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	<title>Caio Túlio Costa</title>
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	<description>Novas mídias, internet, ética, moral, jornalismo</description>
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		<title>&#8220;Encontro com gigantes&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Mar 2010 14:14:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Veja entrevista de Caio Túlio Costa dada a Lorena Calabria, apresentadora do programa de rádio Encontro com Gigantes. A gravação foi feita em 21 de janeiro de 2010.

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Veja entrevista de Caio Túlio Costa dada a Lorena Calabria, apresentadora do programa de rádio Encontro com Gigantes. A gravação foi feita em 21 de janeiro de 2010.</p>
<p><object width="640" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/gnb5tmSAP-U&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/gnb5tmSAP-U&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="640" height="385"></embed></object></p>
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		<title>Cronograma das aulas</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Mar 2010 14:30:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Programa]]></category>
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		<description><![CDATA[CURSO DE ÉTICA JORNALÍSTICA
FACULDADE CÁSPER LÍBERO &#8211; Graduação em Jornalismo
Roteiro das aulas &#8211; 1º Sem 2010
24/02 &#8211; Atividade 1: O professor conversa com os alunos para conhecer cada um e se coloca à disposição para responder a perguntas.
03/03 &#8211; Atividade 2: Apresentação e discussão do sistema de controle de faltas, de avaliação, do programa e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>CURSO DE ÉTICA JORNALÍSTICA</strong></p>
<p><strong>FACULDADE CÁSPER LÍBERO &#8211; Graduação em Jornalismo</strong></p>
<p><strong>Roteiro das aulas &#8211; 1º Sem 2010</strong></p>
<p><strong>24/02</strong> &#8211; Atividade 1: O professor conversa com os alunos para conhecer cada um e se coloca à disposição para responder a perguntas.</p>
<p><strong>03/03</strong> &#8211; Atividade 2: Apresentação e discussão do sistema de controle de faltas, de avaliação, do programa e da bibliografia do curso.</p>
<p><strong>10/03</strong> &#8211; Atividade 3: Aula expositiva sobre Moral e Ética.</p>
<p><strong>17/03</strong> &#8211; Atividade 4: Discussão em classe do texto de Borges/Bioy Casares: “O Inimigo número 1 da censura”.</p>
<p>· Exposição dos temas fundamentais do texto: a hierarquização; a censura.</p>
<p><strong>24/03</strong> &#8211; Atividade 5: Discussão em classe da tese <em>De relationibus novellis (Os relatos jornalísticos)</em>, de Tobias Peucer.</p>
<p>· Exposição dos temas fundamentais do texto: os primórdios do jornalismo; o tripé ética, verdade e justiça.</p>
<p><strong>31/03</strong> – Atividade 6: Discussão em classe e do texto de Octavio Ianni: “O Príncipe Eletrônico”.</p>
<p>· Exposição dos temas fundamentais do texto: A mídia hoje; Modernidade e Pós Modernidade; a questão ética na pós-modernidade.</p>
<p><strong>07/04 &#8211; Atividade 7: Prova Bimestral.</strong></p>
<p><strong>14/04</strong> – Atividade 8: Análise, discussão da prova e entrega das notas.</p>
<p><strong>28/04</strong> &#8211; Atividade 9: <em>Antígona</em>, de Sófocles.</p>
<p>· Exposição do tema fundamental do texto: razões de família; razões de Estado; a tragédia do não-diálogo (conforme E. Bucci).</p>
<p><strong>05/05</strong> &#8211; Atividade 10: O julgamento de Sócrates, por Platão e Xenofonte.</p>
<p>· Exposição dos temas fundamentais de ambos os textos: O julgamento; o valor da verdade; razões da condenação; noção da democracia ateniense.</p>
<p><strong>12/05</strong> &#8211; Atividade 11: Os jardins de Epicuro.</p>
<p>· Exposição dos temas fundamentais do texto: o declínio da política; uma ética voltada para o prazer; o prazer como elevação, não submissão às paixões.</p>
<p><strong>19/05</strong> &#8211; Atividade 12: Montaigne, “A covardia é a mãe da crueldade”.</p>
<p>                · Exposição do tema fundamental do texto: a covardia.</p>
<p><strong>26/05</strong> &#8211; Atividade 13: <em>Hamlet</em>, de Shakespeare.</p>
<p>· Exposição dos temas fundamentais do texto: a angústia; o dilema, o planejamento: como fundamentar a escola ética?</p>
<p><strong>02/06</strong> &#8211; Atividade 14: Velázquez e ”Las Meninas” via Michel Foucault.</p>
<p>· Exposição dos temas fundamentais do texto: inserção de “Las Meninas” no contexto histórico; o jornalismo como representação da representação.</p>
<p><strong>09/06</strong> &#8211; Atividade 15: Kant e o imperativo categórico.</p>
<p>· Exposição dos temas fundamentais do autor para a disciplina: o imperativo categórico; condições para o imperativo categórico; relações possíveis entre o imperativo categórico e a deontologia do jornalismo.</p>
<p><strong>16/06</strong> &#8211; Atividade 16: <em>As Ilusões Perdidas</em>, de Balzac.</p>
<p>· Exposição dos temas fundamentais do texto: o nascimento da indústria cultural; o jornalismo de encomenda; a flexibilidade da palavra.</p>
<p><strong>23/06 &#8211; Atividade 17: Prova bimestral.</strong></p>
<p><strong>30/06</strong> &#8211; Atividade 18: Análise, discussão da prova e entrega das notas.</p>
<p>Data final para entrega dos relatórios da Atividade Complementar.</p>
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		<title>O inimigo número 1 da censura</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Mar 2010 13:18:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Material Didático]]></category>
		<category><![CDATA[Bioy Casares]]></category>
		<category><![CDATA[Borges]]></category>
		<category><![CDATA[censura]]></category>
		<category><![CDATA[inimigo]]></category>

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		<description><![CDATA[Perfil de Ernesto Gomensoro para servir como prólogo à sua Antologia
Conto de Jorge Luis Borges e Adolpho Bioy Casares
Tradução de Caio Túlio Costa
Sobrepondo-me ao sentimento que o coração me dita, escrevo com a Remington este perfil de Ernesto Gomensoro, para servir como prólogo à sua Antologia. Por um lado tenho um certo remorso de não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h2>Perfil de Ernesto Gomensoro para servir como prólogo à sua Antologia</h2>
<p><strong>Conto de Jorge Luis Borges e Adolpho Bioy Casares</strong></p>
<p>Tradução de Caio Túlio Costa</p>
<p>Sobrepondo-me ao sentimento que o coração me dita, escrevo com a Remington este perfil de Ernesto Gomensoro, para servir como prólogo à sua Antologia. Por um lado tenho um certo remorso de não poder cumprir de modo cabal com a ordem de um defunto; por outro me dou o gostinho melancólico de retratar esse homem de valor que os pacíficos vizinhos de Maschwitz (1) ainda hoje recordam sob o nome de Ernesto Gomensoro. Não esquecerei muito facilmente daquela tarde em que ele me acolheu, com chá-mate e biscoitinhos, na varanda de sua casa, perto da linha do trem. A razão de eu me bandear até aquele fim de mundo foi a comoção natural de ter sido objeto de uma correspondência dirigida à minha casa, convidando-me a figurar na Antologia que ele então incubava. O fino olfato de tão extraordinário mecenas despertou meu sempre espevitado interesse. Ademais, quis tomar sua palavra ao vivo, sem arrependimentos, e decidi levar em mãos a colaboração, para evitar as clássicas demoras que se imputam aos nossos correios. (2)</p>
<p>A cabeça calva, o olhar perdido no horizonte rural, o rosto largo de barba grisalha, a boca em geral encaixada na bombilha do mate, o lenço asseado sob o queixo, o tórax de touro e um terno leve de linho mal passado constituíram meu primeiro instantâneo. Sentado na poltrona de vime, o atrativo conjunto de nosso anfitrião complementou-se rápido com a voz afável que me indicou o banquinho de cozinha para que eu me sentasse. Com a certeza de pisar caminho firme agitei o cartão-convite na frente de seus olhos, ufanista e tenaz.</p>
<p>– Sim – disse com displicência –, mandei a circular para todo mundo.</p>
<p>Semelhante sinceridade me desvaneceu.</p>
<p>Em tais casos, a melhor política é se congraçar com o homem que tem nossa sorte em suas mãos. Declarei-lhe com total franqueza que eu era repórter de artes e letras da Última hora e que meu verdadeiro propósito era consagrar-lhe uma reportagem. Não se fez de rogado. Pigarreou para limpar a garganta e disse com a sinceridade comum às figuras distintas:</p>
<p>– Avalio seu propósito de coração. Previno-o que não vou falar de censura, porque todo mundo anda repetindo que sou monotemático e que a guerra contra a censura se transformou em minha idéia fixa. Você rebaterá com a objeção de que hoje em dia poucos temas apaixonam tanto quanto este. Não é pra menos.</p>
<p>– Como o sei – suspirei –, o pornógrafo mais sem preconceito vê todo dia mais um bloqueio em seu campo de ação.</p>
<p>Sua resposta me deixou sem outro recurso que o de abrir a boca.</p>
<p>– Eu já maliciava que você agarraria por este lado. Reconheço prontamente que não é muito simpático falar em colocar restrições ao pornógrafo. Mas esse caso tão cacarejado não é mais do que café-com-leite, uma faceta do assunto. Gastamos tanta saliva contra a censura moral e contra a censura política que passamos por cima de outras variedades que são muito mais atentatórias. Minha vida, se você me permite chamá-la assim, é um exemplo pedagógico. Filho e neto de progenitores que foram invariavelmente justiçados pela mesa de exame me vi desde menino preparado para as mais diversas tarefas. Foi assim que me arrastou o redemoinho da escola primária, a corretagem de malas de couro e, em tempinhos roubados da faina diária, a composição de um ou outro verso. Este último fato, tão carente de interesse, atiçou a curiosidade dos espíritos inquietos de Maschwitz e não demorou a se espalhar e ganhar corpo no boca-a-boca. Senti, como quem vê subir a maré, que o povo em consenso, sem distinção de sexo nem idade, veria com alívio o fato de eu começar a publicar nos jornais. Semelhante apoio me impeliu a mandar pelos correios, para revistas especializadas, a ode En camino! A resposta foi a conspiração do silêncio, com a honrosa exceção de um suplemento que a devolveu sem nada dizer.</p>
<p>Aí pude ver o envelope, em uma moldura.</p>
<p>– Não me deixei desanimar. Minha segunda carga assumiu uma natureza maciça; remeti simultaneamente a não menos de quarenta órgãos o soneto En Belén e depois, continuando o bombardeio, as décimas Yo alecciono. Para a miscelânea literária (3) La alfombra de esmeralda e o novelinho (4) Pan de centeno lhes coube, você não vai acreditar, a mesma sorte. Esta estranha aventura foi acompanhada, em simpático suspense, pelas autoridades e pelo pessoal dos correios, que se apressaram em divulgá-la. O resultado era previsível: o doutor Palau me nomeou diretor do diretor do suplemento literário das quintas-feiras do diário La opinión.</p>
<p>Desempenhei essa magistratura civil durante quase um ano, quando me tiraram de lá. Fui, acima de tudo, imparcial. Caro Bustos, nada pode intranqüilizar minha consciência nas altas horas. Se somente uma única vez dei guarida a um filho de minha musa – o novelinho Pan de centeno, que deslanchou uma persistente campanha de oferecidos e anônimos – o fiz sob o pseudônimo de Capitão Nemo, numa alusão, que nem todos captaram, a Julio Verne. Não foi só por isso que me puseram no olho da rua; não teve um animal vivo que não me impingiu a culpa de que a edição das quintas-feiras era uma lata de lixo ou, se você preferir, a última farsa. Aludiam, quando muito, à qualidade ínfima das colaborações expostas. A acusação, sem dúvida, era justa; sem a compreensão do critério que me dei como bússola. Mais náusea do que dos piores críticos continuo tendo quando faço a leitura retrospectiva daqueles papeluchos sem tom nem som que eu sequer deixava o senhor gerente da gráfica folhear. Eu lhe falo, como você vê, com o coração nas mãos: passar do envelope à linotipo era automático e eu nem me dava ao trabalho de averiguar se eram em prosa ou verso. Peço-lhe que acredite em mim: meu arquivo guarda um exemplar no qual se repete duas ou três vezes a mesma fábula, copiada de Iriarte (5) e assinada de maneira contraditória. Anúncios de Chá Sol e de Erva Gato se alternavam gratuitamente com o resto das colaborações, não faltaram nem esses versinhos que os desocupados deixam no banheiro. Apareciam também nomes femininos da maior respeitabilidade, com o número do telefone.</p>
<p>Como já previa a minha senhora, o doutor Palau acabou encolerizando-se (6) e me disse cara-a-cara que a folha literária se acabou e que não podia me dizer que me agradecia pelos serviços prestados porque não estava de brincadeiras e que eu fosse embora no trote.</p>
<p>Sou-lhe sincero: para mim a demissão deve ser atribuída, por incrível que pareça, à publicação fortuita da notável miscelânea literária El malón, que revive um episódio muito querido na região, a devastadora incursão dos índios pampas, que não deixaram títere com cabeça. A história do flagelo foi posta em dúvida por mais de um iconoclasta de Zárate (7); o indiscutível é que insuflou os valentes versos de Lucas Palau, leiloeiro e sobrinho de nosso diretor. Jovem, quando você estiver para pegar o trem, o que falta pouco, eu te mostrarei a miscelânea literária a que aludi, porque a tenho emoldurada. Eu a havia publicado, segundo minha norma, sem fixar-me na assinatura nem no texto. O poeta, me disseram, investiu com outros versos que aguardavam sua vez e que não saíram porque nunca deixei de respeitar a ordem de chegada. Despropósito por despropósito, eu os ia postergando; o nepotismo e a impaciência venceram e então tive de encontrar a porta de saída. Retirei-me.</p>
<p>Em toda esta tirada Gomensoro falou-me sem amargura e com evidente sinceridade. Meu rosto exibia o reconhecimento de alguém que contempla um porco voando e levei um certo tempo para articular:</p>
<p>– Devo ser um obtuso, não o capto por inteiro. Quero entender. Quero entender.</p>
<p>– Ainda não chegou a sua hora – foi a resposta. Pelo que vejo você não é de uma região capaz de atrair todos os meus amores, mas obtuso – para repetir sua opinião, não menos objetiva do que severa – bem poderia sê-lo, por não ter entendido nada do que lhe estou afiançando. Mais um testemunho dessa difundida incompreensão foi o fato de a Comissão de Honra dos Jogos Florais, que tanta honra deram à nossa pujante localidade, ter me convidado para ser jurado da mesma. Não haviam entendido nada! Como era meu dever, declinei. A ameaça e o suborno se estilhaçaram contra minha decisão de homem livre.</p>
<p>Neste ponto, como quem já havia entregado a chave do enigma, sugou de novo o mate e se encastelou em seu foro interior.</p>
<p>Quando se esgotaram os biscoitos atrevi-me a sussurrar com voz de flauta:</p>
<p>– Não consigo, meu chefe, compreendê-lo.</p>
<p>– Tudo bem, colocarei em palavras do seu nível. Aqueles que socavam com a pena as bases dos bons costumes ou do Estado não desconhecem, ou melhor, expõem-se a enfrentar frente a frente o rigor da censura. Este fato é inqualificável, mas comporta certas regras de jogo e aquele que as infringe sabe o que faz. Por outro lado vejamos o que se passa quando você aparece numa redação com um original que é, por onde se quiser olhá-lo, uma verdadeira salada. Lêem-no, devolvem-no e lhe dizem que o coloque onde quiser. Aposto que você sai com a certeza de que fizeram de você a vítima da mais desapiedada censura. Suponhamos agora o inverossímil. O texto submetido por você não é uma cretinice e o editor o leva em consideração e manda imprimi-lo. Bancas e livrarias o colocarão ao alcance dos incautos. Para você, tudo é êxito, mas a irretorquível verdade, meu estimado jovem, é que o seu original, mal-jeitoso ou não, passou pela humilhação (8) da censura. Alguém o observou, mesmo que apenas de uma olhada, que tenha só dado uma olhada, alguém o julgou, alguém o meteu num baú ou encaminhou para a tipografia. Por mais infamante que pareça, este fato se repete continuadamente, em todo jornal, em toda revista. Sempre topamos com um censor que elege ou descarta. É isso o que não agüento nem agüentarei. Você começa a entender meu critério quando eu estava na direção do Suplemento? Nada revisei nem julguei; tudo encontrou guarida no Suplemento. Nestes dias a sorte, na forma de uma súbita herança, acabou me permitindo confeccionar a Primeira antologia aberta da literatura nacional. Assessorado pela lista telefônica e outros guias dirigi-me a todas as pessoas vivas, você inclusive, solicitando que me mandem aquilo que lhes dá ganas. Observarei, com a maior eqüidade, a ordem alfabética. Fique tranqüilo: tudo sairá em letra de imprensa, por mais porcaria que seja. Não quero retê-lo. Já estou ouvindo o apito do trem que vai reintegrá-lo à sua faina diária.</p>
<p>Saí daquela vez pensando em quem me havia dito que essa primeira visita a Gomensoro seria também a última. O diálogo cordial com o amigo e mestre não voltaria a acontecer, ao menos nesta margem da lagoa Estige (9). Meses depois a Parca (10) o arrebatou de sua casa de Maschwitz.</p>
<p>Com sua repugnância a qualquer ato que envolvesse um mínimo de eleição, me disseram que Gomensoro embaralhou em uma barrica os nomes dos colaboradores e desta tômbola saiu agraciado meu nome. Tocou-me uma fortuna cujo montante superava meus mais brilhantes sonhos de cobiça, sob a única obrigação de publicar com brevidade a antologia completa. Aceitei com o apuro que era de se supor e me transladei até a casa que me acolhera onde me cansei de contar galpões cheios de manuscritos que já beiravam a letra C.</p>
<p>Senti como se tivesse sido atingido por um raio quando conversei com o gráfico. Mesmo em papel serpentina e em letra de lupa a fortuna deixada não dava para passar além de Añañ!</p>
<p>Já publiquei em brochura toda essa fornada de volumes. Os excluídos, de Añañ para frente, me deixam meio louco com processos e querelas. Meu advogado, o doutor González Baralt, alega em vão, como prova de retidão, que eu também, cujo nome começa com B, fiquei fora, para não falar da impossibilidade material de incluir outras letras. Ele me aconselha, neste ínterim, que eu busque refúgio no hotel O Novo Imparcial, com um nome falso.</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p>(1) Cidade argentina. [N.d.T.]</p>
<p>(2) O texto que levei foi “El hijo de su amigo”, que o investigador encontrará no corpus deste volume, à venda nas boas livrarias. [Nota dos autores]</p>
<p>(3) “Silva”, traduzido aqui como miscelânea literária: composição poética em que se alternam versos de dez sílabas com versos de seis sem rima certa e regular e admitindo até alguns versos soltos. [N.d.T.]</p>
<p>(4) Novelinho (“ovillejo”) é uma combinação métrica de três versos octassílabos, cruzados com três pés-quebrados que rimam com os versos e de uma redondilha final cujo último verso se compõe dos três pés-quebrados. [N.d.T.]</p>
<p>(5) Provavelmente Tomás Iriarte (1750 -1791) [N.d.T.]</p>
<p>(6) No original “montar el picazo”, que significa encolerizar-se na expressão argentina. [N.d.T.]</p>
<p>(7) Cidade ao norte de Buenos Aires. [N.d.T.]</p>
<p>(8) “Uno pasó pelas horcas caudinas de la censura”, em sentido figurado, quer dizer que alguém sofreu a vergonha de fazer por força o que não queria. [N.d.T.]</p>
<p>(9) Na mitologia grega a lagoa Estige separava o reino dos vivos do reino dos mortos. [N.d.T.]</p>
<p>(10) Parca: na mitologia grega é cada uma das três deusas (Cloto, Láquesis e Átropos) que determinam o curso da vida humana, em sentido figurado significa a morte. [N.d.T.]</p>
<p>• • •</p>
<p>Publicado em BORGES, Jorge Luis &amp; BIOY CASARES, Adolfo. Nuevos cuentos de Bustos Domecq. Madri. Siruela, 1986. Traduzido por Caio Túlio Costa em 2003 para uso no curso de Ética Jornalística.</p>
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		<title>Os relatos jornalísticos</title>
		<link>http://caiotulio.com/os-relatos-jornalisticos/</link>
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		<pubDate>Mon, 01 Mar 2010 17:20:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Material Didático]]></category>

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		<description><![CDATA[PEUCER, Tobias. De relationibus novellis. Leipzig: Tese (Doutorado em Periodística) &#8211; Universidade de Leipzig, 1690. Tradução de Paulo da Rocha Dias. São Bernardo do Campo: PósCom-Umesp, 1999. [Mimeo].¹
Preâmbulo do tradutor 
Tobias Peucer faz parte de um grupo que, na primeira metade do século XVII, começara a pesquisar e a publicar os resultados de suas investigações [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size: 11pt;">PEUCER, Tobias. De </span><em><span style="font-size: 11pt;">relationibus novellis. </span></em><span style="font-size: 11pt;">Leipzig: Tese (Doutorado em Periodística) &#8211; Universidade de Leipzig, 1690. Tradução de Paulo da Rocha Dias. São Bernardo do Campo: PósCom-Umesp, 1999. [Mimeo].¹</span></p>
<p class="Estilo" style="text-align: justify;"><strong><em><span style="font-size: 11pt;">Preâmbulo do tradutor </span></em></strong></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.8pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">Tobias Peucer faz parte de um grupo que, na primeira metade do século XVII, começara a pesquisar e a publicar os resultados de suas investigações nas universidades alemãs. Este fato coloca a Ale­manha no ponto inicial de uma rica tradição de pesquisa em jorna­lismo, continuada no presente século por pesquisadores insignes como Otto Groth e Max Weber. Confirma também a &#8220;Periodistika&#8221; como o primeiro e mais antigo ramo das Ciências da Comunicação e da Informação. </span><span style="font-size: 11pt;">É <span>na Alemanha, e justamente em Leipzig, que surgiu o primeiro diário da história da imprensa, o </span><em><span>Leipziger Zeitung. </span></em></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">A versão em língua portuguesa da tese de Peucer que ora apre­sentamos tem como base a tradução para o Catalão feita pelo profes­sor Josep Maria Casasús, presidente da Societat Catalana de Comuni­cació. Casasús, por sua vez, fez uso do texto original em Latim e da versão do mesmo em alemão. </span><span style="font-size: 11pt;">Cabe dizer aqui que esta tradução é o resultado de um desafio lançado por José Marques de Melo. Há muito que, ao se estudar a &#8220;Zeitungswissenschaft&#8221; nos cursos de pós-graduação em Comunicação, fazia-se apenas referências à pesquisa de Tobias Peucer ou se passava a conhecê-la por meio de fontes indiretas. </span><span style="font-size: 11pt;">É, <span>portanto, útil e oportuno publicar esta versão em português não só por ser um meio de conhecer diretamente o trabalho de Peucer, mas também pela atualidade perene desta investigação realizada há mais de três séculos. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">Aqueles que têm familiaridade com a pesquisa em jornalismo, irão perceber que a maioria dos temas hoje sistematizados e aos quais se recorre permanentemente quando se faz pesquisa nesta área, foram então observados e investigados de forma científica por Tobias Peucer. O trabalho pioneiro desse alemão de Görlitz deu início, em </span><span style="font-size: 11pt;">1690, </span><span style="font-size: 11pt;">na cidade de Leipzig, ao conhecimento acumulado e sistemático de uma ciência que hoje se encontra em fase de amadurecimento e autonomia. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">A leitura dessa tese leva-nos às origens das teorias de jornalismo hoje em voga nos centros de estudos avançados de Comunicação. Ler esses vinte e nove parágrafos será uma busca das origens do pensa­mento moderno em Comunicação. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">Com a permissão benévola de Deus. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;" align="left"><em><span style="font-size: 11pt;">Paulo da Rocha Dias &#8211; </span></em><span style="font-size: 9pt;">Doutorando em Comunicação Social pela Umesp, </span><span style="font-size: 9pt;">Universidade Metodista de São Paulo. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;"><strong><span style="font-size: large;">Os relatos jornalísticos (De relationibus novellis)²</span></strong></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"> </p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ </span><span style="font-size: 11pt;">I. Atesto que não há nada que satisfaça tanto a alma humana como a história, seja qual for a maneira como tenha sido escrita. Pode ser que não oferecerei ao leitor uma obra ingrata se elaboro um comentário sobre as publicações de notícias </span><em><span style="font-size: 11pt;">(novellae) </span></em><span style="font-size: 11pt;">das quais há hoje uma grande abundância. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23.25pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <strong><span>II. </span></strong><span>Quanto ao termo em si, é sabido por todos que </span><em><span>novellae </span></em><span>tem a mesma acepção de Novos Periódicos </span><em><span>(Neue Zeitungen); </span></em><span>porém, este significado não se encontra entre os escritores latinos clássicos. Com efeito, Charles du Fresne, em seu </span><em><span>Glossarium ad scriptores media e et infimae Iatinitatis, </span></em><span>observa que nas glosas manuscritas dos códex dos Concílios, a palavra </span><em><span>novellae, </span></em><span>por si só, significa &#8220;nova comunicação&#8221;, cita aí um exemplo do códex que se encontra na biblioteca real: &#8220;Eodem tempore, cum multi novellis gauderent quod Constantinus baptizatus a Silvestro Episcopo urbis Romae, emundatus fuisset a lepra etc.” ³ </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23.25pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">Depois, porém, os monges passaram a empregar o termo &#8220;no­tícia&#8221;. Isto se pode inferir do manuscrito, em verso, sobre a vida de Saint Mur: &#8220;Est pater in cella, cum nascitur ista novella.&#8221; (4) </span></p>
<p class="Estilo" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">Daí a palavra </span><em><span style="font-size: 11pt;">nouvelle </span></em><span style="font-size: 11pt;">de uso corrente entre os franceses. Antonius Augustinus nota que com esta palavra os imperadores de­signavam as disposições mais recentes. Nós, por proporcionar mais clareza, empregaremos a palavra &#8220;relatos&#8221; </span><em><span style="font-size: 11pt;">(relationes). </span></em></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ III. <span>Porém, como consta nos critérios do meu projeto, em pri­meiro lugar gostaria de dizer algumas coisas sobre as diversas formas da história. Uma dessas formas se ordena como um fio contínuo, con­servando a sucessão precisa dos fatos históricos. Esta forma é denomi­nada universal, particular ou singular. Uma outra, em troca, discorre e resenha em uma determinada ordem os fatos ou as palavras escolhidas e dignas de serem contadas que se extraiu separadamente da narração contínua dos fatos históricos. Isto se faz na medida em que cada coisa </span><em><span>vai </span></em><span>se apresentando. Parece pertencer a esta forma da história as &#8220;coisas esparsas&#8221; </span><em><span>(tá sporáden) </span></em><span>de </span><em><span>Aristógenes; </span></em><span>igualmente as histórias sem ordem de </span><span>Pescenni </span><span>Fest, das quais relembra Lactâncio, </span><em><span>Livro </span></em><span>I,<strong> </strong></span><em><span>DefaIs. relig., </span></em><span>c. XXI e de outros. Segundo Voss, </span><em><span>De art. hist., </span></em><span>c. VII. Uma outra forma, finalmente, é a confusa. Os gregos chamam-na &#8220;miscelânea </span><em><span>(symmictica), </span></em><span>ou seja, &#8220;história variada&#8221; ou &#8220;multiforme&#8221; (poikíle radena pantodapé historía) dado que não há também nesta forma nenhum </span><em><span>critério </span></em><span>de ordem, é chamada também de &#8220;coisas desordenadas&#8221; (átacta). </span><em><span>Foi </span></em><span>desta forma que escreveu </span><em><span>Aristóteles </span></em><span>a sua obra, segundo o testemunho de Laercio, </span><em><span>livro </span></em><span>V, p. 317. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>IV. Esta última classe ou </span><em><span>tipo </span></em><span>de </span><em><span>relationes </span></em><span>são relatos periodísticos </span><em><span>(Relationes novellae) </span></em><span>que contêm a notificação de coisas diversas acontecidas recentemente em qualquer lugar que seja. Estes relatos, com </span><em><span>efeito, </span></em><span>têm mais em conta a sucessão exata dos fatos que estão interrelacionados e suas causas, limitando-se somente a uma </span><em><span>simples </span></em><span>exposição, unicamente a bem do reconhecimento dos fatos </span><em><span>históricos </span></em><span>mais importantes, ou até mesmo misturam coisas de temas diferentes, como acontece na vida diária ou como são propagadas pela voz pública, para que o </span><em><span>leitor </span></em><span>curioso se sinta atraído pela va­riedade de caráter ameno e preste atenção. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>V. Agora cabe expor mais extensamente suas </span><em><span>origens </span></em><span>e as causas de sua composição, para que sejam mais plenamente conhe­cidas sua estrutura e sua utilidade na vida literária e cívica. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>VI. No que se refere à </span><em><span>origem </span></em><span>desses relatos, não é possível assinalar um ano determinado e é difícil afirmar quando, por primeira vez, surgiu esta maneira de escrever este </span><em><span>tipo </span></em><span>de notícias e de relatos, digamos, precipitados. Antigamente, entre os gregos, antes da guerra de Tróia, de acordo com o que </span><em><span>diz Diodor </span></em><span>de Sicília no </span><em><span>início </span></em><span>de sua </span><em><span>Bibliotheca historica, </span></em><span>não era dada nenhuma atenção à história. Muito pelo contrário, antes das Olimpíadas, tudo restava desconhecido e envolto em faltas. Segundo </span><em><span>Censori, De die natali, </span></em><span>c. XXI. Também entre os romanos, nos primeiros séculos depois da fundação da cida­de, a literatura foi muito rara. Tampouco aqui (na Alemanha) havia sequer pessoas que pusessem por </span><em><span>escrito </span></em><span>a memória dos acontecimen­tos. Pode ser exceção aquilo que era registrado nos comentários dos pontífices e em outros documentos públicos e privados (veja </span><em><span>Livi, </span></em><span>livro VI). Esta negligência dos antigos foi compensada depois por </span><em><span>escritores </span></em><span>insignes, tanto gregos como latinos, que, de uma só vez, estabeleceram as bases dos comentários da história escrita. Entre os alemães, antes dos tempos de Carlos Magno, não </span><em><span>creio </span></em><span>que seja possível demonstrar com nenhum tipo de documentos exatos que se </span><span>tenha cultivado o estudo da história. Porém, quando Carlos Magno estendeu seu poder sobre os afazeres da Alemanha, teve início o ensino da história, assim como as outras artes, sobretudo por parte dos monges, que, apesar das dificuldades da época, deixaram por primeira vez uma relação dos fatos históricos em uma crônica. Do mesmo modo, quando no início do século passado começou a brilhar a luz da literatura, homens sérios e doutos se aplicaram novamente com muita assiduidade à tarefa de estabelecer as bases da história. Com isso a sua glória atingiu um tipo de ressurgimento de maneira que muitos se dedicaram a escrever história. Depois, alguns não mais instruídos, querendo imitá-los, recopilaram uns relatos grotescos sobre fatos acontecidos recentemente aqui e acolá, obras precipitadas ex­traídas dos escritos dos palácios, dos mercadores, ou da boato público de sorte que favoreciam a curiosidade do povo, geralmente inclinada, ao conhecimento das coisas novas. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ </span><span style="font-size: 11pt;">VII. Desde então, os itálicos e os gauleses, e depois os belgas e os germânicos, devido ãs guerras que então promoviam com sortes variáveis, parece que afeiçoaram-se rapidamente a este gênero fun­cional de escrita. Em primeiro lugar porque de forma inesperada serão instituídos os correios públicos e postais, como são denomina­dos, e assim se podia conhecer com facilidade o que sucedeu em lugares distantes. Os correios haviam sido instituídos por Augusto pela primeira vez no império romano, segundo Suetônio, </span><em><span style="font-size: 11pt;">Augustus, </span></em><span style="font-size: 11pt;">c. 49. Os correios serão ordenados mais adequadamente no império por Carlos V. Na Gália, Luis XI irá instituir os correios a fim de saber com mais rapidez e conhecer mais facilmente o que se passava em qual­quer que fosse das províncias de seu império. </span><em><span style="font-size: 11pt;">Limn. juro publ., </span></em><span style="font-size: 11pt;">livro </span><span style="font-size: 11pt;">II, </span><span style="font-size: 11pt;">c. IX, n. 135. Finalmente, por obra de Gotard Arthusius, de Gdansk, no ano de 1609, apareceram os mercúrios franco-belgas, que, apesar de anunciar fábulas falsas junto com histórias verdadeiras, consegui­ram a graça da curiosa novidade encontrar credibilidade aos olhos de muitos de maneira indiscriminada. Porque, como diz Lucrécio, livro IV, &#8220;toda a linhagem humana está excessivamente ávida de cativar os ouvidos.&#8221; E, tal como disse Sêneca no livro VII, </span><span style="font-size: 11pt;">C. </span><span style="font-size: 11pt;">16 das </span><em><span style="font-size: 11pt;">Naturales questiones, </span></em><span style="font-size: 11pt;">&#8220;alguns são crédulos, outros descuidados. Outros são enganados de boa fé pela mentira. Outros se deixam seduzir por ela. Uns não a evitam, outros a procuram. Toda esta raça tem em comum o defeito de crer que a sua obra não se fará aceitar nem se tornará popular se não for misturada com fábulas&#8221;. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.8pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>VIII. Assim então, as causas da aparição dos periódicos impres­sos com tempestiva freqüência hoje em dia, são em parte a curiosi</span><span>dade humana e em parte a busca de lucro, tanto da parte dos que confeccionam os periódicos, como da parte daqueles que os comer­ciam, vendem. Assim se poderia demonstrar com exemplos óbvios a cada passo, mas pareceria tedioso entreter-se extensamente em uma coisa conhecida, e poderia afinal ser enfadonho para alguns. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.8pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ </span><span style="font-size: 11pt;">IX. Cabe-nos então avançar primeiramente às causas pelas quais se compõem tais relatos; em primeiro lugar cabe tratar dos autores (que na escola é denominado &#8220;causa eficiente&#8221;). Se alguém espera encontrar nestas umas notícias </span><em><span style="font-size: 11pt;">(novellae) </span></em><span style="font-size: 11pt;">verdadeiras e úteis (empregaremos por enquanto o termo </span><em><span style="font-size: 11pt;">novellae </span></em><span style="font-size: 11pt;">em sentido comum, vulgar), são necessárias diversas coisas. Indicaremos as qualidades do bom historiador; em parte cabe relacioná-las com o intelecto e em parte com a vontade. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.8pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>X. Cabe ao intelecto o conhecimento das coisas que serão registradas nos relatos públicos. Estas são obtidas por inspeção pró­pria </span><em>(autopsia) </em><span>quando o sujeito é espectador </span><em>(autóptes) </em><span>dos aconte­cimentos, ou por transmissão, quando uns explicam aos outros os fatos que presenciaram. E nisso qualquer pessoa concordará sem nenhum problema que é merecedor de mais credibilidade o testemu­nho &#8220;presencial&#8221; </span><em>(autóptes) </em><span>que o receptor de uma transmissão de outro. Assim como nos julgamentos costuma-se dar mais crédito a um testemunho ocular que a um testemunho de ouvidos, assim também se dá mais crédito ao narrador &#8220;presencial&#8221; </span><em>(autóptes) </em><span>que a quem cuja narrativa foi extraída de outro. Pode ser também por esta causa que Verri Flac, no livro </span><em>De verborum significatione, </em><span>citado por Gelli, livro V, c. 18, pretende que a história propriamente seja a narração daquelas coisas de que o indivíduo tenha sido espectador </span><em>(autóptes). </em><span>Porém, Voss, </span><em>De art. bist., </em><span>c. 1, observa com acerto que assim a his­tória é tomada em um sentido mais estrito. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.8pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ </span><span style="font-size: 11pt;">XI. Depois, na confecção deste tipo/classe de relatos, faz falta o juízo, a mais exímia qualidade do intelecto, para que, por meio dele, as coisas dignas de crédito sejam separadas dos rumores infun­dados que se fazem correr; as leves suspeitas e as coisas e ações diárias sejam separadas das coisas públicas e daquelas que merecem ser contadas. Este juízo faltou em outros tempos sobretudo aos mon­ges, assim como a muitos escritores, ou seja, aos autores das crônicas, e também falta freqüentemente aos redatores de periódicos quando procuram falar de banalidades </span><em><span style="font-size: 11pt;">(micrologia) </span></em><span style="font-size: 11pt;">e minúcias </span><em><span style="font-size: 11pt;">(tá </span></em><em><span style="font-size: 11pt;">lepta) </span></em><span style="font-size: 11pt;">e omitem o que seria útil e fácil de ler, envernizam com documentos o que ouviram dizer por outros e, por fim, quando não têm coisas exatas, fazem passar por história as suspeitas e conjecturas dos outros. Muitas coisas desse quilate chegam do estrangeiro. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>XII. Sobre este defeito, comum nos historiadores, advertiu em outros tempos Lúcia na obra </span><em>De hist. scrib.: </em><span>&#8220;há muitos que deixam de lado os fatos históricos maiores e mais dignos de ser contados, ou a eles se referem apenas superficialmente; isto acontece por falta de instrução ou de critérios e por ignorância em relação ao que cabe dizer ou silenciar, inquirem sobre as coisas mais insignificantes, de­tendo-se nelas de maneira extremamente prolixa e laboriosa. Como se um não visse nem ouvisse toda a beleza de Júpiter d&#8217;Olímpia, que é tão grande e tão excelsa, e não explica nada aos que a desconhe­cem, enquanto admiram em troca a retidão e polidez do pedestal e a harmonia da sandália (explica detalhada mente estas coisas com grande paixão)&#8221;. E depois ilustra esta sentença com um duplo sentido, um extraído dos jardins e outro dos convites. Diz-se que é bem sim­ples se um, deixando de lado a rosa, se aplica mais prontamente a contemplar com acurácia os espinhos que surgissem perto da raiz ou se em um jantar muito suntuoso, alguém achasse conveniente colocar juntos um peixe vulgar e um prato de carne. Quando se está mais pronto para não fazer nenhuma das duas coisas. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>XIII. Relaciono com a vontade do escritor de periódicos a credibilidade e o amor ã verdade: não seja o caso que, preso por um afã partidário, misture ali temerariamente alguma coisa de falso ou escreva coisas insuficientemente exploradas sobre temas de grande importância. &#8220;Já que, quem ignora, diria Cícero, livro II </span><em>De oratore, </em><span>que a primeira lei da história é que não se ouse dizer nada de falso; depois, que não lhe falte coragem para dizer o que seja verdade, que não tenha nenhuma suspeita de parcialidade nem aversão alguma em escrever? </span>É <span>manifesto que estes fundamentos são conhecidos de to­dos.&#8221; E Estrabó, no livro XII da sua </span><em>Geogr. </em><span>Considera uma invenção o que se explica sobre as Amazonas, acrescenta: &#8220;A história quer o que é vero, seja antigo ou novo; E o que é insólito, ou não se narra ou o faz muito raramente.&#8221; Por isso, Polibi, um escritor muito rigoroso da antigüidade, quando decidiu escrever sobre as gestas de Escipio da Espanha, foi até àqueles países distantes para que nada de falso borrasse a sua história. Cícero, no livro I </span><em>De Legibus, </em><span>afirma que falta esta laboriosidade em Heródoto e em Teopomp. Quintiliano, no livro </span><span>II, </span><em>De institutione oratoria, </em><span>c. </span><span>11, </span><span>parece negar a credibilidade aos gregos quando escreveu que os gregos normalmente usam para a história as mesmas licenças que usam para a poética. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ </span><span style="font-size: 11pt;">XIV. </span><span style="font-size: 11pt;">É <span>certo que sob este aspecto se pode pensar que os compiladores de notícias têm maior licença que os historiadores mais rigorosos, quando eles mesmos não intervêm nos fatos nem podem obter facilmente documentos fidedignos de países distantes ou dos arquivos dos príncipes, e a maioria das coisas, muitas delas incertas, são recolhidas de cartas de amigos ou da voz pública; E, enquanto isso alimentam a curiosidade humana com alguns relatos. Da mesma forma, não se pode mentir nem dizer coisas falsas de sorte que o outro forme uma opinião falsa ou seja enganado, em tais casos, o autor trabalhará mais retamente, abstendo-se em transmitir coisas abertamente falsas ou se, em caso sejam incertas, ajunte a elas aquela precaução que Sêneca ofereceu no livro IV das </span><em>Na tu rales questiones: </em><span>&#8220;Caberá confiar nos autores&#8221;. Seguir uma opinião incerta e enganar os leitores em coisas de relativa importância é muito temerário. O que cabe atribuir aos rumores e à fama pública pode ser compreendido pelas palavras dirigidas por Alexandre Magno aos soldados, no livro IX de Curci: &#8220;Não é nenhuma novidade para vocês os exageros dos mentirosos. A fama jamais deixa alguma coisa ser transparente. Tudo o que ela nos traz é maior que a verdade. A nossa própria glória, sólida como é, é ainda maior pelo nome que pelas nossas obras.&#8221; E por isso é preciso averiguar se quando um fato acontecido recente­mente é anunciado imediatamente em locais diversos, é confirmado pelo testemunho de muitos. Quando estes não concordam, conferem uma credibilidade provável às coisas narradas, de sorte que afinal ao mais sério, pode suceder-lhe que algumas vezes se lhe misture coisas falsas com coisas verdadeiras sem culpa sua. Com efeito, Flávio Vopisc, em seu </span><em>Aurelianus </em><span>não se ruboriza em confessar que ele mesmo havia dito Juni Tiberiá que não havia historiador algum que, pelo que faz à história, não mentisse em alguma coisa; havia deixado claro afinal que alguns pontos eram refutados por testemunhos ma­nifestos de Lívio, Salustiano, Camélia Tácito e Trogus. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>XV. Feitas estas observações, quanto ao autor, podemos nos ocupar agora da matéria dos periódicos. Esta (como a da história escrita), são as coisas singulares, fatos realizados ou por Deus através da natureza, ou pelos anjos, ou pelos homens na sociedade civil ou na Igreja. Pois bem, como estes fatos são quase infinitos, cabe esta­belecer uma seleção de modo que seja dado preferência aos </span><em>axiomnemóneuta, </em><span>ou seja, àqueles que merecem ser recordados ou conhecidos. São desta natureza, em primeiro lugar, os prodígios, as monstruosidades, as obras ou os feitos maravilhosos e insólitos da natureza ou da arte, as inundações ou as tempestades horrendas, os terremotos, os fenômenos descobertos ou detectados ultimamente, fatos que têm sido mais abundantes que nunca neste século. Depois, as diferentes formas dos impérios, as mudanças, os movimentos, os </span><span>afazeres da guerra e da paz, as causas das guerras, os planos, as batalhas, as derrotas, as estratégias, as novas leis, os julgamentos, os cargos políticos, os dignatários, os nascimentos e mortes dos prínci­pes, as sucessões em um reino, as inaugurações e cerimônias públicas que parecem se instituir novamente ou que parecem mudar ou que são abolidas, o óbito de varões ilustres, o fim de pessoas ímpias, e outras coisas. Finalmente os temas eclesiásticos e literários: como a origem desta ou daquela religião, seus autores, seus progressos, as novas seitas, os preceitos doutrinais, os ritos, os cismas, a perseguição que sofrem, os sínodos celebrados por motivos religiosos, os decretos, os escritos mais notáveis dos sábios e doutos, as disputas literárias, as obras novas dos homens eruditos, as instituições, as desgraças, as mortes e centenas de coisas mais que façam referência ã história natural, ã história da sociedade, da Igreja ou da literatura: tudo isto costuma ser narrado de forma embaralhada nos periódicos, como uma história confusa, para que a alma do leitor receba o impacto de uma amena variedade. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.8pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ </span><span style="font-size: 11pt;">XVI. Aqui, porém, ao escolher a matéria digna dos novos relatos jornalísticos, cabe algumas precauções que a prudência comum sugere. A primeira é esta: que aí não se ponha coisas de pouco peso ou as ações diárias dos homens; ou as desgraças humanas, das quais há uma fecunda abundância na vida comum. Tais podem ser as tem­pestades que acontecem regularmente de acordo com a diversidade de estações e clima; os atos privados dos príncipes, como fazer uma caçada, celebrar um banquete, assistir a uma comédia, fazer uma excursão a esta ou àquela montanha, passar em revista alguns bata­lhões. Igualmente, o trato aos cidadãos, entre eles, os castigos dos malfeitores, as conjecturas sobre afazeres públicos que ainda não são conhecidos e outras coisas desta natureza que são mais próprias de um diário particular que de uma resenha pública. Pode-se encontrar a cada passo muitos exemplos dessas coisas nas crônicas dos monges, e nas gravuras nos livros dos escritores. Esta mesma falta de capaci­dade de julgamento foi enfatizada em outros tempos por Capitólio em sua </span><em><span style="font-size: 11pt;">Macrini vita, </span></em><span style="font-size: 11pt;">c. 1, a propósito do historiador Juni Cordus porque ele perseguia os mínimos detalhes: como se de Trajano, de Pius, de Marco tivesse que saber quantas vezes iriam sair, quando iriam mudar a dieta alimentar, e quantas vezes trocariam de roupas. O mesmo escritor, no livro </span><em><span style="font-size: 11pt;">Gordiani tres, </span></em><span style="font-size: 11pt;">c. XXI, censura este Cordus. &#8220;Estas, dizia, são as coisas que acham dignas de recordar de Gordiã, o jovem. Nós, com efeito, negamos a divulgar tudo aquilo que Juni Cordus irá escrever de maneira ridícula e estúpida sobre as diversões domésticas </span><span style="font-size: 11pt;">e outras coisas mais baixas; Quem quiser saber sobre elas, que leia o próprio Cordus, que falou de cada imperador quantos escravos teria, quantos amigos, quantos capas, quantos clámides.&#8221; Não serviria nada a ninguém saber tudo isto. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.8pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>XVII. Depois, a segunda precaução é esta: que não se expli­quem indiscriminadamente aquelas coisas dos príncipes que não querem que sejam divulgadas. Porque é coisa perigosa escrever sobre aquilo que pode lhe mandar ao degredo. Assim então, as pessoas prudentes aconselham que cabe esperar até que aqueles tenham desaparecido dentre os vivos ou que já não lhe possa causar danos. Assim advertiu Arrià na história de Alexandre descrita fielmente com base em Ptolomeu e em Arstóbulo; Isto foi também observado por Cornélio Tácito, </span><em><span>Annales I, </span></em><span>1. Raramente foram ditas coisas verdadeiras sobre os príncipes que ainda vivem dado que os escritores esperam por uma adulação crescente e, por isso, com o relato das coisas acontecidas, falta a verdade de muitos modos: primeiramente por desconhecimento do modo como uma coisa sucedeu, depois, pelo desejo de dar consentimento ou ainda, por ódio aos que governam. Assim, entre inocentes e culpados, nenhum deles tem preocupação alguma com a posteridade. Segundo Tácito, </span><em><span>Historiae, </span></em><span>livro </span><strong><span>I, </span></strong><span>c. 1. Por isso, num estado bem organizado não há de ser concedido a quem quer que seja difundir periódicos entre a multidão. Segundo Besold, </span><em><span>Thesaurus pract. </span></em><span>Na expressão </span><em><span>neue Zeitungen; </span></em><span>e do célebre jurista Ahsver-Fritsch, o </span><em><span>Discursum de novellarum hodierno usu et abusu, </span></em><span>capo </span><strong><span>III, </span></strong><span>publicado em Jena em 1676. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.8pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>XVIII. Eis a terceira precaução: que não se insira nos periódi­cos nada que prejudique os bons costumes ou a verdadeira religião, tais como coisas obscenas, crimes cometidos de modo perverso, expressões ímpias dos homens que sejam graves para os ouvidos piedosos. Quando se explicam estas coisas, tal como disse Plínio, é como se as estivesse ensinando. </span>É <span>por isso que em algumas cidades se estabeleceu com uma prudente decisão que não seja permitido imprimir periódicos sem que estes tenham sido aprovados pela cen­sura. Dá-se, com efeito, a honesta disciplina, para que os espíritos inocentes não sejam ofendidos com esta espécie de páginas impuras espalhadas aqui e ali, ou que, por outro lado, os que são propensos ao mal, não venham a ser incitados por esse tipo de escritos. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.8pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>XIX. Por outro lado, no que diz respeito a coisas de pouca importância, que constituem a maior parte de alguns periódicos, os que os produzem podem ter mais licença que os historiadores, porque aqueles escrevem quase precipitadamente, não tanto para a posteridade, </span><span>mas para satisfazer a curiosidade do povo, ávido de coisas novas. Para satisfazer esta curiosidade, faltam coisas de peso, e ocupam-se com coisas amenas, leves, e às vezes fúteis. Por isso, fica bem fazer aqui de certa maneira alguma concessão aos costumes do século. Júlio César, </span><em><span>De bello gallico, </span></em><span>livro </span><span>IV, </span><span>c. 5, já em outros tempos deu constância a esta curiosidade entre os gauleses: &#8220;Os gauleses, disse Júlio Cesar, têm por costume aturar os viajantes para seu próprio desagrado, e lhes fazem perguntas sobre tudo o que ouviram ou observaram das coisas que acontecem, e assim, rodeiam os viajantes e os fazem dizer de que terras vêm e de que coisas estão informados; e então, preocupados pelos rumores e pelo que ouviram dizer, normalmente tomam decisões em afazeres dos mais graves, dos quais todos normalmente hão de se arrepender por ter se fiado demais e por ter falado de todo mundo. posto que a maioria dos informadores lhes respondem com falsos elogios. Portanto, quando alguns narram coisas amenas, leves, pode suceder que estejam se acomodando ao desejo de coisas novas que também já invadiu os ânimos do povo, pode que estejam imitando Dió Cassi, que, depois de rebaixar-se a resenhar umas minúcias, logo em seguida apresentou um tipo de desculpa porque não percebeu que havia faltado por imprudência ou por incapacidade. Dado que quem conhece a superficialidade humana pode pensar sem esforço o quanto é fácil errar em todas estas coisas que ouve dos outros em uma con­versa ou em um rumor incerto. Aquelas coisas que acontecem a cada dia, muitos, induzidos pelos sentimentos ou traídos pela negligência, explicam-nas de .uma forma completamente diversa do que realmente aconteceu. Por isso, se se trata da veracidade de um fato, poder-se-á fazer uso daquela fórmula de precaução que se encontra em Curci, livro </span>IX: <span>&#8220;Com efeito, transcrevi mais coisas que não acredito. Dado que não posso afirmar sobre aquilo de que duvido, nem posso ocultar o que ouvi.&#8221; Agindo assim, o escritor de periódico salvaguardará a sua credibilidade, já que assim permite ao prudente leitor fazer o seu juízo. Por isso, o já mencionado Dr. Fritsch, no </span><em><span>Discursum </span></em><span>citado, c. </span>IV, <span>adverte que não se há de crer temerariamente nos periódicos. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 22.55pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ </span><span style="font-size: 11pt;">XX. A forma deste tipo de relatos, se é que alguém se pergun­ta sobre isto, é vária. Porém, falando de modo geral, a forma é ba­seada na economia </span><em><span style="font-size: 11pt;">(oikonomía) </span></em><span style="font-size: 11pt;">e na expressão (léxis); porque aquilo que constitui o corpo da história </span><span style="font-size: 11pt;">(<em>tó </em></span><em><span style="font-size: 11pt;">soma tés historías) </span></em><span style="font-size: 11pt;">freqüen­temente encontra-se em um outro lugar. A economia </span><em><span style="font-size: 11pt;">(oikonomía) </span></em><span style="font-size: 11pt;">se refere à ordem e disposição do fato histórico; a expressão </span><em><span style="font-size: 11pt;">(léxis) </span></em><span style="font-size: 11pt;">indica a maneira de dizer e o estilo adequado aos fatos. Em continu­ação direi alguma coisa de cada uma destas partes. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>XXI. No que se refere à economia </span><em><span>(oikonomía) </span></em><span>e disposição, parece claro que depende da natureza do tema de que se trata. Dado que ou se resenha diversas coisas de variada índole, ou alguma coisa simples. Na recensão daquelas, a ordem é arbitrária, atestando que não há nenhuma conexão entre coisas acontecidas em lugares diversos, em tempos diferentes e de maneira variada. Por isso, é costume preservar a ordem com que os acontecimentos se apresentam. Em contra partida, quando se trata de uma coisa simples e singular, aí sim que cabe pre­servar/guardar uma ordem que enquadre ao tema. Por exemplo, se alguém quer reconstituir o sítio de Mogúncia que aconteceu no ano passado e a sua conseqüente conquista, este alguém terá que dispor tudo de sorte que primeiro fale dos seus autores, depois do motivo, em seguida dos aparelhos e instrumentos, logo em seguida do local e da maneira de agir, finalmente da ação mesma e dos acontecimentos e do valor dos valentes heróis que resplandeceu de maneira especial no sítio e na ocupação da cidade. Assim, se alguém quer preparar um relato que para ser impresso sobre a expedição à Britânia por Guillerme, príncipe de Aurênia, agora rei da Grã-Bretanha, terá que ordenar o relato do mesmo modo e com a mesma ordem. Igualmente nas outras narrações caberá ater-se àquelas circunstâncias já conhecidas que se costuma ter sempre em conta em uma ação tais como a pessoa, o objeto, a causa, o modo, o local, e o tempo. Segundo Franz Patricius, </span><em><span>De bist. dialog., </span></em><span>VII e VIII. Em outras coisas que não são da vida civil, o critério é, de certo modo, diferente. Porque nem todas as circunstân­cias podem ser encaixadas sempre da mesma maneira quando não houver constância suficiente da causa, ou do tempo, ou do local ou do modo pelo qual o fato foi realizado. Por enquanto é suficiente anunciar os fatos de forma superficial, segundo os rumores, sem ordem alguma. Veja Plinius, </span><em><span>Epist., </span></em><span>livro IV, n. 11. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>XXII. A expressão </span><em><span>(léxis) </span></em><span>ou modo de dizer, ou estilo dos periódicos, não há de ser nem oratório nem poético. Porque aquele distancia o leitor desejoso de novidade; e este lhe causa confusão além de não expor as coisas com clareza suficiente. Em compensação, o narrador, se quer agradar, precisa seguir antes o fato como ele sucedeu. Veja Cicero, livro lI, </span><em><span>De oratore. </span></em><span>Pois bem, para este fim o narrador se faz servir uma linguagem por um lado pura, mas por outro, clara e concisa. Isto é asseverado por Cícero no seu </span><em><span>Brutus: </span></em><span>&#8220;Não há nada, disse, que seja tão agradável na história como a bre­vidade pura e clara.&#8221; Por isso cabe evitar as palavras obscuras e a confusão na ordem sintática. Assim também advertiu Lúcia na obra </span><em><span>De scrib. bist.: </span></em><span>&#8220;Que a sua palavra (a do escritor) tenha este único objetivo: mostrar os fatos claramente e torná-los compreensíveis da ma­neira mais diáfana, com palavras não obscuras e fora de uso, nem tampouco com palavras próprias dos mercados e dos botecos, de tal modo que a maioria as entenda e que os eruditos as respeitem&#8221;.(5) Não cabe analisar aqui mais coisas sobre o estilo da história, que convém empregar também nos periódicos, pois já foi falado sobre isto em um outro lugar. Veja Fabio Quintiliano, livro X, e o </span><em><span>De art. hist. </span></em><span>Do doutíssimo Voss. Ainda que o estilo seja áspero e bárbaro, como nas crônicas antigas, da mesma forma, a amenidade da narração é pouco ressentida. Porque, segundo Plínio, </span><em><span>Epistulae, </span></em><span>livro V, n. 8, &#8220;a história deleita seja qual for a maneira como tenha sido escrita. Porque os homens são curiosos por natureza e eles se sentem fascinados por qualquer conhecimento nu das coisas, de modo que se deixam até mesmo levar por erros e fábulas. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ </span><span style="font-size: 11pt;">XXIII. A finalidade interna e própria da história é a conserva­ção do registro dos fatos acontecidos. Se não fosse pela história, as coisas acontecidas antes dos nossos tempos esvaneceriam ou seriam todas apagadas. Porque as coisas singulares são praticamente infinitas e, se não fossem registradas pela história ou nos anais, por displicên­cia ou por deficiência da memória humana seriam finalmente sepul­tadas pelo silêncio ou não poderiam ser transmitidas integralmente ã posteridade. Que aos novos relatos jornalísticos não se pode designar igualmente esta finalidade, pode ser inferido do que já dissemos acima. Pelas causas acima comentadas fica claro que os relatos jornalísticos não costumam escrever tendo em vista a posteridade senão tendo em vista a curiosidade humana. Da mesma forma, se acontece que a partir deles as coisas narradas passam também ã his­tória estritamente dita, há de se compreender que nem todos, mas somente de uns poucos, os que foram registra dos com uma certa acurácia e aplicação é que passam ã história. Porém, a maior parte deles, por ter sido escrita de forma precipitada a partir de rumores e de cartas pouco certas, não chega a superar os anos. E bem certo que não podem ser considerados entre os documentos confiáveis e podem obscurecer a memória da posteridade. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ </span><span style="font-size: 11pt;">XXIV. Eu diria que a finalidade dos novos periódicos é mais própria para o conhecimento de coisas novas acompanhadas de um certa utilidade e atualidade. Foi por esta causa que começaram por primeiro lugar a serem escritos e divulgados os periódicos, como já </span><span style="font-size: 11pt;">insinuei acima, ao ocupar-me de suas origens. Com efeito, o afã de saber coisas novas é tão grande que cada vez que os cidadãos se encontram em encruzilhadas e nas vias públicas perguntam: &#8220;o que há de novo?&#8221; A fim de satisfazer esta curiosidade humana tem se imprimido de todo modo novos relatos jornalísticos em diversos idi­omas. E os que os lêem podem satisfazer assim a sede de novidades dos companheiros e dos grupos de amigos. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ </span><span style="font-size: 11pt;">XXV. A esta finalidade se ajuntam a utilidade e a amenidade que costuma acompanhar estes periódicos. Já que, assim como Lúcia, <em>De scrib. hist. </em>Estabelece como finalidade da história a utilidade </span><span style="font-size: 11pt;">(fá </span><em><span style="font-size: 11pt;">chrésimon) </span></em><span style="font-size: 11pt;">e de outras a amenidade <em>(tá terpnán), </em>assim nós não erraríamos se os colocássemos como efeito e conseqüência do fim já exposto. Dado que tanto uma coisa como a outra aparece nos ânimos dos leitores quando alguém tira uma notícia de um relato jornalístico. </span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ </span><span style="font-size: 11pt;">XXVI. Não afirmaria absolutamente que a utilidade dos peri­ódicos seja tão grande como a da história escrita com bom senso, dado que os autores daqueles se encontram quase desprovidos daqui­lo que é necessário para estabelecer a história estrita, com conheci­mentos dos fatos, competência, juízo elevado, documentos autênticos obtidos de arquivos não suspeitos e, finalmente, a linguagem e o estilo adequados ã história. Da mesma forma, não se pode negar que haja neles alguma utilidade que afeta a vida tanto privada como pública dos homens. A exposição de suas peculiaridades a empreen­deu faz mais de treze anos um homem preclaro, Christian Weise, no seu <em>Schediasma curiosum </em>no qual, assim como cabe ressaltar a genialidade de um homem tão famoso, assim mesmo acontece que o leitor curioso de periódicos preste absoluta atenção àquelas aplicações que ele assinala, sobretudo aquelas que fazem referência ao conhe­cimento da geografia, da genealogia, da história e da política. Mostra, com efeito, como a pessoa pouco versada no estudo da geografia, graças </span><span style="font-size: 11pt;">à <span>leitura de periódicos se sente como que atraída, ou, se já não é um especialista, sente-se confirmada com um reclame perpétuo. E o mesmo pode ser afirmado quanto </span>à <span>genealogia. Quanto à história de nosso tempo, não há necessidade de demonstrar que a leitura de periódicos a faz especialmente precipitada, se se levar em conta seu objetivo. Finalmente, quanto </span>à <span>utilidade política, o insigne Weise defendeu que esta é geralmente a mais importante nos periódicos por que nesta se pode conhecer os direitos entre os príncipes, discutidos por uma e outra parte, juntamente com as deliberações, os artifícios e os costumes que são freqüentes às cortes; da mesma forma, o leitor de bom senso terá que discernir aí as coisas sem fundamentos das </span><span>verdadeiras e sólidas. Porque os que crêem que ali podem ampliar um conhecimento acurado dos afazeres cívicos, estariam muito equi­vocados. Finalmente faz ver também outras utilidades para os letrados e para os iletrados, sobretudo para os comerciantes. Por tudo isso não há que acrescentar aí senão que, para se extrair estas utilidades, requer-se um conhecimento da geografia, dos negócios civis e sobre­tudo das coisas de palácio. Dado que isto são poucos os que tem a sorte de conseguir, é claro que estas utilidades não as pode explicar quem quer que seja. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>XXVII. A amenidade dos periódicos, assim como a de toda a história, ninguém que não seja obtuso não a negará. Segundo palavras de Cícero, livro V, Ep.12 </span><em><span>ad famil., </span></em><span>não há nada mais apto para o deleite que as mutações dos tempos e as vicissitudes da sorte, que, apesar de não poder escolhê-las no momento de vivê-las, do mesmo modo, serão agradáveis de ler. O registro sem necessidade da dor passada é um deleite; e para os que se escaparam sem nenhuma moléstia pessoal vêem os dramas dos outros sem nenhuma dor, pois também a compaixão em si mesma é agradável. De fato, a ordem mesma dos anais não é que eles atraiam tanto, pelo que têm de sim­ples enumeração cronológica. Em troca, as situações incertas e vari­adas de uma personagem muitas vezes destacada, contêm admiração, expectativas, alegria, moléstia, esperança, temor, e se terminam com um sucesso notável, o espírito sacia-se do prazer de uma leitura al­tamente amena.&#8221; Isso acontece sobretudo na história recente dado que toca sempre o ânimo do leitor curioso e o diverte. Como disse Plínio mais acima, &#8220;os homens são curiosos por natureza e eles se deixam fascinar por qualquer conhecimento nu das coisas, de maneira que se deixam levar até erros e fábulas.&#8221; Antônio, o Panormita, disse sobre o Rei Alfonso de Aragão, em um livro sobre as suas gestas que sentiu tanto prazer em ler a história de Curci que acabou sendo curado da doença que o afetava. </span>É <span>dito que recuperou de uma vez a saúde e disse. &#8220;Tiau, tudo de bom para o Dr. Aviccenna, para Hipócrates, e aos outros médicos. Viva Curci, pois foi ele o meu salvador.&#8221; </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>XXVIII. </span>É <span>ainda maior o prazer encontrado na leitura dos periódicos pelos eruditos: aqueles que gozam do conhecimento da geografia, da genealogia e dos afazeres cívicos. Porque todo relato é mais agradável se se conhece o local, as pessoas notáveis que fo­ram autoras de um feito, ou as causas pelas quais se empenharam. Quem ignora que estas circunstâncias dos fatos sejam tiradas das partes do conhecimento mencionadas? E os que isto ignoram se assemelham àqueles que em um dado quadro observam a face das pessoas sem fixar-se na estatura e nas linhas do corpo e por fim abandonam tal quadro. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23.75pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">§ <span>XXIX. Porém, tendo já uma certa idéia dos periódicos, cabe-­nos agora falar de seus variados gêneros. Dado que alguns periódicos específicos contêm coisas literárias, sua natureza, seus temas certamen­te variados e sua publicação na França, Inglaterra, Bélgica, Alemanha e Itália são coisas bastante conhecidas, eis porque os havemos de expor aqui. Alguns prometem ao leitor coisas sobretudo singulares e elegantes estampando na frente algum título certamente curioso, como são os que se escrevem em Paris e Amsterdam, </span><em><span>Le nouveau Mereure Galant, eontenant tout ee qui s&#8217;est passé de eurieux ete. </span></em><span>Outros se ocupam dos feitos cívicos como </span><em><span>Histoire abregé de I &#8216;Eu rope, ou Relation exaete de ee qui se passe de considerable dans les Estats, dans les Al-mées, ete., </span></em><span>como os publicados em Amsterdam por Claudius Jordanus. Outros, por sua vez, se ocupam de coisas de diversos gêneros tal como se apresentam a cada dia. Estes, impressos em diversos locais, com periodicidade semanal, ou mensal, ou até mesmo semestral, costumam ser divulgados em diversos idiomas. Entre estas publicações periódicas merecem ser destacadas as de Leipzig, em alemão, até agora curiosamente reunidas, e as de Frankfurt, em latim, impressas com o apoio econômico dos herdeiros Latomici, porque têm uma certa seleção das coisas que se explicam, prescindindo de banalidades e de coisas que escampam aqui e ali por rumores incer­tos. Porém, falar mais extensamente com o fim de dar um juízo sobre cada um deles, poderia parecer tedioso, dado que o critério da nossa investigação não permite assinalar aqui ninguém com uma censura inoportuna. Ao contrário, deixando o juízo em mãos dos seus leitores assinantes, rezem a Deus que de agora em diante, para escrever periódicos, disponham somente de temas que sejam motivo de alegria para a Alemanha e para a nossa Pátria. </span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-indent: 23.75pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">Glória seja dada ao nome de Deus! </span></p>
<p class="Estilo" style="text-align: justify;"> </p>
<p class="Estilo" style="text-align: justify;"> </p>
<p class="Estilo" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;"><strong>Notas</strong></span></p>
<p class="Estilo" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 8pt;">(1) <span>Fontes usadas para a tradução: original em latim &#8211; PEUCER, Tobias. De relationibus novellis. In: KURTH, Karl Corg.). </span><em><span>Die iiltesten Schriftenfür und wider die Zeitung </span></em><span>Brünn: Rudolf M. Rohrer VerIag, 1944. p. 163-184; edição catalã &#8211; CASASUS GURI, ]osep Maria. Sobre eIs relats periodistics. </span><em><span>Periodística. </span></em><span>Barcelona: Societat Catalana de Comunicació, n. 3, p. 31-47, 1990.</span></span></p>
<p class="MsoFootnoteText"><span style="font-size: 8pt;">(2) A capa da tese traz os seguintes dados: no alto, o titulo, De relationibus novellis; na parte central, os dizeres: sob a orientação de L. Adam Rechenberg, professor público e mag­nífico reitor da Universidade de Leipzig, em 8 de março de 1690, dissertará publicamente Tobias Peucer, de Görlitz (Lausitz); na base, a menção à tipografia de Wittigau, acompa­nhada da exclamação &#8220;Cristo Senhor seja bendito!&#8221; No sumário, o autor relaciona os seguintes tópicos: Atualidade do tema; Significado e uso do termo &#8220;novellae&#8221;; As diversas formas dos relatos históricos e as atribuídas aos periódicos; Descrição dos periódicos; Exposição de suas origens e suas causas; Expõe-se sobre a origem dos relatos históricos entre alguns povos, em especial entre os alemães: Os primeiros fundadores de periódicos e qual foi a ocasião para escrevê-Ia; Duas causas impulsoras: a curiosidade humana e o afã do lucro; Causa eficiente dos periódicos; Seu primeiro requisito (sobre o intelecto) é o conhecimento; O segundo requisito é o juízo; O juízo geralmente falta aos narradores; Sobre a vontade exige-se credibilidade e amor à verdade; O que às vezes se encontra em falta nos redatores de notícias; A matéria dos periódicos: coisas singulares que são de diversos tipos ou classes; A primeira precaução quanto à seleção de matérias; A segunda; A terceira; A curiosidade humana desculpa de certa maneira as coisas fúteis que contém; </span><span style="font-size: 8pt;">Em que se baseia a forma das reportagens; O seu primeiro aspecto é a economia <span>(oikonomía) ou disposição; O segundo aspecto é a expressão (léxis), ou dicção que assim determina; O ser humano se interroga sobre a finalidade dos periódicos; O que é a notícia de coisas novas; Segue-se a utilidade e a atualidade; Afirmação das diversas utilidades; Explicação da atualidade; A sua delimitação; Faz-se a distinção entre os periódicos e se põe fim à dissertação. (<em>Nota do tradutor</em>). </span></span></p>
<p class="MsoFootnoteText"><span style="font-size: 8pt;">(3) Ao mesmo tempo, muitos se <span>alegravam com a &#8220;nova </span>comunicação&#8221; <span>de que Constantino, </span><span>batizado por Silvestre, bispo da cidade de Roma, havia sido purificado da lepra etc. </span></span></p>
<p class="MsoFootnoteText"><span style="font-size: 8pt;">(4) <span>O padre estava na cela quando surgiu aquela notícia.</span></span></p>
<p class="MsoFootnoteText"><span style="font-size: 8pt;">(5) O<span> </span><span>autor reproduz o texto de Lucia em grego, seguido da tradução em latim.</span></span></p>
<p class="Estilo" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 11pt;">PEUCER, T. Os relatos jornalísticos. In: <strong>Revista Comunicação &amp; Sociedade.</strong> Universidade Metodista de São Paulo, n. 33. São Bernardo do Campo: Umesp, 2000, p. 199-214.</span></p>
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		<title>A covardia é a mãe da crueldade</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Mar 2010 14:15:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Texto de Michel de Montaigne &#8211; &#8220;A covardia é a mãe da crueldade&#8221; &#8211; publicado em Ensaios, Coleção Os Pensadores, da Abril, em tradução de Sérgio Milliet, págs. 321 a 324. São Paulo: 1972
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Texto de Michel de Montaigne &#8211; &#8220;A covardia é a mãe da crueldade&#8221; &#8211; publicado em Ensaios, Coleção Os Pensadores, da Abril, em tradução de Sérgio Milliet, págs. 321 a 324. São Paulo: 1972</p>
<p><a href="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/04/michel-de-montaigne-covardia1.pdf">Clique aqui para baixar o texto em PDF</a><a href="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/04/michel-de-montaigne-covardia.pdf"></a></p>
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		<title>Soneto 121</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Feb 2010 17:53:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Material Didático]]></category>

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		<description><![CDATA[
O  soneto (abaixo) é usado no curso de Ética Jornalística como introdução à Trágica História de Hamlet, Príncipe da Dinamarca (conforme fac-símile da capa da edição original). A tradução do soneto é de Caio Túlio Costa.
Soneto 121
Antes ser vil do que vil ser considerado
Quando, mesmo sem sê-lo, esta culpa te imputam
E então perdes um prazer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="size-full wp-image-204  alignnone" title="hamlet" src="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/02/hamlet.jpg" alt="hamlet" width="79" height="114" /></p>
<p>O  soneto (abaixo) é usado no curso de Ética Jornalística como introdução à <em>Trágica História de Hamlet, Príncipe da Dinamarca (conforme fac-símile da capa da edição original)</em>. A tradução do soneto é de Caio Túlio Costa.</p>
<p><strong>Soneto 121</strong></p>
<p>Antes ser vil do que vil ser considerado<br />
Quando, mesmo sem sê-lo, esta culpa te imputam<br />
E então perdes um prazer verdadeiro, dado<br />
Que tua alma não, mas os demais condenam.<br />
Então, por que os olhos espúrios dos outros<br />
Hão de julgar meu sangue quente?<br />
Ou espiar minhas fraquezas os mais frouxos<br />
E considerar ruim o que considero um presente?<br />
Não, eu sou o que eu sou; e os preocupados<br />
Com meus desmandos, eles próprios se expõem:<br />
Eu sou franco enquanto eles são dissimulados,<br />
E que seus juízos podres não sujem minhas ações.<br />
A não ser que esta máxima eles mantenham:<br />
Todos os homens são maus e na maldade reinam.</p>
<p><strong>Sonnet 121 (original em inglês)</strong></p>
<p>&#8216;Tis better to be vile than vile esteem&#8217;d,<br />
When not to be receives reproach of being,<br />
And the just pleasure lost which is so deem&#8217;d<br />
Not by our feeling but by others&#8217; seeing:<br />
For why should others false adulterate eyes<br />
Give salutation to my sportive blood?<br />
Or on my frailties why are frailer spies,<br />
Which in their wills count bad what I think good?<br />
No, I am that I am, and they that level<br />
At my abuses reckon up their own:<br />
I may be straight, though they themselves be bevel;<br />
By their rank thoughts my deeds must not be shown;<br />
Unless this general evil they maintain,<br />
All men are bad, and in their badness reign.</p>
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		<title>Balada</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 18:06:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Material Didático]]></category>
		<category><![CDATA[Balada]]></category>
		<category><![CDATA[Gláuber Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[Hart Crane]]></category>
		<category><![CDATA[Mario Faustino]]></category>
		<category><![CDATA[poesia brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Terra em Transe]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
 
 
 
 
 
 
 
 
Balada
(Em memória de uma poeta suicida)*
Mário Faustino
Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmo sangrento e a alma pura
Porém, não se dobrou perante o fato
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura)
Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_265" class="wp-caption alignnone" style="width: 474px"><img class="size-full wp-image-265" title="balada2" src="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/02/balada2.jpg" alt="Mário Faustino (à esq.) e o poeta americano Hart Crane (dir.) a quem Faustino  teria dedicado o poema Balada. Crane suicidou-se, em abril de 1932, atirando-se ao mar de um vapor em viagem de volta do México aos EUA." width="464" height="230" /><p class="wp-caption-text">Mário Faustino (à esq.) e o poeta americano Hart Crane (dir.) a quem Faustino teria dedicado o poema Balada. Crane suicidou-se, em abril de 1932, atirando-se ao mar de um vapor em viagem de volta do México aos EUA.</p></div>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<h2>Balada</h2>
<p><em>(Em memória de uma poeta suicida)*</em></p>
<p>Mário Faustino</p>
<p>Não conseguiu firmar o nobre pacto<br />
Entre o cosmo sangrento e a alma pura<br />
Porém, não se dobrou perante o fato<br />
Da vitória do caos sobre a vontade<br />
Augusta de ordenar a criatura<br />
Ao menos: luz ao sul da tempestade.<br />
Gladiador defunto mas intacto<br />
(Tanta violência, mas tanta ternura)</p>
<p>Jogou-se contra um mar de sofrimentos<br />
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim<br />
Para afirmar-se além de seus tormentos<br />
De monstros cegos contra um só delfim,<br />
Frágil porém vidente, morto ao som<br />
De vagas de verdade e de loucura.<br />
Bateu-se delicado e fino, com<br />
Tanta violência, mas tanta ternura!</p>
<p>Cruel foi teu triunfo, torpe mar.<br />
Celebrara-te tanto, te adorava<br />
Do fundo atroz à superfície, altar<br />
De seus deuses solares – tanto amava<br />
Teu dorso cavalgado de tortura!<br />
Com que fervor enfim te penetrou<br />
No mergulho fatal com que mostrou<br />
Tanta violência, mas tanta ternura!</p>
<p>Envoi</p>
<p>Senhor, que perdão tem o meu amigo<br />
Por tão clara aventura, mas tão dura?<br />
Não está comigo nem conTigo:<br />
Tanta violência, mas tanta ternura.</p>
<p><strong>• • •</strong></p>
<p><strong>Nota de Caio Túlio Costa:<br />
</strong>*A propósito da dedicatória a “uma poeta”, este poema é retirado do livro <em>Poesia Completa, Poesia Traduzida</em> organizado por Benedito Nunes (Max Limonad, 1985) e de <em>O Homem e sua Hora e outros poemas</em>, organizado por Maria Eugenia Boaventura (Companhia das Letras, 2002). Maria Eugenia me disse que o poema “deve ser em homenagem a Hart Crane”. Tanto na edição organizada por Maria Eugênia (p. 158) quanto na edição da poesia completa estabelecida por Benedito Nunes (p. 115) consta que o poema é em homenagem a “um<span style="text-decoration: underline;">a</span> poeta suicida”. No índice da edição de Nunes (p. 6) consta, no entanto, que o poema é para “um poeta suicida”.</p>
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		<title>Poema em linha reta</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 17:07:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Material Didático]]></category>

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		<description><![CDATA[
Fernando Pessoa
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo, 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-256" title="pessoa1" src="http://caiotulio.com/blog/wp-content/uploads/2009/02/pessoa1.jpg" alt="pessoa1" width="119" height="129" /></p>
<p><span><span style="font-size: medium;">Fernando Pessoa</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Nunca conheci quem tivesse levado porrada. </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Indesculpavelmente sujo, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Que tenho enrolado os pés publicamente no tapete das etiquetas, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Que tenho sofrido enxovalhos e calado, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Para fora da possibilidade do soco; </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Toda a gente que eu conheço e que fala comigo </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size: small;"><span>Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um</span> <span>enxovalho, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida&#8230; </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Quem me dera ouvir de alguém a voz humana</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Que contasse, não uma violência, mas uma covardia! </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?</span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Ó príncipes meus irmãos, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Arre, estou farto de semideuses! </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Onde é que há gente no mundo? </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Poderão as mulheres não os terem amado, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca! </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, </span></span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span style="font-size: small;">Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. </span></span></p>
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		<title>Conferência sobre Ética</title>
		<link>http://caiotulio.com/conferencia-sobre-etica/</link>
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		<pubDate>Fri, 26 Feb 2010 13:21:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Material Didático]]></category>
		<category><![CDATA[caio túlio]]></category>
		<category><![CDATA[conferência sobre ética]]></category>
		<category><![CDATA[Curso de Ética]]></category>
		<category><![CDATA[darley]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
		<category><![CDATA[indizível]]></category>
		<category><![CDATA[wittgenstein]]></category>

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		<description><![CDATA[por Ludwig Wittgenstein
Tradução de Darlei Dall&#8217;Agnol
Antes de começar a falar sobre meu tema, permitam-me fazer algumas observações introdutórias. Tenho consciência de que terei grandes dificuldades para comunicar meu pensamentos e penso que algumas delas diminuiriam se as mencionasse de antemão.
A primeira, que quase não necessito apontar, é que o inglês não é minha língua materna. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>por Ludwig Wittgenstein</strong></p>
<p>Tradução de Darlei Dall&#8217;Agnol</p>
<p>Antes de começar a falar sobre meu tema, permitam-me fazer algumas observações introdutórias. Tenho consciência de que terei grandes dificuldades para comunicar meu pensamentos e penso que algumas delas diminuiriam se as mencionasse de antemão.</p>
<p>A primeira, que quase não necessito apontar, é que o inglês não é minha língua materna. Por esta razão, meu modo de expressão não possui aquela elegância e precisão que seria desejável para quem fala sobre um tema difícil. Tudo o que posso fazer é pedir que me facilitem a tarefa tentando entender o que quero dizer, apesar das faltas que contra a gramática inglesa vou cometer continuamente.</p>
<p>A segunda dificuldade que mencionarei é que, provavelmente, muitos de vocês vieram a esta minha conferência com falsas expectativas. Para esclarecer este ponto, direi algumas palavras sobre a razão pela qual escolhi este tema. Quando o secretário anterior honrou-me pedindo que lesse uma comunicação para esta sociedade, minha primeira idéia foi a de que deveria certamente aceitar e a segunda foi que, se tivesse a oportunidade de falar a vocês, deveria falar sobre algo que me interessava comunicar e que não deveria desperdiçá-la dando, por exemplo, uma conferência sobre lógica. Considero que isto seria perder tempo, visto que explicar um tema científico a vocês exigiria um curso de conferências e não uma comunicação de uma hora. Uma alternativa teria sido apresentar uma conferência que se denomina de divulgação científica, isto é, uma conferência que pretendesse fazer vocês acreditarem que entendem algo que realmente não entendem e satisfazer assim o que considero um dos mais baixos desejos do homem moderno, a saber, a curiosidade superficial sobre as últimas descobertas da ciência.</p>
<p>Rejeitei estas alternativas e decidi falar sobre um tema, em minha opinião, de importância geral, com a esperança de que ele ajude a esclarecer suas próprias idéias a respeito (mesmo que vocês estejam em total desacordo com o que vou dizer). Minha terceira e última dificuldade é, de fato, própria de quase todas as conferências filosóficas: o ouvinte é incapaz de ver tanto o caminho pelo qual o levam como também o fim a que este conduz. Isto é, ele pensa: &#8220;Entendo tudo o que diz, mas aonde quer chegar?&#8221; ou então &#8220;Vejo para onde se encaminha, mas como vai chegar ali?&#8221; Mais uma vez: tudo o que posso fazer é pedir que sejam pacientes e esperar que, no final, vejam não só o caminho como também onde ele leva.</p>
<p>Vou iniciar agora. Meu tema, como sabem, é a Ética e adotarei a explicação que deste termo deu o professor Moore em seu livro Principia Ethica. Ele diz: &#8220;A Ética é a investigação geral sobre o que é bom.&#8221; Agora, vou usar a palavra Ética num sentido um pouco mais amplo, um sentido, na verdade, que inclui a parte mais genuína, em meu entender, do que geralmente se denomina Estética. E para que vejam da forma mais clara possível o que considero o objeto da Ética vou apresentar antes várias expressões mais ou menos sinônimas, cada uma das quais poderia substituir a definição anterior e ao enumerá-las pretendo obter o mesmo tipo de efeito que Galton obteve quando colocou na mesma placa várias fotografias de diferentes rostos com o fim de obter a imagem dos traços típicos que todos eles compartilhavam. Mostrando esta fotografia coletiva, poderei fazer ver qual é o típico &#8211; digamos &#8211; rosto chinês. Deste modo, se vocês olharem através da série de sinônimos que vou apresentar, serão capazes de, espero, ver os traços característicos que todos têm em comum e que são característicos da Ética.</p>
<p>Ao invés de dizer que &#8220;a Ética é a investigação sobre o que é bom&#8221;, poderia ter dito que a Ética é a investigação sobre o valioso, ou sobre o que realmente importa, ou ainda, poderia ter dito que a Ética é a investigação sobre o significado da vida, ou daquilo que faz com que a vida mereça ser vivida, ou sobre a maneira correta de viver. Creio que se observarem todas estas frases, então terão uma idéia aproximada do que se ocupa a Ética.</p>
<p>A primeira coisa que nos chama a atenção nestas expressões é que cada uma delas é usada, realmente, em dois sentidos muito distintos. Vou denominá-los, por um lado, o sentido trivial ou relativo, e por outro, o sentido ético ou absoluto. Por exemplo, se digo que esta é uma boa poltrona, isto significa que esta poltrona serve para um propósito predeterminado e a palavra bom aqui tem somente significado na medida em que tal propósito tenha sido previamente fixado. De fato, a palavra bom no sentido relativo significa simplesmente que satisfaz um certo padrão predeterminado. Assim, quando afirmamos que este homem é um bom pianista, queremos dizer que pode tocar peças de um certo grau de dificuldade com um certo grau de habilidade. Igualmente, se afirmo que para mim é importante não resfriar-me quero dizer que apanhar um resfriado produz em minha vida certos transtornos descritíveis e se digo que esta é a estrada correta significa que é a estrada correta em relação a uma certa meta.</p>
<p>Usadas desta forma, tais expressões não apresentam problemas difíceis ou profundos. Mas isto não é o uso que delas faz a Ética. Suponhamos que eu soubesse jogar tênis e alguém de vocês, ao ver-me, tivesse dito &#8220;Você joga bastante mal&#8221; e eu tivesse contestado &#8220;Sei que estou jogando mal, mas não quero fazê-lo melhor&#8221;, tudo o que poderia dizer meu interlocutor seria &#8220;Ah, então tudo bem.&#8221;. Mas suponhamos que eu tivesse contado a um de vocês uma mentira escandalosa e ele viesse e me dissesse &#8220;Você se comporta como um animal&#8221; e eu tivesse contestado &#8220;Sei que minha conduta é má, mas não quero comportar-me melhor&#8221;, poderia ele dizer &#8220;Ah, então, tudo bem&#8221;? Certamente, não. Ele afirmaria &#8220;Bem, você deve desejar comportar-se melhor&#8221;. Aqui temos um juízo de valor absoluto, enquanto que no primeiro caso era um juízo relativo.</p>
<p>A essência desta diferença parece obviamente esta: cada juízo de valor relativo é um mero enunciado de fatos e, portanto, pode ser expresso de tal forma que perca toda a aparência de juízo de valor. Ao invés de dizer &#8220;Esta é a estrada correta para Granchester&#8221;, eu poderia perfeitamente dizer &#8220;Esta é a estrada correta que deves tomar se queres chegar a Granchester no menor tempo possível&#8221;. &#8220;Este homem é um bom corredor&#8221; significa simplesmente que corre um certo número de quilômetros num certo número de minutos etc.</p>
<p>O que agora desejo sustentar é que, apesar de que se possa mostrar que todos os juízos de valor relativos são meros enunciados de fatos, nenhum enunciado de fato pode ser nem implicar um juízo de valor absoluto.</p>
<p>Permitam-me explicar: suponham que alguém de vocês fosse uma pessoa onisciente e, por conseguinte, conhecesse todos os movimentos de todos os corpos animados ou inanimados do mundo e conhecesse também os estados mentais de todos os seres que tenham vivido. Suponham, além disso, que este homem escrevesse tudo o que sabe num grande livro. Então tal livro conteria a descrição total do mundo. O que quero dizer é que este livro não incluiria nada do que pudéssemos chamar juízo ético nem nada que pudesse implicar logicamente tal juízo. Conteria, certamente, todos os juízos de valor relativo e todas as proposições científicas verdadeiras que se pode formar. Mas, tanto todos os fatos descritos como todas as proposições estariam, digamos, no mesmo nível. Não há proposições que, em qualquer sentido absoluto, sejam sublimes, importantes ou triviais.</p>
<p>Talvez agora alguém de vocês esteja de acordo e invoque as palavras de Hamlet: &#8220;Nada é bom ou mau, mas é o pensamento que o faz assim.&#8221; Mas isto poderia levar novamente a um mal-entendido. O que Hamlet diz parece implicar que o bom ou o mau, embora não sejam qualidades do mundo externo a nós, são atributos de nossos estados mentais. Mas o que quero dizer é que um estado mental entendido como um fato descritível não é bom ou mau no sentido ético. Por exemplo, em nosso livro do mundo lemos a descrição de um assassinato com todos os detalhes físicos e psicológicos e a mera descrição nada conterá que possamos chamar uma proposição ética. O assassinato estará exatamente no mesmo nível que qualquer outro acontecimento como, por exemplo, a queda de uma pedra. Certamente, a leitura desta descrição pode causar-nos dor ou raiva ou qualquer outra emoção ou poderíamos ler acerca da dor ou da raiva que este assassinato suscitou em outras pessoas que tiveram conhecimento dele, mas seriam simplesmente fatos, fatos e fatos e não Ética.</p>
<p>Devo dizer agora que, se considerasse o que a Ética deveria ser realmente &#8211; se existisse uma tal ciência -, este resultado parece-me bastante óbvio. Parece-me evidente que nada do que somos capazes de pensar ou de dizer pode constituir-se o objeto. Que não podemos escrever um livro científico cujo tema venha a ser intrinsecamente sublime e superior a todos os demais. Somente posso descrever meu sentimento a este respeito mediante a seguinte metáfora: se um homem pudesse escrever um livro de Ética que realmente fosse um livro de Ética, este livro destruiria, com uma explosão, todos os demais livros do mundo. Nossas palavras, usadas tal como o fazemos na ciência, são recipientes capazes somente de conter e transmitir significado e sentido naturais. A Ética, se ela é algo, é sobrenatural e nossas palavras somente expressam fatos, do mesmo modo que uma taça de chá somente pode conter um volume determinado de água, por mais que se despeje um litro nela.</p>
<p>Disse que com relação a fatos e proposições há somente valor relativo e acerto e bem relativos. Permitam-me, antes de prosseguir, ilustrar isto com um exemplo ainda mais óbvio. A estrada correta é aquela que conduz a um fim predeterminado arbitrariamente e a todos nós parece totalmente claro que não há sentido em falar da estrada correta independentemente de tal alvo predeterminado. Vejamos agora o que possivelmente queremos dizer com a expressão &#8220;a estrada absolutamente correta&#8221;. Creio que seria aquela que, ao vê-la, todo o mundo deveria tomar com necessidade lógica ou envergonhar-se de não fazê-lo. Do mesmo modo, o bom absoluto, se é um estado de coisas descritível, seria aquele que todo o mundo, independentemente de seus gostos e inclinações, realizaria necessariamente ou se sentiria culpado de não fazê-lo. Quero dizer que tal estado de coisas é uma quimera. Nenhum estado de coisas tem, em si, o que gostaria de denominar o poder coercitivo de um juiz absoluto.</p>
<p>Então, o que temos em mente e o que tentamos expressar quando sentimos a tentação de usar expressões como &#8220;bom absoluto&#8221;, &#8220;valor absoluto&#8221; etc.? Sempre que tento esclarecer isto para mim é natural que recorra a casos nos quais, sem dúvida, usaria tais expressões, de modo que me encontro na mesma situação que vocês estariam se, por exemplo, eu desse uma conferência sobre a psicologia do prazer. Neste caso, o que vocês fariam seria tentar invocar algumas situações típicas nas quais sempre sentiram prazer, pois com esta situação na mente, chegaria a se tornar concreto e, por assim dizer, controlável, tudo o que eu pudesse dizer a vocês. Alguém poderia escolher como um exemplo típico a sensação de passear num dia ensolarado de verão. Quando trato de concentrar-me no que entendo por valor absoluto ou ético, encontro-me numa situação semelhante.</p>
<p>Em meu caso, ocorre-me sempre que a idéia de uma particular experiência se apresenta como se fosse, em certo sentido, e de fato é, minha experiência par excellence e por esta razão, ao dirigir-me agora a vocês, usarei esta experiência como meu primeiro e principal exemplo (como já disse, isto é uma questão totalmente pessoal e outros poderiam dar outros exemplos mais chamativos). Na medida do possível, vou descrever esta experiência de maneira que faça vocês invocarem experiências idênticas ou similares a fim de poder dispor de uma base comum para nossa investigação.</p>
<p>Creio que a melhor forma de descrevê-la é dizer que, quando eu a tenho, assombro-me ante a existência do mundo. Sinto-me então inclinado a usar frases tais como &#8220;Que extraordinário que as coisas existam&#8221; ou &#8220;Que extraordinário que o mundo exista&#8221;.</p>
<p>Mencionarei, em continuação, outra experiência que conheço e que a alguns de vocês parecerá familiar: trata-se do que poderíamos chamar a experiência de sentir-se absolutamente seguro. Refiro-me a aquele estado anímico em que nos sentimos inclinados a dizer: &#8220;Aconteça o que acontecer, estou seguro, nada pode prejudicar-me&#8221;.</p>
<p>Permitam-me agora considerar estas experiências visto que, segundo creio, mostram as verdadeiras características que tentamos esclarecer. E aqui está o que primeiro tenho a dizer: a expressão verbal que damos a estas experiências carece de sentido.</p>
<p>Se afirmo &#8220;Assombro-me ante a existência do mundo&#8221;, estou usando mal a linguagem. Deixem-me explicar isso. Tem perfeito e claro sentido dizer que me assombra que algo seja como é. Todos entendemos o que significa que me assombre o tamanho de um cachorro que é maior do que qualquer outro visto antes ou de qualquer coisa que, no sentido ordinário do termo, seja extraordinária. Em todos os casos deste tipo, assombro-me de que algo seja como é, quando eu poderia conceber que não fosse assim. Assombro-me do tamanho deste cachorro porque poderia conceber um cachorro de outro tamanho, isto é, de tamanho normal, do qual não me assombraria. Dizer &#8220;Assombro-me de que tal ou tal coisa seja como é&#8221; somente tem sentido se posso imaginá-la não sendo como é. Assim, alguém pode assombrar-se, por exemplo, da existência de uma casa quando a vê depois de muito tempo que não a via e tinha imaginado que ela tinha sido demolida neste intervalo. Mas carece de sentido dizer que me assombro da existência do mundo porque não posso imaginá-lo como não existindo.</p>
<p>Certamente, poderia assombrar-me de que o mundo que me rodeia seja como é. Se, por exemplo, enquanto olho o céu azul eu tivesse esta experiência, poderia assombrar-me de que o céu seja azul em oposição ao caso de estar nublado. Mas não é isto que quero dizer. Assombro-me do céu seja lá o que ele for. Poderíamos nos sentir inclinados a dizer que estou me assombrando de uma tautologia, isto é, de que o céu seja ou não azul. Mas precisamente não tem sentido afirmar que alguém está se assombrando de uma tautologia.</p>
<p>Isto pode aplicar-se à outra experiência mencionada: a experiência da segurança absoluta. Todos sabemos o que significa na vida cotidiana estar seguro. Sinto-me seguro em minha sala, já que não pode atropelar-me um ônibus. Sinto-me seguro se já tive a coqueluche e, portanto, já não poderei tê-la novamente. Sentir-se seguro significa, essencialmente, que é fisicamente impossível que certas coisas possam ocorrer-me e, por conseguinte, carece de sentido dizer que me sinto seguro aconteça o que acontecer. Mais uma vez, trata-se de um mau uso da palavra &#8220;seguro&#8221;, do mesmo modo que o outro exemplo era um mau uso da palavra &#8220;existência&#8221; ou &#8220;assombrar-se&#8221;.</p>
<p>Quero agora convencer vocês que um característico mau uso de nossa linguagem subjaz a todas as expressões éticas e religiosas. Todas elas parecem, prima facie, ser somente símiles. Assim, parece que quando usamos, em sentido ético, a palavra correto, embora o que queremos dizer não seja correto no seu sentido trivial, é algo similar. Quando dizemos: &#8220;É uma boa pessoa&#8221;, embora a palavra boa aqui não signifique o mesmo que na frase &#8220;Este é um bom jogador de futebol&#8221; parece haver alguma similaridade. E quando dizemos &#8220;A vida deste homem era valiosa&#8221;, não o entendemos no mesmo sentido que se falássemos de alguma jóia valiosa, mas parece haver algum tipo de analogia.</p>
<p>Deste modo, todos os termos religiosos parecem ser usados como símiles ou alegorias. Quando falamos de Deus e de que ele tudo vê e quando nos ajoelhamos e oramos, todos os nossos termos e ações parecem ser partes de uma grande e completa alegoria que o representa como um ser humano de enorme poder cuja graça tentamos cativar etc., etc..</p>
<p>Mas esta alegoria descreve também a experiência que acabo de aludir. Porque a primeira delas é, segundo creio, exatamente aquilo a que as pessoas se referem quando dizem que Deus criou o mundo; e a experiência da segurança absoluta tem sido descrita dizendo que nos sentimos seguros nas mãos de Deus. Uma terceira vivência deste tipo é a de sentir-se culpado e pode ser descrita também pela frase: Deus condena nossa conduta.</p>
<p>Desta forma parece que, na linguagem ética e religiosa, constantemente usamos símiles. Mas um símile deve ser símile de algo. E se posso descrever um fato mediante um símile, devo também ser capaz de abandoná-lo e descrever os fatos sem sua ajuda. Em nosso caso, logo que tentamos deixar de lado o símile e enunciar diretamente os fatos que estão atrás dele, deparamo-nos com a ausência de tais fatos. Assim, aquilo que, num primeiro momento, pareceu ser um símile, manifesta-se agora como um mero sem sentido.</p>
<p>Talvez para aquele que &#8211; como eu, por exemplo &#8211; viveu as três experiências que mencionei (e podia acrescentar outras) elas parecem ter, em algum sentido, valor intrínseco e absoluto. Mas, desde o momento em que digo que são experiências, certamente, são também fatos: aconteceram num lugar e duraram certo tempo e, por conseguinte, são descritíveis. Em continuação ao que disse há poucos minutos, devo admitir que carece de sentido afirmar que têm valor absoluto. Precisarei minha argumentação dizendo: &#8220;é um paradoxo que uma experiência, um fato, pareça ter valor sobrenatural.&#8221;</p>
<p>Há uma via pela qual sinto-me tentado a solucionar este paradoxo. Permitam-me considerar, novamente, nossa primeira experiência de assombro diante da existência do mundo descrevendo-a de forma ligeiramente diferente. Todos sabemos o que na vida cotidiana poderia denominar-se um milagre. Obviamente é, simplesmente, um acontecimento de tal natureza que nunca tínhamos visto nada parecido com ele. Suponham que este acontecimento ocorreu. Pensem no caso de que em alguém de vocês cresça uma cabeça de leão e comece a rugir. Certamente isto seria uma das coisas mais extraordinárias que sou capaz de imaginar. Tão logo nos tivéssemos recomposto da surpresa, o que eu sugeriria seria buscar um médico e investigar cientificamente o caso e, se não pelo fato de que isto causaria sofrimento, mandaria fazer uma dissecação. Aonde estaria então o milagre? Está claro que, no momento em que olhamos as coisas assim, todo o milagroso haveria desaparecido; a menos que entendamos por este termo simplesmente um fato que ainda não tenha sido explicado pela ciência, coisa que significa por sua vez que não temos conseguido agrupar este fato junto com outros num sistema científico. Isto mostra que é absurdo dizer que &#8220;a ciência provou que não há milagres&#8221;. A verdade é que o modo científico de ver um fato não é vê-lo como um milagre. Vocês podem imaginar o fato que puderem e isto não será em si milagroso no sentido absoluto do termo. Agora nos damos conta de que temos utilizado a palavra &#8220;milagre&#8221; tanto num sentido absoluto como num relativo.</p>
<p>Agora, vou descrever a experiência de assombro diante da existência do mundo dizendo: é a experiência de ver o mundo como um milagre. Sinto-me inclinado a dizer que a expressão lingüística correta do milagre da existência do mundo &#8211; apesar de não ser uma proposição na linguagem &#8211; é a existência da própria linguagem. Mas, então, o que significa ter consciência deste milagre em certos momentos e não em outros? Tudo o que disse ao transladar a expressão do milagroso de uma expressão por meio da linguagem à expressão pela existência da linguagem é, mais uma vez, que não podemos expressar o que queremos expressar e que tudo o que dizemos sobre o absolutamente milagroso continua carecendo de sentido.</p>
<p>Para muitos de vocês a resposta parecerá clara: bom, se certas experiências nos levam constantemente a atribuir-lhes uma qualidade que chamamos valor absoluto ou ético e importante, isto somente mostra que ao que nos referimos com tais palavras não é um sem sentido, que depois de tudo, o que significamos ao dizer que uma experiência tem valor absoluto é simplesmente um fato como qualquer outro e tudo se reduz a isto e que ainda não encontramos a análise lógica correta daquilo que queremos dizer com nossas expressões éticas e religiosas. Sempre que me salta isto aos olhos, de repente vejo com clareza, como se se tratasse de um lampejo, não somente que nenhuma descrição que possa imaginar seria apta para descrever o que entendo por valor absoluto, mas que rechaçaria ab initio qualquer descrição significativa que alguém pudesse possivelmente sugerir em razão de sua significação.</p>
<p>Em outras palavras, vejo agora que estas expressões carentes de sentido não careciam de sentido por não ter ainda encontrado as expressões corretas, mas sua falta de sentido constituía sua própria essência. Isto porque a única coisa que eu pretendia com elas era, precisamente, ir além do mundo, o que é o mesmo que ir além da linguagem significativa. Toda minha tendência &#8211; e creio que a de todos aqueles que tentaram alguma vez escrever ou falar de Ética ou Religião &#8211; é correr contra os limites da linguagem. Esta corrida contra as paredes de nossa jaula é perfeita e absolutamente desesperançada. A Ética, na medida em que brota do desejo de dizer algo sobre o sentido último da vida, sobre o absolutamente bom, o absolutamente valioso, não pode ser uma ciência. O que ela diz nada acrescenta, em nenhum sentido, ao nosso conhecimento, mas é um testemunho de uma tendência do espírito humano que eu pessoalmente não posso senão respeitar profundamente e que por nada neste mundo ridicularizaria.</p>
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		<title>Uma revolução de fato</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Feb 2010 15:45:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Túlio Costa</dc:creator>
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Costa proferiu a palestra &#8220;Uma revolução de fato&#8221; no auditório da Fundação Cesp, em São Paulo.
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Caio Túlio Costa abriu nesta quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010, o programa anual de debates &#8220;Diálogos MVL&#8221;, promovido pela agência de comunicação <a href="http://www.mvl.com.br/" target="_blank">MVL</a>, de São Paulo.</p>
<p>Costa proferiu a palestra &#8220;Uma revolução de fato&#8221; no auditório da <a href="http://www.prevcesp.com.br/wps/portal" target="_blank">Fundação Cesp</a>, em São Paulo.</p>
<p>Teve como platéia e dialogantes o público da área de comunicação de empresas da Cesp, da própria MVL e clientes da MVL.</p>
<p>Costa mostrou como as mudanças nas comunicações estão se dando de uma forma estrutural e significam uma verdadeira revolução nos hábitos das pessoas e na maneira tradicional de se fazer comunicação.</p>
<p>Numa abrangente exposição sobre essa nova realidade, demonstrou que tanto os indivíduos quanto as instituições e empresas agora têm um inegável &#8220;poder de mídia&#8221;.</p>
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