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	<title>Caio Túlio Costa &#187; Política</title>
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		<title>Todo sábado, revoada de branco na Praça Vermelha</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Feb 2009 19:36:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_475" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-475" title="digitalizar0001" src="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/02/digitalizar0001-300x199.jpg" alt="O casal de noivos chega à Praça Vermelha, em Moucou, em outubro de 1984, para depositar flores no mausoléu de Lênin; ao fundo, a imensa fila para ver o corpo mumificado do líder.&lt;br /&gt;Foto de Caio Túlio Costa" width="300" height="199" /><p class="wp-caption-text">O casal de noivos chega à Praça Vermelha, em Moucou, em outubro de 1984, para depositar flores no mausoléu de Lênin; ao fundo, a imensa fila para ver o corpo mumificado do líder. Foto de Caio Túlio Costa</p></div>
<p>Em Moscou também se casa aos sábados. As noivas envergam os longos vestidos brancos e os casais vão a uma repartição pública oficiar o enlace. Os mais religiosos podem ir à igreja. Depois da cerimônia, o inusitado. Os noivos e os padrinhos tomam um daqueles velhos carros pretos todo enfeitado com flores e tiras de papel e se dirigem até a Praça Vermelha. Ali iniciam um ritual que começa com a colocação de flores junto ao Túmulo do Soldado Desconhecido e termina com nova deposição de flores numa solene visita ao Mausoléu Lênin onde está exposta à visitação pública a múmia do maior ídolo soviético, Vladimir Ilich Ulianov, o Lênin, fundador do Estado soviético, mítico e cultuado herói da revolução russa.</p>
<p>Fui ao mausoléu num sábado. Desde às 10 da manhã, faça sol, chuva ou neve, de terça a domingo, milhares de soviéticos e alguns turistas se concentram em uma caudalosa fila para ver Lênin dentro de uma urna de vidro. Há um local exato para os estrangeiros furarem a fila e gastarem apenas 20 minutos contra os 45-90 que os soviéticos esperam ordenadamente. Eu, convi­dado, pude entrar quase imediata­mente. Quando olhei para trás vi um casal de noivos acompanhado dos padrinhos chegando à porta do mau­soléu. Imediatamente o guarda parou a fila e fez os noivos subirem as escadas. Na entrada eles deixaram as flores e depois seguiram junto dos outros contornando silenciosamente a urna onde se pode ver, fortemente iluminado, o corpo de Lênin, deitado, de terno e sapatos, a cabeça e as mãos visíveis.</p>
<p>Confesso que desconfiei tratar-se de um boneco de cera, mas guias estrangeiros e um jornalista norte­-americano –- além das autoridades soviéticas – garantem ser aquele o corpo do velho líder conservado através de um sofisticado processo de embalsamamento.</p>
<p>Ao sair dali fui buscar a máquina fotográfica (é proibido fotos dentro do mausoléu) pois em 25 minutos havia contado 53 casais desembar­cando para o ritual. Informaram-me depois que a média é de 200 casais para cada sábado. No dia mais feliz de sua vida eles vêm lembrar as pessoas que possibilitaram essa feli­cidade”, explica candidamente meu guia soviético. O fenômeno é real­mente espontâneo e se repete nas cidades soviéticas junto a monumen­tos históricos. É certo, nem todos os casais se entregam a esta contem­plação ideológica. Mas ela já está disseminada a ponto de ter se transformado num costume mecânico e o episódio das noivas do Krernlin, estranho aos olhos ociden­tais, vem dar conta do profundo enraizamento da revolução soviética.</p>
<p><strong>Primeira imagem</strong></p>
<p>Passei exatos quatorze dias na URSS. Minhas impressões são super­ficiais e não passam de meras observações apressadas de um via­jante curioso. A constatação, embora banal, é única: os soviéticos cons­truíram um grande país, mas o moral da população é baixo. De um povo reconhecidamente apaixonado e hos­pitaleiro, paradoxalmente, o que se vê nas ruas são expressões sérias, compenetradas, disciplinadas e semi­-angustiadas. Dos transeuntes apressados de Moscou aos mais relaxados em Tallin, capital da Estônia. E a atmosfera geral, para os que chegam do Ocidente, é a de um verdadeiro mergulho nos anos cinqüenta em termos de vida, modos e costumes.</p>
<p>Meu vôo, o 720 da Air France, aterrizou pontualmente numa terça-­feira de outubro no aeroporto inter­nacional de Sheremetevo em Moscou. Estava iniciando a viagem por qua­tro países da URSS. O próprio embaixador viera à Folha convidar um jornalista para uma estada turís­tica em seu país. O convite era da Intourist, a organização estatal res­ponsável pelo turismo soviético. Este dossiê traz apenas algumas anota­ções de quem vai pela primeira vez à URSS, pequenos detalhes e observações que não cabem nas reportagens que sairão a partir desta semana no suplemento de Turismo.</p>
<p>Mas, eu estava desembarcando na mitológica Moscou sem saber de nada do que haviam preparado para mim. Nos contatos anteriores com o pessoal da representação comercial no Rio eu soubera apenas que ida conhecer Moscou, Leningrado, Tal­lin, Riga, e Vilnius, estas três capitais das repúblicas chamadas pré-bálticas pelos russos (Estônia, Letônia e Lituânia) porque estão próximas do mar Báltico na parte noroeste da União Soviética formada por 15 repúblicas, a Rússia entre elas.</p>
<p>Ao sair do avião, a primeira imagem: guardas do Exército for­mam uma espécie de corredor, um a cada quatro metros, enquanto os passageiros se encaminham para o rígido controle dos passaportes. Nu­ma pequena cabine, três jovens soldados, dentro de uma vistosa farda verde-oliva, examinam deti­damente o passaporte e o visto de entrada, um documento separado. Na URSS não carimbam o passaporte. No meu inexiste vestígio da passa­gem por lá. Olham seus documentos, encaram seu rosto, observam de lado. Abaixam os olhos e conferem a foto. Comigo, embatucaram. No visto vinha escrito “imprensa”. Na parte reservada ao motivo da viagem estava grafado turismo. “Como o senhor vem fazer turismo e não tem ‘voucher&#8217; do hotel?” Explico que era convidado da Intourist quando ouço uma moça chamar-me pelo nome. Logo em seguida aparece um jovem de calça jeans e tênis falando português de Portugal. Informa que será meu guia. Ele mesmo dá as explica­ções, agora ao oficial chamado para resolver minha situação. Começa então o controle das bagagens. A maleta de mão é rápida e cuidado­samente revirada. Toda a bagagem é radiografada e fotografada dentro de um enorme aparelho marca Phillips. Ali se confere também uma preciosa declaração assinada por todos os estrangeiros indicando que não trazem armas, narcóticos e declarando quanto trazem de dinheiro e quais jóias portam. Eles estão preocupados com o contrabando de drogas e de jóias antigas, russas, riquíssimas e valorizadas no Ocidente.</p>
<p>Saímos finalmente. Um automóvel, negro, marca Volga, de quatro portas, nos espera. Precisamos acordar o motorista que dorme no banco dianteiro, barba por fazer, mãos sujas. Ele me abre um sorriso e vejo o primeiro dente de ouro de uma série infinita que verei depois. Tomamos uma auto-estrada de quatro pistas até Moscou. São 28 km feitos em quarenta minutos na marcha lerda do Volga. Fico sabendo que o guia, Serguei Lobanov, 24 anos, me acompanhará durante toda a viagem pela URSS. Estudou português na Universidade onde se formou em Geografia. Desenvolveu o vocabulário em Angola durante sete meses quando trabalhou num escritório soviético. Conhece Portugal e a França. Sua tese é sobre economia africana. É militante do Konsomol, a organização comunista dos jovens. Me informa que na manhã seguinte temos encontro com diretores da Intourist e à noite partimos num comboio, o Flexa Vermelha, rumo a Leningrado. É só.</p>
<p><strong>Suntuosa Moscou</strong></p>
<p>O Volga preto vai entrando na cidade. Estamos ainda na periferia e, dos dois lados, prédios e mais prédios de apartamentos, todos idênticos, quatro andares, construídos na década de quarenta. Adiante vejo edifícios mais novos de sete andares, anos setenta. Apesar de ser uma terça-feira o trânsito lembra o de um dia de feriado em São Paulo. Poucos carros circulando. Nenhuma buzina, nada de engarrafamentos. Muitos tróleibus e caminhões, a maioria verde, do Exército. A temperatura, 11 graus, é agradável e as crianças brincam nos parques. Um terço da cidade de Moscou é coberto de verde. Nas calçadas, mulheres caminham apressadas com sacolas, os homens com pastas de couro, modelo 007. As cores do outono estão fortes. Folhas amareladas formam um imenso tapete nos jardins e alamedas. À medida que o carro se aproxima do centro, a cidade se deixa ver, suntuosa, na sua arquitetura pré-revolucionária. Não há como conter a emoção ao chegar na praça que hoje se chama dos Cinqüenta Anos da Revolução e olhar a silhueta imponente do Kremlin, velha fortaleza czarista, transformada no centro do poder soviético. Tanto em Moscou como em Leningrado – considerada com justiça uma das mais belas cidades do mundo – a velha arquitetura desmonta a guarda de qualquer ocidental preconceituoso.</p>
<p>Fico no Hotel Nacional, um prédio velho, construído no século passado. Na recepção recolhem e guardam meu passaporte. Minha rotina seria a mesma durante quatorze dias. Café da manhã às 9h30. Passeios pelas cidades, museus, encontros com autoridades. Almoço às 13 horas. Tarde de passeios a museus ou pequenas cidades. Duas horas no hotel para descanso e anotações. Balé, circo ou cinema às 19 horas. Jantar às 21h30 ou 22 horas. Sempre com o guia do lado, tomando café, almoçando, jantando, viajando de trem. Uma conversa franca, inteligente, porém ideológica. Em cada cidade que chegávamos havia sempre o carro oficial esperando e mais um guia local. Apesar da rotina, eu pude dar tranquilamente várias escapadas para andar pelas ruas de manhãzinha antes do café ou à noite, depois do jantar.</p>
<h3>SEGUNDA PARTE</h3>
<p><strong>A cara e difícil busca de status, isto é, de jeans e tênis</strong></p>
<p>Do que pude ver e sentir fica uma constatação: a enorme burocracia soviética – todos os cidadãos são funcionários do governo centralizado e autoritário – criou um monstro poderoso que se arrasta e vive contradições gritantes aos olhos de um ocidental. É impossível de se entender como uma nação que coloca uma sofisticadíssima nave Soyus no espaço não consegue, por exemplo, fabricar um isqueiro que funcione direito. Todos os produtos – dos talheres às roupas, da caneta ao automóvel – são feitos com um material “de segunda”. Correto, há vestimenta para todos. Mas todas iguais; muda apenas a cor. O maior símbolo de status hoje na URSS é uma calça jeans com o corte ocidental. Os jovens são tarados por estas calças mais largas que apelidaram de “modelo banana”. Cobiçam ternos finlandeses e chegam a pagar 100 dólares no câmbio negro por um tênis Nike.</p>
<p>Não vi mendigos. Parece que todo o país é formado por uma imensa classe média baixa, Os privilégios ficam apenas com os altos membros da burocracia. São poucos os que possuem um automóvel ou podem ter urna dacha no campo para os fins-de-semana. Aos sábados, um dos espetáculos mais chocantes é acompanhar o desembarque daquela enorme massa de camponeses e interioranos que vêm a Moscou para as compras, lotando as estações do metrô. Vestidos numa roupa surrada, carregam sacolas e sacos. Passam depois horas em fila para adquirir um modelo novo de sapato e mantimentos.</p>
<p>O salário mínimo é hoje de 80 rublos, equivalente a Cr$ 200 mil. Ninguém ganha menos do que isto. Oficialmente, não há desempregados. Qualquer cidadão que quiser trabalho encontra um. Nas cidades mais populosas. Todos querem morar nas cidades mais populosas porque a vida é mais fácil e as filas menores. Em cada hotel que estive havia mais de uma funcionária por andar só para cuidar das chaves dos quartos. Ficavam ali, sem fazer nada o dia inteiro. Sente-se a abulia no ar. E nada funciona bem sem uma gorjeia. Do hospital (gratuito) à lavagem de uma camisa no hotel.</p>
<p>Um russo médio, que pode viver em Moscou (e para isto ele precisa ter a propiska, um documento em seu passaporte interno, que permite a moradia em Moscou) e trabalha na parte de serviços ganha cerca de 150 rublos (Cr$ 380 mil) mensais. Um bom salário. Ele vai gastar apenas 30 rublos (Cr$ 75 mil) de aluguel – no qual está incluído água, luz, calefação, telefone e gás – para um apartamento de dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Como a economia é toda artificial, não existe inflação, e há anos que o litro de leite custa 28 copekes (28 centavos de rublos) o equivalente a Cr$ 700. Um quilo de peixe custa 60 copekes (Cr$ 1.500); 1 quilo de carne 2,8 rublos (Cr$ 7 mil); 1 quilo de arroz 90 copekes (Cr$ 2.250) e uma bisnaga de pão branco 18 copekes (Cr$ 450). Os utensílios domésticos já são bem mais caros: uma geladeira vale 300 rublos (Cr$ 750 mil), uma TV a cores está entre 650 e 700 rublos (Cr$ 1,7 milhão); um rádio transistor 100 rublos (Cr$ 250 mil); um sapato para homem ou mulher 30 rublos (Cr$ 75 mil) e um vestido 3,5 rublos (Cr$ 87.500).</p>
<p>É certo que nem todos podem viver em Moscou que tem hoje mais de oito milhões de habitantes. Por isto, incentiva-se a ida a outras partes da União Soviética necessitadas de mão-de-obra como de ar. Basta ver que um casal sem filhos paga um imposto de 6 rublos (Cr$ 15 mil) mensais ao Estado. Um mineiro que vai para a Sibéria – cujo salário médio em outras regiões é dos maiores, 400 rublos (Cr$ 1 milhão) – pode ganhar até mil rublos por mês. Mas poucos querem ir dar duro na planície gelada. Com um salário de 400 rublos é possível comprar um automóvel, o apartamento, e uma dacha, que pode ser particular. O carro mais barato, o Zaporojetz, custa 5.500 rublos (Cr$ 13,7 milhões). Perguntei ao guia qual o salário de um membro do Politburo: “Ninguém sabe”.</p>
<p>Mas, meu contato com os diretores da Intourist e com altos funcionários dos ministérios de Turismo, nas repúblicas pelas quais passei revelaram a mesma vestimenta e um sóbrio estilo de vida. Detalhe curioso, todos fumam cigarros ocidentais. Um maço de Marlboro, comprado a preço exorbitante no câmbio negro, é símbolo de status hoje na URSS. “Não suporto o tabaco soviético”, me disse um funcionário.</p>
<p>A propaganda estimula um certo consumismo. Os cidadãos podem vê-la principalmente na TV. País inteiramente eletrificado, todas as casas, nas mais distantes aldeias, tem televisão. “Socialismo é eletrificação mais o poder soviético” era a grande palavra de ordem do velho Lênin nos inícios da revolução. As vitrines, mal cuidadas em Moscou e Leningrado, mas bonitas e “elegantes” nas capitais das repúblicas bálticas incentivam também o consumo dos sofríveis produtos da indústria soviética. No início da noite a televisão dedica 15 minutos aos reclames do novo modelo de toca-discos ou aparelho de televisão, o tapete para a sala, o sapato ou bota nova, o último modelo de chapéu para o frio (que é sempre o mesmo), uma calculadora ou um relógio digital, um brinquedo que vai quebrar assim que a criança tocá-lo. O problema da qualidade, definitivamente, não foi resolvido. Tudo dá a impressão de que a URSS está vinte anos atrás do Ocidente capitalista.</p>
<p><strong>Rádio, TV, jornais</strong></p>
<p>Existem três estações de rádio em Moscou. Os aparelhos receptores possuem uma tecla fixa para cada estação, não há dial para procurá-las. A BBC é ouvida em rádios importados pagos a peso de ouro no contrabando. Uma das rádios toca música russa sempre que não está transmitindo noticiário, em outra é possível ouvir alguma melodia ocidental e a propaganda ideológica é constante. Há quatro canais de TV em Moscou e três nas outras cidades que visitei. Transmitem concertos e balé clássico; velhos filmes ingleses, franceses e norte-americanos; muito esporte – praticamente um jogo de futebol e hóquei sobre gelo todos os dias –; programas de informação sobre as últimas conquistas na indústria e no campo; perfis de operários modelos; reportagens sobre fábricas que ultrapassaram as metas previstas e noticiário. Martela-se nos informativos a necessidade da paz e os esforços que os EUA fazem para atrapalhar a negociação do desarmamento espacial. A URSS constrói e gasta fortunas incalculáveis em mísseis e armas e só fala em paz. Considera-se a dona da paz. É a palavra mais ouvida na TV, nas rádios, nas faixas com “slogans” penduradas nas paredes dos edifícios e nos jornais. Os programas noticiosos informam muito sobre a Nicarágua, Angola, Moçambique e Líbano. Nada do Afeganistão. Toda a notícia vem acompanhada da inevitável análise ideológica a denunciar sistematicamente a “ação do imperialismo norte-americano”.</p>
<p>No dia em que cheguei observei que todas as estações haviam interrompido sua programação normal para entrar em cadeia e transmitir a gravação do discurso de Konstantin Tchernenko (o líder máximo do Partido Comunista e do governo) por ocasião da abertura do Congresso dos Escritores Soviéticos. Como não falo o russo nada pude entender. Soube depois que ele discorreu sobre o desenvolvimento da “literatura” soviética (oficialesca) e tocou na necessidade de se caminhar rapidamente ao comunismo, etapa ainda não alcançada segundo o entender da burocracia. Falou durante 25 minutos. Cabelos muito brancos, a boca semi-aberta. Colocou os óculos para ler. Sua voz é arfante, cansada, ele se apóia com os braços na tribuna. A estátua de Lênin – presença obsessiva nas ruas, praças e repartições – sempre atrás.</p>
<p>No dia seguinte, o jornal para estrangeiros, “Novidades de Moscou”, editado em inglês, espanhol e francês, traz a íntegra do discurso. Há muitos jornais nas cidades. O “Pravda” (“Verdade”) órgão oficial do Partido Comunista e o “Izvestia (“Notícia”) estão à venda em qualquer banca. Alguns soviéticos dizem preferir o “Izvestia”, “menos pesado” do que o “Pravda”. Não há notícia no sentido ocidental do jornalismo objetivo e independente. São jornais do partido, que é único. Para o leitor brasileiro ter uma idéia, é como se no Brasil só pudessem existir jornais do PDS, supondo que só existisse um partido, sem possibilidade de renovação partidária no governo. Nos jornais só se fala na necessidade de maior produção industrial e agrícola, de mais paz e, de vez em quando, críticas de filmes e livros. As pequenas notas, noticiosas, são raras. Há gazetas esportivas compradas e lidas avidamente por todos. O número de páginas é sempre o mesmo. O “Pravda” sai com seis páginas diárias e oito nas segundas-feiras, o máximo. Há revistas de moda, de comportamento e até uma especial chamada “Novos Tempos” – “o nosso &#8216;Time&#8217;, semanal”, explica meu guia – que edita um amplo noticiário internacional.</p>
<p><strong>As artes</strong></p>
<p>Nas artes “mortas”, para usar uma imagem forte, os soviéticos são insuperáveis. Dançam maravilhosamente um Prokofiev. Possuem e mimam o Bolshoi (a palavra significa grande) a maior companhia de balé do mundo. Tocam divinamente um Brahms ou um Mozart, mas se arrebentam com o cinema, a literatura e o teatro oficiais. Tudo o que depender de independência para criação artística não consegue ser produzido. Se a arquitetura pôde respirar no início da revolução, quando tudo ainda era uma aventura inédita e criativa, agora logra apenas edifícios monotonamente iguais, verdadeiros caixotões despejados sobre todas as cidades. Há um ou outro prédio moderno, mas sem a marca arrojada de uma arquitetura inovadora e revolucionária.</p>
<p>O filme que faz mais sucesso em outubro em Moscou é “Tootsie” com Dustin Hoffmann, produção norte-americana. Este passou pela rígida censura que preserva a moral e os costumes. Fiz questão de ver um filme soviético “normal”. Os cinemas são mal cuidados, as paredes descascam, a projeção é ruim. O filme entra após uma sessão de propaganda e um documentário cacete sobre bom comportamento nas prisões soviéticas. Tive azar com a escolha porque o filme era uma science-fiction ingênua e descompromissada sobre um professor que faz transplantes de cérebros e acabou experimentando em si mesmo com a ajuda de um discípulo. Morre no fim.</p>
<p>A cantora “pop” mais popular é Alla Pugachova. Faz uma música que os nossos críticos considerariam pré-Elvis Presley. Um rock meloso e banal. Nas discotecas (que existem) se ouve Michael Jackson. Sua voz também ressoa nas rádios e circuitos internos dos hotéis. Os conjunos de música (e todo restaurante de hotel tem um) tocam de tudo, mas têm uma preferência pela melodiosa música italiana. Há videoclipes na televisão com os jovens cantores soviéticos. Rudimentares e descuidados. A dublagem nunca acerta o movimento da boca com a música.</p>
<h3>TERCEIRA PARTE</h3>
<p><strong>No passeio noturno, conversa os gays</strong></p>
<p>Toda a vida noturna acontece nos hotéis. Nas ruas, não existem aqueles bares e cafés, comuns no Ocidente, onde se vai bebericar e conversar. Eles estão nos hotéis onde se encontram também os melhores restaurantes. Os soviéticos podem freqüentar os night-clubs e restaurantes dos hotéis. Ali se encontram algumas moças dispostas a uma conversa e às vezes algo mais. Alta prostituição. Oficialmente a prostituição não existe. Os jovens casam-se cedo e mantêm relações sexuais muito antes do casamento. O aborto é legal. O homossexualismo é considerado uma doença e não há estatísticas oficiais sobre sua incidência. As drogas também são um assunto tabu.</p>
<p>Em uma de minhas escapadas pude constatar que, apesar da postura oficial, o homossexualismo e a droga são uma realidade na URSS como em qualquer país do mundo. Sexta-feira, voltando de Vilnius (a capital da Lituânia) a Moscou tive a noite livre. Jantei no hotel e às 23 horas fui dar um passeio noturno pela rua Gorki. Quando subo os degraus da passagem subterrânea sou abordado por um jovem de seus 17 anos que me pede fogo. Dou-lhe a caixa de fósforos. Ele a manipula com extrema habilidade para acender o cigarro na noite fria, contra o vento. Devolve a caixa. “Do you 1ike gay boys? (Você gosta de jovens gays?)” me pergunta em inglês. Explico que não era meu caso, mas se ele quisesse podíamos conversar porque eu, jornalista, tinha interesse em ouvi-lo. Este se desinteressa, mas dois outros rapazes pegam um rabo de conversa e se dispõem a bater um papo. Começamos a andar então pela escura rua Gorki – as ruas e praças são muito mal iluminadas e há pouquíssima gente à noite nelas – e Yuri e Kamenev (não são estes os nomes verdadeiros) de 23 e 21 anos respectivamente me ciceroneiam pelo “underground” moscovita. Mostram um restaurante considerado infecto porque só serve aos atores que se dobram ao teatro oficial e onde a entrada deles é proibida. Fico sabendo que existem filmes feitos clandestinamente: Que o faz-tudo Yevtuchenko, um dos mais independentes artistas soviéticos de hoje, não é bem visto entre os “intelectuais críticos”. Yuri vive de traduções do inglês. Creio que aproveita as noites para se prostituir com turistas e ganhar alguns dólares. Levam-me então até a praça Pushkin (o mais idolatrado poeta russo, grande crítico do czarismo). E lá, pude ver, é uma das “bocas” onde se faz tráfico de drogas em Moscou. Consomem haxixe e uma espécie de maconha. As transações são feitas sob olhares complacentes de alguns policiais. Cocaína, explicam, nunca viram. Voltamos conversando. Yuri não quer abandonar a Rússia. Vive relativamente bem ali, ironizando as autoridades e fazendo sua vidinha paralela. Tem vontade de conhecer Nova York, Paris e São Francisco, mas depois quer retornar à pátria. Já ouviu falar da banda “TaIking Heads”, de Laurie Anderson e lê Garcia Márquez e Jorge Amado (este, um best-seller lá). Não é como outros soviéticos típicos que adoram Arthur Hailey e Harold Robbins, também best-sellers. Reclamou do que ele considera a divisão de classes na URSS: uma classe “alta”, formada pelas autoridades que têm tudo e podem fazer tudo e a “baixa”, que trabalha, “sabe tudo” e faz o possível e o impossível para melhorar um pouco a vida e garantir algo para os filhos na esperança de dias melhores. Era quase uma da manhã quando voltei ao hotel. Foi a única conversa relaxada e franca que pude ter.</p>
<p><strong>Furtos, comidas, bebidas</strong></p>
<p>Os crimes não são noticiados. Existem, mas não há estatísticas. A hipocrisia chega ao auge do absurdo. Conheci no Hotel Nacional um turista alemão ocidental, Martin Rosowki, 26 anos, de Bochum, que havia desembarcado em Sheremetevo no sábado e foi ao banheiro. Deixou sua bagagem com as roupas do lado de fora. Quando voltou ela não estava mais lá. Procurou a polícia e comunicou que a bagagem sumira e devia ter, sido roubada. “Impossível, não há furtos aqui”, foi a resposta. “O máximo que pode ter havido é um extravio”. Ele não pôde fazer a queixa porque “necessariamente a bagagem tinha ido para algum hotel”, disse o guarda. Estava usando roupas de amigos que vieram junto e aguardava a segunda-feira para comunicar o fato à embaixada. Mas não resta dúvida de que uma valise com roupas ocidentais é cobiçadíssima por qualquer soviético e a possibilidade de furto é real. Falei com ele na segunda-feira por telefone. Nenhuma notícia da bagagem.</p>
<p>O fascínio pela “decadência” é tão grande que o dólar, comprado por 85 copekes no câmbio oficial, vale 3 rublos no câmbio negro. Fui abordado na rua em Leningrado, duas vezes, por rapazes que queriam “to exchange dolar (trocar dólar)”. Se forem pegos dá cadeia, pena prevista de até dois anos de reclusão.</p>
<p>A comida é muito boa e não causa grandes surpresas para um brasileiro. No café da manhã vem pão, café, leite, geléias, omeletes e queijos. No almoço sempre uma salada ou um caviar como entrada. A salada tem ovos, repolho, tomate, batatas, maionese&#8230; Depois vem sempre uma sopa e em seguida um prato de peixe ou carne, com arroz. No jantar a mesma coisa. Há muitas opções nos cardápios e pode-se escolher estrogonofes e outros pratos típicos. O sorvete é forte e bom. Há doces especiais e o café é preto e bem feito. A vodka é incomparável e de qualidades apreciadas pelo consumidor brasileiro. Há marcas que jamais chegaram por aqui, mas a conhecida Stolichnaya (o nome quer dizer da&#8217; capital) é uma das mais consumidas. O vinho branco da Geórgia é o melhor, o da Moldavia dá azia. O champagne é bom, inferior ao francês, claro. Nas ruas é possível comprar copos de cerveja e água mineral em quiosques por apenas 30 copekes (Cr$ 750). A cerveja é intragável e vem sempre quente. Meia garrafa de vodka custa 4,5 rublos (Cr$ 11.500), caro para os padrões soviéticos; o vinho custa 4 rublos (Cr$ 10 mil) e o champagne 7,5 rublos (Cr$ 18.750). Mas, observa o jornalista norte-americano do “New York Times”, David Shipler, em qualquer mesa, em todas as casas e nos restaurantes que os russos freqüentam, há sempre uma garrafa de bebida. A Pepsi-Cola e a Fanta também são presenças gritantes. Há quiosques nas ruas onde as garrafinhas são compradas por 50 copekes (Cr$ 1.250).</p>
<p>Os soviéticos bebem muito. Quase sucumbi aos vários “nasdarovias” (brindes) que fizeram nos almoços que tive com autoridades da Intourist. Cada participante da mesa erguia no mínimo um brinde em nome da paz mundial e da confraternização entre os povos. As autoridades responsáveis pelo turismo têm um lema: “Ver, conhecer, compreender”. Esperam levar ainda este ano cerca de cinco milhões de turistas estrangeiros à URSS. Estão certos de que o viajante, em contato com a realidade socialista, poderá ter uma idéia diversa daquela que “os Estados Unidos fazem e propagandeiam”, explicou Irina Verschcova, a chefe-adjunta de Informação da Intourist. É a primeira vez que a Intourist convida um jornalista brasileiro para uma viagem deste porte. Em quatorze dias pude ver, conhecer e compreender muita coisa.</p>
<p>É claro, não existem favelas, ninguém passa fome na URSS, a população é visivelmente bem-alimentada e sadia. Mas, a burocracia, se resolveu bem o problema da distribuição de renda, não melhorou consideravelmente a qualidade de vida nestes 67 anos de revolução dita socialista; não resolveu o problema da produtividade e do autoritarismo e, lugar comum, mas inevitável, acabou criando um povo triste cuja menor dissidência é punida com hospitais para doentes mentais ou exílios siberianos. Há muitas meias palavras e decepções. O partido único impera com o apoio de um forte esquema militar.</p>
<p>Os russos contam uma piada que ilustra bem o que quero dizer. Estavam Stalin, Kruschev e Brejnev num trem chamado comunismo. O comboio parou de repente. Ficou uma hora parado e Stalin resolveu tomar uma providência. Foi lá fora e mandou fuzilar todos os maquinistas. Voltou e sentou-se. Nada. Passa mais uma hora e o trem fica parado. É a vez de Kruschev ir lá fora e, com um decreto, reabilitar postumamente os maquinistas. Inútil. O trem não anda. Então, Brejnev se levanta, fecha as cortinas do vagão e exclama: “Façamos de conta que o trem está andando!”</p>
<p>Mas os soviéticos vêm de todos os cantos das repúblicas para fazer uma fila interminável e ver Lênin e as noivas vão lá levar flores no dia do casamento. “No&#8217;Brasil vocês não têm um ídolo nacional para homenagear no dia mais feliz da vida?” perguntou meu guia. “Felizmente não”, foi a minha resposta.</p>
<p><em>O jornalista Caio Túlio Costa viajou internamente pela União Soviética a convite da lntourist, a empresa estatal responsável pelo turismo soviético. Reportagem publicada na Folha de S.Paulo em 28/10/84, à pág. 18.</em></p>
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		<title>Ainda o &#8220;seu&#8221; Frias</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Feb 2009 19:10:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Nova Mídia]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Caio Túlio Costa relembra lições ensinadas por Octavio Frias
Dia 29 de maio de 2008 faz um mês da morte de Octavio Frias de Oliveira, “o homem mais inteligente que eu conheço”, como me disse várias vezes o jornalista Cláudio Abramo. Existem ainda mais episódios que você merece saber para aprender um pedacinho do muito que aprendi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_408" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-408" title="mostra_imagemphp1" src="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/02/mostra_imagemphp1-300x248.jpg" alt="Octavio Frias de Oliveira, proprietário do grupo Folha, que faleceu em abril" width="300" height="248" /><p class="wp-caption-text">Octavio Frias de Oliveira, proprietário do grupo Folha, que faleceu em abril</p></div>
<p><strong>Caio Túlio Costa relembra lições ensinadas por Octavio Frias</strong></p>
<p>Dia 29 de maio de 2008 faz um mês da morte de Octavio Frias de Oliveira, “o homem mais inteligente que eu conheço”, como me disse várias vezes o jornalista Cláudio Abramo. Existem ainda mais episódios que você merece saber para aprender um pedacinho do muito que aprendi nos doze anos em que estive em contato direto com ele, um dos poucos visionários da velha mídia que abraçaram com gosto a nova mídia.</p>
<p>Quando aceitei a incumbência de criar a <em>Revista da Folha</em>, eu soube que deveria cuidar também da área industrial e, principalmente, da área comercial, além da redação. A revista teria de sobreviver apenas com a receita de publicidade. O “seu” Frias decidiu então me dar aulas semanais de venda toda sexta-feira, depois do almoço.</p>
<p>Na primeira aula ele pediu para eu contar como havia feito a venda de uma página de publicidade publicada na revista. Eu relatei as dificuldades que tivera na conversa com o anunciante para explicar que a revista seria boa mesmo impressa em papel jornal, coisa que o anunciante não gostava, achava feio, de baixa qualidade, incomparável com o papel de melhor qualidade comum às revistas. Falei de meu esforço em explicar o quanto era útil uma revista encartada em jornal e expliquei o quanto o anunciante estava enganado em relação ao modelo de revista que tinha em mente. “Seu” Frias escutou atentamente, me fez repetir alguns diálogos e concluiu:</p>
<p>“Você conseguiu vender. Das próximas vezes não será assim fácil porque se continuar querendo vender anúncio e ter razão ao mesmo tempo não dará certo. Da próxima vez, deixe a razão com o cliente e fique com o dinheiro. Com as duas coisas você não pode ficar&#8230;”</p>
<p>Na segunda aula, outra lição: nunca alongar o assunto da venda depois de consumada a transação:</p>
<p>“Fechou o pedido, tranque a pasta e vá embora. Não explique mais, não mostre vantagens que você por acaso se esqueceu de dizer. O risco de o comprador se arrepender enquanto você fala é muito grande. O melhor a fazer é mudar de assunto, ou ir embora”.</p>
<p>Na terceira, aprendi a planejar; na quarta, aprendi a ser direto; na quinta a ser pragmático&#8230; Fui aprendendo e continuei a aprender. O principal resultado estava ali, na forma de uma atenção única para um jornalista que começava a se transformar num executivo e se metia na área da publicidade sem a menor experiência no ramo.</p>
<p>E, por falar em jornalista, houve intermináveis momentos em que o “seu” Frias foi muito mais jornalista do que toda a redação somada. Quando fui secretário de redação da Folha, nos anos oitenta, tinha obrigação de “fechar” o jornal às 22h30 e quase nunca o conseguia. Na véspera da posse de Tancredo Neves na presidência da República, a redação conseguiu fechar o jornal às 22h32. Neste preciso instante, o do envio da última chamada de capa para as oficinas, “seu” Frias me ligou e deu-se o seguinte diálogo:</p>
<p>“Caio, já fechou?”</p>
<p>“Sim, fechamos com dois minutos de atraso”, respondi feliz, no aguardo de um belo elogio.</p>
<p>“Pois ligue para a oficina e mande segurar a rodagem. Não deixe imprimir nenhum exemplar. Não haverá posse. O Tancredo vai ser operado. Mude já a primeira página para não atrasar a edição”.</p>
<p>“Seu Frias, o senhor está em sua casa?”</p>
<p>“Claro que estou, mas trate de cuidar disso e&#8230;”</p>
<p>“Eu ligo para o senhor em seguida” – disse isso e desliguei. Pensei tratar-se de um trote do Boris Casoy, o editor-chefe do jornal e insuperável imitador de vozes. Liguei de volta para a casa do “seu” Frias e era ele mesmo na linha. Peguei os detalhes que a televisão e as rádios só iriam dar dali uns vinte minutos e que permitiram a mudança imediata da capa do jornal. O “seu” Frias conseguira a informação antes de todo mundo. Como conseguiu também a notícia de que o mesmo Tancredo tivera um tumor enquanto todos os jornalistas juravam por todos os médicos e deuses que era diverticulite. Teve a coragem de bancar a cobertura do caso Tancredo com informações absolutamente contrárias a toda mídia, porque tinha a melhor fonte.</p>
<p>E, ainda por falar em jornalista, ele teve também a enorme coragem em publicar, em 1987, o material de Janio de Freitas provando que os resultados da concorrência para a construção da ferrovia Norte-Sul, no governo Sarney, estavam previamente acertados entre as empreiteiras&#8230; Um executivo profissional talvez hesitasse nessa hora.</p>
<p>Muitas outras façanhas eu vi e não cabem mais aqui, como no dia em que levei a maior carraspana de toda a minha vida profissional – até agora. Se você quiser saber qual foi, dê uma olhada no capítulo sobre o caso Cabral no livro no qual conto a minha experiência como primeiro ombudsman da Folha. Foi a única vez que eu achei que a figura do ombudsman poderia acabar na Folha. Não acabou graças à firmeza do “seu” Frias e, cá entre nós, também por conta de um conselho que ele havia me dado fazia tempo: “Teima, mas não aposta”.</p>
<p><em>*Caio Túlio Costa é jornalista, presidente do Internet Group, que reúne o iG, o iBest e o BrTurbo. Publicado originalmente no semanário Meio &amp; Mensagem, edição de 14/5/07, pág. 10.</em></p>
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		<title>A tarefa da terceira geração é a de superar o superpai</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 19:31:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Globo]]></category>
		<category><![CDATA[Roberto Marinho]]></category>
		<category><![CDATA[sucessão]]></category>

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		<description><![CDATA[Sobre a morte de Roberto Marinho, ocorrida em 6 de agosto de 2003. Publicado no Valor Econômico de 08/08/2003.
Foi-se mais um RM dos três RMs que dominaram a mídia: Robert Maxwell, Roberto Marinho e Rupert Murdoch. Houve um tempo em que, para mandar nas comunicações, era necessário ter R e M nas iniciais.
Com a morte [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Sobre a morte de Roberto Marinho, ocorrida em 6 de agosto de 2003. Publicado no </em>Valor Econômico<em> de 08/08/2003.</em></p>
<p>Foi-se mais um RM dos três RMs que dominaram a mídia: Robert Maxwell, Roberto Marinho e Rupert Murdoch. Houve um tempo em que, para mandar nas comunicações, era necessário ter R e M nas iniciais.</p>
<p>Com a morte de Roberto Marinho sobra o último RM, Rupert Murdoch, considerado maior do que o Cidadão Kane &#8211; e Murdoch, ainda por cima, é sócio da holding de Roberto Marinho no negócio de televisão por satélite no Brasil. O outro RM, Robert Maxwell, morreu num episódio esquisito em 1991, quando caiu de seu barco no Mediterrâneo. Pode ter sido suicídio. Estava quebrado.</p>
<p>Como os outros dois, Roberto Marinho construiu um conglomerado de empresas de comunicação com a diferença de que o fez num país pobre, no chamado terceiro mundo, e depois as fez crescer num país em desenvolvimento, com um mercado radicalmente pequeno se comparado aos mercados europeu e norte-americano dos seus colegas de iniciais.</p>
<p>Se Robert Maxwell, nascido Jan Ludwik Hoch, em 1923, na então Tchecoslováquia, cidadão inglês a partir da Segunda Guerra, perdeu controle de empresas e depois teve de readquiri-Ias por muito mais dinheiro &#8211; sempre emprestado, como aconteceu com a Editora Pergamon &#8211; Roberto Marinho comprou bem as suas. Pagou pelo que viria a ser a Rádio Globo (hoje parte do Sistema Globo de Rádio) muito pouco, &#8220;quase nada&#8221;, como se gabava.</p>
<p>Se o império de Robert Maxwell se deteriorou sob suas próprias mãos, o de Roberto Marinho só fez crescer. Seus descendentes estão aí para mostrar se superam os desafios que o momento coloca, agora apresentando dificuldades inimagináveis. Mas o fato é que o jovem Roberto Marinho herdou, aos 20 anos, um jornal recém-comprado por seu pai &#8211; Irineu Marinho inaugurou O Globo três semanas antes de morrer &#8211; e dali em diante só fez expandir o negócio.</p>
<p>As críticas ao jornalista e ao empresário Roberto Marinho são todas bastante conhecidas; umas corretas, outras exageradas. Mas um fato a história da mídia no Brasil jamais poderá ocultar: mais do que ter construído um conglomerado, foi sob sua égide que o Brasil pôde ter sua produção televisiva exportada e consumida em outros países, produção que também unificou o Brasil &#8211; para o bem e para o mal &#8211; por meio da rede nacional de retransrnissão de sinais montada por ele e ainda ter ganho importância continental &#8211; pelo tamanho de seu faturamento e pela natureza de seu negócio.</p>
<p>Muito se tem falado do fato de a mídia brasileira ser comandada por poucas famílias: Abravanel (SBT), Civita (Abril), Frias (Folha), Marinho (Globo), Saad (Bandeirantes) e Sirotsky (Zero Hora). E que esta era familiar estaria passando &#8211; usa-se como exemplo as crises envolvendo as famílias Mesquita (O Estado), Levy (Gazeta Mercantil), Nascimento Brito (Jornal do Brasil) e a derrocada das organizações Bloch (Manchete).</p>
<p>A crise pela qual passa a indústria da mídia nacional e a mudança na lei que permitiu a participação de pessoas jurídicas e de empresas estrangeiras no capital das empresas de comunicação podem ajudar a mudar radicalmente esse panorama, mas a presença de um empresário de personalidade marcante à frente de um grupo de comunicação sempre foi mais benéfica do que maléfica. O jornal The New York Times &#8211; este agora envolto em crise ética &#8211; teria publicado os papéis do Pentágono em 1971 se fosse comandado apenas por executivos e não tivesse à sua frente Arthur Ochs Sulzberger? A Folha teria denunciado fraude dos maiores empreiteiros do país no caso da ferrovia Norte-Sul, em 1987, se não tivesse no seu comando Octavio Frias de Oliveira?</p>
<p>Então, pode ser muito positiva a participação do chefe da família à frente de uma empresa de comunicação. O proprietário costuma assumir riscos que um executivo profissional jamais assumiria. Ou levaria dias fazendo contas, ouvindo prós e contras, ponderando, atitude às vezes danosa frente à velocidade necessária para algumas decisões numa indústria de mídia.</p>
<p>Roberto Marinho é o melhor exemplo de empreendedor arrojado num país cujo arquétipo de empresário de mídia, até então, era o forte personalismo de Assis Chateaubriand, o centralizador pai dos Diários Associados, incapaz de criar uma instituição que pudesse manter seu império intacto depois de sua morte.</p>
<p>Morto Roberto Marinho, cabe ressaltar a que de bom ele deixou. As ações empresariais que se ligam à sua carreira são muito claras: verticalização, integração, exportação e modernização.</p>
<p>Verticalização é a primeira delas. Poucas empresários de mídia, em toda a mundo, conseguiram diversificar tanto dentro de seu própria meio. Ele criou jamais, emissoras de radio, canais e emissoras de televisão, editora de livros, revistas, gravadora, empresa de canais a cabo, televisão via satélite e empresa de Internet.</p>
<p>Integração é a segunda palavra. Queiramos ou não, a Rede Globo integrou o país em frente à telinha da televisão a partir das anos 70, impulsionada pelo milagre econômico cujo ápice se deu em 1973. Falta aparelho de tevê em quantos domicílios brasileiros? E quantos não têm saneamento básico? Pode faltar o banheiro, a tevê jamais.</p>
<p>A integração nacional veio com uma marca que resiste ao tempo, malgrado ela mesma: o Padrão Globo de Qualidade (com o dedo de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni &#8211; referência de uma geração e exemplo de outra coisa que Roberto Marinha sabia fazer bem: escolher seus funcionários e aglutinar equipes). Foi este padrão que permitiu ao conglomerado exportar sua produção novelística. Chega-se assim à terceira palavra: exportação.</p>
<p>Em 1987, por exemplo, eu pude ver Lucélia Santas na televisão polonesa, em Varsóvia, no horário nobre. A novela era reproduzida com as falas em português. Os diálogos das diferentes personagens eram traduzidas para a polonês e lidos por um único locutor. A Polônia parou para ver Lucélia. A Itália idem, mesma que não tenha sido no prime time. Idem em muitos países, como na Ásia, haja vista a enorme sucesso da Lucélia Santas na China Continental.</p>
<p>Com exceção dos Estadas Unidos, que outro país consegue exportar, de forma constante e com sucesso, soap operas como o Brasil? Pode-se criticar à vontade as novelas da Globo, mas não se pode negar. que elas criaram um modelo &#8211; nacional e internacional &#8211; de produção televisiva, um jeito brasileiro de contar histórias, e com eficácia. Qual outra empresa de mídia brasileira conseguiu este feito?</p>
<p>Modernização é a última palavra. Ela está na paginação do jornal O Globo, na impressão do mesmo nas rotativas full color, na criação de um sistema nacional de rádio, nos equipamentos que fizeram da Globo a líder na retransmissão de sinais em todo o país, na implantação do Projac (os famosos estúdios da Globo no Rio de Janeiro), na criação, mesmo que tardia, de um portal de Internet com todo o conteúdo das empresas.</p>
<p>O padrão de qualidade está presente no jornal, na rádio, na televisão, no portal. Nasceu, ganhou corpo e se institucionalizou sob a tutela de Roberto Marinho. Se o proprietário não tem a vontade empresarial, a determinação de embicar suas companhias no caminho que Roberto Marinho deu às suas, nenhum executivo iria conseguir fazê-Io sozinho.</p>
<p>A crise e a dívida das organizações Globo de hoje têm razões sólidas. Em meados dos anos 90 Roberto Marinho acreditou no que prometiam os bancos de investimento e instituições governamentais: o Brasil iria ter por volta de dez milhões de assinantes de televisão paga no começo do ano 2.000. Faça a conta: multiplique o preço de uma assinatura mensal de pay tv, de R$ 70, por dez milhões de assinantes e depois multiplique por doze meses. Quem, em sã consciência, queria ficar de fora de um mercado cujo potencial de faturamento era de R$ 8,4 bilhões, naquela época exatos US$ 8,4 bilhões? Investimentos pesados foram feitos para passar os cabos nas cidades, mas o mercado de pay tv estagnou na base dos três milhões de assinantes e, além disso, a crise na publicidade se instalou. Só recentemente a Net, por exemplo, conseguiu o seu primeiro resultado positivo, mas esta é outra história.</p>
<p>Reza a lenda que Roberto Marinho costumava começar suas determinações dizendo: &#8220;Se eu morrer&#8230;&#8221; Não usava o &#8220;quando&#8221;. Pois se foi. A tarefa da terceira geração dos Marinho, agora, é a de superar o superpai. Enorme desafio. <em><br />
</em></p>
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		<title>“Velho”, o grande ídolo dos jovens</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 19:24:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Adicionar nova tag]]></category>
		<category><![CDATA[Leon Trotsky]]></category>
		<category><![CDATA[trotskistas]]></category>

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		<description><![CDATA[Este texto faz parte do dossiê “Ligeiramente Trotskista – Hoje, no Planalto, antigos adeptos do revolucionário têm de equilibrar velhos ideais com problemas atuais”. Publicado no jornal Valor Econômico (no suplemento Eu&#38;) em 24/01/2003.
Por Caio Túlio Costa
E muito difícil falar de trotskistas no poder, especialmente porque Leon Trotsky foi o único trotskista a tomar o poder de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Este texto faz parte do dossiê “Ligeiramente Trotskista – Hoje, no Planalto, antigos adeptos do revolucionário têm de equilibrar velhos ideais com problemas atuais”. Publicado no jornal </em>Valor Econômico<em> (no suplemento Eu&amp;) em 24/01/2003.</em></p>
<p><strong>Por Caio Túlio Costa</strong></p>
<p>E muito difícil falar de trotskistas no poder, especialmente porque Leon Trotsky foi o único trotskista a tomar o poder de fato e lá permanecer por algum tempo. Na revolução russa, que durou 70 anos, Trotsky permaneceu cerca de sete anos atuando no centro do poder, ajudando Lênin ou no comando do Exército Vermelho. Quase um quarto dos 30 anos de duração do governo de Joseph Stalin, o qual só saiu do poder morto. Nikita Krushev comandou a então União Soviética por oito anos. Leonid Brejnev por 18 anos. Sete anos no poder podem parecer muito quando existem mandatos presidenciais renováveis a cada quatro anos na maioria dos países onde impera a democracia moderna &#8211; mas foram poucos anos na então União Soviética quando os primeiros ditadores do dito proletariado se agarravam ao poder durante décadas.</p>
<p>Daquilo que se convencionou chamar de  trotskismo importa entender que Trotsky, &#8220;o velho&#8221;, como é chamado pelos seus seguidores, desenvolveu a teoria da revolução permanente (que Trotsky dizia ter sido elaborada pelo próprio Marx) envolvida por quatro temáticas centrais:</p>
<p>1. A lei do desenvolvimento desigual e combinado;</p>
<p>2. A crítica à degeneração do Estado soviético e em particular à sua burocracia;</p>
<p>3. A elaboração das características constitutivas da sociedade socialista e</p>
<p>4. O internacionalismo.</p>
<p>Digno de registro, o termo trotskismo foi incontáveis vezes repudiado pelo próprio Trotsky. Para o cientista político Norberto Bobbio, o trotskismo “não constitui nem jamais constituiu uma doutrina codificada, nem um movimento organizado”. A propósito, existe uma piada sistematicamente lembrada pelos detratores quando repetem que um trotskista sozinho funda um partido, dois trotskistas criam uma organização internacional e três trotskistas provocam um cisma.</p>
<p>Apesar do ceticismo de Norberto Bobbio existem muitíssimas organizações autodenominadas trotskistas. Markus Sokol, .líder de uma das correntes trotskistas, O Trabalho, do PT, estima a existência de mais de trinta grupos diferentes na Inglaterra e outro tanto na Argentina:        “No Brasil, destacam-se quatro pequenos grupos. Dois estão dentro do PT: o próprio O Trabalho (ligado à antiga OCI, Organização Comunista Internacionalista, com sede na França, dirigida por Pierre Boussel-Lambert, hoje com 82 anos) e o grupo ligado à Democracia Socialista (braço do Secretariado Unificado e cujo líder histórico é o belga Ernest Mandel, morto em 95, aos 72 anos). Ambos os grupos consideram-se legítimos herdeiros da IV Internacional, o organismo de fomento à revolução socialista mundial fundado por Trotsky em setembro de 1938. Na órbita do PT, existem ainda o PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, aquele do refrão &#8220;contra burguês, vote 16&#8243;) e o PCO (Partido da Causa Operária).</p>
<p>A característica mais marcante em relação aos trotskistas no poder é que, ao chegar lá, ou já se tomaram obrigatoriamente ex-trotskistas ou passaram a não rezar mais segundo a cartilha trotskista, que implica centralização total de poder no Estado e tocar a revolução de forma planetária.</p>
<p>O mais notável entre eles foi o líder socialista francês Lionel Jospin, 65 anos. Chegou a ser primeiro-ministro da França e acabou defenestrado nas últimas eleições. Quando tinha 50 anos, Jospin abandonou a OCI para se dedicar ao Partido Socialista e dali foi alçado ao Palácio Matignon. &#8220;Tomou gosto pelas delícias do poder&#8221;, criticou Boussel-Lambert.</p>
<p>Tomam gosto quando já deixaram para trás o trotskismo, visto a partir de então como uma espécie de estado de espírito juvenil, coisa de estudante, maluquice radical&#8230; Uma das brincadeiras favoritas de Trotsky no poder era dizer aos auxiliares: &#8220;Vocês sabem, Lênin repetia sempre que é preciso fuzilar os revolucionários depois que eles fazem 30 anos! Fuzilar! Porque, depois dos 30, eles não valem mais nada!&#8221;</p>
<p>Jospin abandonou o trotskismo aos 50 anos. No Brasil, abandonam depois dos 30. Em 1986-87, houve o primeiro grande racha entre o pessoal da corrente O Trabalho, aquela que, no movimento estudantil dos anos 70 e 80, era conhecida por Liberdade e Luta, a Libelú. A ela pertenciam Luiz Favre (hoje na cúpula do PT e no coração de Martha Suplicy, a prefeita de São Paulo), Clara Ant (assessora de Lula no Planalto) e José Américo Dias (também na prefeitura paulistana e depois vereador pelo PT).</p>
<p>Todos guardam muito do jeito de ser trotskista, de fazer política, da disciplina e do rigor. Na mais completa biografia de Trotsky já escrita, o historiador simpatizante Pierre Broué conta que uma das principais armas de Trotsky em sua maneira toda especial de fazer política, de escrever, de propor acordos cujo mote eram nem a paz, nem a guerra. Ele sempre agia. Nunca reagia. Contra a Bíblia, Trotsky gostava de lembrar uma citação de Fausto num diálogo com Mefistófeles, no qual o diabo explica que &#8220;no princípio não era o verbo, mas a ação&#8221;.</p>
<p>Quem analisou o Palocci da fase de transição [primeiro ministro da Fazenda de Lula] entende melhor esta história de nem a paz, &#8216;nem a guerra. Antonio Palocci Filho, 42, ministro da Fazenda, também é ex-Libelú. Tanto Palocci quanto Luiz Gushiken, 52, secretário de comunicação de Governo, vêm da OCI, são ex-Libelú, ex-Iambertistas, ex-trotskistas .</p>
<p>O ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, 42, e Marco Aurélio Garcia, 60, assessor especial do presidente Lula, provêm da Democracia Socialista, a DS, ex-jornal &#8220;Em Tempo&#8221;, ligada ao Secretariado Unificado da IV Internacional. Rosseto ainda faz parte da DS.</p>
<p>Outro entre eles, também da DS, é o ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, o primeiro executivo público a introduzir fundos de pensão privados para o funcionalismo público municipal, o primeiro a quebrar os direitos da providência pública, um anátema para trotskistas porque, para eles, nada é pior do que o Estado mínimo. Ser trotskista significa ser a favor do Estado máximo. Todo o poder ao Estado. Pont fez o contrário.</p>
<p>Entre adversários, abundam as definições maldosas. O pessoal &#8220;lambertista&#8221;, de O Trabalho, é definido pelo seu estilo de rigidez doutrinária, rotulado de besta-fera de toda extrema-esquerda. O pessoal da Democracia Socialista é tido como dono de uma cultura mais esquerdizante, mas seria menos austero e com jeito para defender quase todas as causas.</p>
<p>De fato, a maioria dos trotskistas eméritos do Brasil já passou dos 30 e abandonou as fileiras da militância de extrema-esquerda. Estaria naquela fase da brincadeira de mau gosto de Lênin, na qual mereceria um pelotão de fuzilamento. Pelo sim, pelo não, deixou a militância radical e, no poder, conserva a disciplina treinada no movimento estudantil ou nas portas de fábrica, principalmente quando a ação política era clandestina e se entendia poder tocar a revolução desde as concentrações operárias.</p>
<p>Historiadores da Vida de Trotsky consideram que ele foi uma pessoa austera,:íntegra, exigente. Dizem ter sido um orador gigantesco e um diplomata irrepreensível. Do ponto de vista pessoal, era tido como janota. Por conta disso, Lênin fazia chacota ao explicitar o último desejo de Trotsky caso caísse nas mãos de um pelotão de fuzilamento contra-revolucionário: &#8220;Me dêem um pente&#8221;. Trotsky também nunca conseguiu se livrar do estigma da minoria. Nasceu dentro da facção menchevique (minoria) no movimento comunista. Lênin era da maioria, bolchevique. Os trotskistas seguem minoria por onde passam ou onde estão.</p>
<p>Aqueles que ainda não passaram dos 30 talvez não cresçam muito ali dentro. Faltam vocações. Trotsky não encontraria muita mão-de-obra hoje em dia para perseguir a revolução como ele sonhou necessário. De quebra, as esperanças de uma conflagração socialista mundial murcharam com a vitória do capitalismo como forma de governo e com a predominância geopolítica dos Estados Unidos. As antigas preocupações com o eixo comunista se transferiram para o eixo fundamentalista-terrorista.</p>
<p>Nas pontas, os trotskistas se reúnem em grupos diferentes na tentativa conceitual de dar mais poderes ao Estado. Nada indica que seja por agora. Os atuais membros da organização O Trabalho, por exemplo, resistem a entrar na burocracia governamental, ao contrário do pessoal da DS. Os lambertistas preferem não participar do governo e ainda discutem qual atitude terão em relação ao governo, se de apoio ou oposição.</p>
<p>Em seu testamento, o velho Trotsky pediu às gerações futuras que limpassem a vida &#8220;de todo o mal, de toda a opressão; de toda a violência, vivendo-a plenamente&#8221;. Não precisa ser trotskista nem no Brasil, nem em qualquer lugar para correr atrás dessas metas. O mote principal das idéias de Trotsky criticado pelos stalinistas era o de que a revolução socialista não podia alcançar a realização dentro do quadro nacional soviético: No caso do Brasil, o quadro nacional anda tão alquebrado que não haverá apetite para mais nada &#8211; nem da parte de ex-trotskistas e trotskistas com todo o poder nas mãos.</p>
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		<title>Geração de babacas</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 19:23:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Existem interrogações metafísicas no desenho de Paul Klee que ilustra esta página. De onde? Onde? Para onde? As questões não se esgotam na dúvida da identidade. A última delas até suspira por um futuro incerto, calibrado pela cabeça curva do personagem, pelo olhar para baixo. Será um anjo como outros de Klee? Outro a olhar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1094" class="wp-caption alignleft" style="width: 231px"><a href="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/02/klee1.bmp"><img class="size-full wp-image-1094" title="klee1" src="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/02/klee1.bmp" alt="" width="221" height="302" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;De onde, onde, para onde?&quot;</p></div>
<p>Existem interrogações metafísicas no desenho de Paul Klee que ilustra esta página. De onde? Onde? Para onde? As questões não se esgotam na dúvida da identidade. A última delas até suspira por um futuro incerto, calibrado pela cabeça curva do personagem, pelo olhar para baixo. Será um anjo como outros de Klee? Outro a olhar para aquilo que os homens chamam de progresso e se traduz num amontoado de detritos no chão? Desafortunadamente, o preço do progresso requer doses incomensuráveis de detritos. Mais um paradoxo da dita civilização.</p>
<p>Este blábláblá metafísico vem a propósito das responsabilidades de pessoas que hoje têm mais ou menos a minha idade, ou seja, estão entre os 35 e 45 anos (eu chego aos 40 agora) e não se dão conta do quanto se desobrigaram do papel de cobradores permanentes dos deveres do Estado, da sua cidadania.</p>
<p>Tentarei ser claro. Esta turma que está no vigor de sua produção pouco, ou nada, fez para honrar a herança de cidadania deixada pelos avós e pais no que toca aos serviços prestados pelo Estado.</p>
<p>Eles, nossos avós e nossos pais, nos deram uma boa escola pública. Quando ela degringolou nas mãos de governos por nós eleitos, fomos atrás das escolas particulares e lá matriculamos nossos filhos, pagando mais para dar-lhes uma educação &#8220;á altura&#8221;.</p>
<p>Eles nos deram ruas calmas, sem violência, sem assaltos. Podíamos brincar &#8220;lá fora&#8221;, passear e fazer compras com sossego. Quando a criminalidade explodiu, nós contratamos os porteiros e seguranças dos prédios, instalamos circuitos internos de televisão, nos refugiamos em condomínios fechados, ajudamos a emplacar shopping centers fechados e seguros, fugimos das ruas com as janelas fechadas dos carros.</p>
<p>Eles nos deram hospitais públicos que funcionavam com decência e eram limpos. Quando as filas cresceram e o atendimento destemperou, nós fomos atrás dos planos mirabolantes de saúde, engordamos a indústria das clínicas, resolvemos tudo particularmente.</p>
<p>Eles nos deram trens, ônibus, transporte público funcional. Quando os ônibus e os trens se encheram de gente, transbordantes, quando as poucas linhas de metrô passaram a não dar conta, compramos o primeiro carro, o segundo, arrumamos táxi ou motoristas só para levar crianças à escola&#8230;</p>
<p>A cada deterioração do serviço público, nós, a classe média – não importa se &#8220;média média&#8221;, &#8220;alta&#8221; ou &#8220;baixa&#8221; –, íamos resolvendo de modo privado cada problema, criando mundos à parte, desobrigando-nos de cobrar dos governos, do Estado, aquilo pelo qual continuamos pagando sem receber em contrapartida.</p>
<p>A responsabilidade pela podridão dos serviços básicos dos Estado, numa análise mais profunda, não está somente nas mãos de políticos corruptos nem dos incompetentes gestores do dinheiro público. Está também na nossa incapacidade de saber cobrar do Estado o básico. Porque nós simplesmente pagamos impostos para isto.</p>
<p>Esta responsabilidade é nossa porque com o pouquinho de dinheiro a mais que temos, nós, a classe média, tentamos solucionar particularmente aquilo que é dever do Estado. A grande maioria das gentes, a maioria da &#8220;vida real&#8221; que também acorda cedo, essa grande maioria não tem jeito de se sobrepor ao Estado, sofre quieta os infortúnios de uma vida desassistida no mais baixo dever do Estado. De onde viemos, nós o sabemos. Onde estamos também. Para onde vamos não se sabe. De cabeça erguida? Nada indica que sim.</p>
<p>Ilustração: &#8220;De Onde? Onde? Para Onde?&#8221;, Paul Klee (1879-1940)</p>
<p>Publicado na Revista da Folha em 12/06/94, pág. 54.</p>
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		<title>Obsessão</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 19:21:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[impostos]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho uma certa obsessão pela questão da enorme quantidade de impostos que se paga no Brasil e a eterna falta de retorno por parte do Estado.
Numa noite de quinta-feira, num delírio de febre por causa desta gripe chata que assola gargantas e corpos em São Paulo, sonhei com um escritor americano que em 1848 – [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho uma certa obsessão pela questão da enorme quantidade de impostos que se paga no Brasil e a eterna falta de retorno por parte do Estado.</p>
<p>Numa noite de quinta-feira, num delírio de febre por causa desta gripe chata que assola gargantas e corpos em São Paulo, sonhei com um escritor americano que em 1848 – olhe lá, faz quase cento e cinqüenta anos! – , inventou de se recusar a pagar imposto em protesto contra a escravatura e a guerra EUA x México.</p>
<p>O escritor, Henry David Thoreau, passou uma noite inteira na prisão por causa deste gesto ousado. Explicou a coisa num ensaio célebre, “Desobediência Civil”. Neste texto, conclama os indivíduos à resistência concreta quando os governos cometem injustiças. Para ele, votar não é o suficiente, é preciso ir além. Thoreau criou a desobediência civil, a individual.</p>
<p>Quase um século depois, Gandhi, na Índia, desenvolveu a desobediência civil coletiva, aquela da não-violência, uma outra história.</p>
<p>No meu sonho, Thoreau conversava com o presidente Abraham Lincoln uma conversa impossível. Ambos foram contemporâneos e até tinham um semblante muito parecido. A mesma barba recortada, a ausência de bigode, entradas semelhantes no reparte do cabelo no lado direito da cabeça. No olhar deles se nota, e você pode conferir pelos retratos, total impenetrabilidade em Lincoln e certa pureza em Thoreau. Não foi à toa que o primeiro virou estadista assassinado e o outro morreu escritor.</p>
<p>Ambos dialogavam amigavelmente. Pareciam estar no gabinete presidencial, mas podia ser uma ante-sala de teatro. O local não importa, o diálogo é que era muito atual e tinha a ver com o nosso Brasil de hoje. Thoreau falava com certa bonomia, aparentemente cansado de dar explicações:</p>
<p>– Bem, Abraham, minha resistência é individual. Não me importo se a copiam. Ao contrário, escrevi o libelo para isso.</p>
<p>– Henry, trata-se de um acabado mau exemplo. Olhe bem o que está acontecendo lá no Brasil. Os homens estão levando ao pé da letra suas idéias e uma quantidade enorme de gente sonega imposto de maneira deslavada.</p>
<p>– Que eu saiba, Abraham, sonegam sim, mas nem todos, infelizmente. Só os que ganham muito dinheiro. Quem vive de salário em carteira assinada não consegue sonegar não.</p>
<p>– Pois é. Desobediência civil levada a cabo por gente muito importante.</p>
<p>– Mas o governo só pensa em cobrar mais impostos, ninguém consegue ter de volta aquilo que paga – nem em obras públicas, nem em educação, nem em saúde&#8230; O esperto sonega mesmo. O governo sabe muito bem o que acontece.</p>
<p>– Sonega porque você deu o mau exemplo! Pega mal para nossa imagem.</p>
<p>– Descanse, Abraham. Para desgraça das minhas teorias tem um intelectual lá, um sujeito pensante como eu, que assumiu a presidência.</p>
<p>– Eu sei, Henry. Por isso mesmo. Desconfio muito de intelectual no poder. Você gostaria de tocar o Ministério da Justiça, por exemplo? Não é um convite, apenas curiosidade&#8230;</p>
<p>– Nunca! Intelectual só serve para pensar, refletir, iluminar, ensinar, Abraham. Político é para governar.</p>
<p>– Então você acha que este moço, um sociólogo erguido à política, alguém mais acostumado aos debates do que às ações, será ele capaz de resolver a coisa?</p>
<p>Foi aí que Thoreau se levantou da poltrona como que iluminado:</p>
<p>– Então não tem jeito mesmo e a minha desobediência civil está salva. Encontrou seu lar!</p>
<p><em>Ilustração: Foto de David Byrne, “O Museu Secreto do Gênero Humano”, parte do trabalho intitulado “A Soma do Conhecimento do Mundo”.</em></p>
<p><em>Publicado na Revista da Folha em 16/04/95, pág. 30.</em></p>
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		<title>Não dê comida aos políticos</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 19:18:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Vem aí, terça-feira, o segundo turno das eleições. Em São Paulo, a escolha está entre Mario Covas, do partido de Fernando Henrique, e Francisco Rossi, do partido de Leonel Brizola. Covas e Rossi foram prefeitos e estiveram também no Congresso. O primeiro administrou São Paulo e o segundo Osasco, uma das maiores cidades do país.
De [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vem aí, terça-feira, o segundo turno das eleições. Em São Paulo, a escolha está entre Mario Covas, do partido de Fernando Henrique, e Francisco Rossi, do partido de Leonel Brizola. Covas e Rossi foram prefeitos e estiveram também no Congresso. O primeiro administrou São Paulo e o segundo Osasco, uma das maiores cidades do país.</p>
<p>De sua passagem pelo Congresso, Covas deixou na minha memória a convicção de que, em vez de ajudar na modernização dos portos brasileiros, fez de tudo para emperrá-la. A lembrança relacionada a Rossi é a nota 10 dada por uma entidade intersindical por sua participação na Constituinte.</p>
<p>Ambos também foram capa desta revista, perfilados por Cosette Alves. Dessas reportagens guardo imagem esquisita de como Covas lida com o tempo, despreocupado com ele. Rossi deixou aquela marca do místico que faz chover e considera a &#8220;Bíblia&#8221; seu projeto de governo.</p>
<p>Acho complicada e demagógica a exploração da religião em política partidária – uma vez que não é possível separá-la em definitivo da política.</p>
<p>Mas a eleição aí está e quem votar terá que escolher. Portanto, momento ideal para refletir e rebater em tecla já familiar aos leitores deste &#8220;Posfácio&#8221;.</p>
<p>O título escolhido não é mensagem de desesperança. Cético, serve de alerta aos dispostos ao voto. Vem inspirado em palavra de ordem da juventude basca, pichada nas paredes de Pamplona, a vetusta cidade espanhola que abriga a Universidade de Navarra: &#8220;Não dê comida aos militares&#8221;. Lá na Espanha, alguns jovens se recusam a prestar serviço militar e a pichação é uma das formas pelas quais expressam o descontentamento.</p>
<p>&#8220;Não dê comida aos políticos&#8221; é um chamamento à cidadania. Ainda mais agora, quando os políticos se revezam nos seus postos e os que ainda continuam teimam em dobrar seus salários no Congresso – sempre às custas do contribuinte.</p>
<p>Se o cidadão é responsável pelos homens públicos que elege, os benefícios, ou melhor, o nada que se tem em troca, tem muito a ver com essas escolhas. Os governantes funcionam como uma espécie de espelho-síntese da sociedade. É triste, mas é assim. Depois de feito o estrago com o baixo nível dos eleitos, não adianta choramingar falta de opções.</p>
<p>Nada garante no Brasil construído até hoje que a comida que se deu aos políticos supriu-os, na sua grande maioria, de saúde para tocar um país das nossas dimensões. Deve-se dar comida aos políticos, sim, mas àqueles que saberão transformar este pão em benefício público. Cada miserável encontrado na rua é um flash da comida que se deu para engordar políticos e que não chegou aos milhões que comem mal ou não têm de comer.</p>
<p>Ao falar dos governantes em geral, o escritor cubano Reinaldo Arenas (um suicida lúcido cujas memórias são lançadas agora no Brasil) se referia à &#8220;classe reacionária que está sempre no poder&#8221;. Ele escreveu isso já aidético e exilado nos EUA, a democracia que o acolheu e nem por isso deixou de ser criticada.</p>
<p>O político em campanha é uma coisa e eleito é outra; o brasileiro o sabe. O poder, aliado às dificuldades que estão na raiz das gorduras do Estado brasileiro (e os Estados propriamente ditos não estão fora dessa estupidez, é só ver a situação calamitosa de vários bancos estaduais), tem transformado governantes em reacionários e os legisladores em legisladores de causas próprias.</p>
<p>Portanto, mais uma vez, porque a redundância faz-se necessária: pense bem antes de dar de comer aos políticos.</p>
<p>Ilustração: Acrílico sobre madeira, sem título, de Leonilson, 1988.</p>
<p>Publicado na Revista da Folha em 13/11/94, pág. 30.</p>
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		<title>Desconfie, sim senhor</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 19:15:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Ninguém deve confiar nos políticos, é o senso comum. Porque política, dizia Ulysses Guimarães, seria a arte do possível, não a do que se deseja fazer.
Também integra o senso comum a idéia de que os políticos das democracias desenvolvidas seriam mais confiáveis do que os nossos, demagogos do Terceiro Mundo.
Pois bem, as revelações do médico [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ninguém deve confiar nos políticos, é o senso comum. Porque política, dizia Ulysses Guimarães, seria a arte do possível, não a do que se deseja fazer.</p>
<p>Também integra o senso comum a idéia de que os políticos das democracias desenvolvidas seriam mais confiáveis do que os nossos, demagogos do Terceiro Mundo.</p>
<p>Pois bem, as revelações do médico do finado presidente francês François Mitterrand mostram o quão sábio é este conceito trivial: nunca acredite em políticos, não importa de onde sejam.</p>
<p>Mitterrand foi um monumento. E isto não é nenhuma ironia com o fato de ele ter erigido grandes monumentos, como a pirâmide de vidro no Museu do Louvre. Ele foi o mais importante político socialista já eleito e reeleito pelo voto popular. Inaugurou a coabitação sadia de um presidente socialista com um ministério conservador. Colocou-se como o contraponto à arrogante França gaullista cujos vestígios todos viram nos testes nucleares retomados por Jacques Chirac.</p>
<p>Em suma, Mitterrand foi o homem mais respeitado em toda a França nos últimos quatorze anos.</p>
<p>Sua credibilidade era tanta que, mesmo quando mentia, o seu tom e o seu olhar eram de sustentação da verdade. Eu o vi enfrentando o concorrente Jacques Chirac num debate na televisão, garantindo não ter feito algo que realmente fez.</p>
<p>No caso agora revelado, uma de suas promessas quando candidato era a de que, caso fosse eleito, propiciaria aos franceses um boletim bianual sobre a saúde do presidente. Os boletins realmente vieram e, como se sabe após a divulgação do livro do doutor Claude Gubler, eram mentirosos.</p>
<p>No primeiro ano de seu governo, em 1981, Mitterrand já sofria de câncer na próstata, depois espalhado para os ossos. O fato de Gubler ter ido adiante nas suas revelações e dito que, no final do mandato, Mitterrand não tinha mais condições de governar não é relevante para o fato principal: a má saúde do presidente foi considerada &#8220;segredo de Estado&#8221;. Isto não impediu que o próprio se reelegesse para um segundo mandato de sete anos, em 1988.</p>
<p>O livro de Gubler, &#8220;O Grande Segredo&#8221;, apreendido por ordem da Justiça francesa após queixa da família de Mitterrand, procura mostrar que o fato de o presidente ter sobrevivido tanto tempo é um milagre da medicina. Ele recebia hormônios e, quando não fizeram mais efeito, trataram-no com quimioterapia. No final, o médico acabou afastado do tratamento e a publicação do livro teria sido a sua vingança. O médico negou a vingança e declarou ser vítima de uma armadilha de Mitterrand quando aceitou esconder a doença presidencial sob a argumentação do &#8220;segredo de Estado&#8221;.</p>
<p>Pelo sim, pelo não, saibam os mortais comuns que, sob este conceito e dependendo das necessidades, o que for considerado segredo de Estado deve permanecer como tal e quem paga os impostos vai ficar sem saber dele – a menos que algum investigativo órgão de comunicação o descubra e o torne público.</p>
<p>O povo francês acreditou durante quase 14 anos ter um presidente sadio, apoiado nos boletins médicos, algo que coloca em questão também a idoneidade do profissional da medicina – mesmo quando se tenta compreender as baboseiras que deve ter ouvido sobre as &#8220;razões de Estado&#8221;.</p>
<p>Por essas e outras, lá vai: nunca acredite em políticos, de nenhum lugar neste mundo.</p>
<p>Ilustração: Edouard Manet, O Tocador de Pífano, 1866.</p>
<p>Publicado na Revista da Folha em 11/02/96, pág.30.</p>
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		<title>Mestre de jornalismo</title>
		<link>http://caiotulio.com/mestre-de-jornalismo/</link>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 19:06:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu comecei a trabalhar na Folha em 1981, quando fui contratado para editar a &#8220;Ilustrada&#8221;. Cláudio não estava mais lá ou estava se preparando para ser correspondente na Inglaterra. Eu vinha trabalhando com Cláudio Abramo desde 1978, no jornal mensal Leia Livros, um book review editado pela Editora Brasiliense e que pertencia ao Cláudio e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Eu comecei a trabalhar na <em>Folha</em> em 1981, quando fui contratado para editar a &#8220;Ilustrada&#8221;. Cláudio não estava mais lá ou estava se preparando para ser correspondente na Inglaterra. Eu vinha trabalhando com Cláudio Abramo desde 1978, no jornal mensal Leia Livros, um book review editado pela Editora Brasiliense e que pertencia ao Cláudio e ao Caio Graco Prado. Ambos eram sócios neste jornal e o Cláudio era o secretário-geral do Leia Livros. Ele escolheu esta denominação ao dizer que se dera certo no Vaticano e no Kremlin então podia dar certo no Leia. Na época, o socialismo ainda não havia ruído&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Cláudio foi meu grande professor de jornalismo. Convivia bastante com ele por conta do Leia, o qual fechávamos sempre nas madrugadas, depois que ele chegava da <em>Folha</em>, enquanto estava no jornal escrevendo editoriais (tinha sido afastado da redação), e depois, quando ele trabalhou no Jornal da República.</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Cláudio dizia que o jornalismo era um exercício cotidiano de inteligência e caráter. Não existia meio termo com ele; ou gostava muito de uma pessoa ou a odiava. Era assim no jornalismo e ai de quem pisasse na bola do caráter. Foi a partir dele que acabei fazendo contato com os melhores intelectuais e jornalistas daquela geração. Foi com ele que aprendi a editar, cortar e titular textos. Foi com ele que aprendi a pautar e a escolher quem deveria escrever sobre qual assunto. </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Cláudio tinha uma cultura enciclopédica, mas nenhum eruditismo. Naquela época, final dos anos 1970, ele já tinha visto praticamente tudo. Era cético, mas sem ser pessimista. Trabalhava desesperadamente para acabar com o que ainda restava de ditadura. Generoso com os amigos e exigente com os inimigos, nunca poupou quem tivesse faltado com o caráter numa situação ou em outra. Inclusive com alguns mitos que eu colecionava. </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><strong><span style="font-size: small;">O mais arguto</span></strong></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Eu usava, na Brasiliense, a mesa que fora de Monteiro Lobato, meu primeiro grande ídolo. Cláudio não entendia esta decisão e exigia que o busto de Lobato fosse virado para a parede quando ele adentrasse. Era um busto de bronze, ficava na recepção. Nazaré, secretária do Caio Graco, era obrigada a virá-lo para a parede quando o Cláudio se aproximava. Ele era assim, idiossincrático. Nunca entendi direito a bronca contra Lobato. &#8220;Ele me deu uma entrevista uma vez vestido de peignoir e do parapeito da janela&#8221;, dizia o Cláudio – eu continuava sem entender a bronca. Nunca perdoou Jorge Amado, outro exemplo, talvez porque se popularizara demais&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Todas as histórias que contavam sobre o Cláudio me pareciam exageradas. Descobri depois que eram todas verdadeiras e nada exageradas. Como uma vez, chegando na Lisboa salazarista, bateu a bengala no balcão da alfândega e gritou: &#8220;Eu quero um tradutor! Eu quero um tradutor!&#8221;. Não se fazem mais pessoas como Cláudio Abramo.</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Foi a reforma de 1975 que colocou a <em>Folha</em> na rota dos grandes jornais, tanto do ponto de vista conceitual quanto estilístico. Do ponto de vista conceitual, foi a reforma que lhe deu o caráter pluralista e ecumênico que ela guarda até hoje. Do ponto de vista estilístico, foi Cláudio quem criou, por exemplo, duas páginas que nenhuma reforma gráfica pela qual o jornal passou (e foram inúmeras) conseguiu destruir: as páginas 2 e 3 da <em>Folha</em> são praticamente as mesmas desde aquela época. Que força tem aquela diagramação, saída do lápis do Cláudio, que também desenhava!</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Não há jornalismo brasileiro, em especial em São Paulo, nas décadas de 1960 e 70, sem Cláudio Abramo. Ele ajudou a erigir o Estado de S.Paulo e depois articulou a grande reforma que deu à <em>Folha</em> de S.Paulo a estrutura que ela adquiriu dos anos 1980 em diante. Foi o mais arguto secretário de redação que os jornais paulistas já tiveram. Ele era o exemplo vivo do exercício cotidiano de inteligência e força de caráter.</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;">Publicado no <em>Observatório da Imprensa</em> em 4/7/2005</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><a href="http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=336MCH009" target="_blank">Clique aqui para ir à página do Observatório</a></span></p>
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		<title>Desnorteados?</title>
		<link>http://caiotulio.com/desnorteados/</link>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 19:04:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Publicado em O Globo de 16/1/2005
A abertura de arquivos está na ordem do dia, mesmo a contragosto dos mais fervorosos cumpridores de ordens do dia. Ao largo dessa discussão trabalha-se pela recuperação de outro tipo de arquivo, aquele que não ficou escondido nem por razões de Estado nem por birra de militares, arquivos capazes de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;">Publicado em <em>O Globo</em> de 16/1/2005</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">A abertura de arquivos está na ordem do dia, mesmo a contragosto dos mais fervorosos cumpridores de ordens do dia. Ao largo dessa discussão trabalha-se pela recuperação de outro tipo de arquivo, aquele que não ficou escondido nem por razões de Estado nem por birra de militares, arquivos capazes de compor a memória do movimento estudantil brasileiro. </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Projeto encabeçado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela Fundação Roberto Marinho (quem apostaria que estas instituições acabariam dando as mãos, hein?) pretende recolher toda a documentação esquecida, escondida ou bem guardada - fruto da militância e vivência naquela idade em que tudo é possível. </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Um forte apelo de mídia solicita a todos os detentores de documentos relativos ao movimento estudantil &#8211; fotos, panfletos, faixas, cartas, bilhetes, relatórios, relatos de assembléias, bonés, camisetas &#8211; que os enviem ao Museu da República, no Rio, para depois formarem o acervo permanente na UNE. Em paralelo, continua mofando nos arquivos federais a documentação das estripulias estudantis que escapou à destruição covarde<span> </span>dos arapongas e dos militares.</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">A rigor, já se encontra aberta parte da documentação oficial, a dos arquivos da polícia política paulista e da carioca. As autoridades estaduais não tiveram os pruridos das autoridades federais. Nada mais tranqüilo, portanto, do que liberar todos os arquivos federais. Todos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Esse projeto de memória do movimento estudantil fez mais. Primeiro, procurou os líderes históricos e colheu seus depoimentos. Segundo, reuniu historiadores, sociólogos e ex-militantes em <em>workshop</em> no Rio de Janeiro e depois num seminário no Tuca, o histórico teatro da PUC de São Paulo, palco de grandes manifestações e de pancadarias como no congresso de reconstrução da UNE, em 1977, quando foi invadido pela polícia.</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Pancadaria não é o que falta nessa história. Organizados sob a bandeira da UNE (nascida em agosto de 1937), os estudantes brasileiros têm tido participações legítimas na construção da democracia. Apanharam, mas realizaram. </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">E qual seria a relevância do movimento estudantil? É um movimento social ou apenas um mito que acabou &#8220;sacralizado&#8221;? Tem história própria? Para a professora Maria Aparecida de Aquino, que esteve à frente da indexação dos arquivos do DOPS, essa história pode ser dividida em três fases: </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Primeiro a fase Nacionalista, do início do século XX até 1968. Basta lembrar a força estudantil no mote &#8220;O petróleo é nosso&#8221;, de 1947, no apoio à posse de João Goulart ou então nos enfrentamentos contra a ditadura militar cujo auge se deu em 1968 com a passeata dos Cem Mil &#8211; e parece que não havia cem mil em passeata&#8230; </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">A segunda vai de 1968 a 1974, considerada por Aquino a fase Revolucionária, quando a aspiração dos líderes é a de criar um governo socialista. Muitos estudantes &#8211; os que não estavam no exílio nem tinham sido assassinados pela ditadura &#8211; participaram da guerrilha urbana ou rural. Período brutal finalizado com a anistia &#8211; campanha também impulsionada pelos estudantes. </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">A terceira parte começou em 1974 e pode ser demarcada até a campanha pelas eleições diretas, em 1984, ou até a derrubada do governo Collor, em 1991. É a fase Democratizante. Voto direto para presidente. Caras-pintadas. </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">E de lá para cá? Desnorteados? Ou seja, sem norte? </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Uma UNE que volta a falar em Projeto Rondon (joinha dos militares durante a ditadura, o programa remetia universitários para ajudar em áreas carentes &#8211; movimento vigorosamente boicotado pelos líderes estudantis da época) e engole essa denominação carimbada pelo regime de exceção, mesmo que seja um projeto &#8220;irado&#8221;, tem norte? </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Mais: no que este material histórico e analítico pode ajudar o estudantado de agora? Quais seriam as perspectivas para a pequenina juventude engajada, que vive uma realidade multifacetada, polifônica, poliárquica, dominada pela assimetria na informação e, ainda por cima (e por sorte), sem um inimigo claro e comum? </span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial;"><span style="font-size: small;">Com os estudantes, a palavra, ou melhor, a ação.</span></span></p>
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