ele diz: &#8220;Todos, e principalmente os jovens, se deleitam com a cupidez dos velhos, com a loucura dos amantes, com as mentiras de um criado, com a ganância dos parasitas, com a miséria dos pobres, a ambição dos ricos, os artifícios da prostituta – e com a reduzida confiança que se pode depositar nos outros&#8221;.</p>
<p>Como a moral do filósofo era &#8220;utilitária&#8221;, na definição do historiador inglês John Rigby Hale, autor de Maquiavel e a Itália do Renascimento, ele &#8220;perdoava&#8221; os pecados da carne. &#8220;A fidelidade sexual não era considerada por Maquiavel, nem pelos seus amigos mais próximos, como parte necessária do casamento&#8221;, escreveu Hale.</p>
<p>Quando um dos melhores amigos de Maquiavel, Vettori, pediu conselhos a respeito de um caso amoroso, Maquiavel foi explícito:</p>
<p><em>Lembrando o que as setas do Amor me causaram, sou obrigado a lhe dizer o quanto tenho lidado com ele próprio. De fato, eu o deixo fazer o que ele gosta e o tenho perseguido por colinas e vales, florestas e planícies; descobri que ele me concedeu mais encantos do que eu poderia atormentá-lo para ter. Portanto, tire o arreio, remova o cabresto, feche os olhos e diga: ‘Vá em frente, Amor, seja meu guia, meu líder, se as coisas acabarem bem, o prazer te pertencerá, se acabarem mal, a culpa é tua, eu sou seu escravo’. </em></p>
<p>Vários dos biógrafos se perguntam se o &#8220;Amor&#8221; enaltecido por Maquiavel tinha mais a ver com a luxúria do que com o amor propriamente dito. Ou, pelo menos, do que se entende hoje por amor nas sociedades ocidentais. Afinal, o sexo casual não era incomum na Florença e na Roma renascentistas. O mesmo Vettori, casado, foi eloquente, numa carta em 1515: &#8220;nada me delicia mais do que pensar em foder&#8221;.</p>
<p>O renascimento, igualmente, deu fama à família Bórgia, na qual reinava a esbórnia. E Maquiavel, sardônico, teve presença de espírito para captá-la em toda a sua intensidade – política. Funcionário público, contemporâneo da desregrada família, escreveu muito sobre ela. E os Bórgia acabaram encarnando na história do mundo o adjetivo maquiavélico, num tempo em que artimanhas políticas e corrupção sexual caracterizavam os papados.</p>
<p>A dama mais famosa da época era Lucrecia Bórgia. Nascida em 1480, quando Maquiavel tinha 11 anos, era filha ilegítima do Papa Alexandre VI, nascido Rodrigo Bórgia, irmão de César Bórgia, a principal inspiração de O Príncipe. Mesmo para os hábitos liberais de seus contemporâneos, Lucrecia era considerada dissoluta. Aos 13 anos, suas formas atraíam a atenção de todos os homens. A crônica a retrata de cabelos &#8220;cor de ouro&#8221; e os olhos &#8220;de um azul cintilante&#8221;. Foi considerada a mulher mais bela de Roma. Só podia ser ela a personagem central de <em>Mandrágora</em>.</p>
<p>Na primavera de 1509, Maquiavel recebeu uma missão de courrier e de agente de informação. Estava em Florença quando o mandaram pegar dois cavalos e partir no trote para Mântua, na Lombardia, a fim de entregar ao imperador Maximiliano a segunda parcela dos 40 mil florins que os florentinos lhe haviam prometido durante a conquista da cidade de Pisa. Chegou, pagou a áurea soma e circunstâncias fortuitas o levaram um pouco acima, a Verona, de onde teria que enviar informes sobre a guerra – mas não havia guerra.</p>
<p>Sem ter o que fazer, escreveu, copiosamente, conselhos às autoridades florentinas e cartas aos amigos. Em meio ao tédio, esboçou um negócio com economias feitas durante a viagem: montar uma granja. Pediu ao amigo Luigi Guicciardini para propor a um tal de Piero di Martino que tomasse conta das futuras galinhas. Apesar da modorra, estava de bom humor. Havia recebido uma carta na qual Luigi lhe revelava uma aventura amorosa e confessava um &#8220;imenso desejo&#8221; de rever uma &#8220;bela senhora&#8221;.</p>
<p>Em resposta, Maquiavel lhe descreveu a passagem inconfessável em Verona. Como estava em &#8220;carência conjugal&#8221;, acabou aceitando o convite de uma &#8220;velha tratante&#8221; que lhe lavava a roupa. A &#8220;velha tratante&#8221; tanto fez que o convenceu a ver uma &#8220;certa camisa&#8221; que queria que ele provasse.</p>
<p>O relato é tão escalafobético que, repito, alguns maquiavelistas levantam dúvida sobre sua veracidade. Roberto Ridolfi, autor da mais famosa biografia do florentino, afirma que ele é &#8220;provavelmente verdadeiro&#8221;. E racionaliza: &#8220;A descrição dos detalhes é forçada demais para ser verossímil, demasiado realista para ser real&#8221;.</p>
<p>Apesar disso, Ridolfi não transcreveu a carta em seu livro. Só a última biografia, aliás, de Michael White (2007), traz um bom pedaço da carta. Outros biógrafos comentam a existência do relato.</p>
<p>Os detalhes do acontecido falam por si. Se você é uma pessoa sensível, não prossiga. Eis então a carta de Maquiavel para Luigi Guicciardini em resposta àquela na qual o amigo confessa desejar reencontrar uma bela senhora:</p>
<p><em>Admira-te, Luigi, e veja quanto a fortuna dá ao homem diversos fins para um único motivo. Você a fodeu, teve a vontade de refodê-la e ainda tentou de novo. Mas eu fiquei aqui vários dias, cego pela carência conjugal, quando encontrei uma velha que me lavava as camisas, que mora em uma casa meio subterrânea onde não se vê a luz senão pela porta: e eu estava passando um dia por lá, ela me reconheceu e me fez uma grande festa, me pediu que lhe desse o prazer de ir à sua casa, com a desculpa de me mostrar umas camisas bonitas como se eu as quisesse.</em></p>
<p><em>Uma vez lá dentro, distingui na escuridão uma mulher agachada num canto, exalando modéstia com uma toalha cobrindo a cabeça e o rosto. Aquela velha tratante me tomou pela mão, me mostrou a mulher e me disse</em></p>
<p><em>– Essa é a camisa que eu quero vender, mas queria que você a provasse antes e depois você a paga. Eu, cauteloso que sou, senti-me bastante amedrontado; porém, ficando a sós com a tal e no escuro (já que a velha saiu logo da casa, fechando a porta), para encurtar a história, sozinho com ela naquele breu, eu a fodi de um só golpe. Embora sentisse as suas coxas um pouco moles e a sua xoxota desanimada – e o seu hálito era um pouco fedido –, ainda assim, excitado como estava, fui aos finalmente com ela.</em></p>
<p><em>Tendo terminado, e com vontade de dar uma olhada na mercadoria, peguei um pedaço de madeira da lareira do quarto e o acendi, mas quase deixei cair das minhas mãos antes que se apagasse. Urgh! Quase caí morto com aquele borrão da visão, aquela mulher tão feia. A primeira coisa que notei nela foi um tufo de cabelo metade branco, metade preto – em outras palavras, esbranquiçado. Embora o topo de sua cabeça fosse careca (graças à calvície, era possível perscrutar alguns piolhos passeando por ali), alguns poucos e finos fios de cabelo desciam até a fronte. No meio de sua cabeça pequena e enrugada, ela tinha uma cicatriz de queimadura que fazia parecer como se ela tivesse recebido uma marca no mercado; na ponta de cada sobrancelha, em direção aos olhos, havia um aglomerado de lêndeas; um olho olhava para cima, o outro para baixo – e um era maior; seus dutos de lágrimas estavam cheios de remela e ela não tinha cílios. Tinha um nariz arrebitado incrustado baixo demais no rosto e uma das narinas estava cortada e cheia de ranho. Sua boca parecia a de Lorenzo de Médici, mas era torta para um lado, e desse lado escorria uma baba porque, não tendo nenhum dente, ela não podia conter a saliva. Seu lábio superior servia de apoio para um longo e ralo bigode. Ela tinha um queixo longo e pontiagudo um pouco virado para cima; uma papada levemente peluda balançava até seu pomo-de-adão.</em></p>
<p><em>Enquanto fiquei ali absolutamente desconcertado e estupefato olhando aquele monstro, ela tomou consciência disso e tentou perguntar &#8220;Qual é o problema, senhor?&#8221;, mas não conseguiu porque gaguejou. Assim que abriu a boca, ela expeliu um tal fedor em seu hálito que meus olhos e meu nariz – portais vizinhos para o mais delicado dos sentidos – se sentiram assaltados por ele e meu estômago ficou tão indignado que foi incapaz de tolerar esse ultraje; começou a se rebelar, e então se rebelou – de modo que vomitei em cima dela. Tendo-a ressarcido em espécie, parti. E juro por todos os céus que, enquanto estiver na Lombardia, podem me condenar ao inferno se pensar em voltar a ficar excitado; e se você agradecer a Deus por eu ter encontrado tanta diversão eu O agradeço por perder o medo de não ter mais tanto desprazer.</em></p>
<p><em>Creio que levarei desta viagem algum dinheiro e verei quando chegar a Florença se começo algum negócio. Pretendo montar um galinheiro, preciso encontrar alguém que o administre: acredito que Piero di Martino seja suficiente, fale com ele se quer ser o chefe e responda-me, porque se ele não o quiser eu vou procurar outro.</em></p>
<p><em>Das novidades daqui Giovanni as relatará. Lembranças e recomendações a Jacopo, e não se esqueça de Marco.</em></p>
<p><em>Em Verona, 8 de dezembro de 1509.</em></p>
<p><em>Espero a resposta de Gualtieri sobre minha história comprida e inverossímil.</em></p>
<p>***</p>
<p>A tradução da carta para o português vem de várias fontes. Usei o trecho que aparece no livro de Michael White (Maquiavel, um homem incompreendido), outro de Maurizio Viroli (O sorriso de Nicolau: história de Maquiavel) e, para o restante da carta e outras expressões dos originais de Maquiavel, tive a ajuda de Lulla Gancia.</p>
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		<title>Jornalismo como representação da representação</title>
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		<pubDate>Wed, 20 May 2009 19:57:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Intitulado &#8220;Jornalismo como representação da representação: implicações éticas no campo da produção de informação&#8221;, foi publicado na revista acadêmica Líbero (São Paulo – v. 12, n. 23, p. 29-41, junho de 2009), do programa de pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero. Este texto reproduz parte do primeiro capítulo da tese de doutorado “Moral provisória – ética [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Intitulado &#8220;Jornalismo como representação da representação: implicações éticas no campo da produção de informação&#8221;, foi publicado na revista acadêmica <a href="http://www.facasper.com.br/pos/libero/libero_n23.php" target="_blank"><em>Líbero</em> (São Paulo – v. 12, n. 23, p. 29-41, junho de 2009)</a>, do programa de pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero. Este texto reproduz parte do primeiro capítulo da tese de doutorado “Moral provisória – ética e jornalismo: da gênese à nova mídia”, defendida em junho de 2008 na ECA-USP. A tese foi publicada em livro pela Zahar (<em>Ética, jornalismo e nova mídia &#8211; uma moral provisória</em>) em 2009. Para baixar versão em PDF clique aqui:  <a href="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/05/libero_representacao_final.pdf">libero_representacao_final</a>.</p>
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		<title>Sobre o medo em SP: ainda o espetáculo</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Apr 2009 19:49:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Publicado na Revista USP de número 80 (de dezembro, janeiro e fevereiro de 2008-09), quando ela comemora seus 20 anos, este texto de Caio Túlio Costa é uma adaptação do sexto capítulo da tese de doutorado defendida em 2008 na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). A mesma adaptação se refere [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/04/medoum.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1675" src="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/04/medoum.jpg" alt="" width="72" height="101" /></a>Publicado na <em>Revista USP</em> de número 80 (de dezembro, janeiro e fevereiro de 2008-09), quando ela comemora seus 20 anos, este texto de Caio Túlio Costa é uma adaptação do sexto capítulo da tese de doutorado defendida em 2008 na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). A mesma adaptação se refere ao capítulo sétimo do livro <em>Ética, jornalismo e nova mídia &#8211; uma moral provisória</em> (Zahar, 2009) que é a tese transformada em livro. O texto começa na págs. 98 da revista e vai até a pág. 110. Para ler o arquivo em PDF, <a href="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/04/medo-em-sp-rev-usp-803.pdf" target="_blank">clique aqui.</a></p>
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