No vácuo da ética
Publicado da revista Fapesp – Edição impressa (e web) número 160 – Junho de 2009
Tese de doutorado de Caio Túlio Costa oferece mais perguntas do que respostas
Sylvia Moretzsohn
As múltiplas possibilidades de veiculação de informações através da internet, disponíveis (em tese) a qualquer pessoa, são uma grande e dramática novidade para a questão da ética no mundo contemporâneo e, em especial, para os preceitos que tradicionalmente orientam o exercício do jornalismo. A partir desta hipótese central, Ética, jornalismo e nova mídia – Uma moral provisória aborda o tema da maneira mais estimulante: oferecendo mais perguntas que respostas.
O problema está na fundamentação da análise que sustenta as perguntas.
Neste livro, resultado de sua tese de doutorado, Caio Túlio Costa foge a qualquer pretensão normativa sobre o jornalismo, mas declara um propósito, a rigor, mais ambicioso, apesar do advérbio: “Aqui se pretende apenas analisar como essa forma de comunicação se deu e se dá – e analisá-la do ponto de vista do que o homem entende por ética”. Coerentemente, opta por um universo alargado para tal discussão, apresentando um vasto elenco de obras clássicas que tratam do ser e do teatro do mundo. O caminho poderia ser profícuo, porém acaba conduzindo a longas digressões que fazem perder de vista o tema central. A tentativa de contornar esse problema, através de analogias com o jornalismo, resulta em soluções geralmente forçadas ou superficiais.
De fato, Caio esbanja erudição, mas descura do principal, porque ignora a produção teórica em jornalismo que lhe poderia fornecer substanciais elementos de crítica. O problema começa com a própria definição de jornalismo: um “ofício que representa representações”, algo que evidentemente se aplicaria antes de mais nada à arte e que poderia perfeitamente ser estendido para o restante das atividades humanas, caso houvesse consenso em relação ao conceito do mundo como “representação”. Uma definição de tal modo genérica é insuficiente para dar conta do objeto específico.
Da mesma forma, conclui que o jornalismo não é uma forma de conhecimento, sem discutir em momento algum esta hipótese, que sustenta acuradas abordagens de distintas linhas teóricas desde os anos 40 do século passado.
Além disso, embora reconheça que a objetividade implica uma discussão fundamentalmente ética para o jornalismo, dedica a ela apenas 20 páginas de seu livro – o menor capítulo, depois daquele que encerra o volume – e descarta liminarmente as análises que procuram circunscrever o significado deste conceito ao campo específico e afirmam o compromisso do jornalismo com a verdade factual e a necessidade de partir de dados objetivos para informar com credibilidade, sem a qual esta atividade não teria sentido.
Como considera o jornalismo uma “representação de representações”, e como obviamente não poderia haver uma representação “consumadamente objetiva”, Caio conclui que a objetividade em jornalismo é impossível. E acrescenta: é esta conclusão que abre caminho para a discussão da ética. Segundo ele, “se a objetividade jornalística é possível, então não há dilema ético em jornalismo”.
Seria o caso de indagar se a ciência não se depara com problemas éticos.
A resposta óbvia aponta para o cerne do equívoco de uma argumentação que toma os conceitos de forma estanque e absoluta: onde há objetividade não pode haver interpretação; em contrapartida, toda interpretação é possível, de modo que não pode haver certezas. Esta dicotomia fica ainda mais clara na abordagem sobre a ética de responsabilidade de Weber, que absolutamente não autoriza – como quer o autor – a conclusão de que “os fins justificam os meios – quaisquer meios”: a ética de responsabilidade é inescapável à vida cotidiana, pois exige a avaliação das circunstâncias para uma ação adequada.
É por não adotar uma perspectiva dialética que o autor enxerga um abismo entre o ideal (normativo) e a prática cotidiana (funcional) e sugere que o jornalismo trabalha “no vácuo da ética”. Daí decorreria a “moral provisória”, que, a rigor, seria capaz de justificar o que quer que seja. Pois “o dia a dia do jornalismo exige distorções, seja por interesses empresariais, políticos ou particulares (…). Não há conceito moral, dos sólidos, que resista a essas necessidades”. Conceito “sólido” é equiparado a eterno, imutável e incapaz de objetivar-se na vida cotidiana, que assim não conheceria limites para distorções.
Distorções, porém, inevitavelmente se referem a algum conceito. Entretanto, ao buscar as raízes do pensamento pós-moderno para concluir que “tudo é relativo”, Caio, além de desconsiderar a crítica a essas teorizações, acaba prisioneiro do paradoxo: se tudo é relativo – menos, naturalmente, a própria afirmação que justificaria a frase – como discutir ética, se não há parâmetros em que se basear?
Sylvia Moretzsohn é professora de jornalismo no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Enviado por: Caio Túlio Costa - Categoria(s): Blog, Entrevistas Tags relacionadas: caio túlio, ética, jornalismo, moral provisória, moretzsohn, objetividade, vácuo da ética

O que posso dizer em relação às observações da professora Moretzsohn?
No puxão de orelha, a professora me recrimina, com razão, pela falta de bibliografia referente a algumas das linhas teóricas da comunicação. Eu teria deixado de lado a “produção teórica em jornalismo” que poderia “fornecer substanciais elementos de crítica”. Concordo com a primeira assertiva e discordo da segunda. Uso Barros Filho, Blázquez, Bucci, Brigs & Burke, Castells, Gauthier, Glasser & Ettema, Hohlfeldt, Jenkins, Kovach & Rosenstiel, Lichtenberg, Manovich, Marcondes Filho, Mattelart, Meyer, McDonald, Merrill, Real, Rivers & Mathews, Sainz, Sponholz, Starr, Stensaas, Thompson, Wolton, Debord e os teóricos da escola de Frankfurt. Com alguns eu concordo e, de outros, discordo. Escolhi-os pela força das idéias e dos contrapontos. Ajudaram-me a construir e a desconstruir argumentos. Sim, existem outros autores e outras linhas teóricas, mas optei conscientemente pelos que usei. Precisava escolher.
Sobre o jornalismo enquanto representação da representação (idéia defendida no primeiro capítulo, também objeto de artigo publicado na edição de junho da revista Líbero), se houvesse consenso sobre um conceito como o da representação, eu não precisaria tentar analisá-lo e propô-lo da forma que propus para o entendimento do fazer jornalístico. Sim, pode-se considerar o conceito genérico – mas nem por isso ele deixa de dar conta do objeto específico.
Suspeito que o problema, no fundo, está no fato de que muitos, como a professora Moretzsohn, não concordam que o jornalismo seja um ofício, consideram-no uma forma de conhecimento e não vislumbram a possibilidade da questão da representação multiplicar a “verdade factual” – porque haveria uma verdade factual estacionada em algum lugar. Então, qual a verdade factual do acidente da Air France? A versão das autoridades brasileiras? A versão das autoridades francesas? A versão dos boletins online emitidos em quatro minutos e registrados na sede da empresa? A interpretação destes boletins feita pelo fabricante do avião? A interpretação destes boletins feita pelo especialista em aviação? A versão da caixa preta? A versão da companhia aérea? A versão dos familiares das vítimas? A versão dos advogados? A versão da justiça? A versão do cartório que quer um atestado de óbito de um corpo não encontrado? As versões podem e em geral são controversas. Se não há controvérsia, só há uma única versão. A verdade factual do acidente da Air France, então, estaria onde? Na controvérsia, sem dúvida.
No fundo, há uma multiplicidade de representações e são elas que aparecem nos órgãos de comunicação, sempre mediadas pelo jornalista. Assim, pode-se dizer que há várias “verdades factuais”, as quais podem ser contraditórias. E o jornalismo pretende dar conta destas representações e destas contradições. O problema, que subjaz à questão ética, é que o jornalismo se apresenta como “a” representação. Por isso, a questão ética é fundamental, pois, repito, é parte de todas essas representações. Cada versão traz sua verdade e ainda é resultado das escolhas de quem as representa primordialmente (as diferentes fontes) baseadas ou não em decisões de fundo moral.
As observações da professora Moretzshon se dirigem em especial ao capítulo sobre a objetividade. Não considero o fato de ele ter “apenas” 20 páginas e ser “o menor capítulo” (há dois capítulos menores e mais dois um tiquinho maiores) um desmerecimento. Se ele fosse mais longo seria melhor, mais importante? O problema está em acreditar na objetividade, em ter fé naquilo que a indústria do jornalismo diz praticar e que não passa de um ideal, uma norma, algo teórico, sem correspondência com o dia-a-dia da profissão, sem conseqüência na prática. É o que analiso no livro. Tento mostrar o quanto a objetividade não serve como conceito balizador da profissão.
Ainda quanto à objetividade é evidente que a ciência (cujo objeto é outro quando comparada ao jornalismo) se depara com problemas éticos. Ponto para a professora Moretzsohn. Ela me pegou numa armadilha lingüística. Mas posso sustentar a imagem lógica segundo a qual se o jornalismo fosse objetivo então não teríamos problemas éticos.
Adiante. Sou acusado de não adotar uma “perspectiva dialética”. Digamos que não, apesar de eu não ter entendido o que seria uma perspectiva dialética. Neste caso, no entanto, quem não adotaria essa perspectiva seria o Dominique Wolton, que é em quem me baseio na questão do abismo entre o normativo e o funcional nas comunicações.
Sobre o paradoxo ao qual eu estou preso, recomendo a (re)leitura do capítulo sobre a linguagem. Ele trata dos problemas da linguagem. Ali se apresenta inclusive o paradoxo do mentiroso, um jogo de palavras que ilumina os problemas da linguagem, a matéria-prima do ofício. Temos, sim, na crítica da professora Moretzsohn um interessante jogo de palavras para discutir objetividade, verdade factual, ofício e conhecimento. Contudo, não temos nesta crítica uma única palavra sobre a moral provisória – mais um conceito trazido pelo livro que pretende contribuir para se entender mais profundamente o “ser” do jornalista.
Caio Túlio Costa
Caro Caio,
Na edição de 16 de junho do Observatório, publiquei uma versão ampliada dessa resenha: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=542AZL001. Ali, com mais espaço, pude tratar de outros aspectos do seu livro e explicitar melhor a crítica ao seu conceito de “moral provisória”, apenas mencionado na resenha original. Basicamente, questiono a propriedade de se generalizar, para a vida prática, um conceito associado a um episódio da vida particular de um filósofo (no caso, Sartre). Mas, principalmente, questiono a sua interpretação da ética de responsabilidade de Weber, à qual você associa a “moral provisória”, pois não se pode absolutamente dizer que “os fins justificam os meios – quaisquer meios”. Pelo contrário, como é inescapável à vida cotidiana, a ética de responsabilidade impõe uma permanente discussão sobre os limites a serem obedecidos, de acordo com as circunstâncias.
Certamente discordo da sua abordagem e das suas opções teóricas, mas procurei criticar o seu livro a partir dos seus próprios argumentos. Não creio, por exemplo, que seja possível descartar a hipótese do jornalismo como forma de conhecimento sem sequer apreciá-la e sem recorrer a pelo menos dois autores fundamentais que a exploraram, em distintas linhas teóricas: Robert Park e Adelmo Genro Filho. Tampouco vejo qualquer contradição entre o jornalismo como forma de conhecimento e como ofício, pois é através desta prática profissional que este conhecimento específico se produz.
Quanto à verdade factual estar na controvérsia, eu poderia dizer que, bem… há controvérsias… mas seria apenas um gracejo. De fato, todo processo de apuração lida com muitas controvérsias, porém se desenvolve no sentido de esclarecê-las. Assim, tomando o seu exemplo do acidente com o avião da Air France, seria preciso inicialmente dizer que a primeira providência de um jornalista é selecionar adequadamente as fontes, o que é algo bem objetivo: definir quem está habilitado a esclarecer o que ocorreu. Por isso, parte daquela sua enxurrada de perguntas não procede: duvido muito que, como editor, você publicasse alguma matéria sobre os palpites dos parentes das vítimas, ou de seus advogados, sobre os motivos da tragédia. Outras perguntas são parte do caminho da apuração. E a verdade, nesse exemplo específico, está estacionada num local preciso, mas ainda não identificado: no fundo do oceano. E talvez jamais venha à tona: caso não se encontre a caixa preta, dificilmente ficaremos sabendo o que de fato causou o acidente. São os limites e os riscos inevitáveis a qualquer trabalho investigativo, que nem por isso perde o seu sentido de objetividade.
A enxurrada de perguntas suscita ainda uma questão importante: tudo o que se tem a fazer é ouvir as fontes e lavar as mãos? Refém da pluralidade de versões, o jornalista apenas fará o jogo das fontes. É a isto que se reduz o seu ofício?
Penso que não, e, bem a propósito, o artigo desta quarta-feira (24 de junho) de Fernando Rodrigues, na Folha, é bem ilustrativo ao denunciar os “argumentos invertebrados” do presidente da Câmara, em sua manobra para evitar a investigação das denúncias das ilegalidades correntes: desmonta, assim, a versão do deputado, demonstra que sua versão não carrega uma verdade, mas uma mentira. Desfaz a controvérsia.
Poderia citar inúmeros exemplos. Fico com um: a doença de Tancredo Neves, objeto de muitas controvérsias, até a confirmação de que o presidente tinha um tumor, e não diverticulite. Você há de recordar que a Folha teve papel decisivo nesse esclarecimento.
Não são armadilhas linguísticas: quando descemos ao mundo real podemos desfazer as ilusões e a perplexidade a que o relativismo filosófico nos conduz.
Continuo a pensar que a questão da objetividade, tão importante para a filosofia, a ciência e o jornalismo, mereceria espaço bem mais generoso, e não por uma questão formal de número de páginas, mas porque se trata de um tema central e… controverso. A defesa da objetividade não é uma questão de fé: resulta do entendimento de que o objeto precede o sujeito, de que o sujeito reage ao mundo objetivo. Mas, especialmente no caso do jornalismo, é preciso esclarecer do que estamos falando quando falamos de objetividade. Defendê-la não é adotar o ponto de vista dos executivos das empresas de comunicação e seus subordinados imediatos que não se cansam de repetir a velha teoria do espelho e o velho argumento de que o jornalista “apenas relata fatos”. Esta concepção é evidentemente mistificadora e é preciso denunciá-la com vigor – como, aliás, já foi feito em algumas pesquisas e ensaios acadêmicos. Mas, é claro, trata-se de “uma” concepção, certamente dominante no meio profissional, mas que não pode, só por isso, ser considerada a única. E é claro que se pode demonstrar, como fizeram tantos autores – e eu mesma procurei fazer, nessas resenhas e em outros trabalhos –, que sem a objetividade o jornalismo não seria possível.
Não significa dizer que, ao asseverar, o jornalismo produza um único sentido para a informação: o discurso jornalístico baseia-se em fatos verificáveis empiricamente mas se realiza na sua relação com o público, que interpretará a informação de maneira diversa. Porém, tampouco será possível afirmar que qualquer interpretação seja válida. Por exemplo: depois da reportagem deste domingo do Estadão, já não pode haver (se é que havia)controvérsia sobre o que ocorreu no Araguaia. Sempre haverá interpretações conflitantes, sempre haverá quem diga que estávamos em guerra e defenda o enfrentamento da guerrilha em nome do combate ao comunismo e da defesa da pátria. Mas é impossível, eticamente, interpretar como válida a execução de quem já estava rendido. Da mesma forma como, eticamente, é impossível defender a tortura. Há quem a defenda – há quem a pratique –, mas é algo que não se pode tolerar.
Penso ter deixado claro o que queria dizer com “perspectiva dialética”: que a objetividade não é um valor “em si” nem estanque, mas que existe em sua relação com a subjetividade; que a ética de convicção se relaciona com a ética de responsabilidade, fornecendo-lhe os parâmetros para o estabelecimento de limites às ações da vida prática. Porém, não compreendo por que eu deveria dirigir a minha crítica à ausência dessa perspectiva (na relação entre o normativo e o funcional) ao Wolton: certamente você se baseia nele, mas concorda com ele. O livro é obra sua. É esta obra que cabe apreciar.
Finalmente, agradeço pela oportunidade desse diálogo.
Cara Silvya,
Obrigado, mais uma vez, por investir tempo nessa discussão. As coisas ficaram mais claras. A resenha expandida e a resposta aos meus comentários permitem mais algumas constatações. Serei breve.
Tudo o que eu não quero é dar receita de como deve ser o jornalismo. Estou preocupado em entender como e por que ele é praticado da maneira que é, independentemente de todas as teorias que tentam desenhá-lo e criar padrões para ele – como você tenta. Tudo bem. Mas meu intuito é outro, compreendê-lo ontologicamente.
A historinha de Sartre foi usada porque é reveladora, porque é uma boa metáfora. Ela conversa (quase escrevi que conversa dialeticamente…) com a ética da responsabilidade e com a ética da convicção, de Weber. Ao tratá-la com desdém, você fez uma confusão danada. Leve-a a sério porque ela desnuda procedimento comum neste ofício.
Sobre Weber, você leu errado. Não defendo que fins justifiquem meios. Eu digo e reafirmo que isso acontece no jornalismo. Digo e repito no livro que a indústria do jornalismo professa uma teoria e a tritura na prática. Mostro que os jornalistas “compraram” a falácia e a repetem como papagaios – e ainda têm uma mãozinha de muitos acadêmicos que a ilustram de uma forma mais sofisticada. O livro veio para dizer o quanto o jornalismo professa uma coisa e faz outra. Não tem outra pretensão.
A metáfora de Hamlet, que você considera forçada ou superficial, evoca exatamente – pré-Weber – o quanto a modernidade já carregava consigo, na prática, a possibilidade de usar situações “podres” (eis aí o Sartre) para atingir determinados fins. Hamlet é um dos príncipes de Maquiavel.
Sim, no jornalismo, vou repetir, os fins justificam os meios – quaisquer meios. Sem generalizar, mas quase generalizando, em grande parte das vezes, para conseguir entrevistar alguém arredio, o jornalista mente. Para entrar em lugar fechado à imprensa, ele se disfarça. Para denunciar uma falcatrua, ele grampeia (ou usa grampo alheio). Para dar publicidade a uma cena picante, reveladora, sensacional, ele usa câmera escondida. Para dar um furo, ele deixa para ouvir o outro lado depois, quando ouve. Para sair na frente, ele acredita em informação de autoridade sem conferi-la. Para não perder a notícia, ele trai a fonte ou deixa-se cavalgar por ela. Esses procedimentos são corriqueiros no jornalismo de baixa e de boa qualidade – e o livro mostra isso.
Também não existe um estado de graça “objetivo” no qual todas as controvérsias se resolvem. Para você, “o objeto precede o sujeito”. Isso é metafísica. Também o “discurso jornalístico” não se baseia cem por cento “em fatos verificáveis empiricamente”, apesar de se realizar na sua relação com o público. Existem diferentes possibilidades de representação na formatação lingüística dos fatos quando eles são tratados pelo discurso jornalístico – sempre baseado em representações. Não há revelação jornalística que seja, por si, dona de qualquer verdade única e indivisível, porque há diferentes verdades em jogo – verdades e mentiras como você mesma reconhece sem entender que reconheceu.
Para usar um exemplo seu, a verdade da guerrilha no Araguaia sempre será uma verdade em processo – era uma na ditadura, foi outra até aqui, poderá se revelar diferente a partir de agora com a representação que o major Curió fez e o jornalista representou em seu texto publicado por O Estado em 21 de junho de 2009. É uma verdade segundo o Exército, é outra conforme o Curió, será outra na visão dos parentes dos guerrilheiros e ainda será diferente de acordo com os familiares dos líderes do PCdoB que abandonaram o local. E por aí vai. Prevalecerá uma delas? Não sei. Mas sei da importância que o jornalismo, construtor de representações, tem na sua relação com o leitor – e essa relação pode conter procedimentos absolutamente antiéticos na conquista de informações, na conquista de diferentes verdades. E o leitor talvez jamais saberá disso.
Você pergunta: “Refém da pluralidade de versões, o jornalista apenas fará o jogo das fontes. É a isto que se reduz o seu ofício?”. É. Muitas vezes. Mais do que você, metafisicamente, imagina. De novo: Eu não pretendi ensinar como deve ser idealmente o ofício, mas sim como ele tem sido praticado.
Caro Caio,
Eu entendi perfeitamente que seu objetivo não era normativo. Mas apontar o abismo entre a norma (ou a teoria) e a prática do jornalismo não é propriamente uma novidade, ou é? Por isso a minha crítica inicial sobre a bibliografia utilizada: não creio que seja possível ignorar a pesquisa já desenvolvida sobre esse tema, e que confronta os princípios clássicos do jornalismo às condições de produção do noticiário.
Penso também que a sua preocupação em não ditar regras (ou não reiterar as regras clássicas, que, tomadas em si mesmas, de fato viram apenas um discurso de boas intenções permanentemente contrariado) acaba levando à rejeição a qualquer regra, ou à consideração de que não há regra passível de ser praticada. Em suma, seria considerar uma oposição intransponível entre normatização e funcionalidade, entre teoria e prática, como se fossem mundos estanques. (Isto sim é metafísica…). E isto conduz a um resultado etica e praticamente importante: se não há regras, tudo é permitido, e só o que temos a fazer é nos conformar com isso; não podemos nem lamentar, porque não temos parâmetros para reclamar o respeito a qualquer princípio.
Eu não disse que você defende que todos os meios são válidos. Disse que é isto o que você conclui da ética de responsabilidade de Weber. E digo que é uma conclusão incorreta. Por que? Porque Weber mostra a relação entre as duas éticas. E é por isso que a discussão sobre ética é não só importante mas permanente: porque a vida cotidiana não pode obedecer a princípios rígidos, precisa adaptá-los, e estaremos sempre confrontados com a questão dos limites. É disso que se trata. Então, não há contradição, mas relação entre normatização e funcionalidade.
Como escrevi na resenha, é por enxergar essa contradição (insolúvel, ao que parece) que você insiste tanto nessa história de que o jornalista mente para obter informações. De fato mente, mas a questão, volto a dizer, é a dos limites: em que circunstâncias a mentira é aceitável? Não considerar isto é assumir o imperativo categórico que você mesmo critica ao tratar de Kant. Ou – de novo – é tomar a ética de convicção como antônimo da ética de responsabilidade.
Não tratei com desdém a historinha do Sartre. Disse apenas, ou sugeri, que não é correto adotar como princípio geral o que pode valer para a vida privada. Quer dizer: o sujeito pode ser um canalha nas suas relações pessoais (isso é problema de quem se relaciona com ele), mas profissionalmente assumir princípios éticos adequados, e contraditórios com a sua prática íntima. (Naturalmente não estou dizendo que Sartre era um canalha, nem faço considerações sobre se suas amantes sabiam do jogo e gostavam de participar dele. São, como disse, questões privadas).
Para concluir, retomando o exemplo do Araguaia: repito que as interpretações serão sempre variadas, mas nem toda interpretação será válida, justamente porque está obrigada a partir dos fatos objetivos. E não se poderá negar o fato concreto de que o Exército eliminou pessoas já rendidas e indefesas. Esta controvérsia, se havia, deixou de existir, e este esclarecimento é fundamental. Como foi fundamental esclarecer o atentado no Riocentro, ou a morte do Herzog: porque não se pode desconhecer, no primeiro caso, que o atentado foi praticado pelos próprios militares interessados no recrudescimento da linha dura e, no segundo, que se tratou de um assassinato durante uma sessão de tortura (ou de um “acidente de trabalho”, como gostam de dizer os que têm saudades daqueles tempos).
É por isso que a objetividade importa, e importa tanto para a ética. Porque uma coisa é constatar que o jornalista faz o jogo das fontes, outra é confrontar essa prática com os princípios que justificam o jornalismo e procurar modificá-la. Do contrário, no jornalismo e fora dele, resta-nos apenas nos conformarmos ao mundo “tal qual é”.
Mais uma vez agradeço pelo diálogo.
Abraço,
Sylvia
Cara Sylvia,
Tudo bem.
Grande abraço do
Caio Túlio